31 de mai de 2016

Em discurso contundente, Dilma aponta: “É um governo de homens brancos, velhos, ricos e machistas”

“É um governo neoliberal em economia, e ultraconservador no social e na cultura, e em tudo mais. Sem sombra de dúvida, o golpe tem dois motivos. Um é parar a Lava Jato, o outro é impedir que nós continuemos com a nossa política de inclusão social”, afirmou a presidenta em evento na UnB. Confira os principais trechos e o vídeo com a íntegra da fala de Dilma

A presidenta Dilma Rousseff foi recebida por uma multidão na noite desta segunda-feira (30), na Universidade de Brasília (UnB), em noite de lançamento do livro A Resistência ao Golpe de 2016. Em seu discurso, ela foi contundente em relação ao governo Temer, que chamou de ilegítimo, fez referência aos áudios vazados envolvendo algumas das principais figuras do PMDB e expôs os principais motivos para o processo golpista, na sua avaliação.

“Esse é um golpe que se torna diferente pelo fato de que ele não interrompe o processo democrático, ele corrói o processo democrático, ele desgasta o processo democrático”, afirmou. “É isso que caracteriza um ‘golpe frio’, se a imagem de uma árvore sendo cortada por um machado é muito exemplar e simbólica da ditadura militar, a árvore democrática sendo destruída por um parasita é o exemplo desse golpe. Por isso nós temos que lutar dentro da democracia contra ele, temos que usar a democracia contra esse golpe”, disse.

A presidenta fez referência aos áudios gravados por Sérgio Machado com os senadores os senadores Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan Calheiros (PMDB-AL), e também com o ex-presidente José Sarney. “Como todos os outros golpes, ele detesta, odeia ser chamado de golpe, porque, ao ser chamado assim, seu caráter absolutamente contrário à Constituição e às regras democráticas surge. Eu comentava hoje com o Zé Eduardo Cardozo que tem um silêncio constrangedor quando se fala do meu afastamento. Nas gravações também têm um silêncio estarrecedor. As gravações que dizem tanto não gravam nenhuma frase que diz respeito a seis créditos suplementares ou ao Plano Safra. Não há uma única palavra em todas as gravações a esse respeito”, lembrou, referindo-se aos motivos que fundamentam o seu pedido de impeachment. “Mas há uma farta conversa a respeito de evitar que a sangria os atinja, que seus crimes sejam desvendados, que aquilo que foi feito e foi objeto de práticas irregulares, ilegais, corruptas, seja desmascarado e por isso tenho que ser afastada.”

Segundo a presidenta, contudo, não é apenas o acobertamento da corrupção que justificaria o processo do golpe. “Não acredito que o golpe seja só pra isso, ele tem outro sentido, mas aí não são as conversas gravadas que desvendam esse mistério. São as conversas, as entrevistas, as declarações do governo provisório, interino e ilegítimo. São essas falas em que eles declaram, mesmo que depois se desdigam, é esta a chave do que é o sentido desse golpe”, sustentou. “É a primeira fala de que o SUS não cabe no orçamento, então vamos criar planos privados de saúde, alijar uma parte da população do acesso à saúde e ao atendimento. Falam assim: ‘não vamos contratar mais médicos estrangeiros’, significa tirar de uma só penada 11 mil médicos cubanos no Brasil, num grande preconceito contra médicos cubanos, porque eles vão para os lugares remotos, para as periferias das grandes cidades, para os lugares mais afastados. Falam que o Minha Casa Minha Vida não vai mais atender a população de baixa renda, a chamada faixa 1 que ganha até 1,8 mil reais porque são contra subsídios. Ora, se não vão atender a faixa 1, onde está 80% do déficit habitacional no Brasil, não atenderão nenhum pobre nesse país. E se são contra subsídios são contra que os recursos de orçamento, que derivam de tributos cobrados da população, sirvam para pagar a imensa dívida social desse país com a população que nada tem.”

Dilma foi dura em relação à composição do ministério do governo provisório. “O grave, para nós, mulheres, é que é um governo de homens brancos, velhos, ricos, machistas e isso está claro na visão que se tem sobre a presença das mulheres no primeiro escalão do governo. Nós temos que chegar aos 50%, não chegamos, o máximo q e atingimos foram oito mulheres no primeiro escalão, mas, pela primeira vez, mulheres dirigiram aquilo que não se dirigia,como a Petrobras, a Caixa Econômica”, apontou. “É um governo neoliberal em economia, e ultraconservador no social e na cultura, e em tudo mais. Sem sombra de dúvida, o golpe tem dois motivos. Um é parar a Lava Jato, o outro é impedir que nós continuemos com a nossa política de inclusão social.”

Sobre o momento do golpe, a presidenta ressaltou o papel da crise econômica, que traria uma questão oculta. “Por que isso, por que agora? Toda crise implica numa questão séria, que cada um de nós tem que pensar. Não existe crise sem conflito de distribuição de riqueza, na expansão do ciclo econômico não tem, o conflito não é tão visível. O que está em questão é a velha história do pato, só que o pato aqui está claro, quem secularmente tem sido pato é o povo desse país”, disse Dilma, ressaltando o papel da mídia estrangeira na caracterização do processo do golpe. “Acredito que a imprensa internacional foi muito importante uma vez que ela não estava envolvida no jogo político, foi importante em caracterizar politicamente o que o Brasil estava vivendo. A imprensa internacional deu uma grande contribuição, mas não foi ela que deixou patente e claro que se tratava de um golpe, foram os próprios golpistas gravados.”

Dilma conclamou mais uma vez a resistência. “É com coragem que nós vamos vencer, é essa nossa arma. Eles têm um conjunto de armamentos sofisticados, têm a grande imprensa, tiveram o apoio de alguns segmentos empresariais, de uma parte do parlamento brasileiro — nós não podemos esquecer que o Eduardo Cunha está cada dia mais vivo. Eles têm tudo isso. O que é que nós temos? A nossa consciência. Nós sabemos porque lutamos e é isso que transforma nossa energia e nossa força.”

Confira abaixo o vídeo com o discurso completo



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