5 de abr de 2016

Temer fez tudo errado e ficou falando sozinho

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 Temer fez tudo errado e ficou falando sozinho

Com seu jeitão discreto e formal de homem de bastidores, que prefere ficar no fundo do palco, como os mordomos dos filmes de terror, Michel Temer sempre foi um político provinciano, sem revelar maiores ambições, além de se reeleger deputado federal a bordo de baixas votações. Eleito e reeleito vice-presidente da República na chapa de Dilma Rousseff, por indicação de Lula na aliança do PT com o PMDB, foi mordido pela mosca azul quando a crise política se aprofundou. Ouviu maus conselheiros, e resolveu ir além das chinelas, oferecendo-se para tomar o lugar da presidente contestada.

Foi afoito demais. Sentou-se na cadeira antes da hora, como fez FHC na prefeitura de São Paulo, na véspera da eleição municipal de 1985, que perdeu para Jânio Quadros. Deveria ter-se mirado no exemplo do vice Itamar Franco, que se fingiu de morto e ficou escondidinho na sua Minas Gerais, só esperando a presidência cair no seu colo, enquanto o governo Collor derretia em praça pública.

A operação de desembarque do PMDB do governo petista, que comandou pessoalmente na semana passada, foi um desastre federal. Deu tudo ao contrário do que ele imaginava para apressar o fim do segundo mandato de Dilma e assim se tornar o novo presidente após o impeachment, àquela altura considerado inevitável por nove entre dez analistas políticos.

Nos planos traçados por seus fiéis estrategistas Moreira Franco e Eliseu Rezende, ato contínuo começaria a debandada de outros partidos da base aliada. Seria o "Dia DD" de Temer — do desembarque e da debandada, como escrevi aqui mesmo. Nada disso aconteceu. Mesmo sem o cargo de ministro. o ex-presidente Lula saiu na frente para segurar os votos de PP, PR e PSD contra o impeachment, usando como argumentos a caneta presidencial ainda em mãos de Dilma, que ganhou novo fôlego.

Temer estava tão seguro do resultado, que nem foi à reunião em que o PMDB oficializou, em apenas três minutos, por aclamação, o seu rompimento com o governo, mas a foto estampada em todos os jornais no dia seguinte foi fatal: Eduardo Cunha, Romero Jucá e Eliseu Padilha, de braços erguidos e mãos dadas, comemorando a vitória. Com este trio, como ele iria vender a ideia de um "novo governo", reconquistando a confiança da sociedade e prometendo "Uma ponte para o futuro", o nome dado ao seu projeto econômico?

E o velho PMDB de guerra, que já foi o partido de Ulisses Guimarães, saiu novamente rachado nesta aventura, com a banda de Eduardo Cunha na Câmara, de um lado, e a do Senado, de Renan Calheiros, de outro. A ordem era devolver todos os sete ministérios e os 600 cargos de segundo escalão no governo. Até o momento em que escrevo, seis ministros peemedebistas continuavam solenemente em seus cargos. Se Temer não conseguiu nem unir o PMDB, como ele queria reunificar o País?

Recolhido ao seu bunker em São Paulo, depois de se expor demais, o vice ficou falando sozinho. Ao perceber a mudança dos ventos, a grande mídia começou a desembarcar do seu projeto e colocar em dúvida a aprovação do impeachment. A senha foi dada pela Folha, em editorial publicado no último domingo, sob o título "Nem Dilma nem Temer", no qual o jornal defendeu a renúncia dos dois e a convocação de novas eleições presidenciais.

Na mesma edição, em sua coluna dominical, o ex-ministro Henrique Meirelles, presidente do Banco Central nos oito anos do governo Lula, afinado com a posição do jornal, em operação aparentemente casada, indicava o caminho para os passos seguintes. Sob o título "Questão capital", deu a receita no final do texto: "(...) superada a crise política e definida uma política econômica eficaz — capaz de inverter a tendência de crescimento incontrolável da dívida pública, criar regras estáveis e atraentes ao investimento em infraestrutura e aprovar reformas para promover a produtividade e restabelecer a confiança —, teremos no mercado de capitais internacional e na disponibilidade de recursos do mundo fontes fundamentais de investimento no Brasil (...). Não deverá faltar capital".

O problema de antecipar as eleições presidenciais é que, sem Temer, e com Aécio e Serra palestrando com Gilmar Mendes em Portugal, o capital não tem um nome para a disputa. Sem se fazer de rogada nem disfarçar seus objetivos, Marina Silva, que lidera as pesquisas, saiu na frente e lança nesta terça-feira, em Brasília, a campanha "Nem Dilma Nem Temer — Nova Eleição é a Solução". Vejam que coincidência...

Entre os parlamentares do PSB, PPS, Rede e PMDB, que já defendem abertamente no Congresso a antecipação das eleições presidenciais marcadas para outubro de 2018, destaca-se o senador Valdir Raupp, de Rondonia, ex-presidente do partido de Temer, que afirmou da tribuna: "Não seria uma renúncia. Não seria um impeachment, mas, sim, antecipar as eleições presidenciais que aconteceriam agora em outubro próximo, concomitantemente com as eleições municipais".

Além de lançar a proposta, dizendo que não acredita na aprovação do impeachment de Dilma, Valdir Raupp fez uma confidência que pode complicar ainda mais a vida do vice-presidente. "Ele (Temer) me disse exatamente isso: Raupp, eu não quero ser presidente numa situação desta porque, com impeachment ou sem impeachment, esse negócio não vai acabar bem".

Neste caso, Michel Temer pode ter razão.

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