3 de abr de 2016

A longa ficha suja do PMDB de Santa Catarina, o primeiro a romper com o governo

Dário Berger (esq.), do PMDB de SC, no rompimento do partido com o governo
O primeiro diretório do PMDB a tramar o rompimento com o governo Dilma Rousseff foi o catarinense. Há 16 dias. Foi uma espécie de teste antes do grande ato.

O PMDB continua sendo o partido mais forte de Santa Catarina — mesmo após a morte do principal líder, o senador Luiz Henrique da Silveira em 2015 —, e pretende engolir o Estado, elegendo 250 prefeitos. Para as outras siglas sobrariam 45 municípios.

O discurso para a vitória é moralista. O partido investirá no resgate da decência política como manobra ao eleitorado. As campanhas se mostram exitosas. A população que marcha em verde e amarelo não percebe que Temer integra o governo. Aliás, os peemedebistas debandaram. Temer não.

A maquiagem também é capaz de camuflar salientes evidências. O PMDB é acusado de saques à Petrobras. Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, é o homem do meio bilhão e o presidente do Senado, Renan Calheiros é alvo de três inquéritos no STF ligados à Lava Jato.

Honradez se prova com o abandono. No dia 14 de março eles pediram as contas.

O primeiro golpe do partido em âmbito estadual foi articulado pelo senador Dário Berger e pelo vice-presidente Temer, parceiros no fortalecimento da imagem da sigla.

Na ocasião, Djalma Berger, irmão do senador, deixou a Eletrosul, a maior estatal federal do Sul do país. Um dia depois se arrependeu. Quis o cargo de volta. Era tarde.

“Amigos, acabamos de tomar uma decisão importante. Ouvimos o clamor do nosso estado e do nosso povo. Estamos juntos por um Brasil melhor. PMDB/SC é o primeiro a desembarcar do Governo Federal”, publicou o senador Dário Berger

O paradoxo é que os irmãos Berger (Dário, Djalma e Dilmo) nunca estiveram à sombra da corrupção. Ao contrário, listam volumosas denúncias. O senador integra a alta cúpula do PMDB, é vice-presidente do partido em Santa Catarina e um dos principais articuladores de Temer na Caravana da Unidade, que deseja passar a faixa presidencial para um correligionário ao forçar o impeachment.

Formado em administração de empresas pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Dário começou a vida política com 320 votos. Foi eleito suplente de vereador em São José, na Grande Florianópolis, onde foi prefeito mais tarde, entre 1997 e 2004.

Antes de terminar o mandato renunciou à prefeitura de São José para concorrer como prefeito em Florianópolis (a 15,3 km de distância). Venceu duas vezes. Prefeito por 16 anos foi acusado cinco vezes por improbidade administrativa.

Em março de 2009, um parecer do procurador Regional Eleitoral de Santa Catarina Claudio Dutra Fontella pediu sua cassação. A decisão considerou que ele infringiu a Constituição ao ser eleito no município de São José, trocar de domicílio eleitoral e ser reeleito como prefeito em Florianópolis, sendo que a lei permite somente uma reeleição.

Dário manteve-se no cargo. Não foi a primeira vez que teve problemas com a Justiça Eleitoral. Em 2004, a Junta Comercial do Estado de Santa Catarina provou que o político era sócio de quatro empresas, não duas conforme tinha declarado.

Um delas, a SLC, dona da Auto Viação do Vale, foi investigada por irregularidades nas licitações dos transportes. A empresa recebeu mais de meio milhão, com dispensa de licitação, da secretaria de Estado da Fazenda.

Em 2003, os Berger já faturavam R$ 29 milhões ao ano com seus negócios.

Mas foi em 2007 que seu nome espantou as manchetes nacionais. Foi citado como uma das lideranças da Máfia Verde, negociação de licenças ambientais para empreendimentos imobiliários em áreas de proteção.

E em 2009, a Casvig, empresa dos irmãos Berger, foi contratada para serviços de vigilância da Secretaria Estadual de Educação. A contratação foi considerada ilegal.

Os Berger foram acusados de favorecerem seus interesses privados. A empresa sugou dos cofres públicos R$ 140 milhões. A prefeitura também contratou sem licitação a empresa Palco Sul Eventos LTDA, comprometendo-se a pagar R$ 3,7 milhões para a construção de uma árvore de Natal. Entretanto, a Palco Sul ilegalmente terceirizou os serviços a outras empresas, viabilizando o projeto da árvore com apenas R$ 1,696 milhões, confirmando o superfaturamento da obra.

Por esse motivo, a primeira semana de janeiro de 2010 começou tumultuada. O Secretário de Turismo Mário Cavallazi pediu exoneração do cargo pressionado pelo alvoroço natalino. Poucos meses depois, o MP/SC ajuizou ação por remanejo de R$13 milhões do orçamento municipal de diversas secretarias para pagamento da árvore de Natal e de um show que não aconteceu. Para esses entretenimentos foram gastos quase R$ 6 milhões.

No ano seguinte, Dário foi condenado por improbidade administrativa pela construção da Avenida Beira-Mar Norte de São José. A obra foi superfaturada e houve fraudes em licitações. O político foi condenado a devolver R$ 463 mil para prefeitura.

Deste episódio até 2015, Dário Berger protagonizou um escândalo por ano. Contratos ilegais, milionários, máfia dos pardais, bloqueio de R$ 2, 5 milhões da sua conta pelo MP e condenação pelo Tribunal de Contas do Estado a devolver aos cofres públicos o dinheiro gasto com o show do tenor italiano Andrea Bocelli, que não aconteceu.

Descobertas diversas fraudes na contratação do cantor, estão envolvidos o governo de Santa Catarina, na gestão de Luiz Henrique da Silveira, padrinho político de Dário, a prefeitura da Florianópolis e o desaparecimento de R$ 2,5 milhões dos cofres públicos.

Apesar do histórico, Dário, como outros articuladores do PMDB, promete jogo limpo na política para angariar as massas. Lembrando que Michel Temer prometeu a presidência da Eletrosul para um peemedebista e derrubou o experiente engenheiro Márcio Zimmermann em troca de fortalecimento político.

Dário, seu aliado, pressionou para que o presidente da estatal fosse o irmão. Depois, tomou o cargo de volta e retribuiu os favores. Ontem, ao lado de Cunha bradou “Brasil pra frente, Temer presidente”.

Os irmãos Berger

Djalma foi prefeito de São José entre 2009 e 2012, deputado federal e em julho do ano passado assumiu a Eletrosul. É denunciado como integrante da Máfia Verde, por desviar milhões da estrutura viária de Florianópolis, quando era secretário de Obras, na gestão do seu irmão, por obras fantasmas e superfaturamentos.

Outra episodia marcante da sua carreira foi às vésperas do pleito, no início de outubro de 2012, ele incentivou 200 famílias a invadirem um terreno da Imobiliária Suvec, em São José. Prometeu assentamento em troca de votos. Após as eleições, entretanto, as famílias foram despejadas violentamente. Mais de 200 policiais militares participaram da expulsão. Os desabrigados formaram atualmente a Ocupação Contestado.

Em 2013, o juiz Roberto Marius Fávero condenou Djalma a oito anos de inelegibilidade por ter usado a máquina pública em benefício de sua campanha.

Dilmo é considerado o administrador dos bens da família Berger.

Também foi indiciado pela Polícia Federal por corrupção passiva na Operação Moeda Verde. Em 2010, foi sua vez de passar por cima da natureza.

Mas, após dois anos, ele e a esposa Cristine foram condenados a recuperar o dano ambiental provocado pela construção da mansão dentro do mar, na praia de Coqueiros, em Florianópolis. Além da demolição, deveriam pagar multa de R$ 100 mil.

A obra foi aprovada por dois órgãos da prefeitura. A Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente) e a Susp (Secretaria Municipal de Urbanismo e Serviços Públicos). Na época, o prefeito da Capital catarinense era Dário.

No ano passado, Dilmo foi preso por peculato eletrônico na Operação Trojan. O nome é referência aos programas maliciosos que entram disfarçados de legítimos nos computadores. O esquema envolveu 24 funcionários da Prefeitura de Florianópolis, que cancelavam débitos de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), reduziam o valor venal de imóveis, alteravam as alíquotas de cobrança do ITBI (Imposto sobre a Transmissão Onerosa de Bens Imóveis) e da concessão de CND (Certidão Negativa de Débitos) e em troca recebiam propina. Eles também transferiam imóveis públicos (prédios, praças, terrenos) para empresas e pessoas físicas.

A residência no nome de Dilmo também teve o valor alterado. Segundo a investigação, Dário Berger era prefeito de Florianópolis na época da fraude.

Aline Torres
No Desacato

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