25 de mai de 2016

Blogueiros e ativistas digitais fortalecem a luta na rede


O Quinto Encontro Nacional e Blogueiros e Ativistas Digitais em Belo Horizonte aconteceu em meio a muitas turbulências. A primeira delas, positiva, foi a provocada por uma multidão que, aproveitando a presença da presidenta Dilma no encontro, decidiu realizar um grande ato em frente ao hotel Othon Palace, onde acontecia o encontro, para se solidarizar com ela e denunciar o golpe. A manifestação gigantesca não pode passar despercebida. Assim, a abertura do evento acabou sendo também um grande ato de denúncia do golpe que está em curso no Brasil.

A segunda rugosidade veio pela imprensa, que divulgou a informação sobre a negativa da Caixa Federal em manter o apoio que já havia sido acordado com a organização. Ora, a CEF é uma entidade pública que tem uma política de apoio à eventos a qual qualquer entidade pode pleitear. E foi o que foi feito. Um contrato foi firmado, e a organização cumpriu todas as cláusulas, logo, não aceitará quebra no contrato. A informação foi considerada uma retaliação por parte do grupo que está interinamente no governo contra os ativistas que tem sido críticos ao golpe.

Mas, apesar da indignação, o Instituo Barão do Itararé e o Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, organizadores do encontro, não se intimidaram. Foram à luta e garantiram com os sindicatos, centrais e movimentos sociais as condições para receber os quase 500 inscritos que participaram ativamente das atividades.

E o que se viu nos três dias de debate foi a vitória do trabalho coletivo, com uma mescla de gente de 23 estados do país interessada em conhecer cada um e cada um que anda por aí, escrevendo e disseminando informação, para além da gosma da mídia comercial. Blogueiros que são jornalistas, blogueiros que não são jornalistas, ativistas de todas as idades e profissões que, indignados com a lógica de propaganda, manipulação e desinformação, decidiram usar as ferramentas da internet para fazer uma guerrilha informacional.

Pessoas como Ronaldo Alves, que enfrentou 40 horas, de ônibus, desde Teresina, no Piauí, sem dinheiro e sem nem saber como voltaria, ou Gabriel Loppo Silva Ramos, um jovem de Montes Claros que passou o chapéu na cidade para viabilizar a viagem, foram os extremos num grupo apaixonado pela escrita e absolutamente necessitado de dizer essa palavra que não encontra morada na grande mídia. Talvez por isso que as sessões de debates e conversas tenham estado sempre cheias e sem a habitual disputa para ver quem tem a melhor proposta.

O encontro de blogueiros teve essa coisa única. Não foi uma disputa de aparelho, nem guerra de partidos, nem um jogo sobre quem é mais inteligente. Tampouco houve cobranças sobre aqueles que estavam ali defendendo Dilma ou os que insistiam na crítica. Foi um espaço de conversa real, na qual as divergências foram apontadas sem dedo em riste ou caras enfastiadas. Cada fala, na mesa ou na plateia, aparecia como um ponto a mais na grande teia de solidariedade, partilha e comunhão comunicacional que estavam todos dispostos a construir. As pessoas estavam interessadas em saber como sobreviver a onda fascistizante que varre o país, como garantir recursos para sobreviver com blogs críticos, como escrever sem dar espaço para judicialização, como narrar a vida com competência e como construir uma rede de apoio e socialização da informação.

Gente de Roraima, do Amapá, de Ceará, do Maranhão, dos rincões mais afastados do Brasil profundo que, nos seus espaços geográfico resiste, muitas vezes solitária, e que veio buscar essa coisa boa que é se sentir parte de algo grande, transformador e generoso.

Nas falas, a certeza de que a blogosfera, o espaço do ativismo digital, teve papel fundamental na denúncia do golpe ocorrido no país. “Nós estamos criando um novo tipo de jornalismo horizontal, viral”, afirmou Laura Capriglione, do Coletivo Jornalistas Livres. “Estamos contando o país desde os nossos celulares e temos de centrar fogo na credibilidade. Esse é o nosso desafio. Checar, checar e divulgar só a verdade, mas sem se fechar num gueto. Temos de chegar longe, ter estratégia de rede, não falar apenas para nós mesmos”.

Nas rodas de conversa, momento estratégico de pequenos grupos no qual todos têm a possibilidade de expor suas ideias, ficou claro que o trabalho do ativismo digital não pode ficar apenas na denúncia do golpe, mas também avançar para a construção de uma soberania na comunicação, coisa que obviamente precisa passar também pela construção de uma outra forma de estado, de organização da vida. Sem a luta concreta na vida, não adianta a luta digital. Há que transformar o Estado para que se tenha também uma outra comunicação, tudo está ligado. E nós, jornalistas – ou comunicadores populares - temos a obrigação de ser o elemento crítico, que narra e desvela a realidade.

O Quinto Encontro dos Blogueiros e Ativistas Digitais terminou com a certeza de que é preciso reunir as pessoas e provocar o conhecimento entre elas. Uma vez feito o contato pessoal e afetivo a possibilidade da formação da rede é bem maior. Também produziu a Carta de Belo Horizonte que repudia o governo ilegítimo hoje no Brasil, faz uma breve análise de conjuntura e aponta eixos de luta na política e na comunicação.

Foi formada também a comissão nacional que tratará de organizar o sexto encontro para daqui a dois anos. Enquanto isso, a luta seguirá, fortalecida e permanente.

Menção especial aos incansáveis Altamiro Borges e Aparecido Araújo que, com especial carinho e afeto garantiram a expressão de todas as vozes. É assim que se avança!





Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes

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