7 de abr de 2016

Na contramão

Nenhuma surpresa em que um chefiado por Eduardo Cunha proponha no seu relatório parlamentar o impeachment da presidente da República. Em certos tipos de organização, a desobediência causa represálias duras: a lei interna está acima da lei convencional.

Não por outro motivo, de início Cunha rebateu com uma recusa seca a ordem do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, para que instale na Câmara uma comissão de impeachment também do vice Michel Temer. Mas será uma anormalidade pessoal se Cunha, à margem da promessa, não estiver maquinando uma operação típica: criar a comissão sobre Temer com ares de quem o faz à revelia. E o faz não por temor ao risco que o ministro lhe apontou na terça (5). Há melhor motivo.

Na contramão das interpretações unânimes, a esperteza de Cunha por certo percebeu que a comissão anti-Temer, além de não atrapalhar o impeachment da presidente, pode resultar no presente definitivo para suas ambições. Se Dilma cai, uns poucos empurrões bastam para fazer Temer acompanhá-la. O vice assinou, no exercício da Presidência, quatro créditos suplementares nas mesmas condições dos utilizados para a acusação a Dilma. E se os dois são afastados, a faixa presidencial tem destinação definida: ornamentará a "barriga de prosperidade" que Eduardo Cunha já ostenta, com a dupla autorização brasileira e suíça.

Na reação automática, Eduardo Cunha prometeu um recurso ao Supremo contra a ordem do ministro Marco Aurélio. Bem, há recursos e recursos. Ainda assim, o assunto voltaria ao tribunal e a eventual derrubada da ordem salvaria Temer, ao menos nesse caso. O que também pode se dar, em princípio, por convocação dos colegas para o tema pelo próprio ministro Marco Aurélio, que não se presume tenha adotado visão mais do que jurídica, em sua decisão. Mas pode não haver recurso, nem a ida ou derrubada do assunto aos colegas de Marco Aurélio.

Por falar nisso, há no Supremo um pedido do procurador-geral da República para destituição do presidente da Câmara, lembra-se? O Supremo não disse sim nem não. O que é um modo de dizer não. Ou sim para a presidência de quem o procurador-geral chamou de delinquente. Ou mais.

É do jogo

Cada jornal e cada TV tem a sua contagem dos contrários e dos favoráveis ao impeachment, na comissão da Câmara, segunda (11). Mais do que esse desmentido mútuo, uma velha prática de congressistas desacredita todas as previsões numéricas feitas de público por políticos: é próprio dessas previsões esconder o jogo, ou auxiliariam o adversário. Se os políticos da Câmara não souberem nem desse truque, não há mais nada a fazer.

Os indícios confiáveis são outros, mas no noticiário não se encontra nem sequer uma referência a algum deles. Desfrute-se o suspense. Que vai durar muito ainda, caso o relatório contra Dilma seja aprovado agora. Na ida, depois, para votação do plenário, a divisão de forças é outra, sem relação com a atual na comissão do impeachment. Se aprovado outra vez, virá o processo no Senado. Sobre o qual Renan Calheiros discorda dos calendários encontráveis nos jornais. Prevê que se estenderia até lá para o final do ano.

Silêncio

Na visita ao Brasil, o presidente Xi Jinping informou o governo brasileiro de que a China tem US$ 52 bilhões para projetos e aplicações no Brasil. Até hoje nada se ouviu do Brasil para propor aos chineses.

Janio de Freitas
No fAlha

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