21 de abr de 2016

Morcegos

Na sua recente visita à Argentina, o presidente americano Barack Obama prometeu que iria abrir os arquivos da participação dos Estados Unidos na repressão aos contestadores da ditadura naquele país. Se o Baraca vai conseguir cumprir suas promessa antes do fim próximo do seu governo, enfrentando o cipoal protetor dos segredos classificados da CIA e do Pentágono, é o que veremos. Se acontecer, histórias tenebrosas voarão de dentro dos arquivos abertos, como morcegos de cavernas negras. Boa parte da repressão com apoio americano na Argentina e em outros regimes ditatoriais da região coincidiu com a ditadura brasileira, apoiada do mesmo jeito, o que significa que muitos dos morcegos em revoada nos dirão respeito.

Com a abertura dos arquivos, talvez se saiba mais sobre a famigerada Escola das Américas, onde militares americanos treinavam militares latino-americanos em técnicas de contrainsurgência, com especialização em tortura. Não se sabe se o exame final do curso incluía pau de arara ou afogamento. O fato era que a Escola das Américas, além de formar experts em repressão, criava um espírito de corpo entre seus formandos, que depois se provaria valioso, pois as ações de contrainsurgência geralmente eram feitas em conjunto, desrespeitando-se fronteiras, como no caso a Operação Condor.

Os irmãos Koch são multimilionários americanos com intensa atividade política. São, possivelmente, o maior exemplo mundial do poder do dinheiro sobre a política. Fazem e desfazem candidatos e também ignoram fronteiras, inclusive morais. Chama atenção a quantidade de sites na internet ligando os Kochs ao Brasil, principalmente agora, quando o destino do petróleo, o maior interesse dos irmãos, está em jogo — embora, nesta confusão, poucos se lembram disso. Os Kochs também têm a sua Escola das Américas, versão civil, para doutrinar jovens empresários e líderes continentais, inclusive desfilantes brasileiros. Felizmente, tortura não parece estar no currículo.

Alguém da nossa brava imprensa investigativa deveria dar uma espiada nessa ligação Koch-Brasil. Eu não. Eu quase não estou mais aqui.

Luís Fernando Veríssimo

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