11 de mar de 2016

Por que Lula deveria sim ser ministro

A hora pede ousadia
“Ficaria decepcionada se o Lula aceitasse um convite para ser ministro”, ouço de minha mulher, Erika.

Não tinha ainda refletido detidamente sobre o assunto, mas a frase de Erika me estimulou a fazer isso.

Por que alguém progressista como ela se decepcionaria?

A resposta padrão é mais ou menos esta: Lula ganharia foro privilegiado e se livraria das garras de Moro, mas mostraria medo. Ficaria claro, para muita gente, que ele tem algo a esconder.

Ora, ora, ora.

Não poderia discordar mais.

Se Lula estivesse numa disputa com Mujica ou com o papa Francisco, eu concordaria.

Mas ele está medindo forças — involuntariamente — com forças que lembram não Mujica, não Francisco, mas Al Capone.

Você tem que jogar o jogo conforme seu adversário, e não de acordo com seus sonhos. Esta é a realidade. Pode não ser idílica, ou utópica, ou romântica. Mas esta é a única realidade que temos.

Avalie os escrúpulos e o caráter dos que estão do outro lado. A Globo e a família Marinho, Aécio, FHC, a Veja e os Civitas, a Folha e os Frias, Moro e a PF, e isso para não falar dos Eduardos Cunhas e dos Conserinos.

Eles querem preservar seus formidáveis privilégios, e para isso buscam loucamente um golpe sob os pretextos mais esdrúxulos.

Desde a saída dos resultados, a vitória de Dilma é contestada da maneira mais infame possível. A desculpa A não colou? Vamos para a B. Também ela não vingou? Passemos para a desculpa C. E nisso foi um alfabeto inteiro de pretextos que escondiam uma única coisa: um golpe. Um crime de lesademocracia que jogaria, ou jogará, o país mais de meio século para trás.

Os índios americanos entraram na história por episódios de resistência épicos em que opunham pedrinhas às balas dos predadores brancos.

É lindo, é comovente, mas é claro que eles usariam outras armas se as tivessem.

Contra predadores, e é disso que se trata, você tem que ajustar sua estratégia à índole dos inimigos.

Lula já errou demasiadamente nisso.

Por exemplo. FHC nomeou um amigo para a Procuradoria Geral da República, o tristemente famoso Brindeiro, engavetador de qualquer coisa que pudesse embaraçar a presidência.

Lula se recusou a nomear uma réplica de Brindeiro. Colocou o primeiro da lista que lhe foi passada pelos procuradores.

Deu no que deu.

No STF, ele fez o mesmo. FHC indicou juízes como Gilmar Mendes. Uma das primeiras indicações de Lula foi Eros Grau, de conhecida simpatia pelo PSDB. (Fez campanha por Aécio em 2014.)

Isso não é republicanismo. É ingenuidade, é tolice, é não enxergar do que são capazes os que detestam você.

A direita prega para os rivais um republicanismo que ela jamais praticou.

A hora dura pede ousadia, pede inovação. Lula como ministro é uma resposta a quem deseja apenas tirar Dilma do jeito que for e impedir que Lula concorra em 2018.

A reação popular seria esta. Os que detestam Lula continuariam a detestá-lo. Os que o amam continuariam a amá-lo.

Que as urnas digam, em 2018, qual destes grupos é maior.

Paulo Nogueira
No DCM

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