13 de abr de 2016

A cara do PMDB

 Piauí | Edição 45 | Junho DE 2010 



Quem é, de onde veio e o que quer o chefe do maior partido brasileiro e candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff

O deputado Michel Temer, do PMDB, recebeu, em meados de abril de 1998, um jovem advogado, cuja família conhecia de longa data, para um almoço na residência oficial da presidência da Câmara dos Deputados. Mal haviam começado a comer quando o rapaz criticou a nomeação do senador Renan Calheiros para o Ministério da Justiça. “Não sei como o presidente Fernando Henrique pôde fazer uma escolha tão desastrosa”, disse. Temer olhou com um pouco mais de interesse o interlocutor e, sem alterar a expressão e a voz, respondeu: “O Renan foi escolhido pelo PMDB; portanto, é uma escolha minha.” E levantou-se logo em seguida, alegando que precisava dar um telefonema. Não voltou. Um mordomo pediu ao moço que se retirasse, dizendo que Temer estava ocupado e não poderia continuar o almoço. O PMDB é isso: lealdade.

Passados sete anos, Renan Calheiros chamou Temer ao seu gabinete. Era uma conversa crucial para o deputado. Ele se lançara candidato à presidência da Câmara pela segunda vez. Precisava do apoio do companheiro de partido, que tinha ascendência sobre um grupo de parlamentares e era respeitado pelo governo petista. O senador garantiu que diria ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que Temer era a escolha do PMDB. Naquela mesma noite, Temer soube que, na reunião com Lula, ao invés do seu nome, Calheiros defendera o de seu principal oponente: Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil. Com o apoio do Planalto, o deputado do pcdob elegeu-se presidente da Câmara. O PMDB é isso: traição.

Michel Temer chegou à presidência do partido no início de 2007. Pouco depois, a jornalista Mônica Veloso trombeteou que tivera um affaire e uma filha com Renan. Também revelou que quem pagava a pensão da criança, em dinheiro vivo, em nome do senador, era a empreiteira Mendes Júnior. Parlamentares de vários partidos entraram com um pedido de cassação de Renan, então presidente do Senado. Temer marcou um jantar na casa do senador e, assim que entrou, apertou a mão que o apunhalara e disse: “O PMDB não vai te abandonar.” Renan teve que sair da presidência do Senado, mas o partido garantiu os votos que lhe impediram a cassação. O PMDB é isso: reconciliação.

Na maior crise do governo Lula, a do mensalão – o esquema de compra de votos de parlamentares em benefício do Planalto, que veio a se tornar público em 2005 – o PMDB negociou o apoio ao presidente e mais que dobrou o seu plantel de ministros, que passaram a ser cinco. Em 2007, numa reunião de cinquenta minutos entre Michel Temer e Lula, o partido passou a integrar oficialmente o governo. Em troca, levou mais dois ministérios e dezenas de cargos de direção em empresas estatais. O PMDB é isso: fisiologismo.

O PMDB é o grande partido brasileiro. Tem a maior bancada da Câmara, com 91 deputados, e a maior do Senado, com dezoito senadores. Governa nove estados, entre eles o Rio de Janeiro, que respondem por quase 30% do Produto Interno Bruto nacional. Controla 1 201 municípios, inclusive seis capitais, e tem 3 500 vereadores e 2 milhões de filiados. Os seis ministérios hoje sob o seu comando, somados aos cargos em estatais e fundos de pensão em seu poder, administram cerca de 250 bilhões de reais ao ano.

Depois de fechar o Congresso, extinguir todos os partidos e cassar centenas de parlamentares, em 1966 a ditadura militar enquadrou a política institucional em duas agremiações: a Aliança Renovadora Nacional, a Arena, e o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB. Como não podiam fazer campanha eleitoral, nem oposição parlamentar, ambas serviam de adorno institucional ao regime. Em 1970, a votação nos candidatos do MDB foi tão pífia que o partido quase não conseguiu ter representação no Congresso. Seus integrantes se dividiram em duas correntes internas. A majoritária era a dos “moderados”: os que apoiavam o regime militar tal como ele era, para evitar que se tornasse mais ditatorial. A outra era a dos “autênticos”: aqueles que, por meio de um bem calibrado palavrório liberal, se propunham abrandar a ditadura.

Nas eleições de 1974, na esteira da crise do petróleo e do fim do “milagre econômico”, o MDB canalizou o descontentamento generalizado. Saiu das urnas com três quartos das vagas do Senado e dobrou a bancada na Câmara. Para dividi-lo, a ditadura permitiu, cinco anos depois, a criação de novas organizações. Mas obrigou que todas tivessem a designação “partido” antes do nome. O regime supunha que a corrente moderada criaria um novo agrupamento, e os autênticos ficariam com os restos da agremiação extinta. Tancredo Neves liderou a criação do Partido Popular. E o deputado Ulysses Guimarães assenhorou-se do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB.

O arranjo não prosperou porque Tancredo Neves percebeu que o Partido Popular não tinha futuro e bandeou-se para o PMDB. Com o apoio de Ulysses e de uma parte do regime, Tancredo foi nomeado presidente da República por um colégio eleitoral que, apesar de toda a retórica democrática, era uma instituição ditatorial. Tancredo Neves* não tomou posse porque adoeceu na véspera da cerimônia. Operou-se e agonizou por 39 dias antes de morrer. A Presidência foi parar nas mãos do vice José Sarney, que sustentara com denodo os militares e deles se beneficiara largamente. Com Sarney no Planalto e Ulysses Guimarães no Congresso, o PMDB chegou ao poder. Com mão de gato, o partido logo mostrou o que viria a se tornar: o ocupante de cargos-chaves no Estado, que usaria para se associar a empresários e alimentar o caixa e a clientela que garantiriam a sua reprodução eleitoral.

O PMDB no poder foi um desastre total. Em cinco anos de governo, teve doze ministros. Dominou o Congresso que se autointitulou Constituinte e redigiu a Carta em vigor. Patrocinou pacotes econômicos que provocaram hiperinflação, desemprego em massa e o desmonte de serviços públicos já precários. Com a popularidade no fundo de um abismo, Sarney saiu do Planalto sob vaias. Ulysses Guimarães, o líder histórico do partido, candidatou-se a presidente e obteve um vexatório sétimo lugar, com 4,4% dos votos.

Apenas três anos depois, no entanto, o partido derrotado nas urnas voltava ao Planalto. Dessa vez por meio de Itamar Franco, o senador do partido que fora vice do presidente destituído, Fernando Collor. A partir daí, o PMDB compôs com todos os governos. Ficou com dois ministérios no primeiro mandato do ex-emedebista Fernando Henrique Cardoso, e com quatro no segundo. Nas eleições de 2002, repetiu a coreografia da divisão interna para melhor manter o mando: a banda do Senado apoiou a candidatura petista; a da Câmara, a tucana. Só no segundo mandato de Lula o partido aderiu com homogeneidade ao governo do PT.

O PMDB não lança candidato próprio à Presidência desde a derrota de Orestes Quércia, em 1994*. O sociólogo Bolívar Lamounier acha que isso aconteceu porque o partido “perdeu todos os seus líderes de envergadura como Tancredo, Ulysses e também Montoro e Mario Covas, que foram para o PSDB” e não conseguiu se renovar na passagem de uma geração para outra. “Sem uma liderança nacional, o partido ficou na mão dos feudos regionais e dos clientelistas”, disse Lamounier em sua casa, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. “O PMDB não tem um projeto nacional e não sei se quer ter. Sua briga é por cargos.”

Um dos melhores postos da República é o de vice-Presidente. É ele que o PMDB quer ocupar a partir do ano que vem. Pela legislação eleitoral, o tempo nos programas de campanha na televisão e no rádio é dividido segundo o tamanho das bancadas partidárias. E, mesmo tendo direito à maior fatia da propaganda eleitoral, o PMDB decidiu não disputar diretamente o Planalto. Preferiu que o presidente da sigla, Michel Temer, fosse o candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff.

Nem Lula nem Dilma queriam Temer. Consideram-no ardiloso e voraz em demasia quando reivindica posições para o partido, e uma nulidade em termos eleitorais. Para agradar o patronato, Lula convenceu Henrique Meirelles, que é filiado ao PMDB, a continuar presidente do Banco Central, até que a possibilidade de ser vice se tornasse palatável ao partido. O PMDB não se entusiasmou. O presidente tentou também que o PMDB lhe oferecesse uma lista de três nomes, dos quais ele selecionaria um para vice. Temer não topou.

Na história republicana, 20% dos vices viraram presidente antes do término do mandato do titular. Itamar Franco, por exemplo, estava desgarrado do PMDB e não participou do governo Collor. Passou a fazer muxoxos quando o Presidente perdeu popularidade, e só foi para a oposição quando a destituição de Collor se tornou inevitável. Do ponto de vista de Fernando Henrique Cardoso, não houve vice melhor do que Marco Maciel, do Partido da Frente Liberal: ele entrou mudo e saiu calado do cargo.

Lula conheceu José Alencar durante uma visita à fábrica do empresário, a Coteminas. Segundo relembrou várias vezes, encantou-se com ele e logo pensou em fazê-lo seu vice. A chapa com ele e Alencar, no raciocínio de Lula, simbolizaria à perfeição a ideia de governo que o petista pretendia: a da conciliação de classes, da aliança entre trabalho e capital.

José Alencar estava no Partido Liberal, o pl, uma legenda evangélica de aluguel. Houve uma reunião, na casa do deputado Paulo Rocha, do PT, em Brasília, para acertar a aliança entre eles. Ela ocorreu no dia 19 de junho de 2002. De um lado, estavam presentes Lula, José Dirceu e Delúbio Soares, o tesoureiro da campanha do PT. De outro, José Alencar e o deputado Valdemar Costa Neto, chefe do pl. Três anos depois, quando estourou o mensalão, Costa Neto contou que, no encontro, pediu 20 milhões de reais para que o partido apoiasse Lula e Alencar fosse o seu vice. Com a bênção de Alencar, acabou aceitando 10 milhões de reais. Durante a campanha, o candidato a vice pôs 2 milhões de reais do próprio bolso na mão de Delúbio.

No cargo, José Alencar ajudou o governo. As suas críticas às altas taxas de juros, por exemplo, foram discutidas previamente com Lula, que o incentivou a fazê-las. Assim, o presidente pressionava indiretamente o Banco Central a reduzir os juros. Mais recentemente, Alencar defendeu que o Brasil tenha armas nucleares. Não se tratou de uma boutade inconsequente, feita por quem não tem poder de fato, e sim da expressão do pensamento de um setor do governo e do PT. Por fim, a divulgação estrepitosa, em horário nobre e na primeira página de jornais, do tratamento de saúde do vice, e da bonomia com que enfrenta o câncer, lhe granjearam a admiração da opinião pública.

É bem o contrário do que ocorre com Michel Temer. Ele não tem imagem pública definida. No máximo, é reconhecido como um político profissional e anódino. No interior da política oficial, porém, é considerado a encarnação do pantagruélico aparelho peemedebista. O historiador Luiz Felipe de Alencastro chamou a atenção para um problema em potencial do consórcio PT-PMDB. “Uma presidenciável desprovida de voo próprio na esfera nacional, sem nunca ter tido um voto na vida, estará coligada a um vice que maneja todas as alavancas do Congresso e da máquina partidária peemedebista”, disse Alencastro. “É uma chapa de alguém que sabe tudo e tem sob seu comando a maior bancada do Congresso, com alguém que vai começar a aprender.” Acrescente-se que Dilma não tem ascendência sobre o PT. Ela ficou no Partido Democrático Trabalhista, o PDT de Leonel Brizola, até 2001. E nele desenvolvia uma política de cunho provinciano-familiar: eleger seu marido governador do Rio Grande do Sul.

Perguntei a Alencastro, que é titular da cátedra de história do Brasil na Universidade Sorbonne, se Lula e o PT, por trás de Dilma, não poderiam estabelecer um equilíbrio de forças. “Ninguém sabe onde Lula estará no próximo governo e o PT não tem liderança no Parlamento”, disse o professor. O único que poderia assumir a liderança do partido, em sua opinião, seria José Genoíno. Mas o deputado se enfraqueceu demais quando um assessor de seu irmão foi flagrado com dólares na cueca. “O Genoíno não tem mais força para virar o jogo,” completou.

Autor de O Trato dos Viventes, Alencastro não acha que Temer possa ser um perigo, numa eventual Presidência de Dilma Rousseff, apenas no caso de ela ter de se afastar do cargo. A ambição do PMDB, avaliou Alencastro, poderia levar Temer a lançar mão de uma proposta tentada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso: a instauração do regime parlamentarista. “Não digo que o Temer vá fazer isso, mas, num contexto de crise, com o controle que ele tem do Congresso, é possível uma manobra de votação de uma emenda constitucional, instaurando o parlamentarismo”, comentou. “No final dos anos 90, Temer defendeu a tese de que o Congresso tinha poderes para isso.” Nesse cenário, o vice poderia vir a ser nomeado primeiro-ministro.

Michel Temer me recebeu pouco antes do almoço, na residência oficial da presidência da Câmara. Cumprimentou-me com o sorriso metálico que é seu traço de expressão mais eloquente. Não parecia à vontade, suas mãos tremiam um pouco. Sentamo-nos na sala, cuja enorme porta de vidro se abre para o jardim e a piscina. Temer fala baixo, nunca usa gíria e se expressa num português que parece escrito previamente. Antes de iniciar uma frase, costuma acrescentar um “Você sabe?”, e levanta o dedo indicador.

Perguntei-lhe o que achara do artigo de Luiz Felipe de Alencastro. “Ele faz uma pregação de que é um risco eu ser vice”, disse. “Eu, claro, não vejo dessa maneira. A minha presença só fará aumentar a interlocução do governo com o Congresso.” Afirmou que não será “um vice que atrapalha”. E rechaçou a tese de que sua influência no Congresso deixaria Dilma Rousseff vulnerável: “A ex-ministra conhece muito bem o país e os seus problemas por força dos cargos que ocupou.” O PMDB no governo, sustentou, dará maior tranquilidade ao Planalto. “Nós garantimos a estabilidade do real e, no governo Lula, apoiamos os programas sociais”, completou. “Cito isso para me opor à tese dos que dizem que o PMDB é fisiológico.”

Temer tem 69 anos, é magro e mede 1,70 metro. Ele tem o hábito de engatar a ponta dos dedos e puxar as mãos como se quisesse separá-las. Sua postura é sempre ereta, e parece não relaxar nem quando se senta numa poltrona. Quando o entrevistei, vestia terno preto e gravata de seda azul. A camisa não tinha uma ruga, apesar de ele ter passado a manhã em reuniões no Congresso. “Você sabe, sou uma pessoa formal”, avisou sem que eu perguntasse. “Disseram que eu preciso mudar meu jeito, que sou muito cerimonioso. Mas como? Tenho inveja de quem faz blague. Eu não sei fazer isso. Se fizer, vai ser um desastre. Não sou eu.”

Indaguei se fora educado para se comportar dessa forma. Disse que não. Enganchou as mãos novamente, puxou-as e arriscou uma explicação: “Você sabe, eu tinha um irmão que era muito formal e elegante no trato com as pessoas. Ele serviu um pouco de modelo. As pessoas gostavam dele. Eu acho que não se pode confundir cerimônia com antipatia.”

O deputado é o caçula de oito irmãos. Seus pais, os libaneses March e Miguel Elias migraram para o Brasil em 1930. O casal, com três filhos nascidos no Líbano, foi morar numa chácara, em Tietê, no interior de São Paulo, onde beneficiavam arroz e café. A diferença de idade de Temer e os irmãos mais velhos era de mais de vinte anos. Quatro deles foram estudar em São Paulo, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Sozinho na chácara, que ficava a certa distância da cidade, ele lia para passar o tempo. “Pegava os livros na biblioteca da cidade e lia de tudo, romances e poesias”, disse. Também adorava cinema. Aos 9 anos, viu um filme sobre a vida de Chopin que permaneceu para sempre em sua memória: À Noite Sonhamos. “Fiquei tão impressionado quando uma gota de sangue pingou no teclado enquanto Chopin tocava uma Polonaise, que pedi para o meu pai me deixar ter aulas de piano.” O pai, no entanto, o matriculou num curso de datilografia. “Eu dedilhava as teclas da máquina de escrever como se fossem de piano”, disse, rindo. “Com isso, aprendi a datilografar usando os dez dedos.”

Um de seus irmãos, Elias, sabendo do interesse do caçula pela leitura, costumava lhe trazer de São Paulo o jornalzinho do centro acadêmico da faculdade. Num dos exemplares, vieram publicados dois poemas. Um se chamava “A mulher que eu não queria” e o outro “Filosofia de um diretor de circo”. Os dois tinham sido escritos por um estudante chamado Antônio Malanga. “Gostei tanto daqueles versos que os decorei pelo resto da vida.” Pedi que ele me recitasse um trecho. Ele começou:

Possui os cabelos sedosos

Uma boca perfeita, um primor,

E trazia nos olhos formosos,

Mil promessas e sonhos de amor.

E prosseguiu, por outros dez versos. Depois engatou com a segunda poesia, de outros catorze versos, que terminava assim:

Mas por ser tão medonha e teimosa

Numa jaula, fechei-a.

Nesse dia ficou sendo uma fera famosa

Ficou sendo a mulher que eu queria.

Adulto, Michel Temer foi apresentado por acaso ao autor das poesias que sabia de cor. “Comecei a declamar os seus poemas, e ele ficou muito espantado”, contou o deputado. “E me disse que tinham sido as duas únicas coisas que havia escrito na vida.”

Ele também estudou direito na Universidade de São Paulo. Já no primeiro ano de faculdade, em 1959, foi eleito segundo-tesoureiro do centro acadêmico. A diretoria foi convidada para almoçar pelo então governador paulista, Ademar de Barros, o do lema “Rouba, mas faz”. O chefe de gabinete do governador o apresentou e informou o cargo de Temer. O governador se interessou. “‘Segundo-tesoureiro? Então você é o homem do caixinha? Senta aqui ao meu lado.’ Eu fiquei vermelho, morto de vergonha”, contou o deputado.

O escritório do advogado Homar Cais fica no 1º andar de um prédio na rua Haddock Lobo, nos Jardins. Sua sala é decorada com fotos emolduradas dos amigos de faculdade. Cais e Temer dividiam o mesmo quarto na república em que moraram durante os estudos. Uma das diversões era jogar água da janela em quem passava na rua. “Será que eu posso contar essa história? Será que não fica chato?”, perguntou-me apreensivo. Disse-lhe que não, que todo jovem já tinha feito isso na vida. “Mas e jogar água na Seleção Brasileira?”, retrucou Cais. Quando a Seleção desfilou por São Paulo, comemorando a vitória na Copa de 1962, um grupo de estudantes, Temer entre eles, fizeram canos com jornais, encheram de água e despejaram nos jogadores.

No começo dos anos 60, o movimento estudantil começou a virar à esquerda. Na faculdade da Arcadas, porém, o pensamento liberal continuou a imperar. Em 1962, Temer lançou-se à presidência do centro acadêmico pelo partido Academia Independente e perdeu. No ano seguinte, foi indicado candidato à presidência do Diretório Central dos Estudantes da usp. José Serra, o presidente da União Nacional dos Estudantes, integrava a Ação Popular, organização católica de esquerda que era contra a chapa de Temer. Um militante da ap, o hoje deputado tucano Arnaldo Madeira, foi incumbido de convencer Temer a abrir mão da candidatura, para que os estudantes se unissem em torno de um nome. Temer contou que, na sua primeira eleição para a presidência da Câmara, em 1997, Madeira e Serra o procuraram e falaram que votariam nele. “Nós vamos te apoiar porque estamos em débito com você: te tiramos a presidência do dce,” disse-lhe Serra.

Formado, Temer montou um escritório de advocacia com Celso Bandeira de Mello, Dalmo Dallari e Geraldo Nogueira. Não apoiou nem resistiu ao golpe de 1964. Passou a dar aulas de direito constitucional na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a puc, em 1968. Lançou um livro de direito constitucional que é até hoje um dos mais usados em cursos universitários. E se aproximou de Franco Montoro, um professor da puc ligado ao mdb. Quando Montoro foi eleito governador, em 1982, nomeou-o procurador-geral do estado. “Eu tinha 41 anos e achava o máximo para a minha carreira ter mil procuradores sob o meu comando”, disse. “Estava feliz naquela posição.”

Numa manhã de 1984, Montoro lhe telefonou e avisou: “Você vai ser meu secretário de Segurança.” Temer gelou: seria o terceiro secretário de Segurança em apenas um ano de governo. Argumentou que não entendia nada de direito penal e sequer sabia onde ficava a Secretaria. A resposta de Montoro foi: “Passa lá na casa do José Carlos Dias [então secretário da Justiça] e acerta tudo com ele.” Temer ficou uma semana no cargo, sem saber o que fazer.

“Eu não conhecia nada, não tinha contatos”, contou. “O clima estava pesado, com crise entre as polícias civil e militar.” Pensava em desistir quando, num fim de semana, viu na televisão uma entrevista de Gianfrancesco Guarnieri, secretário municipal de Cultura. O ator explicava como se adaptara ao terno e à gravata. “Guarnieri falou: ‘A vida é uma representação e você tem que representar o papel que a vida te entrega'”, contou Temer. “Aí eu pensei: a vida me deu o papel de secretário de Segurança. Se renunciar agora, o governo Montoro pode cair e eu me destruo.”

Na segunda-feira seguinte, Temer chamou o delegado-geral da Polícia Civil e o comandante da Polícia Militar e começou a exercer seu papel. “O Montoro me disse que não era para eu ser policial, e sim para unir as polícias. A coisa da hierarquia funcionava, meu jeito cerimonioso impunha certo respeito. O comandante e o delegado se entrosaram, e entrosaram as duas polícias.”

José Oswaldo Vieira era o delegado-geral e hoje está aposentado. Perguntei-lhe se Temer tinha sido crucial para unir as polícias. Vieira respondeu que, “infelizmente, existe até hoje essa dicotomia entre as polícias civil e militar, e isso não é razoável, não é inteligente.”

Quando Temer era secretário de Segurança, 400 estudantes da Universidade de São Paulo ocuparam o prédio da reitoria, no centro da cidade. Temer conversou com o comandante da Polícia Militar, que lhe disse que a única maneira de invadir o prédio seria entrando pelo telhado. Era uma operação arriscada, com consequências imprevisíveis. Ele decidiu ir falar com os estudantes. “Bati à porta, eles abriram e me olharam com espanto”, lembrou. Argumentou com eles que a Justiça havia expedido mandado de reintegração de posse. Como estavam num estado de direito, eles teriam que cumprir a lei. Os estudantes fizeram uma assembleia que durou mais de seis horas. Temer ficou esperando. Ao final, concordaram em desocupar o prédio, desde que o governador recebesse uma comissão. “Liguei para o Montoro e ele concordou”, contou. “Saímos todos juntos cantando o hino nacional.”

Tempos depois, um grupo de sem-teto invadiu um prédio do estado. Montoro lhe telefonou logo cedo. “Temer, vai lá nos sem-teto e faz a mesma coisa que fez com os estudantes.” Temer riu ao lembrar da história. “Eu falei: ‘Governador, uma coisa é negociar com estudante, outra, com sem-teto. Entrar num prédio ocupado desse jeito não é brincadeira.'” Montoro insistiu: “Vai lá, que não tem perigo, não”, contou o deputado imitando a voz e o jeito suaves de Montoro. Acabou indo junto com um grupo da Secretaria de Promoção Social. Após horas de conversa, os sem-teto concordaram em ir para abrigos.

Michel Temer gostou da política e se candidatou a deputado em 1986, pelo PMDB de Franco Montoro. Não se elegeu, mas entrou na vaga de suplente e, dois anos depois, participou da Constituinte. Ao final do mandato, voltou para a Secretaria de Segurança, dessa vez a convite de um quercista, o governador Luiz Antônio Fleury Filho, logo após o massacre no Carandiru, onde 111 presos foram assassinados pela Polícia Militar. No final dos anos 80, José Serra, Fernando Henrique e Mario Covas romperam com Orestes Quércia e o PMDB, ao qual acusaram de leniência com a corrupção e o fisiologismo – e fundaram o Partido da Social Democracia Brasileira. Temer ficou com os quercistas. Concluiu que teria mais chance de se destacar permanecendo onde estava. “O PSDB tinha muito cacique”, justificou.

Sua ascensão no PMDB foi rápida. Foi eleito duas vezes líder do partido. Na primeira, em 1995, disputou o cargo com o deputado baiano João Almeida, hoje no PSDB. “Nós começamos a fazer a campanha do Michel, mas ele estava de férias com a namorada, em Trancoso”, contou o deputado federal Geddel Vieira Lima. “Eu liguei e ele me disse para fazer a campanha porque ele estava namorando.” Ou seja, Temer era candidato, mas não queria comprar briga com seu oponente. Depois de eleito, disse a João Almeida que só saíra candidato por insistência da bancada paulista. “O Michel só é ousado nas conquistas amorosas. Na política ele é muito ponderado”, me disse Vieira Lima.

Temer está no seu terceiro casamento. Do primeiro, com Maria Célia, teve três filhas: Maristela, de 40 anos, Luciana, 37, e Clarissa, 35. Casou-se a seguir com Neuza, mas não teve filhos. Depois, teve um “relacionamento estável”, como ele diz, mas não chegou a casar. Na mesma época, namorou uma jornalista, em Brasília, com quem teve um filho, hoje com 10 anos. Dá uma pensão ao menino, mas o vê pouco. Está casado há nove anos com Marcela, mais jovem que ele 42 anos, com quem tem um filho de 1 ano. “O Michelzinho é a minha paixão”, admitiu. Conheceu Marcela, uma jovem loura e esguia, quando ela estava com 18 anos e, ele, 60. Disse que a viu no restaurante do tio dela, durante uma campanha eleitoral, e a achou muito bonita. Recebeu um e-mail dela, cumprimentando-o pela vitória. Temer ligou para a moça e a convidou para sair. “Ela foi com a mãe”, contou o deputado. Quatro meses depois estavam casados.

Em março de 2007, na eleição para a presidência do PMDB, o governo petista apoiou a candidatura de Nelson Jobim, o nome lançado pela bancada do partido no Senado, capitaneada por José Sarney e Renan Calheiros. Ganhou Michel Temer, da Câmara. Numa conversa num café em Brasília, pedi ao ex-deputado Wellington Moreira Franco, peemedebista de longa data e vice-presidente da Caixa Econômica Federal, que explicasse a diferença entre o PMDB-Senado e o PMDB-Câmara. Enquanto saboreava um sorvete de chocolate, Moreira Franco disse que “o Lula compreendeu, depois da tentativa fracassada da eleição do Jobim, que o pessoal do Senado estava vendendo terreno na lua. O Sarney não é PMDB, nem o Renan”, disse. “O Sarney faz um esforço grande, mas toda instituição tem sua cultura. Ele foi obrigado a ser PMDB para ser vice do Tancredo. Mas a relação forte dele era com a Arena.” Inclinou-se sobre a mesa e me falou em tom de confidência: “O Sarney é hábil, é astuto, mas não conhece as bases do partido como nós, da Câmara, conhecemos.”

Eram 13h30 quando Michel Temer me convidou para a mesa de almoço. O cardápio era salada, bife com purê, moqueca de peixe e pirão. Enquanto se servia, contou como se deu a aproximação com Lula. “Logo após a minha eleição para a presidência do partido, o ministro Tarso Genro me chamou para uma conversa com o presidente.” Temer chegou ao Palácio do Planalto acompanhado de mais três integrantes da executiva do partido. Na antessala da Presidência, pediu que o deixassem a sós com Lula por cinco minutos. “Assim que entrei, eu falei: ‘Presidente, quis entrar antes para furar um tumor. Acho que nós vamos acabar fazendo uma grande coalizão, mas não podem ficar mágoas pessoais. Sei que dizem que o senhor não vai com a minha cara e sei que lhe dizem que eu tenho desapreço pelo senhor.'” A reação do presidente teria sido positiva. “Ele foi gentil e me agradeceu por ter esclarecido aquela questão”, disse-me.

Segundo Temer, ele apresentou a Lula pontos programáticos do partido que serviriam de base para o acordo com o governo. “Você sabe, o PMDB tem fama de fisiológico. Não me interessava ouvir o presidente dizer que nos queria no governo e que, para isso, faria mais tantos ministérios. Não estávamos atrás de cargos.”

Os pontos acordados foram bastante vagos: o crescimento do pib a um ritmo anual de 5%, uma tentativa de reforma tributária e a manutenção dos programas sociais. Já a discussão de cargos foi bastante concreta. O PMDB ganhou o Ministério da Integração Nacional, que foi para Geddel Vieira Lima, e o da Agricultura, atribuído a Reinhold Stephanes. A vice-presidência da Caixa ficou com Moreira Franco. A indicação para a presidência de Furnas coube ao deputado Eduardo Cunha, do Rio de Janeiro. Quase uma centena de postos em órgãos de ministérios, estatais e fundos de pensão foram devidamente loteados.

Segundo Temer, desde então a sua relação com Lula só tem melhorado. “Sinto que ele tem grande consideração por mim e eu passei a admirá-lo”, disse. Perguntei o que o fez mudar de opinião. “Ele conseguiu satisfazer o sistema financeiro e, ao mesmo tempo, tirou 20 milhões de pessoas da pobreza”, respondeu. Temer também elogiou a rapidez com que o governo reagiu à crise financeira mundial: “Lula soube aproveitar a crise e levou a classe média ao paraíso com a desoneração fiscal dos automóveis e dos eletrodomésticos.” Outro feito do governo, na sua avaliação, foi a liquidação da dívida com o Fundo Monetário Internacional, o fmi. “Não esqueço a imagem da Ana Maria Jull, representante do Fundo, vindo fiscalizar as contas brasileiras nos anos 80. Era uma humilhação”, comentou.

Alcancei o deputado Geddel Vieira Lima na entrada do plenário da Câmara. Estava afobado: acabara de voltar de uma reunião no Ministério da Integração Nacional, do qual abdicara dias antes para concorrer ao governo da Bahia. Geddel é baixo, gorducho, tem uma cara redonda e sorridente. Vestia um terno verde-claro cintilante. Foi um dos primeiros peemedebistas a aderir ao governo. Nas eleições de 2006, fez campanha na Bahia para o candidato do PT ao governo, Jaques Wagner. “O último a aderir foi o Michel”, contou. “Eu fiz a ponte entre ele e o presidente.” A aproximação, disse, foi lenta porque “o Lula não gostava dele. Achava-o aristocrático. Dizia que ele olhava os outros de cima para baixo. Não é nada disso. O Michel é tímido.”

Uma das resistências do governo ao nome de Temer é a sua forte ligação com o deputado Eduardo Cunha, do Rio – conhecido no Congresso por sua voracidade por cargos e pelas artimanhas que usa para consegui-los. Evangélico, surgiu na política pelas mãos de Paulo César Farias, o tesoureiro de Fernando Collor. Depois, ligou-se ao ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Foi um dos principais artífices para a eleição de Temer a presidente da Câmara. “O Eduardo Cunha tem lá o jeito dele”, disse-me Temer. “Mas ele é competente, trabalhador, dedicado e tem uma inteligência privilegiada. Só recentemente descobri que ele não é advogado, e conhece o direito tanto quanto eu. Toda medida provisória, todo projeto importante o Eduardo Cunha conhece em detalhes.” Admitiu que o colega é malfalado e relativizou a má fama: “Não vou me impressionar com as críticas a ele porque teria que me impressionar com as feitas a todos os outros. Eu administro os conflitos.”

Eram quase 15 horas, quando, sem que fosse anunciado ou aguardado, Eduardo Cunha entrou na residência do presidente da Câmara com o deputado Henrique Alves. Temer ficou um pouco constrangido. Os dois instalaram-se na sala de estar. Pouco depois, um assessor o alertou para um compromisso na Câmara. Temer combinou com os deputados de encontrá-los lá. No carro, a caminho do Congresso, ele me perguntou: “O que eu posso fazer se o Eduardo Cunha aparece aqui em casa? Não deixá-lo entrar? Ele se impõe.” Explicou que um dos motivos do sucesso da sua gestão como presidente da Câmara é deixar a porta aberta para todos os deputados.

A área de interesse de Cunha é a menina dos olhos da ex-ministra Dilma Rousseff: o setor de energia. Com ajuda de Temer, instalou o deputado Bernardo Ariston na presidência da Comissão de Minas e Energia da Câmara. Entre outras atribuições, a Comissão trata da regulação da exploração de petróleo e da construção de usinas elétricas. Cunha controla um grupo de vinte deputados, a maioria evangélicos, com capacidade de infernizar a vida do governo. Para conseguir a nomeação de Luiz Paulo Conde para a presidência de Furnas, por exemplo, ele protelou o que pôde a votação da emenda que prorrogava a cpmf, da qual era relator.

Conseguiu colocar Conde em Furnas, mas se envolveu numa briga com os funcionários e aposentados da estatal por causa do fundo de pensão, o Real Grandeza, que conta com um patrimônio de 6,5 bilhões de reais. O deputado foi acusado de tramar a queda da direção do fundo para poder controlar o seu caixa. O temor dos funcionários era que, sob o comando do grupo de Cunha, o Real Grandeza sofresse os mesmos problemas do Prece, o fundo da companhia de água do Rio de Janeiro, também sob sua influência, que teve um rombo de 153 milhões de reais em 2006.

Eduardo Cunha tem uma explicação singela para as críticas. “Em política não existe lugar vazio”, disse. “Esses comentários são coisa de gente que não trabalha, que tem preguiça e fica com inveja dos que trabalham.” Negou que tivesse qualquer influência no setor elétrico: “A única nomeação que eu fiz foi a de Conde, há três anos, e ele nem está mais em Furnas.” Segundo ele, “nem a Dilma nem o PT têm qualquer resistência ao meu nome. Faço parte da comissão de negociação do PT e do PMDB, onde todas essas questões são discutidas. Existe zero de resistência ao meu nome. Pergunte ao pessoal do PT.”

Perguntei ao deputado José Genoíno o que pensava da aliança do seu partido com o PMDB. “O PT aprendeu na porrada que sozinho não ganha eleição e não governa”, disse-me. “Precisamos de um aliado que tenha força e que ajude a dar estabilidade para o governo.” Genoíno elogiou Michel Temer. “Ele não é trator, não passa por cima.”

Na entrada principal do Congresso, Temer foi cercado por jornalistas que queriam saber sobre o jantar que ele teria, naquela noite, com Dilma Rousseff. “O jantar vai ser às 9 horas”, informou. “Onde?”, quis saber uma repórter. “Não sei onde é a casa dela. Nunca fui lá.” Temer tem a simpatia de deputados de todos os partidos. “Ele fez com que o Congresso voltasse a exercer o seu papel”, disse Miro Teixeira, do PDT do Rio. “Temer negocia, ele ouve”, disse Chico Alencar, do Partido Socialismo e Liberdade. “Quando tem demandas de movimentos populares, ele costuma me chamar para ajudá-lo.” Rodrigo Maia, do Democratas, o considera “um craque”, porque conseguiu unir o PMDB, “o que não acontecia desde a época do Ulysses”.

Temer deixou o plenário pouco antes das 21 horas. O jantar fora marcado para que Dilma Rousseff o conhecesse melhor, já que nunca haviam conversado a sós por mais de alguns minutos. Dilma o recebeu acompanhada de dois assessores que ele não conhecia. Na hora do jantar, sentaram sozinhos à mesa. Foi servido um caldo, seguido de uma salada, que ele recusou, ela não. O prato principal foi um peixe com molho de maracujá. Ele tomou água de coco e, ela, água. O deputado achou a comida “muito boa, delicada”.

Durante o jantar, Temer disse à ex-ministra que seria referendado como candidato a vice na convenção do partido, marcada para o dia 12 de junho. Deixou claro que o PMDB queria ser protagonista e não apenas coadjuvante do governo. Informou que o partido elaborava um programa econômico com ajuda do ex-ministro Mangabeira Unger, do ex-deputado Moreira Franco e do deputado Henrique Alves. Dilma, segundo Temer, não se opôs a ouvir as propostas do PMDB. “Ficou acertado que nós discutiremos tudo na campanha”, contou-me. “Teremos liberdade para dizer um ao outro o que queremos e o que não queremos, do que gostamos e do que não gostamos.”

O jantar, disse ele, foi sobretudo para aparar arestas. “A ministra me garantiu que não tem qualquer resistência ao meu nome”, afirmou. Comentou também que se impressionara com a disposição de Dilma: “Ela estava com uma aparência muito saudável. Acho que a política revigora. Isso acontece comigo.” O encontro durou menos de duas horas.

A relação de Temer com sua companheira de chapa era tão remota que, no começo deste ano, o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, amigo dos dois, iniciou um trabalho de aproximação. “Eu conversei com eles e falei para pararem com as formalidades”, me disse Bastos em seu escritório, em São Paulo. “Sugeri que, pelo menos, deixassem de lado o senhor e senhora.” Perguntei a Temer se essa barreira havia caído. Ele disse que ambos aceitaram a sugestão, com um adendo: em público, ele só a chamaria de ministra.

Márcio Thomaz Bastos é advogado da empreiteira Camargo Corrêa, acusada de financiar campanhas políticas com dinheiro de caixa dois. O nome de Temer está na lista dos beneficiados. Uma operação da Polícia Federal levantou que, entre 1995 e 1998, os pagamentos a políticos chegaram a 178 milhões de reais, em valores da época. Segundo o levantamento da PF, Temer recebeu mais de meio milhão de reais da construtora. “O governo está preocupado que, durante a campanha, surjam mais denúncias contra Temer, o que poderia prejudicar o desempenho de Dilma”, me disse um parlamentar do PT.

No PMDB, não existe constrangimento com a investigação da PF. E menos ainda com o pouco entrosamento entre Temer e Dilma. O deputado Moreira Franco ironizou quando eu lhe disse que os dois protagonizavam um casamento arranjado. “Se na Índia dá certo, por que não poderia dar certo entre eles?”, perguntou-me. “Às vezes, é melhor um casamento arranjado, quando o casal vai se conhecendo e aprendendo a se gostar, do que aquele nascido da paixão que depois acaba.”

No dia subsequente ao jantar com Dilma, Temer recebeu uma delegação chinesa para um almoço no restaurante da Câmara. À tarde embarcou para São Paulo. O escritório dele na cidade fica num casarão rosado no alto de Pinheiros. No dia seguinte, pela primeira vez em uma semana, Temer não usava terno. Estava com calça cinza e camisa listrada. Um dos quartos da casa foi transformado em sala de reunião e mobiliado com uma grande mesa de madeira e cadeiras de escritório. Nelas se sentaram o seu assessor de imprensa, Márcio Freitas, e o marqueteiro Gaudêncio Torquato. Parecia um pouco mais à vontade. Reclamou que, naquele dia, os jornais não atribuíram a ele a responsabilidade pela aprovação do projeto Ficha Limpa. “Acho uma injustiça”, disse, “porque o projeto só foi a votação porque eu o banquei desde o começo.”

Temer deixou o escritório para almoçar no restaurante Senzala, vizinho ao casarão, onde o maître veio cumprimentá-lo. “Há anos frequento esse lugar, aqui todo mundo vota em mim”, disse. Enquanto comia, falou da amizade com o ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto. Durante o almoço, o deputado atendeu a um telefonema da mulher. Tapou o bocal e perguntou, abaixando a voz: “O Michelzinho melhorou da tosse?”

De volta ao escritório, sua filha Clarissa chegou de carro. “Como não nos vemos tanto quanto eu gostaria, tenho que aproveitar essas oportunidades”, explicou-me ela. Enquanto o deputado recebia um grupo de prefeitos, ela disse que sua preocupação com o pai aumentou com a possibilidade de ele se tornar vice-Presidente: “Sei que ele se preparou a vida toda para isso, mas é um cargo em que ele vai ficar muito exposto. Como filha, acho péssimo, mas como brasileira acho ótimo ter uma pessoa como ele no governo.”

Clarissa é psicóloga. Ela disse que, na intimidade, o pai é afetuoso e engraçado. Quando eram crianças, ele costumava contar histórias para as filhas e dizer poesias. “Ele adorava recitar ‘Navio negreiro’, do Castro Alves e ‘O operário em construção’, do Vinicius de Moraes”, contou. Ela elogiou a formalidade do pai: “Um homem público tem que passar uma imagem de seriedade, de respeito. Um político tem que ter um discurso cuidadoso. Não pode sair falando o que dá na cabeça. É até desrespeitoso.”

Outro na família que se preocupa com as atividades políticas de Temer é seu único irmão vivo, Adib, de 75 anos. O escritório de advocacia dele fica num prédio acanhado no centro da cidade. Adib costuma passar as tardes ali, embora já esteja praticamente aposentado. Tem os cabelos completamente brancos e a pele bronzeada. Como o irmão, mantém a postura ereta. O escritório é decorado com muitos bichos de pelúcia: cachorros, passarinhos, gatos expostos na estante, e vários porta-retratos de plástico com fotos dos irmãos, dos pais e da mulher.

“Não conseguimos nos ver muito. Não sei por que ele continua nisso”, disse Adib. “Eu vivo dizendo para ele deixar essa vida. Falo para ele: ‘Michel, você já tem tudo, tem uma família linda, suas filhas, sua mulher, e agora seu filhinho, para que continuar com essa coisa de política?’ Mas ele não me ouve.” Adib acha que o irmão faria muito melhor se largasse tudo e fosse aproveitar a vida. “Adoro quando ele me chama para ir à casa dele aos domingos”, continuou. “É quando temos tempo para conversar. Mas isto está cada vez mais difícil. Quando não dá, e a saudade aperta, ligo a tv Câmara e fico vendo ele.”

Temer ainda estava reunido com o grupo de prefeitos quando a filha deixou o escritório. No fim da tarde, voltou à sala onde estávamos. Foi até um armário e me trouxe uma pasta com uma centena de guardanapos de companhias aéreas, anotados a caneta. Contou que, nas viagens entre São Paulo e Brasília, aproveita para escrever poesias e aforismos. Faz isso há três anos. Começou a selecionar os que mais gostava e pretende publicá-los. Uma parte deles foi passada para o computador. Leu o seguinte:

Ando à procura de mim.

Só encontro outros que, em mim,

Ocuparam o meu lugar.

Numa folha havia um poema maior, que ele escrevera para um irmão morto. “Recordo-me agora, toda vez que o violino toca…”, começou Temer, mas a voz lhe faltou e os olhos se encheram de lágrimas. Passou para outro:

Eu desencantado

desfigurado,

desanimado

desconstruído

derruído

destruído.

Perguntei-lhe se havia escrito aquilo quando sofrera a derrota para presidência da Câmara. Disse que não lembrava as datas. Quis saber se ainda continuava escrevendo. Disse-me que não tinha tido muito tempo ultimamente. Escolhi um dos papéis e li em voz alta:

Lamentavelmente,

Tudo anda bem.

Por isso, andam mal

Os meus escritos.

Perguntei-lhe se era essa a razão de ele ter abandonado a poesia. Ele sorriu, guardou os papéis e fechou a pasta.

* Correção em relação à edição impressa

Consuelo Dieguez
No Piauí

Um comentário:

  1. Porque em pleno século 21 se permite um partido parasitário desses continuar agindo?

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