25 de mai de 2016

O estadista Renan e as pegadinhas de Sérgio Machado


O grampo de Sérgio Machado em Renan Calheiros comprova algo que se pressentia nas suas (de Renan) declarações públicas: dentre todas as autoridades públicas, Renan é o que mais tem demonstrado respeito pela chamada liturgia do cargo e mais preocupações com o julgamento da história.

Apesar da óbvia intenção de Machado de provocar declarações comprometedoras, a conversa gravada passa em qualquer teste de republicanismo. O carnaval dos jornais se deu em relação à sua proposta de mudar a lei da delação premiada, para impedir que pessoas presas sejam pressionadas a delatar — uma opinião legítima.

No restante, mostra um líder político preocupado com a crise, buscando saídas constitucionais, conversando com todas as pontas, procurando amarrar a governabilidade. E sumamente indignado com a submissão de Michel Temer a Eduardo Cunha.

Em outros momentos, viu-se esse mesmo comportamento de Renan, quando, em meio às pressões para facilitar o impeachment, apregoou sua preocupação sobre como seria visto pela história.

Admito não conhecer os meandros da vida política brasiliense, nem a de Alagoas. Mas o episódio me remete a lembranças de outros ditos coronéis nordestinos, como José Sarney.

Em 1987, através de seu Ministro da Justiça Saulo Ramos, Sarney conseguiu negociar meu pescoço com a Folha. Portanto, não tenho nenhuma razão objetiva para poupá-lo.

Em 2009 os jornais moveram uma campanha implacável contra ele, assim que assumiu a presidência do Senado. A intenção óbvia era fragilizar a governabilidade. Fiz uma defesa enfática do presidente do Senado, não da pessoa física ou política de Sarney. Em todos os artigos em que defendia o presidente do Senado, dava dicas para quem quisesse criticar a pessoa física, dos amigos Edemar Cid Ferreira a Mathias Machline.

Um assessor de imprensa de Sarney, meu conhecido, sugeriu uma entrevista com ele, garantindo que era o melhor analista do momento político e do advento dos novos atores políticos, as ONGs, os blogs e as redes sociais.

Fui. Fiquei aguardando-o em uma sala. Sarney chegou, andando lentamente, com a voz fraca e me agradeceu a defesa dele, que eu tinha feito. E me disse:

- Senhor jornalista, o senhor é testemunha da seriedade com que trato os temas políticos de interesse do país.

Passou ao largo das críticas que lhe fazia nos mesmos posts em que defendia o presidente do Senado. Mas, de fato, desde sempre cumpriu um papel de fiador da estabilidade política, dentro dessa excrescência que é nosso presidencialismo de coalizão.

Falta um perfil melhor de Sarney, assim como de Renan. Algo à parte da apologia dos áulicos e do profundo preconceito com que são retratados pela imprensa do Sudeste.

Aliás, essa preocupação em entender a história é característica de alguns políticos do Nordeste — como Gustavo Krause, Aldo Rabello, entre outros — dificilmente encontrável em políticos do centro-sul.

Renan demonstra uma preocupação com o julgamento da história muito maior do que o pensamento arrogante de lideranças paulistas, como FHC, que julga que a história é ele.

O jabuti de Sérgio Machado

Foi hilária a pequena vingança de Sérgio Machado contra a Procuradoria Geral da República, com quem tratou do grampo. Na conversa gravada desanca sem dó o Procurador Rodrigo Janot — podendo alegar posteriormente que os ataques foram para disfarçar suas intenções, de estar gravando a mando dele. E nos dois grampos colocou um jabuti na árvore de Janot: Aécio Neves, apenas para dar trabalho mais tarde para tirar o jabuti da árvore.

Não se pode negar um senso de humor apurado a Sérgio Machado.

Luís Nassif
No GGN

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.