12 de abr de 2016

Temer, Cunha e a ética golpista

Se Temer imaginou posar de estadista e se apresentar como o homem capaz de unir a Nação neste momento, apressando-se em trair a presidenta e tentando sentar-se na cadeira antes que ela dela se levante, compõe com Cunha a dupla sem ética ou moral perfeita a conduzir o país ao inferno que se seguirá.



Imagem: Tiago Toh
Acabamos de conhecer o resultado da votação do impeachment de Dilma Rousseff pela comissão da Câmara dos Deputados. Os 38 a favor e 27 contrários já eram esperados.

Resta agora acompanhar os debates que se iniciarão na sexta-feira (15) e terminarão em votação nominal no domingo (17).

Algumas coisas a destacar.

O resultado da votação da comissão não chegou aos dois terços necessários para derrubar a presidenta. Logicamente se se transpuser esta proporção para domingo, que é o que vale, quando os golpistas precisarão garantir 342 votos, a oposição será derrotada.

Além disso, pelas contas feitas pela mídia e pela própria oposição faltam mais de 20 votos para que o processo vá para o Senado.

Porém, enquanto os golpistas de Cunha comemoravam o resultado da votação, aonteceram dois fatos que podem definitivamente pender para Dilma no domingo.

O ato com Lula realizado em frente aos Arcos da Lapa, em defesa da democracia, convocado pela Frente Brasil Popular, com a presença de vários artistas e intelectuais, dentre eles, Chico Buarque teve presença recorde de público. Este ato e mais o de domingo deverão demonstrar a todo o país e também aos deputados que o golpe não será aceito.

Não pensem que a classe média que saiu às ruas com suas camisas oficiais da seleção, com sua renda média, sua cútis branca e unhas bem cuidadas representam a massa da população brasileira.

Esta, embora tivesse sua vida melhorada em uma década, é majoritariamente morena, de baixa renda e não saiu às ruas porque reconhece os avanços dos governos Dilma e Lula. São professores e alunos de escolas estaduais que apanham de policiais, empregados do mésticos (em cada casa de paneleiro há sempre pelo menos um), parentes e amigos de negros da periferia que morrem todos os dias nas mãos das polícias militares, torcedores dos times que protestam com faixas nos estádios, crianças que ficam sem merenda, etc..

Esperemos que os deputados mais sensatos, menos inclinados a aventuras políticas e mesmo os que receiam perder bases eleitorais em seus estados, se sensibilizem com a possibilidade do país entrar em convulsão social, caso Dilma caia, mesmo sem ter cometido crimes. O recado está sendo e será dado no domingo.

Mas outro fato ocorreu, este de leitura um pouco mais complexa.

O vice presidente, Michel Temer teve uma gravação sua de cerca de 14 minutos vazada não se sabe se intencionalmente ou não.

Nessa sua fala, Temer já se posiciona como mandatário supremo da Nação e até já adianta, mesmo que de maneira um pouco velada, algumas medidas de seu futuro governo como privatizações, sacrifícios da população e outras.

Embora garanta que não interromperá programas sociais (para ele o Bolsa Família durará ainda alguns anos), não há como confiar nas palavras de um traidor. Afinal, traidor trai.

Não se sabe o que Temer pretende com esse áudio.

Se foi um vazamento não proposital, ficam claras aqui sua soberba e seu mau caráter.

Não há como prever a reação da população e até mesmo da opinião da classe média que deseja o fim do governo Dilma.

Não há como não voltar àquele ano de 1985 quando FHC, líder nas pesquisas de opinião à prefeitura de São Paulo e munido de grande vaidade e soberba, chegou a se sentar na cadeira de prefeito e posar para fotos dos jornais. A população ficou indignada e deu seu voto a Jânio Quadros que, ao assumir, perante a imprensa desinfetou a cadeira.

Se as pessoas que verdadeira e ingenuamente acreditavam que tudo era por causa do combate à corrupção, resolverem repudiar a atitude de Temer e juntarem-se ao movimento que defende a democracia, no domingo teremos a maior manifestação de que já tivemos notícia e o golpe será definitivamente enterrado.

Agora, se Temer vazou propositalmente o áudio, não há como saber o que ele pretende.

Como ingênuo e neófito ele não é, em alguma coisa ele pensou.

Porém, se ele imaginou posar de estadista e se apresentar como o homem capaz de unir a Nação neste momento, apressando-se em trair a presidenta e tentando sentar-se na cadeira antes que ela dela se levante, acaba de fazer uma trapalhada (como aquela carta) e dar um tiro no próprio pé.

De qualquer forma, aos 75 anos, Michel Temer, que poderia passar esquecido pela História como um vice presidente apagado, o que seria bom para ele, será lembrado como um golpista, mentiroso e traidor.


Afinal, se Joaquim Silvério dos Reis não traísse Tiradentes, seu nome não constaria nos livros de História.

Aqui, matéria com o áudio de Temer

Fernando Castilho
No Análise e Opinião

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