8 de mai de 2016

O veneno neoliberal concentrado que vamos ter que engolir


É uma sorte histórica que tenhamos Henrique Meirelles e Armínio Fraga para tomarem conta da economia depois do golpe. Como mandam as leis dialéticas, é inevitável, para o progresso político, que os contrários se sucedam a fim de produzirem sínteses históricas progressivas. No nosso caso, depois de um período morno, conciliatório de classes, dos governos do PT tivemos o gosto amargo da radicalização neoliberal de Joaquim Levy e Nélson Barbosa. Foi um fracasso retumbante, mas não inteiramente compreendido pela sociedade. É preciso algo mais forte para se tornar convincente.

Agora teremos o veneno neoliberal concentrado. Meirelles e Armínio prometem um ataque frontal ao desequilíbrio orçamentário a fim de criarem mecanismos para a restauração da “confiança” do empresariado na economia assim como condições para a retomada do investimento e do crescimento. Há um problema com essa retórica. É pura ideologia. Uma baboseira que está liquidando as economias do sul da Europa. No mundo real, empresários só investem se há perspectiva de demanda para seus produtos, o que, na economia em contração, só é possível com gastos deficitários do governo, e não equilíbrio orçamentário.

Entretanto, o lado bom da história é o veneno concentrado. Ninguém espera de Temer uma interferência pessoal na administração econômica, do tipo da que acontecia com Dilma, de forma que a responsabilidade pelo fracasso certo da estratégia cairá no colo de Meirelles e Armínio, prometidos como os czares da economia. Isso é ótimo. Na medida em que esses próceres neoliberais se confrontarem com o desastre acentuado que eles próprios aprofundarem, será o momento de se entrar, finalmente, com a alternativa política que o governo Dilma não teve vontade ou competência de propor à sociedade depois de Levy.

Infelizmente, haverá milhões de pessoas sacrificadas nesse processo. Serão milhões de trabalhadores da iniciativa privada que perderão seus empregos ou parte de sua renda, e centenas de milhares de funcionários públicos que perderão seus cargos e vencimentos. A economia, já em contração de 4% no segundo ano consecutivo, se contrairá ainda mais. No conjunto, segundo me informou um dirigente empresarial nesta semana, no último ano fecharam nada menos do que 98 mil pequenas e médias empresas, o que é uma tragédia sem precedentes. É sobre essa realidade que recairá o veneno de Meirelles e Armínio.

Obviamente, a sociedade não ficará paralisada. A divisão que ainda ocorre sobre o impeachment de Dilma cairá brevemente no esquecimento, tendo em vista o aprofundamento da crise. Muito provavelmente seremos arrastados para a síndrome de De La Rúa, na Argentina: uma sucessão de presidentes em curto espaço de tempo, cada um se revelando mais incapaz que o outro para superar a crise. Em algum momento, teremos alguém ou uma organização com compacidade para resolver a situação. Então Meirelles e Armínio provarão do contra-veneno provocado por suas ações, voarão para sua primeira pátria, os EUA, deixando Temer como o primeiro de uma série de presidentes de crise a perder o cargo.

J. Carlos de Assis - Economista, doutor pela Coppe/UFRJ. 
No Esquerda Caviar

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