12 de mar de 2016

Os Stones

Os Rolling Stones, como se sabe, são os Beatles depois de muito tempo expostos à chuva e ao vento. Outra tese: todos os Stones já morreram e só saem do museu de cera uma vez por ano para excursionar. Piada: como o Mick Jagger tem rugas! Isso que você não viu as que ele deixa em casa para viajar. Por que o Mick Jagger tem tantas rugas? São provocadas pelo riso. Impossível, nada pode ser tão engraçado!

Brancos

O Millôr contava que uma vez dera um autógrafo no interior de uma carteira de cigarro. Pedira desculpa pela precariedade do papel e ouvira como resposta “Não faz mal, quando chegar em casa eu passo a limpo”. Meu pai dava autógrafos em Portugal e, com a caneta pousada sobre a página em branco para fazer a dedicatória, perguntou “Que nome eu ponho?” E o português, tentando esconder sua decepção com a burrice do escritor: “O de vossa senhoria”.

Escritores em sessões de autógrafos têm em comum com tribos indígenas um justificável temor dos brancos. Não são boas as experiências dos dois grupos com brancos. No caso dos escritores o “branco” é a pane mental que lhes impede de lembrar o nome do melhor amigo, na hora da dedicatória, e seus efeitos são iguais aos dos brancos entre povos primitivos: confusão, mal estar e, muitas vezes, guerras.

Todo escritor que já deu autógrafos tem sua história de terror para contar. De pessoas que o cumprimentam efusivamente, e que portanto ele tem a obrigação de saber quem são, e que nome têm, e não sabe. De pessoas que ele está cansado de saber quem são mas não lembra o nome. E — o pior de tudo — de pessoas que ele lembra o nome, mas o nome errado. Como na vez em que dediquei um livro ao Paulo Hecker Filho para espanto de quem me pedira o autógrafo, Antônio Carlos Rezende.

Os “brancos” podem vir a qualquer hora.

– Desculpe, não estou lembrando o seu nome...

– Sou sua mãe!

– Eu sabia que começava com “eme”...

E não há como disfarçar um branco. Você pode perguntar “Para quem?”, tentando dar a entender, pela expressão ou o tom de voz, que sabe o nome da pessoa, claro, mas que talvez ela queira dar o livro de presente a outra. Uma técnica que perde qualquer sentido quando a pessoa diz “Para mim mesmo”, e, impiedosamente, não diz seu nome.

Já apelei para perguntas suicidas como “Seu nome é com “i” ou com “y”?”. Não adianta. Seja qual for a resposta, pode levar a indignação ou tapas se o nome dela for, por exemplo, Noelma. Mas pelo menos se ganha tempo para o cérebro funcionar. Vã esperança. O cérebro não costuma funcionar em sessões de autógrafos.

Luís Fernando Veríssimo

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