6 de mar de 2016

Abstrações

"Deus não joga dados com o universo", disse Einstein, para nos assegurar que existe um plano por trás de, literalmente, tudo, e que o comportamento da matéria é lógico, mesmo que sua lógica custe a aparecer. A física quântica depois revelou que a matéria é mais maluca do que Einstein pensava e que o acaso rege o universo mais do que gostaríamos de imaginar, mas fiquemos com a palavra do velho. Deus não é um jogador, o universo não está aí para Ele jogar contra a sorte e contra Ele mesmo. Já os semideuses que controlam o capital especulativo do planeta Terra jogam com economias inteiras e podem destruir países com um lance dos seus dados, ou um impulso dos seus computadores, em segundos. Todos têm 28 anos e um poder sobre as nossas vidas que o Deus de Einstein invejaria.

Todas as religiões conhecidas têm metafísicas antigas e hierarquizadas. Seus deuses podem tudo, mas dentro das expectativas e das tradições das suas respectivas fés. Afinal, até a onipotência tem limites. A metafisica dos semideuses é inédita. Não tem passado nem convenções. É a destilação final de uma abstração, a do capital desassociado de qualquer coisa palpável, até do próprio dinheiro. Como o dinheiro já é a representação da representação da representação de um valor aleatório, o capital transformado em impulso eletrônico é uma abstração nos limites do nada — e é ela que rege as nossas economias e, portanto, as nossas vidas.

E quem pensava ser possível construir sociedades humanas regidas por outras abstrações, como igualdade e solidariedade, se vê prisioneiro de um sopro invisível que ninguém controla, da maior abstração de todas. A única lógica dos semideuses é a da comissão necessária para um novo Porsche. O poder do dinheiro corrompe, como nos mostra o que estamos lendo nos nossos jornais, onde pipoca um escândalo financeiro por dia, e o poder do capital sem nenhuma vinculação moral com o que quer que seja corrompe absolutamente, pessoas, partidos e países.

Luís Fernando Veríssimo

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