12 de abr de 2016

Aliel diz que grupo marcou reunião com Temer e perguntou o que ele queria


Aliel Machado foi a grande surpresa da comissão de impeachment. O deputado chegou a dizer que votaria pelo impeachment, mas na hora, parecendo até emocionado, votou contra. Em entrevista exclusiva ao blog, diz que estava dividido: por motivos políticos, acha que deveria votar a favor. Por razões jurídicas, era contra. O que o levou a decidir foi o medo de dar uma “falsa legitimidade a Temer” e ajudar Cunha a se livrar da cassação.

Veja declaração em vídeo que o deputado gravou após a sessão:



Aliel diz que foi procurado por pessoas ligadas a Temer que perguntaram “o que ele queria, do que precisava”. Eduardo Cunha disse que ele nem andaria mais em Ponta Grossa. “Talvez nem deputado eu volte a ser. Mas estou tranquilo, sou jovem, posso trabalhar em outra área. Mas nunca tinha sentido muita tristeza, dias antes da votação. Porque eu tentava arranjar justificativa para votar a favor e não conseguia”, disse.

Veja a entrevista:

Quantas mensagens o sr. recebeu no celular desde ontem?

Ah, não sei. Botei no modo avião meu celular. Agora é um momento de muita paixão dos dois lados. De muito ódio,muita raiva. E as pessoas não têm uma percepção, têm uma ideia que puseram na cabeça e colocaram como objetivo. E com todo o respeito que tenho pela posição das pessoas, acho que não é assim. mas estou recebendo muitas mensagens, inclusive muitas favoráveis.

O sr. parece ter mudado de ideia em cima da hora. O que aconteceu?

Eu estava com muita dúvida. A parte política me dizia para fazer uma coisa e a parte jurídica me dizia para fazer outra, na minha cabeça. E estava com  muita dúvida. Se fosse escolher eu me absteria. Mas é um voto morno. Ia me abster na comissão e no plenário. Mas se abster no plenário ia parecer que eu estava ajudando o governo, que eu não tinha coragem. Quando o partido tomou posição pela admissibilidade eu pensei: “arranjei uma desculpa, vou votar com o partido”. Cheguei a dizer para a Record que a admissibilidade não decidia. E a cada  minuto a gente vendo as coisas acontecerem. E teve duas coisas que me tocaram bastante. Um vídeo do Bolsonaro, antigo, e a gravação do Temer no final da tarde.

E quanto eu percebi, mesmo sendo oposição, o processo jurídico de fato — fui presidente da Câmara de Ponta Grossa, lidei muito com orçamento — e juridicamente não tem crime de responsabilidade na peça. Por mais que o contexto seja grave, por mais que esteja praticamente comprovado o desvio de campanha, meu medo era dar uma legitimidade que não existe para o Temer assumir a Presidência. É ajudar o Cunha, que com a entrada do Temer tenho certeza absoluta que se livra da cassação. Tem um acordo com os partidos. E isso me tocou bastante.

O que está na rua, esse movimento de indignação, essas pessoas que não aceitam a corrupção, isso não pode parar. E eu acredito que não vai parar, vai fortalecer as investigação. Ao contrário do PT nunca achei que é golpe. Falei no meu discurso que o PT errou e vai pagar, está pagando. Tem muita gente presa. E acho que tem que ir pra cadeia mesmo. Agora o voto era sobre aquele relatório. Pedalada fiscal sequer existe um termo jurídico. Não é crime. Eu sei que lá na frente vai ser dito que esse não era o caminho legal. E quem está buscando a legalidade quer que o Brasil supere isso com maturidade. E eu não me senti à vontade para votar em algo ilegal.

O sr. acha que essa decisão prejudica sua candidatura a prefeito em Ponta Grossa?

Eu não pensei na eleição. Se pensasse na eleição votaria pelo impedimento. Mas eu seria só mais um. Prefiro não ser só mais um. Lá em Ponta Grossa teve deputado estadual que foi à rua pelo impeachment, isso é oportunismo. Estou de consciência limpa. Se a consequência do que fiz ajudar, ótimo. se for pensar só em eleição não acaba com a corrupção, não vai ser justo. Não é a primeira vez. Sou deputado e me colocaram como pré-candidato a prefeito pelas pesquisas. Se eu mudar isso eu perco a minha essência. Eu fiz 61 mil votos me Ponta Grossa. Nunca ia ser deputado se não fosse por Ponta Grossa. Mas não estou traindo meus princípios. Talvez nem deputado eu volte a ser. Mas estou tranquilo, sou jovem, posso trabalhar em outra área. Mas nunca tinha sentido muita tristeza, dias antes da votação. Porque eu tentava arranjar justificativa para votar a favor e não conseguia.

A gente sabe que o governo está tentando conseguir votos. O sr. foi procurado?

Fui procurado pelos dois lados, pelo Temer e pelo governo. Por deputados. E falei: “estou indeciso, minha decisão vocês só vão saber na hora”. E me ligavam durante esses dias: “Olha, vem aqui, vamos conversar, você não quer falar com o Temer?” “Não”, falei, “acho que não”. “Não, fale com ele.” Chegaram a marcar reunião pra mim. Ontem [segunda] me mandaram: “O sr. pediu uma reunião com o Temer, ele vai lhe atender agora”. “Não, não não. Eu não pedi reunião nenhuma. Eu não vou.” Antes da votação. E do governo alguns deputados do governo, não o Palácio. Do Paraná, inclusive. O Enio veio conversar comigo. Disse que sabe que eu sou oposição, mas que é muita grave. Eles sabem que eu entrei com ação no tribunal pedindo cassação da chapa, digo que a Dilma e o Temer não têm mais legitimidade de ficar. Que tinham que renunciar. Eles me veem meio como o PSol aqui… Mas teve só conversas de parceiros, que vinham me perguntar.

Mas o Temer está articulando assim tão abertamente?

Vergonhoso. E de fato está fazendo. Ele foi para o Rio de Janeiro conquistar os deputados do PMDB. E foi para outros estados. E quem está operacionalizando isso para ele é o Cunha. Eu tive uma conversa com o Cunha na semana passada. Porque eu fui na sala dele porque tinha um grupo querendo entrar no plenário e ele não autorizava. Fiquei puto da cara e fui lá. O Cunha falou: “Você não vai mais andar em Ponta Grossa. O Temer vai ser presidente, você vai ver. Ele estava numa reunião com o Paulinho da Força e o Rodrigo Maia do DEM. Eles coordenando, articulando e chamando os líderes partidários, os deputados, convencendo. O Mendonça Filho veio me pedir, do DEM: “Você tem que ser a favor”. Vários deles. Os caras que estão a favor do impeachment estão montando o governo com o Temer, eles vão assumir o comando de tudo. DEM, PSDB, todos esses caras. É o jogo aqui.

Mas chegaram a oferecer algo?

Não, nenhum dos dois lados. Não iam fazer. Como eu não tinha tomado decisão ficava mais difícil, acho. Falaram que iam ajudar, que o governo ia atender, o que que eu queria. “O que que você quer? O que que você acha que você precisa, pra te ajudar? Você é candidato a prefeito, tem que votar a favor e tal…” Isso o pessoal do Temer, né? Mas não chegaram a me oferecer nada. O governo nem me procurou.

Com isso o sr. já adiantou seu voto no plenário?

Sou contra.

O partido se mostrou surpreso com seu voto. O sr. acredita que haverá punição?

Que punição? O partido liberou os deputados. Eu consultei os filiados no Paraná e deu 40% das pessoas da Rede contra o impeachment no Paraná. Mas o resumo é que o que me preocupa é o programa do Temer e dar força para o Cunha. E outra coisa: dos 38 deputados que votaram pelo impeachment, 35 têm processo na Justiça. É essa turma que está defendendo.

Rogério Galindo
No Caixa Zero

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