12 de mai de 2016

O momento crucial

Foram muitos os fatores contribuintes para este episódio sórdido da antidemocracia, mas um só momento crucial criado pela própria Dilma Rousseff. Os outros momentos determinantes, dois ou três, foram elaborações típicas da mente de Eduardo Cunha. Ficou lá atrás, e nunca esclarecido por Dilma, o fato que demarcou o fim de muitas coisas, o fim do modo como era vista, o fim de suas possibilidades de ação política, até o fim do governo.

Ainda hoje não se sabe o que ocorreu entre Dilma e o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, um tanto antes ou pouco depois da reeleição. A reportagem decente não percebeu a importância do assunto, e os jornalistas da ficção estavam com abundância de temas. Mas a confrontação de duas pessoas exaltadas a se cobrarem de atos e de culpas teve consequências: a saída de Mantega, sob uma justificativa familiar, mas com o tratamento presidencial de descaso, e a substituição, como todas, sob pressões políticas.

Dilma contornou as pressões com uma nomeação de surpresa. Mas escolher Joaquim Levy, tão identificado com o neoliberalismo que até colaborara com a campanha de Aécio Neves, equivaleu a comunicar à oposição que a presidente estava em pânico com a situação econômica. Sem corrupção dentro do governo, nada poderia dar mais munição aos opositores do que problemas econômicos, não importando a sua dimensão real. Nem que dispusesse de soluções Joaquim Levy poderia adotá-las, imobilizado pela barragem política que associou Eduardo Cunha e Aécio Neves, o tático e o incentivador.

Dilma traiu-se, perdeu-se, traiu o eleitorado e perdeu a companhia dos defensores de um Brasil menos desigual, menos entregue a uma claque de riqueza e improdutividade, e um pouco mais decente. Desde então, foi uma presidente à mercê da oposição. Por sorte sua, oposição conduzida por gente medíocre. Mas nem isso lhe valeu. Sua ação política foi pior que a dos opositores.

Dilma é uma técnica que se supõe também política. Presunção comum entre técnicos, sem igual na área econômica. Suas opções políticas foram ruins como regra. As equipes palacianas de sua escolha criaram uma Presidência lerda, sem criatividade e iniciativa, politicamente míope.

Se, porém, isso explica o governo aturdido com o cerco oposicionista — o parlamentar e o de imprensa/tv/rádio —, não leva a entender a entrega definitivamente desastrosa da Fazenda a Levy — claro que não por ser o sóbrio Joaquim Levy. Ainda hoje Dilma precisa lutar contra o efeito desmoralizante desse ato. Mas nem sequer esboçou uma explicação, no entanto devida: por que a inversão, por que um ministro neoliberal, por que Levy? Absoluta falta de percepção política, sem dúvida. O provável cálculo de uma sedução do poder econômico que, afinal, se voltou contra a feiticeira. E mais, é provável que mais, silenciado e nem por isso esquecido.

Dilma Rousseff errou muito. Mas nem a soma dos seus erros pode justificar a fúria incivilizada que Aécio Neves desfechou logo depois de derrotado pelas urnas, para derrubada do governo legítimo. A par dos erros, o governo Dilma levou a avanços significativos contra problemas sociais. Aí já se notam recuos deploráveis. Por efeito do quase ano e meio de degradação econômica desde o início do segundo mandato, com a ação destrutiva da oposição e a inoperância do governo, forçada em grande parte.

Mas os que tomam o poder não trazem correções. São figurinhas fáceis. Vêm buscar o que deixaram de ter. E dar mais aos que não deixaram de ter mais mesmo nos governos de Lula e Dilma.

Janio de Freitas
No fAlha

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