12 de abr de 2016

Xadrez nas eleições no plenário e o novo lance da Lava Jato


No curto período em que ajudei na implantação do Datafolha, logo após ter pedido demissão da Secretaria de Redação da Folha, calhou a votação das eleições presidenciais indiretas.

Montei uma pesquisa diferente para analisar os votos.

O pesquisador deveria ser um repórter experiente, com bom conhecimento sobre os parlamentares. Ele iria a cada um e perguntaria seu voto sobre as diretas:

( ) Tancredo

( ) Maluf

Na própria cédula faria sua avaliação sobre o parlamentar:

( ) confiável

( ) não confiável.

Em cima desses dados, levantados pela repórter Letícia Borges, fizemos várias tabulações:

1. Votação simples, sem avaliação

2. Todos os eleitores não confiáveis de Tancredo votando em Maluf; todos não confiáveis de Maluf mantendo o voto.

3. Todos os eleitores não confiáveis de Tancredo mantendo o voto e os não-confiáveis de Maluf votando em Tancredo.

Nas três simulações, dava Tancredo.

O jornal embatucou um pouco, acabou colocando o estudo como segunda manchete e o risco da aposta foi meu, assinando a matéria.

No decorrer do dia, no entanto, o próprio QG de Maluf, chefiado por Calim Eid, de certa forma acabou confirmando os dados.

Tem-se agora, um quadro similar, no qual há um elemento central que não dá para contabilizar antecipadamente: o efeito manada.

A influência do processo de votação      

A dificuldade das projeções se prende aos seguintes fatores:

1.    O voto envergonhado.

O voto a favor do governo é fundamentalmente ideológico. O deputado que vota contenta sua base. Mas existem inúmeros votos envergonhados, de deputados que querem votar com o governo (por simpatia ou interesse) e não podem se expor para seus eleitores.

2.    O voto de manada.

Grande parte dos indecisos seguirá a manada: quer ficar a favor do voto vencedor. Se a apuração começa pelo sul, o efeito manada favorecerá o impeachment, na medida em que aponte mais votos a favor. Se começar do norte, nordeste, o anti-impeachment.

3.     Os indecisos.

O indeciso é o deputado que pesa a relação custo-benefício entre o desgaste com o eleitorado e as benesses de ser governo. É o mais suscetível de ser cooptado pelo governo.

4.    O fator abstenção

Para o governo derrubar o impeachment, basta tirar 171 votos, que pode ser em votos contra ou em abstenção. A abstenção é uma das maneiras do voto envergonhado.

As análises das consultorias

Uma das principais consultorias apresentava os seguintes dados:

De forma detalhada mostra que, de 39 votos indecisos, o impeachment precisaria conquistar 26 para conseguir quórum. Ainda não passa, e o Cunha sabe disso — diz o consultor. Exatamente porque sabe, quer controlar o processo de votação, começando pelo sul.

O detalhamento dos votos confirma algumas avaliações do governo:

1.    O PSD de Kassab e Afif não agrega votos.

Dos 36 deputados, apenas 5 são contrários ao impeachment.

2.    O PSOL está fechado contra o impeachment.

3.    O PDT tem 6 deputados considerados indecisos, mas com propensão de votar a favor do governo.

4.    Dos chamados médios partidos, que poderiam recompor a base de apoio, PP, PR e PTB votam majoritariamente a favor do impeachment.

O fator PGR/Lava Jato

A agenda jurídica do Procurador Geral da República (PGR) Rodrigo Janot e da Lava Jato continua em plena sintonia com a agenda política do impeachment:

1.    A Lava Jato abriu uma operação contra o ex-senador Gim Argello.

2.    A PGR solicitou ao STF abertura de investigação contra Renan Calheiros, no âmbito da Operação Zelotes, mas tendo como ponto de apoio o mesmo Gim Argello.

Abre-se uma pinça, portanto, para espremer Renan quando o processo de impeachment chegar ao Senado.


Luís Nassif
No GGN

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