12 de abr de 2016

Folha de S. Paulo: enviesamento, manipulação e ficção

No intrincado e sensível “xadrez” da política nacional, num jogo jogado mais intensamente desde o começo de 2014, o monopólio da imprensa tradicional vem oferecendo exemplos robustos de enviesamento, manipulação e ficção. Sim, embora este último seja território exclusivo das artes, o jornalismo-ficção da Folha de S. Paulo tende a ocupar um destaque nesse rol que remete aos primórdios da Jornalismo e da profissão, em 1609.





Há uma semana, o diário paulista defendeu em editorial de Capa (ed. 03/042016), a renúncia dos atuais ocupantes do Palácio do Planalto (Dilma Rousseff e Michel Temer). O editorialista reconhecia, pela primeira vez, que “embora existam motivos para o impedimento, até porque a legislação estabelece farta gama de opções, nenhum deles é irrefutável”. Na ausência de provas irrefutáveis, a Folha investiu na “renúncia”; como não há hipótese de isso acontecer, registrou, quatro dias depois (edição de 07/04/2016) qual a nova agenda e horizonte que deve guiar sua cobertura: a anulação das eleições pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Concomitante a mais um vazamento seletivo da Lava Jato, das dezenas à profusão, a Folha tascou em sua manchete: “Empreiteira afirma ter financiado campanhas de Dilma com propina” (veja imagem). A prova? Bem isso é mero detalhe, basta a palavra do delator: “A informação consta da delação premiada do ex-presidente da empresa Otávio Marques de Azevedo e foi sistematizada por ele em uma planilha apresentada à Procuradoria-Geral da República” (Fonte: http://migre.me/ttWS0).

Ora, os dados disponíveis no TSE, abertos à consulta pública, indicam que a Andrade Gutierrez doou aos partidos, nas Eleições 2014, um total de R$ 62,6 milhões. Os partidos que receberam acima de R$ 1 milhão foram, pela ordem: PSDB (26,1 milhões); PT (14,6 milhões); PMDB (12,6 milhões); PSB (2,5 milhões); PR (1,7 milhão); PTB (1,3 milhão) e DEM (1,3 milhão). No entanto, esse levantamento não está na reportagem, tampouco outro levantamento possível — a doação individualizada por candidato. Como separar o dinheiro “sujo” (fruto de propina) de recursos “legais”? Questão de fé...

De volta ao começo, 1609...

“Por muitas décadas, o jornalista foi essencialmente um publicista, de quem se esperavam orientações e interpretação política (...). O que importava mesmo era o artigo de fundo, geralmente editorial”, escreve o professor e pesquisador Nilson Lage na obra “A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística”. O professor se refere à imprensa dos primeiros tempos, no começo do século XVII, em Estrasburgo e Londres, berço da nascente sociedade industrial.

O vagar errático e antidemocrático da Folha de S. Paulo, sob o olhar político de quem a dirige hoje, confirma esse “percurso do acidente”: em 1964 a empresa se posicionou da mesma forma e apoiou, desde o primeiro momento, o golpe militar que levou o país a quase 30 anos de retrocesso político. O jornal até se apresentou, a partir do movimento das Diretas Já, como “democrático, plural e de rabo preso com o leitor”. Esse tempo é passado. Importa agora depor Dilma Rousseff, a qualquer preço, nem que isso signifique a ruptura do Estado Democrático de Direito.

Senão como entender a Capa da edição de 08/04, cuja manchete é um primor de manipulação, já avançando celeremente para o território da literatura: “60% da Câmara diz ser favorável ao impeachment” (veja imagem). Quando V. Excia, o leitor, vai conferir o texto, depara-se com a seguinte informação: “Foram ouvidos 291 deputados, do total de 513”. A mágica está numa “metodologia” inaplicável nesse tipo de sondagem e o próprio texto denuncia a fraude: “Todos os 513 deputados e 81 senadores que compõem o Congresso Nacional foram contatados pelo Datafolha por telefone. Foram ouvidos 291 deputados e 68 senadores, e os resultados foram ponderados segundo as bancadas dos partidos, com o pressuposto de que a filiação é uma variável importante na definição do voto” (Fonte: http://migre.me/ttZ2V).

Claro como água de poço sem poluição: como só ouviu 291 dos 513 deputados federais, ou seja apenas 56% daqueles que votarão na admissibilidade ou não do impeachment da Presidente da República, não há nenhum fundamento estatístico e/ou metodológico que sustente tal afirmação. Alegar “filiação partidária” como variável para “totalizar” a intenção de votos num quadro pleno de “infidelidade” partidária é zombar da inteligência do público.

Oh, sim, os números foram produzidos pelo infalível instituto de pesquisa do Grupo Folha, o Datafolha...

Avançando para a ficção...

O limite entre Jornalismo e literatura, do ponto de vista das teorias fundantes, sempre foi balizado pela diferença conceitual entre verdade e verossimilhança. O primeiro, estaria no DNA do jornalismo como forma de conhecimento social; já o segundo, que remete à “Poética” do filósofo grego Aristóteles, é pedra angular da criação literária.

Rompendo barreiras e “inovando”, a Folha de S. Paulo avançou inegavelmente para este espaço, o da ficção. Basta ler e tentar entender a manchete da edição de 09/04, sábado: “Queda no preço da energia e crise fazem inflação recuar”.

Um rápido exame no texto, no primeiro parágrafo (lide) encontramos a explicação precisa: “A inflação medida pelo IPCA, índice oficial do país, caiu pela metade em março, com a baixa do preço da energia elétrica no mês, resultado da mudança da bandeira tarifária da conta de luz de vermelha para amarela. (...) Trata-se do menor índice para o mês de março desde 2012 (0,21%)” (Fonte: http://migre.me/ttXsP).

O/a caríssimo/a leitor/a não encontrará, em nenhuma linha do texto, qualquer menção ao fator “crise” como freio à inflação. A reportagem principal do Caderno Mercado (assinada pelo jornalista Brunos Villas Bôas) é equilibrada, analítica e de excelente qualidade — e está completamente dissociada da manchete.

O jornalista consegue, por exemplo, explicar ao leitor leigo em economia o impacto da redução da tarifa de energia elétrica, insumo essencial em qualquer sistema produtivo: “A principal contribuição para a desaceleração da inflação veio da conta de luz, que teve deflação de 3,41%. O motivo foi a mudança da bandeira tarifária da conta de luz, que passou de vermelha para amarela. Sozinho, o item energia elétrica ajudou a reduzir em 0,13 ponto percentual a inflação no mês”.

Este caso lapidar explicita que a Folha apresenta o mesmo fato (queda da inflação) a partir de dois locais de fala totalmente distintos: o do repórter, que foi a campo, apurou, pesquisou os dados, ouviu fontes especializadas e fez seu relato intelectualmente honesto e equilibrado; e o do editor de Capa, mais realista e reacionário que seu patrão, e produziu uma manchete que não tem sustentação nos fatos, mas apenas na ficção e na narrativa pró-impeachment (ou seria pró-golpe?).

Para abrir a semana decisiva do calendário político — a sessão da Câmara que deve votar o impeachment está marcada, em princípio, para o dia 17 de abril, próximo domingo — a Folha recorre ao velho truque da sondagem de opinião feita pelo Datafolha.

A “pesquisa” é, na realidade, um estudo não probabilístico (por cotas e conveniência), que parte de um pressuposto falso: a de que haveria prova inconteste de crime de responsabilidade por parte da Presidente Dilma Rousseff. Na ficção metodológica do Instituto Datafolha, “foram realizadas 2.779 entrevistas em 170 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos”. Nenhum instituto de pesquisa, no país, tem a lista de eleitores do Tribunal Superior Eleitoral, portanto é totalmente falso falar em “margem de erro” ou “grau de confiança”. Simples assim.

O resultado traduz, em números, a vitória dos setores de oposição ao atual governo, dentre os quais podemos incluir a mídia monopolista: “61% defendem o impeachment de Dilma, e 58%, o de Temer” (veja imagem).

Na hierarquia da informação enviesada, o parceiro Eduardo Cunha merece um registro bem secundário, na mesma Editoria (Poder): “Três em cada quatro brasileiros defendem cassação de Eduardo Cunha”. Nenhuma chamada na Capa, nenhum editorial em defesa da “moralidade e contra a corrupção”. Afinal, o ainda presidente da Câmara é réu no Supremo Tribunal Federal e contra ele há provas “incontestes” de corrupção (para usar uma expressão da própria Folha).

No momento em que se vislumbra um desenlace, pelo menos para esse processo de impeachment (Cunha anunciou que se não passar vai “admitir” outros tantos que recebeu), é importantíssimo refletir sobre o papel que o monopólio de mídia cumpriu no sensível e complexo cenário político.

Para além do ativismo político, a meu juízo, totalmente avesso ao que seria seu compromisso público, a imprensa (a partir das ações dos principais grupos — Editora Abril, Folha, Estadão, Band, Globo etc.) cumpre um temerário papel cujo legado, à democracia e às próximas gerações de jornalistas pode ser devastador, do ponto de vista da credibilidade do Jornalismo e da profissão. A ver os desdobramentos mais profundos dessa contenda que tem na imprensa um jogador destacado, linha de frente, no time pró-impeachment.

Samuel Lima, Professor do Departamento de Jornalismo da UFSC; pesquisador do objETHOS e do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO/UFSC).
No Manuel Dutra

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