27 de mar de 2016

Como o Jornal Nacional tratará a Lava Jato caso o golpe triunfe

O JN, no caso do golpe, será como nos tempos de Medici
O JN, no caso do golpe, será como nos tempos de Medici
Em suas memórias, Samuel Wainer notou o óbvio: os analfabetos políticos, ou perfeitos idiotas, acham que o que veem nos jornais, revistas e telejornais é verdade.

Em sua ingenuidade desumana, eles não imaginam que por trás do que é noticiado estejam famílias riquíssimas dedicadas a preservar seus próprios interesses, Marinhos, Frias, Civitas e por aí vai.

Tais famílias escolhem, com capricho criminoso, o que vai chegar a seu público, e como. Com o mesmo apuro, decidem também o que não vai chegar.

Mas o analfabeto político não pensa nisso. Com o mesmo fervor obtuso, ele crê que decisões de juízes são sagradas. Se ele atinasse que um juiz da Suprema Corte — como Gilmar, Toffoli etc. — podem ser tão tendenciosos quanto um juiz de futebol vinculado a um time, seria mais crítico. Mas não é o que acontece.

Vamos agora fazer um exercício.

Na hipótese extrema de que o golpe funcione: como a Globo vai passar a noticiar a Lava Jato para os analfabetos políticos que ainda a levam a sério?

Vai tirar do ar. A Lava Jato deixará de ocupar intermináveis minutos no Jornal Nacional, na Globonews e demais telejornais da casa porque já terá cumprido seu objetivo. Moeo será abandonado como Joaquim Barbosa, ou caso seja o candidato a presidente da Globo, artificialmente inflado.

Corrupção, igualmente, não será mais tema de reportagens.

Quem, como eu, militou demorados anos em grandes empresas jornalísticas como Globo e Abril sabe como elas agem na defesa de suas mamatas e privilégios.

O general Medici, um dos presidentes da ditadura, teve uma reflexão histórica sobre o Jornal Nacional de seu tempo. “Você vê o mundo em chamas e ao assistir o Jornal Nacional depara com um paraíso”, disse ele.

Jovens idealistas morriam torturados nas masmorras da ditadura que a Globo ajudara a construir e manter. Direitos trabalhistas como a estabilidade eram roubados sem que os trabalhadores pudessem fazer nada porque greves eram proibidas e líderes sindicais perseguidos. Políticos destemidos eram cassados. A corrupção grassava por baixo do pano em civis como Paulo Maluf.

Mas o que aparecia no JN era um paraíso. De mentirinha.

É isso, este circo sinistro, que teremos de volta caso o golpe vença.

Eduardos Cunhas continuarão a ter a vida mansa que sempre tiveram, porque ao mesmo tempo em que roubarão prestarão serviços sujos à Globo: farão aprovar medidas contra os trabalhadores e impedirão que sequer se discuta uma regulamentação da mídia que impeça a empresa dos Marinhos de ser o monstro manipulador que é.

O país, como na ditadura militar, se encherá de confrontos porque os movimentos sociais e jovens estudantes como os secundaristas de São Paulo não aceitarão passivamente um crime de lesademocracia.

Sangue fatalmente correrá, graças aos métodos conhecidos da Polícia Federal, mas também isso não será notícia.

A Globo, acossada pela Era Digital que a fará em circunstâncias normais uma empresa em grossa decadência, terá mais uma vez livre acesso aos cofres públicos, por meio de publicidade e financiamentos indecentes.

Terá cada vez menos público, porque isso é inexorável, mas os Marinhos serão cada vez mais ricos num país cada vez mais desigual.

Mas o JN, como no tempo de Medici, trará a seus analfabetos políticos um paraíso. De mentirinha. Mas, em sua ignorância majestosa, é disso mesmo que eles gostam, um mundo falso em que só haja brancos, ricos, cheirosos, sorridentes — em suma, perfeitos idiotas como eles mesmos.

Paulo Nogueira
No DCM

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