13 de mai de 2016

Feliz Sexta-Feira 13


Feliz Sexta-Feira 13, Michel Temer.  É o que desejariam nomes notáveis que, tempos atrás, nas urnas e no parlamento, ajudaram a forjar o velho MDB para enfrentar um regime parido por um golpe. É o que deve lhe augurar, esteja onde estiver, a ala dos Autênticos da sigla. Entre eles, Chico Pinto que, por denunciar um governo espúrio, o do chileno Augusto Pinochet, foi jogado numa cadeia. E mais Alencar Furtado, Lysâneas Maciel, Freitas Diniz, Getúlio Dias, Fernando Lyra e outros 17 deputados. Que defendiam a democracia e não sua ruptura para acomodar os próprios interesses.  Nenhum deles carrega a pecha de traidor. Nenhum transformou a antiga sigla de Ulysses Guimarães num valhacouto de velhacos. Nenhum jamais perfilou com o golpismo.

Feliz Sexta-Feira 13, senhores donatários das capitanias hereditárias da mídia. São os votos de meio milhão de brasileiros investigados sob o arbítrio, dos 50 mil que foram presos, dos 11 mil acusados, dos 10 mil torturados, dos cinco mil condenados, dos 10 mil exilados, dos 4.862 cassados, dos presidentes de 1200 sindicatos afastados, dos 475 mortos e desaparecidos, daqueles que escreveram milhões de palavras censuradas, dos autores de milhares de livros, filmes, peças, programas de TV, jornais, revistas e outras publicações mutiladas ou aniquiladas. Vocês, de novo, venceram. Agora sem tanques. Mas, de novo, sem voto.

Feliz Sexta-Feira 13, bravo Judiciário e particularmente bravíssimos ministros do Supremo Tribunal Federal. Tratem imediatamente de abrir as portas da corte para receber o Ungido. Sigam o exemplo sadio de 1964, quando o seu então presidente, Álvaro Moutinho Ribeiro da Costa, correu a organizar uma recepção nos salões do STF para o marechal Castello Branco. Na ocasião — como agora — aquele colegiado de luminares considerou o golpe legal, a democracia intocada e, sobretudo, o rito preservado. Ah, o rito, onde estaríamos sem ele? Poderíamos até cair num governo ilegítimo! Parabéns!

Feliz Sexta-Feira 13, indômita Ordem dos Advogados do Brasil. Talvez o lendário Heráclito Fontoura Sobral Pinto que, católico e anticomunista, defendeu o ateu e comunista Luiz Carlos Prestes em 1936, discordasse da conduta da OAB em 2016. Talvez. Seria difícil para um anticomunista defensor de comunistas entender o respaldo da Ordem à deposição da presidente, atendendo mais à postura de classe do que qualquer outra coisa. Porém, o presidente do Conselho Federal da OAB em 1964, aplaudiria o destemor da atual gestão. Na época, Carlos Cavalcanti saudou “os homens responsáveis desta terra” que aboliram “o mal das conjuras comuno-sindicalistas”. Por certo, louvaria a reprise do feito memorável de 1964 como mais uma façanha a ser introduzida nos anais da OAB. Palmas!

Feliz Sexta-Feira 13, valoroso Congresso Nacional. Embora sem o brilho, o charme, a malícia e o algo mais da pedagógica e inolvidável votação da Câmara naquele 17 de abril mágico  — que já ingressou na História do Brasil como uma das noites mais esplêndidas do firmamento nacional  — o Senado também prestou seu tributo à arte do entretenimento pátrio. Que mensagem enviaria a um parlamento que enalteceu a tortura e os torturadores – além da mamãe, do papai, da vovó, da cunhada, do cachorro e do periquito da família – um ex-integrante daquele mesmo parlamento, o deputado Rubens Paiva? Aquele Rubens Paiva que, num feriado do verão carioca de 1971, foi arrancado da sua família por seis homens e arrastado para o DOI-Codi para nunca mais ser visto? Que foi chacinado e morto e teve seus restos mortais jogados ao mar?

Feliz Sexta-Feira 13, intrépidos colunistas, comentaristas, articulistas, comunicadores e demais valentes serviçais do patronato midiático. Foi uma tarefa e tanto nos últimos 14 anos, principalmente nos dois mais recentes. Para alguns, deve ter valido a pena ceder todos os orifícios da alma à concupiscência do sinhôzinho e do seu modo de perceber o país, o mundo e a vida. Um jornalista mais brilhante e menos sabujo, embora também golpista, como Carlos Lacerda, reconheceria relevância artística na obra de seus pupilos: a edificação do golpe, tijolo por tijolo num desenho lógico. Menos pela formosura da frase, mais pela sua malignidade. Menos pela veracidade, mais pela fábula. Menos pela concisão, mais pela avalanche. Mas descansem um pouco, rapazes e raparigas, velhotes e velhotas. Há trabalho pesado à espera. Agora, a pauta de vocês é converter Michel Temer em estadista. Boa sorte. Vão precisar.

Ayrton Centeno
No RS Urgente

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