12 de abr de 2016

Em Brasília, não existe acaso; tudo é ardilosamente planejado

De bobo e de anjo, Michel Temer nada tem. Portanto, ele não
se engana, planeja.
Foto – site Republica dos Bananas.
Acredite quem quiser que Michel Temer errou ao usar o WhatsApp e, sem querer, vazou o discurso que preparou para o caso de a Câmara dos Deputados, no próximo final de semana, aprovar a admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O vice-presidente pode ser tudo — falso, interesseiro, dissimulado. Só não é bobo. Se o fosse, não estaria aonde está hoje. É verdade que ele se considera um “vice-decorativo”. Agora, porém, conquistou a pecha de “vice-golpista”.

Mesmo que a oposição consiga 342 votos para recomendar ao Senado a abertura de um processo de impeachment, isto não significa que haverá impedimento da presidente. Logo, não existe razão para o vice anunciar à nação que está preparado para ocupar o cargo. Se a admissibilidade do processo passar, ele ainda continuará na função de “vice-decorativo”. Portanto, longe da cadeira que almeja.

Se hoje já não é certo que a Câmara admita o processo — a oposição sabe que não tem ainda o número de votos necessários — mais difícil ainda é prever se e quando os senadores aceitarão processar a presidente, condição sine qua non para o afastamento dela e a ascensão de Temer. Logo, discurso algum seria necessário, ou cabível, nos próximos dias.

Na Lapa, milhares de pessoas reuniram-se para ouvir Lula e gritar que “não vai ter golpe”.
O recado que ele alega, com um cínico sorriso nos lábios, ter sido fruto de um erro, tudo indica, foi bem planejado, por ser necessário.

Embora trancado no palácio Jaburu e no gabinete de vice, no Anexo II do palácio do Planalto, político experiente, ele deve estar bem informado do que se passa nas ruas. Como o que aconteceu na noite desta segunda-feira (11/04) no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro.

Ali,como mostraram televisões (TV Brasil, em especial), mídias alternativas e o próprio Tijolaço na reportagem Um mar de gente na Lapa, 38 ratos em Brasília. Quem vencerá?, do qual reproduzimos a foto acima, uma multidão se reuniu não apenas para ouvir Luiz Inácio Lula da Silva, mas para demonstrar mobilização para evitar o golpe via impeachment. Da mesma forma que estão conscientes de que não pode haver impedimento da presidente por não existir crime de responsabilidade contra ela, os manifestantes não acreditam em um governo de Temer.

A corroborar minha tese de que tudo foi ardilosamente planejado, Mônica Bérgamo — a quem devo parte do meu primeiro Prêmio Esso — publica na sua coluna desta terça-feira (12/04), na Folha de São Paulo, duas notas interessantíssimas:. Uma abre a coluna, a outra vem mais abaixo:
Temer planeja lançar campanha pró-impeachment nas redes sociais

“Michel Temer (PMDB-SP) deve se reunir nesta terça (12) com assessores para discutir campanha nas mídias sociais a favor do impeachment patrocinada pelo PMDB. Uma das ideias é a de divulgar ainda mais o áudio em que o vice-presidente fala como se o impedimento já tivesse sido aprovado, e que foi distribuído na segunda (11) a um grupo de parlamentares da legenda pelo próprio vice, por WhatsApp”.

(…)

“A TABELA

Os aliados de Temer calculavam que, no domingo, o impeachment contava com 321 votos no plenário da Câmara. Ainda faltariam 21 para sacramentar o afastamento de Dilma”.
Eleitores de Lula e Dilma, ou mesmo aqueles que neles não votaram mas dos seus governos se beneficiaram ou por eles foram conquistados, sabem que Temer assumindo — e, junto, os partidos atualmente na oposição — boicotará, ou mesmo eliminará, conquistas promovidas pelos governos petistas. Certamente irá dizer da necessidade de cortar gastos do governo para garantir superavit fiscal. Será a volta do neoliberalismo, em que políticas sociais são massacradas em favor do pagamento de juros de dívidas, muitas delas duvidosas.

Ainda que se diga que nas praças estão apenas militantes petistas — o que nem sempre pode se considerar verdade — as mobilizações crescem e motivam a militância, justo nos dias que antecedem a decisão da Câmara admitir ou não que a presidente deve sofrer o impeachment.
A mobilização, portanto, pode levar à pressão junto aos parlamentares, inclusive com cobranças da manutenção das políticas sociais conquistadas. Temer tenta barrar isto.
Se o impeachment não passar, a oposição irá apostar suas fichas no
trabalho do ministro Gilmar Mendes, que estará na presidência do TSE,
 para cassar a chapa Dilma/Temer. Caindo um, caem os dois.
Única chance — O vice-presidente sabe que sua chance de assumir é esta. Caso não passe o impeachment de Dilma, a oposição, com o beneplácito e a cooperação do futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, jogará suas fichas na cassação da chapa Dilma/Temer.

Apelarão para as delações premiadas da Operação Lava Jato nas quais empreiteiros “confessam” ter feito doações à campanha da presidente com recursos, provenientes de superfaturamento e/ou propinas pagas para conquistarem obras públicas. Não é algo fácil de provar — que o dinheiro das doações está diretamente ligado às maracutaias. Mas, caindo um, caem os dois.

Conhecendo-se Gilmar Mendes como se conhece, o mais provável é que ele tente levar essa discussão e o julgamento do caso para o ano de 2017 pois, assim, ele garante ao próximo presidente a eleição indireta, por este Congresso que todos nós conhecemos. Única chance palpável hoje de os tradicionais partidos oposicionistas — PSDB, DEM, PPS e o próprio PMDB — conseguirem retornar ao Palácio do Planalto. Independentemente do nome que apresentarem, como mostrou a última pesquisa Datafolha.

Portanto, a Temer interessa, nestes próximos dias, evitar que a oposição perca votos no plenário da Câmara. Ele sabe que não adianta preparar discurso antes de garantir os votos. Como se constata pelo teor do “discurso vazado” — que pouparei aos leitores reproduzir, mas aos interessados indico a reportagem do JornalGGN de Nassif — Temer se diz governo de salvação nacional em áudio antecipado — o que ali está é um desmentido a todos que o acusam de ser uma ameaça às conquistas sociais. Acreditará nele quem quiser, mas a sua cartada é justamente para evitar perda de votos por pressão popular e tentar conquistar os que lhes faltam.

Com isso, fez uma jogada de risco em busca de salvar a admissão do impeachment, primeiro passo para sonhar com a cadeira de presidente da República, a qual, pelo voto, jamais conquistaria. Mas, ao mesmo tempo, sabe que a pecha de golpista lhe acompanhará pelo resto da vida. Pode, inclusive, estar antecipando sua aposentadoria. Acontecendo, só lhe restará se dedicar à mulher Marcela.

* Uma satisfação aos leitores. Este artigo começou a ser escrito na noite de segunda-feira (11/04) mas o sono e o estresse falaram mais alto e eu tive que deixar para terminar nesta manhã de terça-feira(12/04). Isso me possibilitou incorporar ao mesmo as notas da brilhante  e bem informada Mônica Bérgamo, publicada na Folha de São Paulo.

Marcelo Auler

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