25 de mai de 2016

Matutando

No dia 22 de abril de 1500, Pedro Álvares Cabral não estava descobrindo o Brasil, estava a descobrir o Brasil. Um dos grandes mistérios da nossa história e da história da nossa língua quase em comum é: por que o gerúndio (forma nominal do verbo caracterizada pelo sufixo “ndo”), que quase não é usado em Portugal, é tão usado no Brasil? Já se disse que a diferença entre o português brasileiro e o português português é uma questão de tempo e de espaço. Os portugueses falariam como falam, correndo (ou a correr), comendo (ou a comer) sílabas, a trocar o gordo “o” pelo menos expansivo “u”, porque lhes falta o espaço e o tempo, que encontraram nas colônias, para palavras inteiras e dicção pausada. Seria uma língua apertada. Mas isto não esclarece o mistério do gerúndio.

Atribui-se a proliferação do gerúndio no português brasileiro à influência do inglês, que teria provocado o gerundismo, ou o hábito de empregar o gerúndio mesmo quando não cabe ou não se deve. Existe até um nome para o uso excessivo do gerúndio: endorreia. Uma palavra suficientemente horrível para fazer os portugueses se sentirem vingados por tudo que fizemos com a língua deles. Digam o que disserem, de endorréia eles nunca sofreram.

Certa vez em Portugal, assistíamos a cenas de morte e destruição em algum lugar do Oriente Médio pela TV do hotel sem entender por que o repórter português não parava de falar em turismo. Só depois nos demos conta que ele estava dizendo “terrorismo”.

Poderia existir um dicionário alternativo da língua portuguesa, não com o significado que as palavras têm mas o significado que deveriam ter. Por exemplo:

Áulico — Condição de palidez, causada pela falta de ferro no organismo. (Como em “Ele me parece um pouco áulico”) 

Azáfama — Nome de uma planta amazônica que come périplos (um tipo de mini-vagalume) e outros insetos.

Bizzaro — Duas vezes zarro. Termo de admiração, de origem obscura. (Segundo alguns, “zarro” seria o nome, de origem cigana, dado a quem casa com uma húngara e sobrevive). 

Pedante — Posição de um pé, ligeiramente recuado e em ângulo, assumida para citar poetas italianos do século XIII no original.

Pitéu — O mesmo que “croque” mas dado com o lado da mão, numa chicotada.

Plúmbeo — O ruído que faz um objeto ao cair na água.

Pundonor — Do italiano “pundonore”, ou a exigência feita pelo papa Gregorio VI, chamado “Il Matto”, de ser saudado com puns pelos seus cardeais. 

Querela — Dança folclórica portuguesa em que os pares se xingam, trocam pitéus na orelha e cada um vai para a sua casa, emburrado.

Luís Fernando Veríssimo

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