24 de abr de 2016

Cuidado que mancha

“Cuidado que mancha” era uma das três ou quatro frases mais usadas pela mãe da gente. Mais do que “come tudo que espinafre faz bem” e “não esquece de baixar a tampa”. Manchar uma camisa ou, crime ainda mais hediondo, uma camisa nova, era imperdoável. A reprimenda da mãe incluía uma lista de consequências do nosso desleixo, cada uma mais carregada de culpa. Uma camisa estragada, para sempre, irrecuperável. Horas gastas na escolha, compra, estocagem e manutenção da camisa jogadas fora. Você não tinha noção do que provocara com seu comportamento desastrado. Horror, horror.

É verdade que o escândalo durava pouco. A camisa maculada nunca estava totalmente perdida. Voltaria como pano de prato ou coisa parecida. Mas nossa culpa não acabava. Vivíamos entre dois medos, o de manchar outra camisa — “Meu Deus, ele se sujou com caqui, mancha de caqui nunca sai!” — e o de ser obrigado a usar babador, como um bebê. E o trauma permanece, até hoje. O medo da mancha. O terrível medo da mancha que nunca sai.

Tomemos o caso do deputado X. Um político importante, com uma carreira exemplar, mas que, por estes dias, começou a ter uma sensação estranha, a sensação de ter uma mancha na frente da sua camisa. A camisa podia estar coberta por paletó e gravata, ou por fraque e condecorações, e ele sentia a mancha no peito. E ouvia a voz da sua mãe dizendo “Menino porcalhão!”.

O deputado X foi procurar um psicanalista e contou o que estava lhe acontecendo.

— Acho que tem a ver com a mãe, doutor.

— Tudo tem a ver com a mãe.

— Ela me criticava muito, porque eu sujava a frente da camisa, quando comia.

— “Cuidado que mancha.” Conheço bem.

— A sua mãe dizia a mesma coisa, doutor?

— 80% da minha clientela é de traumatizados por essa frase.

— E o que provoca essa sensação de culpa, doutor?

— Você deve ter feito alguma coisa que, inconscientemente, lhe deu culpa. Algo que manchou sua vida. A voz que você ouve é a da sua mãe, repreendendo-o através dos tempos.

— Mas eu não fiz nada para me sentir culpado.

— Tem certeza?

— Bom, eu estava em Brasília, na semana passada, e votei pelo... Hum, deve ter sido isso. Essa mancha sai, doutor?

— Sai, sai. No Brasil, nenhuma culpa dura muito.

Luís Fernando Veríssimo

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