24 de mar de 2016

Imprensa internacional denuncia o golpe no Brasil

Enquanto a Globo abre os caminhos para a marcha do Estado policial no país, periódicos internacionais alertam sobre a ofensiva contra o Estado democrático.


Enquanto o PIG (Partido da Imprensa Golpista), Organizações Globo à frente, abre os caminhos para a marcha do Estado policial no país, periódicos internacionais alertam o mundo sobre a ofensiva contra o Estado democrático de direito no Brasil.

Publicações como o Der Spiegel (Alemanha), The Economist (Inglaterra), El País (Espanha), Público (Portugal), The Guardian (Inglaterra), Página 12 (Argentina) e até mesmo a rede de televisão Al-Jazeera, entre outras, denunciam a ameaça contra a democracia brasileira. E mais: boa parte desses veículos destaca o protagonismo da mídia brasileira no golpe.

Um exemplo é a publicação alemã Der Spiegel. Sob o título “A Crise Institucional no Brasil: Um Golpe Frio”, no último sábado (19.03.2016), em seu online, a Spiegel citou textualmente a participação das Organizações Globo em prol do impeachment.

Diz o texto: “parte da oposição e da Justiça age, juntamente com a maior empresa de telecomunicações TV Globo, para estimular uma verdadeira caça às bruxas que tem como alvo o ex-presidente Lula”. O juiz Sérgio Moro também é mencionado, não na carapuça de herói, mas como um juiz que faz política, o “que não é sua função”.

“Até o momento, Moro não foi bem-sucedido na elaboração de sua acusação contra Lula”, aponta o texto, lembrando que há meses promotores e policiais federais “realizam uma devassa nas finanças e relações pessoais do ex-presidente”, e que “os indícios são ainda frágeis”. Confira a tradução aqui).

“Protestos incitados pela mídia”

Na imprensa britânica, um dia após a BBC comparar a política brasileira à série de televisão House of Cards (17.03.2016), Gleen Greenwald, repórter do The Guardian, denunciou o golpe em andamento. Greenwald ficou conhecido mundialmente ao ter sido escolhido por Edgar Snowden para revelar a espionagem em massa do governo norte-americano.

Em artigo publicado no Intercept, ele denuncia que os protestos a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff são, na verdade, “incitados pela mídia corporativa intensamente concentrada, homogeneizada e poderosa”. Ele propõe também uma forte comparação para dimensionar a ação da mídia no país:

“Considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party”. (Confiram a tradução do texto aqui).

“Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos”, concluiu Greenwald.

No último domingo (20.03.2016), o The Guardian alertava: "uma preocupação óbvia é que esses protestos (contra e pró-governo), se saírem do controle, poderiam degenerar em violência desenfreada e no risco de intervenção pelas Forças Armadas" (leia a íntegra).

“Juízes justiceiros”

O vazamento das conversas telefônicas entre o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma Rousseff ganharam destaque no britânico The Economist. Um dia após o episódio, o jornal destacava: “Moro pode ter ido longe demais”.

“Liberar uma gravação de conversa em que uma das partes, não menos que a presidenta, que não está formalmente sob investigação e goza de forte proteção constitucional parece violação da sua privacidade”, aponta o texto. (Leia a íntegra).

No espanhol El País, o abuso de poderes do juiz Sérgio Moro também teve destaque. Bastante crítica, a reportagem de Davis Alandete, “Juízes justiceiros que sonham com Watergate”, chegou a questionar qual Justiça está investigando as acusações contra o ex-presidente Lula: “a que presume a inocência de todos os acusados ou a que atende somente à indignação política das ruas”.

O periódico cita, ainda, o comportamento dos juízes brasileiros, divulgando a postagem no Facebook, do juiz Itagiba Catta Preta Neto, que anulou a nomeação de Lula à Casa Civil na última semana. Antes da vitória democrática da presidenta Dilma em 2014, o juiz recomendava aos seus seguidores na rede social: “ajude a derrubar a Dilma e volte a viajar a Miami e a Orlando. Se ela cai, o dólar também cairá. Fora Dilma”.

A conclusão de El Pais é taxativa: “Assim morre a independência do Poder Judiciário” (Leia a tradução aqui).

O Página 12, da Argentina, não fica atrás. O periódico vem publicado vários artigos de intelectuais brasileiros e internacionais que alertam sobre o golpe e a quebra da legalidade no país. Entre eles, o do analista internacional Juan Manuel Karg, que apontou o caráter golpista do empresariado aliado à FIESP.

“A renovada pressão empresarial pela repentina saída de Rousseff esquece um dado não menor: 54 milhões de brasileiros optaram por Dilma há menos de um ano e meio, em outubro de 2014”, afirma o texto, apontando que a saída da presidenta Dilma, o cenário de crescente conflito social poderá ser ainda pior. (Leia a íntegra de “A paciência de Lula”, 20.03.2016).

Flagrante ilegalidade

Já o periódico português Público divulgou em seu portal duas análises contundentes: “A justiça partidária e o limiar do golpe no Brasil” de Sylvia Debossan Moretzosohn (20.03.2016); e “Brasil: guerra civil fria” de Álvaro Vasconcelos (23.03.2016).

Citando a condução coercitiva do ex-presidente Lula no dia 4 de março e a “flagrante ilegalidade do vazamento de conversas telefônicas entre a presidente Dilma Rousseff e Lula”, Sylvia Debossan afirma, sem meias palavras, que o juiz Moro “avançou até ultrapassar todos os limites”.

Detalha, inclusive, a ilegalidade dos vazamentos: “um juiz de primeira instância não poderia grampear as ligações da Presidente a não ser com autorização do Supremo Tribunal Federal”. E mais: “a ligação em questão foi feita já quando esse mesmo juiz havia determinado a suspensão das escutas a Lula. Portanto, obviamente [ele] não poderia divulgá-la”. (Leia a íntegra do artigo)

Álvaro Vasconcelos, por sua vez, destaca que “em Portugal, a maioria da imprensa tem alinhado a sua análise dos fatos pela narrativa desenvolvida pela TV Globo ou de jornais que se afirmam como órgãos políticos, como o Estado de S. Paulo ou a Folha de S. Paulo”.

E complementa: “É fundamental não esquecer que um dos problemas da democracia brasileira é sua imprensa, que não procura ser objetiva e apoiou no passado as conspirações anticonstitucionais contra as forças políticas que se consideram de esquerda — ou seja, contrárias aos interesses da Casa Grande, como se diz no Brasil”. (Leia a íntegra do artigo).

Reportagem da Al-Jazeera

Entre as denúncias, destaca-se uma reportagem divulgado pela Al-Jazeera, a mais importante rede de televisão do mundo árabe. Nesta segunda-feira (21.03), o Listening Post dissecou, a partir de imagens e entrevistas, o papel central da mídia brasileira na condução do golpe.

Frisando que a presidenta Dilma não está sob nenhuma investigação, a reportagem mostra, por exemplo, a suspensão da programação regular na TV brasileira, trazendo imagens da Rede Globo e de outras emissoras, no dia da manifestação contra o Governo Dilma, “incitando as pessoas a irem para as ruas exigir o impeachment da presidenta Dilma Rousseff”.

Traçando o perfil e nível social dos manifestantes contra o governo Dilma, a reportagem salienta que para compreender o que está acontecendo no Brasil, é fundamental entender a imensa desigualdade social do país. “As profundas desigualdades sociais sempre estiveram no centro das políticas nacionais”, afirma a matéria.

A reportagem aponta, também, que “cinco famílias, entre as mais ricas do país, controlam 70% dos principais meios de comunicação”, compondo o “establishment brasileiro, a classe dominante, há décadas”. E dispara: “nem Lula, nem Dilma tentaram diversificar a cena midiática em relação à concessão de propriedade dos canais de transmissão”.

Reputações jogadas no lixo

O programa veiculado nesta semana pela Al-Jazeera também destaca que “qualquer tipo de ideologia que pode ser considerada mais progressista é imediatamente suprimida e criticada” por essas empresas.

A reportagem cita, ainda, o perfil midiático do juiz Sérgio Moro e traz trechos do seu artigo, de 2004, “Considerações sobre a Operação Mani Pulite (mãos limpas)”, uma análise sobre as investigações promovidas na Itália.

Neste texto, aponta a reportagem, Moro anuncia sua estratégica, defendendo abertamente o trabalho conjunto entre a mídia “simpatizante” e o Judiciário como forma de garantir o êxito nas investigações.

O resultado, alertam analistas ouvidos pela Al-Jazeera, é a criação de um ambiente onde suspeitos, julgados de antemão pela mídia e pela opinião pública, têm suas reputações jogadas no lixo, antes mesmo que um julgamento de fato aconteça, comprovando ou não as suspeitas levantadas.

Confiram abaixo o vídeo da reportagem e não deixem de acompanhar o clipping internacional da Carta Maior.



Tatiana Carlotti
No Carta Maior

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