20 de abr de 2016

Os tais isentões e o verniz democrático do golpe


Um golpe não é. Ele vai sendo. Exatamente por isso que a disputa deste momento é tão ou mais importante do que a corrida pelos votos da semana passada cujo ápice foi a noite de domingo. O que está em jogo agora é a narrativa dos acontecimentos, o que vai ficar para a história.

Uma parte do jornalismo está escandalizada com o fato de Dilma Rousseff ter denunciado que o Brasil vive um golpe de Estado. E que a atitude de seu vice foi de conspiração e traição.

Há uma agonia em relação a essa tese por quem participou desse processo eivado de ilegalidades. Porque se ela prevalecer seus atores terão para sempre tatuadas em suas testas e em suas vísceras a marca dos conspiradores.

Da mesma forma que um golpe não é, ele vai sendo, essa marca também não surge assim tão rapidamente. Ela vai aos poucos se cristalizando até se tornar algo enorme. Os que ainda hoje conseguem disfarçar, verão aos poucos histórias reveladas que não lhe permitirão dizer que tal processo foi democrático.

A disputa simbólica sobre os dias de hoje é mais importante do que o próprio rumo que nossa história vai tomar nos próximos meses, porque a possibilidade de o governo Temer-Cunha ser um fiasco é tão grande que amanhã muitos dirão que sabiam da tragédia, mas que não havia outro caminho.

É preciso repetir à exaustão que não há crime e que não há qualquer tipo de responsabilidade da presidenta que possa vir a justificar um impeachment. Que o que se fez foi pegar a primeira tese disponível na prateleira do golpismo para buscar uma justificativa que pudesse ser utilizada para destituí-la.

A tentativa de legalizar o crime que está sendo cometido contra a democracia nesta ação kafkiana promovida por uma justiça seletiva e uma mídia sem nenhum tipo de limite ético, no entanto, não se dá apenas pelo discurso da direita clássica.

Há uma turma que se comportou neste processo como se houvesse uma disputa e não uma ruptura institucional.

Esses são tão ou mais perigosos.

Quem mandou a moça andar de vestidinho curto? Quem mandou a Dilma se misturar com essa gente?

A culpabilização da vítima na política não é diferente de em outros campos.

Jango foi por muito tempo tratado como responsável pelo golpe de Estado que o Brasil viveu em 64. Não eram poucos os que diziam na década de 70 e 80 que se não fosse pela sua incapacidade de reação os militares não teriam implementado a ditadura.

Allende era tratado quase como um traidor por parte de uma suposta esquerda no Chile e só nos últimos anos que foi tendo sua história e dignidade resgatada.

Hoje como ontem haverá gente que buscará nos equívocos políticos governamentais a justificativa para o golpismo. Suas análises que parecem simplistas vão ganhando força no senso comum e criam um muro de legalidade para o que precisa ser denunciado.

E vão transformando todos as disputas globais e toda as forças que atuam para que uma ruptura dessa magnitude possa vir a ser operada num país com a importância do Brasil apenas num jogo de sete erros.

A narrativa desses dias precisa ser disputada com todas as forças e para todos os lados. Não só para derrotar o discurso da direita clássica, mas também o de uma direita envergonhada que se utiliza da fantasia da isenção.

Na prática, a narrativa midiática precisa mais dessa novidade sociológica que veio a se denominar de “isentões,” para aliviar a sua barra, do que da de falcões a lá Bolsonaro e sua tropa.

Sem os tais isentões ficaria muito mais difícil disfarçar. É essa gente que garante verniz democrático ao que está acontecendo no Brasil.

Renato Rovai

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