7 de mai de 2016

A presença do diretor geral da Globo nos Panama Papers não surpreende

Schroder, diretor geral da Globo, tem a cultura sonegadora da empresa
Primeiro, vamos deixar clara uma coisa. Criar contas em paraísos fiscais é apenas uma forma legalizada de sonegar. (Legalizada por enquanto, vistos os esforços de múltiplos países para pôr fim a essa mamata que furta dinheiro que construiria escolas, hospitais, portos, estradas e por aí vai.)

Isto quer dizer: ainda que você declare a conta ou as contas, você continuará a sonegar. Em países com largos contingentes de miseráveis como o Brasil, esta sonegação (ainda) legalizada é ainda moralmente pior. Amplia e perpetua a desigualdade social.

Tudo isso posto, não causa surpresa que o diretor-geral da Globo Carlos Schroder apareça entre os brasileiros dos Panama Papers, os documentos que mapeiam os donos de contas no paraíso fiscal panamenho.

Schroder afirma declarar a conta na Receita Federal, mas isso não torna sua sonegação menos sonegação.

Não há surpresa, como eu disse, porque Schroder vive num ambiente — a Globo — inteiramente contaminado pela cultura da sonegação.

A Globo não vive nem sobrevive sem duas coisas: recursos públicos e sonegação.

Em ambos os casos, a Globo recebeu sempre uma tratamento complacente e absurdamente favorável das autoridades brasileiras, incluídas aí as dos governos Lula e Dilma.

É célebre, morbidamente célebre, o caso da fraude e sonegação da Globo na compra dos direitos da Copa de 2002.

Está tudo documentado na Receita. (Aqui, você pode ver um documentário do DCM sobre o escândalo.)

A Globo mentiu ao comprar os direitos. Disse que estava investindo num negócio fora do país. Com isso, deixaria de pagar o imposto relativo à aquisição.

Os fiscais da Receita detectaram o crime. A Globo foi multada numa quantia que, em dinheiro de hoje, supera os 600 milhões de reais. Num episódio simplesmente inacreditável, uma funcionária da Receita foi apanhada tentando fazer desaparecerem os documentos do caso.

Esta é a Globo. E este é o Brasil: nunca nenhuma autoridade da Receita ou do governo se pronunciou sobre a fraude e a sonegação. Lá se vão mais de dez anos.

É dentro deste ambiente que vive Schroder.

Convivi com ele nos anos entre 2006 e 2008 em que fiz parte do Conedit, o conselho editorial da Globo.

É um sujeito afável, bem menos espalhafatoso que Merval e Kamel, os dois integrantes do Conedit que mais se batem por concordar com João Roberto Marinho, coordenador do conselho.

Schroder fala relativamente pouco sobre jornalismo e política, e não por acaso. Ele não é do ramo. Ele cresceu na Globo na área de produção: essencialmente, fazer com que os repórteres tenham as coisas necessárias a sua missão.

Uma das lembranças mais vívidas que tenho dele é, com seu forte acento gaúcho, defendendo a ideia de que nas transmissões esportivas a Globo não deve dar o nome de times como Red Bull. A Red Bull que anuncie na Globo.

Não se conhece um texto seu que mereça citação. Seu cargo de diretor geral era ocupado, antes dele, por pessoas da área comercial. Seu antecessor, Octávio Florisbal, era um vendedor de anúncios.

Schroder não é a única figura da Globo com presença nos Panama Papers. Também Paula Marinho, filha de João Roberto, é citada. No caso dela, por causa do infame “Triplex dos Marinhos”, a mansão em Parati construída à margem da legislação de proteção ambiental.

Paula e Schoder representam o espírito Globo nos Panama Papers: fugir sempre dos impostos. Do jeito que for.

Paulo Nogueira
No DCM

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