14 de mar de 2016

Lula dá ao delegado o que o delegado merece

Só não foi pior o que o Dirceu fez com o Moro


Em depoimento prestado à Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, no último dia 4 de março, após ser sequestrado e submetido a cárcere privado na 24ª fase da Operação Lava Jato, o Presidente Lula se mostrou bastante irritado com o nível das perguntas feitas a ele.

Lula foi acompanhado dos advogados Roberto Teixeira, Cristiano Zanin e Rodrigo Ferrão e respondeu a perguntas de dois delegados da PF e de dois procuradores do Ministério Público Federal.

Em um dos trechos, o Presidente perdeu a paciência quando as questões se referiam às doações ao Instituto Lula.

A íntegra (leia abaixo) foi divulgada nesta segunda-feira (14), pela própria Polícia Federal. Veja um trecho:

(...)

Tem um valor mínimo de doação, tem alguma definição?

Declarante:­ Não.

Delegado da Polícia Federal:­ É dado recibo?

Declarante:­ É, porque tudo tem que ser legalizado, se a pessoa dá o dinheiro eu acho que a pessoa quer comprovação que doou.

Delegado da Polícia Federal:­ E é por transferência ou em reais?

Declarante:­ Não sei, não sei.

Delegado da Polícia Federal:­ Qual era o montante médio anual de recurso auferido?

Declarante:­ Ah, não sei, não pergunte para mim essas coisas financeiras porque eu não cuido disso.

Delegado da Polícia Federal:­ Certo. Não teria nem ideia de quanto...

Declarante:­ Nem no instituto e nem em casa eu cuido disso, em casa tem uma mulher chamada dona Marisa que cuida e no instituto tem pessoas que cuidam.

Delegado da Polícia Federal:­ O senhor não faz nem ideia?

Declarante:­ Não faço ideia.

(…)

(...)

Delegado da Polícia Federal:­ Em relação a Camargo Correa, Construtora Camargo Correa, que relação ela pode ter com o Instituto Lula?

Declarante:­ Nenhuma.

Delegado da Polícia Federal:­ O senhor tem conhecimento se ela fez doações ao Instituto Lula?

Declarante:­ Até saiu na imprensa que ela fez.

Delegado da Polícia Federal:­ E o senhor sabe dizer quem pediu as doações para ela?

Declarante:­ Eu vou repetir, deve ter sido ou o tesoureiro do instituto ou algum diretor do instituto, ela deu para o instituto acho que a metade do que ela deu para o Fernando Henrique Cardoso, metade, deveria ter dado mais, mas deu menos.

(...)

Delegado da Polícia Federal:­ Então é possível, por exemplo, que o próprio Paulo Okamotto ou a Clara Ant tenham pedido doações a qualquer empresa, entre elas a Camargo Correa?

Declarante:­ É possível, é possível.

Delegado da Polícia Federal:­ Certo. O mesmo se aplica à OAS, ou seja...

Declarante:­ A todas.

Delegado da Polícia Federal:­ Odebrecht?

Declarante:­ A todas.

Delegado da Polícia Federal:­ Andrade Gutierrez?

Declarante:­ Aos bancos...

Delegado da Polícia Federal:­ À UTC?

Delegado da Polícia Federal:­ À UTC?

Declarante:­ Todas, todas, todas.

Delegado da Polícia Federal:­ Queiroz Galvão...

Declarante:­ Todas.

Delegado da Polícia Federal:­ Enfim, todas essas fizeram doações ao Instituto Lula...

Declarante:­ Não sei se todas fizeram.

(...)

Delegado da Polícia Federal:­ Camargo Correa...

Declarante:­ Da Camargo Correa, eu disse que a imprensa já deu que a Camargo Correa tinha doado dinheiro para o instituto e disse que ela doou metade do que doou para o Fernando Henrique Cardoso, o restante...

(...)

No depoimento, o Presidente criticou alguns procuradores e o promotor Cássio Conserino, que pediu prisão preventiva de Lula.

“Um cidadão que é membro do Ministério Público, que fica a serviço da Globo, do Jornal Globo, da Revista Veja, fazendo insinuações e eu tenho que responder? Ele que diga, ele que prove, no dia que ele provar que o apartamento é meu alguém vai me dar o apartamento, ou o Ministério Público vai me comprar o apartamento ou a Globo me compra o apartamento, ou a Veja me compra o apartamento, ou sei lá quem vai me comprar o apartamento, o que não é possível é que a gente trabalhe tanto para criar uma instituição forte nesse país e dentro dessas instituições pessoas que não merecem estar nessa instituição estejam a serviço de degradar a imagem de pessoas, não sou eu que tenho que provar que o apartamento é meu, ele é que vai ter que provar que é meu, ele vai ter, eu espero que ele tenha dinheiro para depois pagar e me dar o apartamento, eu já estou de saco cheio disso, essa é a verdade, estão gravando aqui para ficar registrado. Eu estou de saco cheio de ficar respondendo bobagens”, declarou o Presidente.

Para continuar: “Uma das coisas que fomentou a corrupção no Brasil ao longo do tempo é que o Ministério Público, o poder público fingia que contratava obra, fingia que pagava, a empresa fingia que fazia, ficava tudo como antes. Antes de eu chegar à presidência, o servidor público fingia que trabalhava, o governo fingia que pagava, o Brasil se fodia, então, desculpe a palavra horrível, então

nós resolvemos moralizar tudo isso, eu adotei como política o seguinte, é o seguinte, primeiro pagar em dia, eu só tenho credibilidade com as pessoas se eu pagar em dia, se eu fingir que pago e a pessoa finge que recebe alguém vai enganar alguém, então eu optei pela seriedade e isso vale para o instituto.

Palestras

Um dos delegados da PF quis saber sobre a “qualidade média” das palestras do Presidente. Lula foi enfático:

“Eu tenho que falar uma coisa, eu preciso explicar uma coisa porque se não explicar é difícil vocês entenderem, quando eu deixei a presidência da república no dia 31 de janeiro, no dia 1º de janeiro de 2002, eu era o Presidente da República considerado o melhor Presidente da República do início do século XXI, pois bem, quando eu deixei a presidência todas as empresas de palestras, que organizam palestras de Bill Clinton, Bill Gates, Kofi Annan, Felipe Gonzales, Gordon Brown, todas as empresas mandaram e­mail, mandaram telegrama, mandaram convite, telefonaram, que queriam me agenciar para fazer palestra, nós então fizemos um critério de não aceitar nenhuma empresa para me agenciar, primeiro por cuidado político, que a gente não sabia quem eram, e segundo porque a gente queria fazer palestras selecionadas, ou seja, que a gente pudesse falar do Brasil, eu posso até mandar para vocês alguns discursos que eu faço, ou seja, a gente fazia discurso primeiro mostrando o que aconteceu no Brasil em 8 anos, que era o que todo mundo queria, e depois a gente dizia qual era o futuro do Brasil, o que o Brasil tinha de perspectiva para a frente, e decidimos, decidimos cobrar um valor, todas as minhas palestras custam exatamente 200 mil dólares, nem mais e nem menos.”

Outro trecho do diálogo:

Delegado da Polícia Federal:­ Quem “decidimos”?

Declarante:­ Hein?

Delegado da Polícia Federal:­ Quem “decidimos”?

Declarante:­ Nós decidimos, nós...

Delegado da Polícia Federal:­ “Nós”?

Declarante:­ Eu, eu decidi, eu decidi. Nós pegamos um valor do Bill Clinton e falamos o seguinte “Nós fizemos mais do que ele, então nós merecemos pelo menos igual”, e aí passamos a viajar, eu viajei muito em 2011, até porque eu queria sair do Brasil para não ficar atrapalhando a presidente que tinha tomado posse, não sei se você sabem que um ex­presidente deixa o cargo ficando no mesmo espaço, depois de 2011, em outubro eu peguei um câncer, aí fiquei paralisado quase em 2012, em 2013 fiz palestras, em 2014 eu parei em março de fazer palestras por causa das eleições, em 2015 eu quase não fiz palestras porque eu queria que primeiro a presidenta apresentasse os grandes programas de futuro para o Brasil, porque quando você vai fazer palestras você tem que vender o teu país, você tem que mostrar o que vai acontecer nesse país, você tem que atrair investidores, você tem que mostrar que você é melhor do que o México, você tem que mostrar que você é melhor do que o Canadá, você tem que mostrar que você é melhor que a China, então quando eu viajava, até 2013, o Brasil estava construindo as três maiores hidrelétricas do mundo, o Brasil estava construindo 6 mil quilômetros de ferrovia, 10 mil quilômetros de rodovia, 20 mil quilômetros de linha de transmissão, tinha os estádios todos da copa do mundo, tinha as olimpíadas, então o Brasil tinha um portfólio de coisas que eu, se fosse a Dilma, eu viajava todo mês para fora para vender as coisas do Brasil, porque ela não viaja? O Peru viaja, a China viaja, a Rússia viaja, o México viaja, a Nova Zelândia, todo mundo viaja vendendo o seu país, mostrando o que é, e eu fazia isso com muito orgulho, fazia com muito orgulho; eu, se tivesse disposição, em 2011 eu teria feito acho que uma palestra por dia, ou até duas por dia se eu quisesse, eu tive proposta de fazer palestra de 500 mil dólares na Coreia e eu não fui.

Delegado da Polícia Federa: Do norte ou do sul?

Declarante:­ Não fui. Então, querido, é por isso que eu fui fazer palestras, porque foi a forma mais decente e a mais digna, recebi proposta para ser conselheiro do Banco de Desenvolvimento da China não aceitei, recebi convite para ser conselheiro de empresas multinacionais que trabalham no Brasil não aceitei, porque eu não quero ser consultor e não sou conferencista, eu sou um contador de caso, de uma história de governança bem resolvida.

Leia a íntegra:


No CAf

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