8 de mai de 2016

Temer e as brigas no bloco do golpe

Michel Temer ainda nem tomou posse e já enfrenta brigas entre os aliados por espaços em seu virtual futuro governo. O tão criticado loteamento é fundamental para a formação de uma base, especialmente na Câmara, que aprove suas propostas. Mas frustrará a parte da opinião pública que apoiou o impeachment acreditando em mudança e as forças de mercado que cobram redução do Estado. Além disso, Temer enfrenta o problema da sucessão na presidência da Câmara. Para ganhar tempo e contornar a dor do parto, ele agora mudou o discurso. Já não fala como presidente de fato e definitivo mas lembra aos aliados que é interino e que o governo a ser montado agora será provisório.

O deputado Heráclito Fortes, um dos que mais trabalhou pelo impeachment, saiu de encontro com ele anunciando o novo discurso. “Temer está explicando a todos nós que nesta fase será presidente interino, substituindo Dilma durante o afastamento. Portanto, nesta fase vai chefiar um governo provisório”. Outros interlocutores de Temer dizem que ele está pedindo compreensão pois só mais adiante, se Dilma for condenada no final do julgamento, é que comporá um governo definitivo, contemplando todas as forças que apoiaram sua, na prática, eleição indireta.

Um integrante do atual governo, informado das brigas no que chama de “blocão do golpe”, comentou com o 247. “Temer está tendo que fazer o que qualquer presidente em nosso sistema é obrigado a fazer. Só que já está enfrentando mais dificuldades do que nós em outros momentos, pois tem mais partidos para atender e ainda promete reduzir o tamanho do governo. É o dilema de sempre, por isso nada será diferente”.

Há brigas entre as diferentes correntes que apoiaram o golpe em diversos estados. Uma das mais acirradas é a da Paraíba, onde o senador José Maranhão, do PMDB, está em guerra aberta com o tucano Cassio Cunha Lima e o ex-ministro Aguinaldo Ribeiro, do PP, que se preparam para dominar os cargos federais no estado. Em Pernambuco, a disputa é entre Mendonça Neto, do DEM, o grupo do PSB, os tucanos e os peemedebistas. Na Bahia, Geddel Vieira Lima quer ser o senhor do pedaço mas precisa compartilhar posições com o grupo do DEM, de ACM Neto. Situações parecidas se repetem no Rio, em Rondônia, no Amazonas, em Mato Grosso, no Rio Grande do Sul e daí para a frente. A consequência da briga entre senadores da base de Temer pode ser a mudança da posição de alguns, recuando do apoio ao impeachment no julgamento final pelo Senado. Por isso Temer agora coloca panos quentes dizendo que é interino e quando for presidente de fato acomodará todo mundo.

Diante da disputa, ele optou por entregar a Fazenda e anexos a Meirelles, para contentar o mercado, garantindo ao PMDB o controle do Orçamento, com Romero Jucá no Planejamento, e a coordenação geral do governo com Eliseu Padilha no Gabinete Civil. O resto é loteamento, com destaque para a possível entrega do poderoso MDIC para o PSDB. Tasso Jereissati levaria a pasta e o BNDES, com seu robusto caixa para financiar empresas.

Na Câmara, a encrenca é grande. Para ter na bancada do PMDB um líder que chame de seu, Temer está oferecendo a pasta de Esportes ao atual líder Leonardo Picciani, que votou contra o impeachment. Mas aí terá que haver uma nova eleição e a disputa entre os deputados sempre deixa sequelas.

Nada porém comparável ao problema da substituição de Eduardo Cunha na presidência da Câmara. Ele era uma chaga para a imagem do virtual futuro governo mas, enquanto recebesse proteção, garantiria votos. Agora Temer hesita entre se compor com o primeiro vice e presidente interino Waldir Maranhão — que já ameaçou dar seguimento ao processo de seu impeachment — ou apoiar a eleição de outro nome. Embora seus principais aliados na Câmara queiram puxar o tapete de Maranhão e viabilizar a eleição imediata de outro aliado, como Jovair Arantes ou Rogerio Rosso (relator e presidente da comissão de impeachment, respectivamente), o vice em exercício foi recebido no Jaburu. Uma nova eleição só seria possível, regimentalmente, em caso de renúncia, cassação ou morte de Cunha. Como ele não renuncia e a cassação vai demorar pelo menos 45 dias, eles preparam um golpe regimental. Uma decisão da Comissão de Constituição e Justiça autorizando a escolha de outro presidente. Isso sim, vai ser um pandemônio para Temer em seus primeiros dias no cargo.

Dilma é a prova viva do que acontece a governos que não conseguem ter na presidência da Câmara um leal aliado. Se Cunha não tivesse conquistado o cargo, empregando todos os recursos de seu “balcão de negócios”, para usar a expressão de Rodrigo Janot, não estaria vivendo o que vive agora.

Tereza Cruvinel
No Blog do Miro

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