25 de mai de 2016

Diz aí, quantos golpes o Golpe aguenta?

Quando a bomba do dia não é a principal notícia do Jornal Nacional


Curioso, não?

O, até então, Ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB – RR), se afunda no próprio diálogo com ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Conversa deixa claro, mesmo para quem, ainda não quer acreditar, que o ato do impeachment da presidenta Dilma Russeff é um golpe político. Para os golpistas, está cada dia mais difícil disfarçar.

A notícia “bomba” do dia esteve em destaque na mídia nacional, não sendo diferente para o principal jornal da Globo, Jornal Nacional. Mas a relevância, tão notória, foi noticiada no último bloco do jornal. Por que somente no último bloco? Por que não ganhou uma edição exclusiva como ocorreu no caso das gravações entre Lula e Dilma? Por que foi estrategicamente colocada após uma longa e detalhada reportagem sobre a escassez de alimentos na triste Venezuela (comunista)?

Depois de noticiar os atentados com mais de 120 mortos na Síria, a violência do chavismo na crise da Venezuela e as demais informações, de repente vem, no último bloco, para legitimar que “pelo menos noticiamos a informação”, a pauta do dia: o caso do ministro Romero Jucá.

Por que a principal notícia do dia não foi a principal do jornal?

Vamos tentar entender.

Transmitir a notícia, narrar fatos, encontrar a verdade, desconstruir e construir acontecimentos. É isso que o jornalista faz, ou pelo menos, deveria. Apura a informação, interpreta-a e com isso tem o poder de influenciar opiniões e ser, ele mesmo, enquanto categoria, um líder de opinião.

Rezam os teóricos, por exemplo, Nilson Lage (2006), que a estrutura da notícia que se dá no jornalismo moderno seria como o relato de uma série de fatos, dando ênfase a partir do fato mais importante ou interessante; “não se trata exatamente de narrar os acontecimentos, mas de expô-los”. (LAGE, 2006, p. 17).

Já Bond (1959), afirmava que “notícia não é um acontecimento, ainda que assombroso, mas a narração desse acontecimento”. (p. 91). Marcondes Filho (1989) já propõe que a notícia “é um meio de manipulação ideológica de grupos de poder social e uma forma de poder político. Ela pertence, portanto, ao jogo de forças da sociedade e só é compreensível por meio de sua lógica.” (MARCONDES FILHO, 1989, p. 13). Ainda, segundo ele, o tratamento que sofre a notícia antes de chegar à outra ponta é a principal maneira de se dominar a chamada “manipulação” jornalística. Levando-se em consideração a ocorrência de um fato social relevante que vários meios irão compartilhar dessa mesma divulgação – como por exemplo o caso de Romero Jucá – surgem diversas intervenções que alteram o efeito dessas notícias. Aí se opera a adaptação ideológica; a estruturação da informação com fins de valorização e de interesse de classe.

Em síntese, não existe construção jornalística neutra de peso ideológico e de influencia política. Então… Por que o Jornal Nacional “vendeu” a notícia de Romero Jucá com destaque secundário? Por que o Jornal Nacional tratou a notícia das interceptações telefônicas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, divulgadas em março deste ano, diferente da noticiada sobre as do ministro Romero Jucá? Esse é o primeiro escândalo do governo neoliberal do presidente interino, Michel Temer, logo, essa não deveria ser a principal notícia? O Jornal Nacional deixa claro que, não! Mais importante é vender a Venezuela como uma imagem negativa de governos de esquerda, embora ela não seja tão de esquerda assim.

Sabe o que é mais curioso? É que o Jornal Nacional terminou com a nota do presidente interino, Michel Temer, em que elogia o senador Romero Jucá e afirma que ele continuará “auxiliando o Governo Federal no Congresso de forma decisiva, com sua imensa capacidade política”.

Hoje, a notícia do dia não foi a bomba do Jornal Nacional. Afinal, o governo golpista não pode cair, né?! Pelo menos não, até que a Globo não queira. Mas, e se ela mudar de opinião? Diz aí, quantos golpes o golpe aguenta?

Caroline Dall’agnoll, de Caxias do Sul
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