26 de jun de 2016

A propina e o voto

As delações premiadas da Lava Jato desnudam as engrenagens de caixa 2 nas campanhas eleitorais

Sérgio Machado
Machado, hábil em irrigar eleições
Renata Mello/Transpetro
Sérgio Machado, ex-senador do PSDB, por 12 anos presidente da Transpetro, tornou-se figura nacionalmente conhecida após ter pessoalmente grampeado políticos influentes “amigos” e, simultaneamente, revelado os mecanismos da corrupção existente na subsidiária da Petrobras.

Tenebrosas transações de empresários e políticos com diretores da maior estatal do País geram propina. Esta gera votos para os partidos e enriquece congressistas ambiciosos.

As dezenas de delações à Lava Jato, operação iniciada há mais de dois anos, embora impulsionada pela truculência e pela arbitrariedade, revelam que o juiz Sergio Moro e asseclas da Procuradoria e da Polícia Federal se alimentam do estimulante caixa 2.

É muito dinheiro, como se sabe agora. Daí talvez valha lembrar a sentença do Padre Vieira, mais sociólogo que sacerdote: “O dinheiro nem sempre passa da mão por onde passa”. Ou seja, nem sempre chega legalmente aos cofres dos partidos. Se não é “por dentro” é “por fora”, estipulou uma regra pétrea nos acordos entre doadores e receptores.

Há muito tempo a eleição no Brasil tornou-se uma competição mais econômica do que política. E por aí se desvirtuou. O candidato vai atrás do dinheiro para, depois, buscar o eleitor.

O tucano Arthur Virgílio corajosamente relevou: “Em 1986, fui obrigado a fazer caixa 2 na campanha para o governo do Amazonas (...) Vamos acabar com mocinhos pré-fabricados e bandidos preconcebidos (...) A maioria das campanhas tem caixa 2”.

Recentemente, Machado demarcou o que seria o começo de tudo: “Desde 1946”. Segundo ele, o “custo político” era, e ainda é, propiciado pelos empresários e “incluído no orçamento das obras”.

De lá para cá, o processo se alastrou. O povo arca com os custos.

Machado fala, e fala de cadeira, sobre a distribuição de propina entre os partidos políticos. Quem já conversou com o executivo, reconhece e identifica nele um homem simpático, inteligente, irônico. Dessa última virtude, aliás, ele tirou uma definição para a Petrobras: “É a madame mais honesta dos cabarés do Brasil”.

Machado aponta para o elenco das estatais, além da Petrobras, sugadas pelos vampiros da política: Departamento Nacional de Transportes, Docas, Banco do Nordeste, Fundação Nacional de Saúde, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. Não falou em Furnas. Talvez por mero esquecimento.

A data do começo dessa arruaça criminosa com o dinheiro público, apontada por Machado, é discutível. Há, porém, uma coincidência. Esse suposto ano, 1946, além de ser a data de aniversário de Machado, sucede o fim do Estado Novo. Haveria relação de causa e efeito?

Preso há mais de um ano pela Lava Jato, Marcelo Odebrecht, dono da empreiteira com seu sobrenome, em suposto arranjo para uma delação premiada, teria lançado uma óbvia e atenta afirmação: “Os repasses via caixa 2 são parte da cultura política do País e do sistema de financiamento a partidos”.

Movido pela pressão imposta pelas circunstâncias, o Supremo Tribunal Federal proibiu a doação de empresas para as campanhas eleitorais a partir de 2016. A regra começa a vigorar nas eleições municipais de outubro. É previsto um impacto nas campanhas. O caixa 2 será reinventado com o mundialmente conhecido jeitinho brasileiro. A diferença, no caso, ocorrerá no topo da pirâmide social.

Maurício Dias
No CartaCapital

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