11 de mai de 2016

Impeachment ou golpe: paixão e ódio

A grande novela nacional está se desenrolando com enorme emoção e lances de paixão e ódio desenfreados. Há uma discórdia profunda na sociedade, porque ela, hoje, instigada pela mídia do capital, toma partido nesta disputa de forma acirrada. Mas não perguntem o que está em disputa, pois vão lhe responder que é o combate à roubalheira, o que surpreende. Porque se deseja trocar quem facilitou todas as investigações sobre a roubalheira identificada por quem está ao lado de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves e Valdir Raupp, todos citados na Lava-Jato.

Discute-se, de forma emocionada, como se estivessem se defendendo de ataques pessoais. Não há o benefício da dúvida para os adversários. Só faltam lutas físicas serem iniciadas, quando a racionalidade terá claudicado por completo. Trata-se de um triste momento da vida nacional em que a cordialidade e a educação foram subtraídas. O principal ponto de discórdia é se a presidente Dilma cometeu crime de responsabilidade e, com isso, se deve ou não sofrer o impeachment. Contudo, a questão é bem mais complexa. Os exaltados se pegam em especificidades, como é o caso das pedaladas, mas na verdade existe uma luta acirrada pelo poder, que desrespeita os votos dos eleitores dados para a presidente em 2014.

Confundem tudo e, no calor da discussão, dizem que ela é também uma má gestora e é neste exato instante que confundem impeachment com recall. Enfim, o que está em jogo é o país continuar sendo democrático ou não. Neste caso, aprovar o impeachment significa rasgar a Constituição. Nego-me a discutir “pedaladas” por ser um tema irrelevante e, além disso, quero que atire a primeira pedra o presidente que não as fez. Se quisermos nos entender, falando sem paixão, ninguém, no Brasil, tem dúvida que Dilma é uma pessoa honesta. É também corajosa. Podem a acusar, e eu permanecerei calado, de ser irascível, turrona e pouco amável. Por outro lado, Temer já deu demonstração de ser traiçoeiro e foi citado também por delator. A diferença importante com relação a eles, além do grupo palaciano de cada um ser ou não composto de delatados, são seus projetos. Busco transmitir esta diferença de projetos, que é a causa para a mídia estar manipulando a população. A exacerbação de ânimos é muito conveniente para os manipuladores que não querem que as diferenças dos projetos sejam identificadas pelo povo.

Temer, candidato do grande capital, mormente o estrangeiro, unanimidade na mídia convencional corrupta e tendenciosa, tem um programa neoliberal, cujo nome merecia ser “uma ponte estreita em que nem todos chegarão no futuro”. Isto porque fará um governo de exclusão social, basicamente para os ricos e retirará conquistas sociais. Dilma terá o governo que nós conhecemos: ela deu grandes privilégios aos rentistas, como o Temer também dará, às empresas privadas de energia elétrica, às montadoras de carro. Mas, diferentemente do Temer, não “focará” os beneficiários do Bolsa Família, que é um programa de prolongamento de vidas, e continuará tocando outros programas sociais, como o que acaba com a sina do filho do pobre ter que ser pobre, formando uma casta onde os nascidos nela não conseguem se livrar. Com o acesso à universidade para os filhos dos pobres, este círculo vicioso é interrompido.

Na verdade, o julgamento da presidente Dilma representa o embate dos dois projetos de país e das alternativas de evolução para a sociedade brasileira. As pedaladas são mero pretexto para o grupo sem grande compromisso social chegar ao poder. Nunca é inoportuno dizer que os seres humanos têm valores diferentes, enxergam o mundo de formas diferentes e anseiam sonhos diferentes. Assim, podem ser diferentes quanto ao julgamento de qual candidato a presidente é melhor, na hipótese de irem rasgar a Constituição. Mesmo assim, poderiam ser magnânimos e reconhecerem que a democracia é um bem maior, que vale ser preservada. Mas, vamos ser realistas e reconhecer que Temer não tem esta magnanimidade. Poderiam chegar também a uma proposta de consenso, melhor para a sociedade, apesar do estupro à Constituição, que é a eleição para presidente já. De novo, Temer e seu grupo de delatados não a aceitam.

No entanto, nossa mídia corrupta e entreguista, de posição única, manipula a sociedade para chegar ao golpe em curso por uma causa bem maior, escamoteada com perfeição. A invasão do Iraque, capitaneada pelos Estados Unidos, com o apoio de Reino Unido, Austrália e Polônia, em março de 2003, justificada como luta contra o governo Saddam Hussein, que possuía armas de destruição em massa e apoiava terroristas, significou a derrubada de um regime, que não fazia nada do que fora alardeado, a desorganização total do país e a entrega da sua reserva de petróleo, avaliada por baixo em 115 bilhões de barris, a quarta reserva mundial, às empresas petrolíferas privadas ocidentais. A guerra do Iraque custou aos Estados Unidos mais de 2 trilhões de dólares e deu acesso a esta reserva, ou seja, grosso modo, cada barril iraquiano custou aos Estados Unidos em torno de US$ 17, além do acesso à reconstrução do país pelas construtoras estadunidenses, pagas com os royalties do petróleo entregues ao Iraque.

O assalto ao Pré-Sal, pela sua grandiosidade, pode justificar a inundação de recursos em grupos de mídia, inclusive nas nascentes mídias alternativas de direita, em movimentos ditos “sociais” de direita, que buscam atrair participantes para suas manifestações, em compra de votos de congressistas e de consciências de lideranças corruptas, enfim, abrindo o caminho para o golpe e, em seguida, para o Pré-Sal ser entregue às petrolíferas privadas ocidentais. Mas, tudo isto só funciona com o amalgama da mídia monotemática. Os agentes corruptores dos brasileiros ansiosos para serem cooptados devem ser a CIA, a NSA e as próprias empresas petrolíferas. Por mais que elas estejam gastando muito dinheiro no Brasil visando, no curto prazo, o golpe, o barril de petróleo do Pré-Sal sairá para elas ainda muito atrativo.

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia

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