16 de mar de 2016

Como Delcídio do Amaral se vingou de Mercadante


A íntegra da delação premiada de Delcídio do Amaral mostra o que, efetivamente, o ministro da Educação e nome de confiança de Dilma Rousseff, Aloizio Mercadante, disse ao assessor do parlamentar, José Eduardo Marzagão, e as conclusões e interpretações que ele mesmo teve para os investigadores da Lava Jato.

Espontaneamente, Delcídio entregou a gravação das conversas entre seu assessor e o ministro ao Ministério Público Federal, sem que os investigadores solicitassem ou questionassem esclarecimentos sobre o fato.

A delação de Delcídio, neste ponto, inicia-se com o parlamentar explicando porque tem "atritos políticos" com Mercadante. Citou, então, o caso do senador José Sarney, em que a bancada do PT orientou o voto de seus parlamentares pelo arquivamento de pauta e que Mercadante mudou a postura e votou pelo prosseguimento das investigações.

Delcídio também recuperou em sua memória de conflitos com o ministro que, durante a CPI dos Correios, da qual era presidente, Aloisio Mercadante havia comparecido uma única vez, apenas "para tentar livrar sua propria responsabilidade pelo fato de Duda Mendonça ter feito sua campanha e estar, ao mesmo tempo, envolvido no contexto das investigações do Mensalão", na sua opinião.

Em seguida, afirmou que esse conflito foi o que fez com que sua esposa negasse a tentativa do ministro de entrar em contato com ele. Na versão de Delcídio, com a suposta negativa, Mercadante teria procurado o seu assessor, Eduardo Marzagão, nos dias 1, 9 e 28 de dezembro do último ano, enquanto Delcídio estaria preso. 

O conteúdo da conversa entre os dois — que podem ser verificadas na gravação vazada para a imprensa — e a interpretação do senador foram: 

(01) Mercadante pediu "calma" a Delcídio, por meio de seu assessor, e pediu que avaliasse "muito bem a conduta a tomar, diante da complexidade do momento crítico". Como forma de consolo, o ministro disse ao senador que "em pouco tempo o problema seria esquecido e que tudo ficaria bem".

Em delação aos investigadores, Delcídio interpretou que a mensagem "a bem da verdade era no sentido do depoente não procurar o Ministério Público Federal para, assim, ser viabilizado o aprofundamento das investigações da Lava Jato". 

(02) O assessor de Delcídio comentou, em uma das conversas, que Delcídio e sua família estavam gastando dinheiro com advogados e, por isso, colocando imóveis à venda. Mercadante respondeu que sobre o pagamento de advogados, o senador poderia contar com o PT, por meio de uma empresa, para pagar os honorários.

Delcídio concluiu que "este é o modus operandi do PT". Que "a propósito da contratação de escritórios de advocacia ao tempo do Mensalão, acredita que o PT bancou a defesa dos correligionários envolvidos".

(03) Mercadante, em determinada situação, mostrou a confiança que tem da presidente Dilma Rousseff, afirmando que "se ela tiver que descer a rampa do Planalto sozinha, eu descerei ao lado dela".

O gesto foi entendido por Delcídio que: "Aloisio Mercadante agiu como emissário da Presidente da República e, portanto, do governo". 

(04) Em outro episódio, Mercadante afirmou que se Delcídio resolvesse colaborar com o Ministério Público Federal e com o Poder Judiciário, receberia uma "responsabilidade monumental" por ter sido "um agente de desestabilização".

O senador disse ter achado "estranha esta afirmação" e concluiu que foi uma "ameaça velada à vista de possível recrudescimento da crise política".

(05) Mercadante salientou a Delcídio do Amaral que o deixava "à vontade para decidir o que achasse melhor".

Mas, "na percepção do depoente [Delcídio]", isso "reforçava a intenção" de Mercadante de fazer o senador "permanecer em silêncio". 

* * *

Ao final, o senador disse que concluiu achar melhor firmar o acordo de delação premiada porque "conhece o governo por dentro" e, por isso, "não sentiu qualquer firmeza nas promessas de solidariedade e de ajuda política que, eventualmente, receberia". O parlamentar cumpriu a promessa de vingança que anunciou, em dezembro do ano passado, ao não receber ajuda do PT.

Chegou a dizer que "se fosse outro o Governo", ele "poderia pensar de modo diferente" e não aceitar a delação.

Patricia Faermann
No GGN

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