17 de abr de 2016

Papo-cabeça


– Sabe quem nos parecemos? Aqueles personagens que passam o tempo inteiro esperando o Godote.

– Esperado quem?!

– O Godote.

– Quem é o Godote?

– Da peça do Brecht. Esperando Godote.

– Em primeiro lugar, não se diz Godote. A pronúncia certa é Godô.

– Godô? O cara é francês?

– Quem?

– O Brecht.

– O autor da peça não é Brecht. É Beckett. Que, como qualquer pessoa minimamente informada sabe, era americano.

– Desculpe minha ignorância. Desculpe minha desinformação. Desculpe minha existência.

– Bom, se você vai ficar sentido só porque...

– Sentido, eu? Nós, os primitivos, não ficamos sentidos. Quem fica sentido é gente fina. Gente bem informada...

– Está bem, está bem. Já tivemos nossa briga da semana. Vamos pedir mais dois chopes e mudar de assunto.

– Não, você não vê? Estas brigas são o nosso significado. Nosso assunto é sempre este, minha ignorância e a sua sapiência. Sua classe e a minha rudeza de espírito. Por isso que eu venho a estas nossas reuniões semanais. Para desempenhar meu papel. Para ser humilhado pela sua cultura superior, semana após semana após semana. Como os dois personagens de Esperando Godot...

– Acho que são três.

– O quê?

– Os personagens de Esperando Godot. São três.

– Viu só? Mais uma vez, você me expõe como um semiletrado. O que mais uma pessoa minimamente informada deveria saber sobre Esperando Godot? Vamos, me arrase.

– É uma peça difícil. Você não tinha a obrigação de saber tudo sobre ela.

– Obrigado, obrigado. Estou me sentindo menos burro.

– O significado da peça não é claro. Nem pra mim. O que simbolizam os três personagens em cena? Godot seria Deus, que os três procuram inutilmente?

– O que ele diz, quando chega?

– Quem?

– O Godot.

– O Godot nunca chega. Tudo se passa num cenário neutro, vazio, simbolizando a ausência de Deus. A peça poderia se passar até numa mesa de bar, com os três personagens numa conversa absurda, sem sentido.

– Ou dois personagens, esperando a chegada de um terceiro.

– Que nunca chega. Mas a conversa não para. A conversa é eterna.

– Lembra da última briga que nós tivemos?

– Claro. Foi na semana passada.

– A questão era, o que fazem os vaga-lumes de dia?

– Não chegamos a nenhuma conclusão.

– Mas na semana que vem tem mais.

Luís Fernando Veíssimo

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