13 de mar de 2016

Moro e militares viram heróis da classe média na tela da Globo

http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/palavra-minha/37840/



O esquenta para as marchas golpistas começou nas páginas dos jornais paulistas. No decadente Estadão, um editorial mais violento do que o de 1964 criticava neste domingo os petistas, definidos como “quase marginais”, chamou sindicalistas de “turma de boas-vidas” e disse que seguidores de Lula são “desesperados” que atuam contra “a maioria de brasileiros honestos”.

O Estadão se esquece que os honestíssimos Aécio, Agripino, Aloysio, Eduardo Cunha e Alckmin foram derrotados nas urnas em 2014? O jornal se perde em seu delírio decadente. O texto é claramente o arreganho autoritário de um pitbull desdentado que ainda se leva a sério.

Kataguri na Folha: o power ranger do golpe
Kataguri na Folha: o power ranger do golpe
Na Folha, havia chance de garimpar algum humor. O impoluto Elio Gaspari dividia espaço com o jovial Kim Kataguri, na turma de analistas. Gaspari defendeu a Constituição e chamou de golpe o “semi-parlamentarismo” proposto por PMDB/PSDB, mas não se conteve e propôs a derrubada imediata da chapa Dilma/Temer para que se convoque nova eleição.

Em suma, Gaspari fez o papel do semi-golpista. Já Kataguri não decepcionou: foi imbecil por inteiro. Usou o desenho animado dos power rangers (isso mesmo!!) como referência para o delírio golpista que escorria das páginas do jornal.

Mas vamos ao que interessa: o “esquenta” promovido pela Globo na manhã de domingo, mais uma vez, não decepcionou.

Os herdeiros de 1964 mostram as caras no Rio
Os herdeiros de 1964 mostram as caras no Rio
Logo cedo, a GloboNews usou uma espécie de “lente de aumento” para que não surgissem na tela os vazios que ainda eram evidentes no gramado em Brasília.

Depois, deu voz para sua turma de repórteres bem ensaiados. O discurso de “milhares de famílias, marchando em paz contra a corrupção e o PT” (como se PT e corrupção fossem uma coisa só) dessa vez ganhou um adendo: “muitas pessoas trazem faixas em apoio ao juiz Sérgio Moro”.

A tabelinha Globo/Moro ficou mais evidente que nunca.

Nas telas e nas fotos enviadas pela web não faltavam as faixas de apoio a um golpe militar. Mas Moro era dominante: um herói de direita, impoluto, que a direita constrói passo a passo. Um homem já perigoso para a democracia — justamente porque não se submete a ela.

Em Salvador, a Globo foi obrigada a usar imagens fechadas porque mais uma vez havia minoria de brancos e ricos na orla.

Em Brasília, por volta de 11h30, ainda eram evidentes grandes vazios no gramado em frente ao Congresso. Mas a quantidade de manifestantes parecia igualar os primeiros protestos de março de 2015.

Recife e Maceió ganharam destaque na tela. De novo, eram manifestações de brancos e ricos, na orla dominada por prédios da oligarquia nordestina. Os repórteres chutavam números: “15 mil em Maceió”, contradizendo a imagem que mostrava 2 mil ou 3 mil pessoas marchando no bairro dos ricaços alagoanos.

Em BH, a tradicional família mineira foi pra rua em número pouco superior ao das manifestações anteriores.

O contra-ataque veio pelo céu
O contra-ataque veio pelo céu
O ponto fora da curva parecia ser o Rio de Janeiro, onde claramente (pelas imagens abertas da orla de Copacabana) a manifestação levou mais gente às ruas do que em março/agosto/dezembro de 2015.

A Globo interrompia seu programa de Esporte a cada dez minutos para fazer o “giro pelo Brasil”. Alex Escobar, aquele mesmo que Dunga certa vez cobriu de palavrões numa coletiva da seleção, fazia cara de inteligente ao falar da “luta contra a corrupção”. Depois, voltava ao normal.

O efeito lente de aumento da GloboNews: aumentamos o que nos interessa...
O efeito lente de aumento da GloboNews: aumentamos o que
nos interessa…
Na Globo News, o esforço da comentarista era emocionante ao narrar as imagens de Brasilia: “a diferença dessa manifestação é que agora os políticos querem aparecer nas ruas, pra disputar o dia seguinte do impeachment”; ou então “vai-se aproximando a hora de decidir o que será do poder depois que Dilma cair”.

É a tentativa de criar uma narrativa do “inevitável”.

Nenhuma palavra sobre o envolvimento de Temer e Aécio na Lava-Jato. Nada. A Globo nitidamente tem pressa.

Tudo isso era apenas o “esquenta” para o grande ato golpista: a passeata na avenida Paulista em São Paulo. Sim, a expectativa era de uma multidão pelo menos igual à que tomou as ruas um ano atrás.

Olho pra tela, e depois vejo pela janela vizinhos na rua vestidos de amarelo. Ao meio-dia, a turma do “chega de PT” já estava se preparando para a marcha.

A previsão é de “1 milhão de pessoas nas ruas”, berra o secretário de segurança (?) de Alckmin (aquele mesmo que lança a PM contra sindicalistas, aproveitando o clima de “prende e arrebenta” que o Estadão e a Globo tentam criar). Não cabe 1 milhão na Paulista. Mas isso é apenas um “detalhe”. A narrativa já está criada.

O dia 13, até as 12h, não trouxe nada de novo: é o arreganho golpista da classe média que pretende produzir um novo 1964, em que a farda será substituída pela toga.

A tranquilidade com que a Globo e os jornais paulistas tratam um golpe contra a democracia deve ser o grande combustível para que a reação aconteça no próximo dia 18. Sem cobertura da mídia, sem PM, sem editoriais — não importa.

O dia 18 pode ter menos gente do que o dia 13 golpista. Não importa. Mas os setores organizados precisam mostrar aos jornais golpistas, aos Kataguris/power rangers, à Globo e à classe média odienta que o golpe não será um passeio no parque.

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