28 de mai de 2016

Michel Temer diz repudiar o estupro, mas não repreende seu ministro

A manifestação do presidente interino Michel Temer que, sem votos, chegou ao poder através de um golpe, sobre a menor estuprada em um subúrbio do Rio, não me comove. Menos ainda convence. O discurso não bate com a prática, do contrário ele teria, publicamente, desautorizado seu ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM-PE).

Afinal, o grande momento do político pernambucano, na semana que se encerra, foi receber em audiência o ex-ator pornô e estuprador confesso, Alexandre Frota. Isto é no mínimo contraditório, vindo de um ministro que alardeou no seu discurso de posse ter se formado em uma das melhores escolas do seu estado, a Escola Parque, que preza “a diversidade e mantinha um clima de efervescência crítica, na contramão do regime (militar) que naquele apagar dos anos 70 começava a se desmilinguir”, como narrou a Folha de S. Paulo em 22/05,

O ator, como se sabe, em março de 2015, confessou em um programa de TV, em tom de deboche, um crime hediondo: declarou ter feito relações sem consentimento com uma mãe de santo após desmaiá-la segurando seu pescoço. A confissão está na postagem do site do Pragmatismo Político. Hoje, ele levando sugestões ao ministro da Educação, para serem implantadas nas escolas do país. Que moral e que preparo ele tem para fazer tais sugestões?

Como fica o ministro ao receber um estuprador confesso na semana em que vem a público uma barbaridade como a cometida contra a menor, no subúrbio do Rio?

De pouco adianta o presidente interino vir a público manifestar-se contra este tipo de crime hediondo e ao mesmo tempo seu governo receber “propostas para a educação” de alguém com a folha corrida confessa — ainda que não seja a oficial pois, ao que parece, ele nunca respondeu judicialmente pelo que disse ter feito — como a de Frota.

n-ALEXANDRE-FROTA- e mendonça filhoNestes momentos, mais do que o discurso, valeria o gesto. Um posicionamento público condenando a audiência repercutiria mais do que a manifestação pelo Twitter ou mesmo a promessa de criar um setor especializado na Polícia Federal para cuidar de casos como estes. Afinal, todos sabem, trata-se de crime da alçada estadual.

Mas, para isso, o presidente interino teria que poder brigar com um político, coisa que não pretende fazer, pelo menos até tentar consolidar a sua permanência no Planalto, consolidando o golpe. O que,  ao que parece, cada dia está mais difícil.

Justiça sem justiçamento

É óbvio que os responsáveis pelo que aconteceu com a menor devem ser punidos rigidamente pela Justiça. Sem justiçamento, como pedem alguns, que falam até em castração de estupradores.

Mas, isto apenas não adianta. É necessário muito mais, inclusive na própria seara do ministro da educação que perdeu tempo — ou alguém levará a sério a proposta de escolas sem partidos como o ator sugeriu? — em uma audiência inútil. Serviu apenas para mostrar a face real deste governo que assumiu diante de um golpe.

Ao justificar o encontro, o ministro acabou por confirmar a inutilidade do mesmo ao dizer que defende “o campo da educação e da sala de aula como um campo amplo, plural. que não comporta nenhum tipo de sectarismo, nem estreitamento do ponto de vista de ideias. Eu acho que a palavra que sintetiza o nosso ponto de vista é bom senso”.

Ou seja, ele, teoricamente, se diz contrário ao que pediu o ator, mas não teve o bom senso de pontuar isto na frente do mesmo e ainda se pousou para selfies.

O necessário é uma ampla campanha contra o machismo e os maus tratos não apenas às mulheres, mas a qualquer cidadão. Isso deve ser tarefa de cada um, mas em especial dos governos, federal, estaduais e municipais. Envolvendo todos os parceiros necessários, mas sabendo-se escolher aqueles que a imagem pública condiz com o discurso. E na área da Educação deveria ser algo levado às escolas desde o início do aprendizado. Mais ou menos como propôs, no Facebook a jovem Pâmela Côto, em um apelo a todos os homens:
Homem: mais do que ninguém, é você que pode mudar esse mundo de barbárie em que a gente vive! Não sendo conivente com o amigo que expõe uma mulher a uma situação degradante, não rindo da piada machista do conhecido que “comeu uma putinha qualquer”, não achando graça do beijo forçado que o teu broder deu na gata que parecia estar dando mole, não ensinando ao seu filho que se fragilizar é coisa de menina, não ensinando ao seu filho que ele precisa provar a sua masculinidade aos quatro cantos. Se torne RESPONSÁVEL pela perpetuação da cultura do estupro porque você É. Não dá pra ter medo do incômodo de ir na contramão. De ser olhado torto pelos amigos daquele grupo de whatsapp porque você repreendeu aquela foto machista escrota, quando eles esperavam que você aplaudisse. Vai doer, cara. Mas quer saber? Dói na gente todo dia. “Ah, mas as mulheres também são machistas.” A gente sabe disso! Essa merda de sociedade patriarcal criou muitas vitimas, escravizou homens e mulheres, e o feminismo nasceu pra combater a naturalização dessa cultura. Mas olha bem, olha direitinho. 8 (ops…130!) mulheres são estupradas diariamente no Brasil! Saca? LUTEM COM A GENTE! Esse é um APELO. Pelo amor às mulheres”.
Pelo visto, Mendonça Filho ganharia mais dialogando na rede com pessoas como Pâmela do que pousando para selfie com gente como Frota. Já Temer, seria mais convincente repreendendo o encontro do que mandando mensagens pelo Twitter. Mas, esperar o que de um governo que assume através do golpe?

Marcelo Auler

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.