7 de mar de 2016

Jornalista gaúcho anuncia: RBS entrega Santa Catarina


O domingo já prenunciava e a segunda-feira apontou, através do blog de um jornalista gaúcho, Felipe Vieira: a venda das ações da RBS em Santa Catarina já teria sido efetuada e a família Sirotski não controlaria mais o grupo no estado. O comprador majoritário seria o grupo liderado por um empresário do ramo dos medicamentos (?) Carlos Sanchez, 52 anos, e que tem como sócio o milionário gaúcho, Lírio Parisotto que é hoje também o maior acionista da Celesc. Há informações também de que o Boni (Globo) também teria um bom número de ações. O mesmo jornalista informa que a operação de venda teria passado de um bilhão. Segundo ele o anúncio será feito hoje , dia 7.

A troca das cadeiras no poder do oligopólio midiático em Santa Catarina — se confirmada pelo grupo RBS hoje — possivelmente não mudará nada no estrutural. O grupo que passa a dominar seguirá reproduzindo a propaganda do sistema, cuidando dos interesses da classe dominante, pois esse é sentido da existência dos meios de comunicação no mundo capitalista. De resto, o grupo gaúcho seguirá tocando a comunicação no Rio Grande e ninguém por lá ficará mais pobre. Da mesma forma os novos donos certamente encherão os bolsos servindo aos mesmos velhos interesses, agregando um ou outro mais. Como o novo dono produz remédios, as farmacêuticas estão prosas.

Os problemas deverão ficar na ponta da rede e quem sofrerá de maneira mais intensa as consequências da troca de comando serão os trabalhadores. Nova gestão sempre vem acompanhada de soluções mirabolantes para enxugamento das despesas e maximização dos lucros. A RBS está acossada pelas denúncias da Operação Zelotes, a qual investiga sua participação em esquema de sumiço de tributos, desfalcando os cofres públicos em milhões de reais. A acusação é de que a empresa pagou 15 milhões em suborno para evitar marchar com 150 milhões em dívidas tributárias.  Isso pode ter detonado a decisão de entregar os anéis (Santa Catarina) para não perder os dedos, que é o poder midiático no Rio Grande do Sul.

Os novos donos não são gente oriunda da comunicação, logo, haverá outra razão administrativa, meramente comercial. A RBS já era assim, mas mantinha certa mística, por conta de seu fundador, Maurício, que era um homem de rádio. Agora, sem qualquer vínculo com compromissos comunicacionais, a nova RBS que emergirá será mais pragmática no mundo dos negócios. Logo, nenhuma mudança real se fará.

Ainda assim, no meio desse turbilhão, o jornalismo poderá ser o setor mais aviltado. Não que já não fosse, mas pode piorar. No espaço da empresa gaúcha, o jornalismo estava vivendo dias amargos, com os trabalhadores sofrendo a mais dura exploração, baseada na multifunção. A mesma pessoa dando conta de três ou mais funções, num processo violento de cobranças, levando muita gente ao adoecimento. E tudo isso com um piso salarial de pouco mais de dois mil reais. Tudo isso refletia num jornalismo cada dia mais fraco, insosso, sem qualquer viés crítico, totalmente amarrado aos interesses patronais.

Imagino a angústia que deve estar acometendo todo o grupo de trabalhadores que se manteve completamente alheio às negociações, sem saber quais foram as questões acordadas e como será sua vida de agora em diante. Viveram como os viviam os servos no tempo dos feudos, mudando de “senhor” sem que fossem levados em conta. Logo, esse é um momento crucial, no qual o Sindicato dos Jornalistas, bem como os demais sindicatos das categorias que conformam todo o bloco comunicacional, devem atuar unidos e imediatamente, buscando canais de conversa para garantir saúde espiritual de todos os trabalhadores, bem como a garantia dos empregos até que se possa saber quais são os planos dos novos donos. Se houver organização e luta renhida, pode ser que se consiga salvaguardar os empregos.

Os otimistas dirão que uma mudança é coisa boa, um choque de gestão para remexer as bases. Mas, os realistas sabem muito bem que no embate de gente graúda, quem sai lascado é o pequeno. Não me parece haver dúvidas de que serão os trabalhadores os que pagarão o preço mais alto. Se houver enxugamento, lá vêm as demissões. Se houver um choque de gestão, lá vem o aumento da super-exploração e os baixos salários. De todo o lado virá bomba, afinal, nenhum empresário entra em uma canoa que está afundando sem um plano para colocá-la no rumo. E os planos, no mundo capitalista, são sempre muito simples. Cortar na carne dos trabalhadores para garantir maiores lucros aos patrões.  

Manifesto aqui minha solidariedade aos colegas de todos os veículos da empresa. Serão tempos duros. Por isso conclamo a necessidade de união através do sindicato. Ainda que também essa seja uma instituição que anda perdida, frágil e sem poder, ainda é o instrumento que temos nós, os jornalistas, para organizar a luta que precisa ser travada. Como as emissoras de TV pública são concessões, a transação terá de passar pelos órgãos reguladores, logo, temos tempo.

Não ouso sonhar com uma luta pelo jornalismo de qualidade, crítico, libertador. Mas, pelo menos a batalha pela sobrevivência dos trabalhadores. Vencida essa, quem sabe se possa avançar para o debate sobre o jornalismo e sobre a necessidade de organizar a luta nessa direção. O jornalismo é um fazer que requer valentia, capacidade intelectual e vontade política, para se fazer crítico e transformador. E ele deve ser praticado nas grandes empresas, mesmo correndo o risco de se ser demitido.

Como podemos ver agora, o risco do desemprego está permanentemente sob as cabeças. Lutando ou não lutando por um jornalismo de qualidade, todos cairão. Melhor, é, como diz José Martí, enfrentar de pé, cair com honra.

Esse é um bonito momento para o ressurgimento da luta sindical no campo do jornalismo. Vamos arregaçar as mangas e unir as forças no amparo dos companheiros e companheiras que fazem parte do grupo RBS.

Da minha parte, estou à postos, para o que vier.  Vamos vencer o temor e partir para a ofensiva.

Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes

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