13 de mar de 2016

Você não sabe de nada – uma carta a Kim Kataguiri


Kim, você gosta dos Power Rangers, mas sabe quem foi National Kid?

Eu sei.

E não porque entenda especialmente bem de seriados infantis japoneses, mas porque tenho 56 anos. Devo ser um pouco mais velho que seu pai – minha filha caçula é sete anos mais velha que você.

Kim, você não sabe de nada.

“Desde que tomei consciência de minha própria existência e do mundo a meu redor, o PT está no poder”.

Kim, o PT está no governo federal desde 2003. E não tem culpa de você ser tão jovem.  E o PSDB está no governo de São Paulo desde Mario Covas, em 1995. Um ano antes de você nascer. Todos legitimamente eleitos pelo voto popular. Na prefeitura paulistana já tivemos de tudo que é partido, hoje, o PT, no governo anterior era o DEM.

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

Artigo primeiro, parágrafo único da nossa Constituição de 1988.

Ainda bem que o PT em quem votei a partir de 2002 e o PSDB em quem votei pela última vez em 1994 estão no poder. Que fiquem onde estão até 2018. Que o povo decida então quem serão seus sucessores, que os eleitos tomem posse e que governem pelo poder do povo.

A democracia brasileira estará preservada.

“Minha geração precisa viver a democracia. Ela nunca experimentou nada além da ditadura da propina implantada pelo PT”.

Kim, você não sabe de nada.

Principalmente não sabe o quanto custou a democracia que você vive e crê que não existe porque sempre a viveu.

A democracia brasileira nem sempre houve e na história deste país não houve por mais tempo do que houve. A que vivemos hoje custou muito caro.

E você, quando escreve para um jornal e este publica suas adolescências temporãs ou quando empunha um microfone em cima de um carro de som, deve respeito e reverência aos que, antes de você, com dor e sangue, com a vida, quebraram o grande silêncio.

“Um silêncio de martírios, um silêncio de prisão. Um silêncio povoado de pedidos de perdão. Um silêncio apavorado com o medo em solidão. Um silêncio de torturas e gritos de maldição. Um silêncio de fraturas a se arrastarem pelo chão”.

Muitos dos que sofreram o fala esses versos, pelos quais Vinícius de Moraes foi punido, eram tão jovens quanto você. Mas não todos. Outros eram velhos. Outros homens e mulheres com filhos de colo. A ditadura os destroçou a todos, a verdadeira ditadura não tem compaixão de ninguém.

Você desrespeita a todos eles quando se julga uma vítima de uma ditadura que nunca a viveu porque é herdeiro da democracia.

Kim, você não sabe de nada.

Pergunte a Aloysio Nunes, o velhinho com ar de ensandecido que estará com você exercendo o direito de protesto que a democracia atual lhes confere. Ele sabe o que é lutar pela democracia e ser chamado de terrorista. Sobre o que é ter que se exilar, pergunte a José Serra, estará ao lado limpando as mãos com álcool em gel. E sobre o que é ser torturado barbaramente, mesmo sendo uma menina de 19 anos, pergunte a presidente Dilma Rousseff, da próxima vez que você estiver em Brasília.

Sobre a época em que se impediam manifestações populares à bomba, pergunte ao Bolsonaro.

Agora, se você perguntar a mim, direi que durante a ditadura, a verdadeira ditadura, eu era menino de escola. E que aprendi a marchar antes de ter aprendido a resolver equações do primeiro grau.

O uniforme — calça cinza chumbo e camisa branca com o distintivo da escola à altura do peito do lado esquerdo, sapatos e meias pretos. Para as meninas, saia cinza chumbo (saia, não calça comprida nem bermuda e muito menos shortinho), meias três-quartos brancas e sapatos pretos.

Éramos colocados todos em filas para sermos vistoriados antes de entrarmos em aula. Um imbecil passava entre as filas que formávamos e conferia o uniforme completo, inclusive a cor das meias, e o comprimento dos nossos cabelos. Em caso de cabelos que tocassem as orelhas, os nossos pais eram formalmente advertidos. Das meninas era cobrado que as saias estivessem abaixo dos joelhos e as meias à altura das canelas. Essa era a escola pública.

Um dia, a professora de português propôs que escrevêssemos um jornalzinho. Teve de passar pela censura do diretor e jamais circulou.

Tínhamos 12 anos.

Quando votei pela primeira vez para presidente da República, eu era já era casado e com filhos na escola.

Kim, você não sabe de nada.

Você não sabe o que foi “o sufoco”. Os anos de chumbo foram mais do que uma série que você assiste em canais de reprises de TV a cabo.

Kim, você nunca assistiu a uma aula de moral e cívica. Nunca viu professores tomando cuidado com as frases que usassem nas aulas de História. Nunca assistiu programas infantis na televisão onde meninos da sua idade respondessem perguntas sobre o general presidente Médici e recebessem prêmios. Você sabe quem foi o general presidente Médici?

Kim, você não sabe de nada.

Não vou aqui tecer comentários sobre os governos Lula, deixo-os para as dezenas de milhões de brasileiros que foram resgatados da miséria. E que, para seu desagrado, Kim, votam no PT e o reelegem consecutivamente há quatro eleições. É da democracia. O povo é sábio, Kim.

Lula é um herói da minha geração.

“Infeliz a nação que necessita de heróis”.

Você é de uma geração sem heróis. Você é feliz e não sabe, Kim.

Aliás, Kim, você não sabe de nada.


PS1: para os que sabem que a adolescência é um período de confrontamentos, inclusive a adolescência democrática de um povo, ”Nossa geração sobreviveu”, de Kim Kataguiri.

PS2: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Consertos Gerais e Poesia

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