5 de mar de 2016

O “mau passo” de Moro


Talvez por ser muito jovem, o Dr. Sérgio Moro tenha acreditado que o mundo real é igual ao mundo que a mídia constrói.

Sim, parece muito, mas não é.

Animado pelo bombardeio da “Operação Choque e Terror” dos meios de comunicação, fez seu lance mais ousado, embora não ao ponto que, intimamente, desejava.

Foi aquém do que queria, mas além do que devia.

Um depoimento civilizado de Lula e, até, uma medida de força, a de busca e apreensão no seu Instituto teriam desgastado mais o ex-presidente sem, contudo, permitir a reação de alguém que é vítima de uma violência travestida de rigor legal.

Mas Moro acreditou que podia mais, ainda que não tinha forças para o ato final: a prisão de Lula e sua condução às masmorras de Curitiba, para dali só sair com a confissão que é a única chave a abrir aquela cadeia.

Jogou com os conceitos mentais que cultiva — e que a mídia faz vicejar — de que a “meia-prisão”, representada pela “coação coercitiva” (já de si, um absurdo, que deixo para o juristas comentarem) seria a desmoralização, a execração social, a qual multidões de “coxinhas” sairiam as ruas para comemorar.

E seria isso mesmo o que qualquer marqueteiro — ele poderia até consultar o João Santana, que está ali, preso, à sua disposição — ou analista da grande imprensa lhe diria. A pesquisa, fresquinha, do Datafolha estava à mão para confirmar a conclusão: só 15 ou 20% achavam que Lula não tinha culpa no cartório.

O que deu errado, porém, e fez do todo poderoso juiz dar um tiro no pé e, aparentemente, ter despertado a primeira reação capaz de fazer a mídia gaguejar e o “sequestro” — é o nome que merece a condução injustificada por policiais, ainda que por ordem judicial  arbitrária — voltar-se contra o sequestrador, sempre aplaudido?

Sérgio Moro é um homem descolado da realidade social. É natural que assim seja, ao se tornar juiz com apenas 24 anos, um dos giudici ragazzi nos quais confessadamente se inspira em seu delírio de uma Operação Mãos Limpas tropical.

É, no voluntarismo próprio dos que acham que basta um homem honrado, duro e implacável para mudar o mundo, um destes que crê que as massas servem para uivar de prazer diante da destruição dos “inimigos da moral” e as reduz àquilo a que as conduzem.

O Dr. Moro não é capaz de compreender que existe um processo social que, embora conformado ao leito que lhe desenham os meios de comunicação, o mais poderoso aparato de controle social, é um rio profundo e suas reações podem fazer com que rompa as barreiras com as  quais se pretende canalizá-lo.

O povo, aparentemente tolo e dirigível, tem suas profundezas.

É por isso que ontem Moro deu seu mau passo.

Tocou no apego à democracia que remanesce no Brasil, tocou na única identidade política que sobreviveu à entrada do século 21.

Pessoas neutras e até críticas — e com muitas razões — ao PT se chocaram com a violência de seu ato e a prova disso é que já se percebe — finalmente! — reações no STF aos desbordamentos que ele pratica. (Observação en passant: não se iludam com a decisão de Rosa Weber, Moro é seu enfant gâté)

E fez muitas delas saírem de sua passividade.

Por incrível que pareça, até mesmo Lula saiu da passividade e partiu para o combate.

E as tropas transtornadas do impeachment e do “pixuleco”?

Tirando algumas dúzias de transtornados e moleques pixadores de São Paulo, não apareceram para a esperada “festa nas ruas”.

A semana será de uma tentativa desesperada de criar fatos novos e de mobilização para as manifestações do dia 13.

Não parece, porém — salvo se Lula não seguir com a disposição demonstrada ontem — que vá sair conforme o planejado.

Moro errou e seu erro pode ter sido o início do fim de seu delírio de poder.

Os golpes, embora se desenvolvam lenta e progressivamente, têm muito mais chances quando se desfecham rápida e decididamente.

Do contrário, o que parecia morto vive e desperta com uma força insuspeitada.

Se isso se fez até com um cadáver, como o de Vargas, que dirá com um morto muito vivo, como é Lula.

Fernando Brito
No Tijolaço

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