2 de abr de 2016

Crise de narrativa


Entre as vertiginosas crises que vivemos, talvez a maior seja de ordem narrativa. O que a literatura de ficção e o cinema apresentam como questão estética, o Brasil hoje experimenta na carne.

Quando a imprensa troca jornalismo por engajamento político e juízes oferecem comícios, parece não existir farol fora do proselitismo radioativo que contaminou nossos ares. Viramos caricaturas num romance picaresco, vivendo uma cornucópia de tretas, perdidos como Cândido sem reconhecer seu Pangloss em trapos — e aqui há muitos, a gosto do freguês.

Entre Voltaire, a Coração Valente e o Patinho da Fiesp, mudaram as formas épicas, mas seguimos com o mesmo pendor ao fanatismo cego e ignorante. Nesta luta de crendices obscuras, perdemos algo mais que a simples objetividade.

Como diz Adorno em seu ensaio sobre a "Posição do narrador no romance contemporâneo": "o subjetivismo não tolera mais nenhuma matéria sem transformá-la". No capítulo "Brasil, março de 2016", as fronteiras entre relato e mistificação foram completamente diluídas.

Aqui, a crise de representação da arte pós-moderna se entrelaça com a crise de representatividade política — a entropia onde "vale tudo". E a filosófica crise do real e da verdade objetiva (Bauman) confunde-se com nosso pavor secreto de uma crise do Real — ele, o Real moeda, cuja estabilidade, aliás, surge de uma abstração numérica e de uma sigla sem significado.

Território limítrofe

É nesse território limítrofe que nossos muitos narradores tentam, a todo o momento, manipular e cooptar leitores — que logo também farão parte do mesmo exército de narradores não confiáveis. Em primeira, em segunda e, a depender do veículo, em terceira pessoa, por trás de uma bancada de TV.

Tal romance grotesco, realidade baseada em fatos reais, talvez seja divertido de ler em algumas décadas, mas é nada agradável para nós, seus figurantes.

A inesgotável disputa entre suas versões nos paralisa num labirinto de ambiguidades. Não confiamos no que lemos, ouvimos, vemos e, principalmente, não confiamos mais uns nos outros.

Somos Brutos e Cássio esfaqueando Júlio César e, num susto, acordamos para perceber que somos Júlio César ensanguentado nas escadarias do Senado — onde, num último estertor, nos reconhecemos no olhar de nossos algozes.

O boato é regra, retórica virou sinônimo de engano — o relato deixa de ser "réplica da vida, caso a vida fosse feita só de palavras" (Piglia), "os fatos já nos chegam acompanhados de explicações" (Benjamin) e eu mesmo, neste momento, estou tentando bater a sua carteira. Ou passar a mão na sua bunda.

"Queria que tudo explodisse e todos virassem bichos", me escreve a amiga com o coração apertado. Eu também.

Acontece tudo, nada acontece, "mas daqui do alto do Copan vai dar pra ver bonito", penso, mas não respondo.

João Paulo Cuenca
No fAlha

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