26 de mai de 2016

Mouro

Compraram um cachorro para cuidar da casa. Depois de tantos roubos e arrombamentos, depois de tantos ataques ao seu patrimônio, a família decidiu que só um cachorro resolveria. Mas um cachorro de verdade, treinado para pegar ladrões, não apenas espantá-los. Nada parecido com um cachorrinho antigo da família, chamado Frufru, um inútil que morrera de susto ao ver um gato.

Mouro — deram-lhe o nome de Mouro por causa da sua assustadora cor preta — era um cachorro especial. Quando entrava alguém na casa, ele corria para cheirar o recém-chegado. Isso causou o primeiro problema com Mouro na casa. Um dia, a filha chegou com um namorado e o cachorro, depois de cheirá-lo, derrubou-o no chão e sentou em cima do seu peito, como se esperasse a chegada de reforços para dominá-lo. Descobriram depois que o namorado carregava maconha no bolso. O namorado foi aconselhado a nunca mais aparecer na casa e foi corrido para rua pelo Mouro, sob protestos da filha.

Mouro não dormia. Passava a noite rondando pelo jardim da casa ou dentro da própria casa. Mais de uma vez, quando levantava no meio da noite para fazer xixi, o dono da casa quase tropeçara no cachorro, cuja cor preta o tornava invisível no escuro. E a dona da casa se queixava dos sustos que levava, cada vez que o cachorro entrava, silenciosamente, na cozinha, farejando os cantos.

– Esse cachorro está começando a atrapalhar a nossa vida — disse a mulher.

– Você está maluca? — disse o marido. – O Mouro é formidável. Apareceu algum ladrão por aqui depois que ele chegou? Nenhum.

– E o que o Mouro fez com o meu primo Artur, expulsando-o da nossa casa e correndo atrás dele pela rua?

– É, mas depois se soube que o Artur está envolvido num negócio de propina. Ele deve ter farejado alguma coisa.

– Mas ele é que está mandando na nossa casa?

– Não exagera.

– Qualquer dia, ele cheira você e descobre aquele seu rolo com a Receita...

– Você acha?

Luís Fernando Veríssimo

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