4 de mar de 2016

Delação inexistente vira fato consumado na mídia


Os jornais brasileiros, que em 1964 se uniram para apoiar uma ditadura militar no País e hoje estão engajados na derrubada do governo da presidente Dilma Rousseff, abriram suas cartas nesta sexta-feira. O jogo — ou melhor, o golpe — consiste em transformar em fato consumado uma delação inexistente.

Na noite de ontem, as manchetes do Uol, portal do grupo Folha, assim como do Estadão online, destacavam que o suposto "delator", o senador Delcídio Amaral (PT-MS) não reconhecia a autenticidade da "delação" que lhe era atribuída. Assim como seus advogados. Portanto, não existe delação.

No entanto, a ordem unida dos três principais jornais do País, Globo, Folha e Estado (repita-se, três apoiadores do regime militar de 1964) é tratar como verdadeira a delação que não houve.

Eis as manchetes:

Globo — Delação de Delcídio põe Dilma no centro da Lava-Jato.

Folha — Ex-líder do governo liga Dilma e Lula à Lava Jato, e oposição pede renúncia.

Estado — Delcídio acusa Dilma e Lula na Lava Jato e agrava crise política.

Uma delação premiada é um documento jurídico claro. Trata-se de um acordo, assinado pelo delator, por seus advogados e pelo Ministério Público na presença de um juiz.

Sem isso, trata-se apenas de um pedaço de papel apócrifo, como foi definido pela presidente Dilma Rousseff (leia aqui).

A suposta delação de Delcídio, como demonstrou o colunista Paulo Moreira Leite (leia aqui), pode ser um documento forjado ou até uma eventual proposta de colaboração que não foi concretizada. É possível que, quando esteve preso, e sob intensa coerção psicológica, Delcídio tenha cogitado delatar. No entanto, ele não o fez, porque foi solto pelo ministro Teori Zavascki, que avaliou que sua prisão preventiva, após a apresentação da denúncia, havia se tornado desnecessária. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, também tratou a "delação" de Delcídio como um fato jornalístico — e não jurídico.

Torturando a realidade

O jogo dos meios de comunicação, que representam poderosos interesses econômicos, será agora forçar de qualquer maneira o senador Delcídio a transformar um pedaço de papel apócrifo numa delação real.

Essa estratégia, no entanto, encontra dificuldades. Na defesa verdadeira apresentada por Delcídio, ele próprio se assumiu como um bravateiro. Disse que no famoso diálogo que o levou à prisão, gravado por Bernardo Cerveró, filho de Nestor Cerveró, ele dizia bravatas em relação ao banqueiro André Esteves, que foi preso, e também em relação aos ministros do Supremo Tribunal Federal, sobre os quais dizia ter grande influência.

Ora, se Delcídio admitia dizer bravatas em relação a um banqueiro e a todos os ministros do STF, porque não faria o mesmo em relação à presidente Dilma Rousseff e ao ex-presidente Lula, numa eventual situação de desespero?

O fato concreto é um só: não existe delação premiada alguma. Mas o jogo bruto da mídia, engajada em mais um golpe contra a democracia brasileira, é transformar uma ficção, que até pode ter algum lastro na realidade, em verdade absoluta e incontestável.

No 247

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