3 de mar de 2016

A organização criminosa da delação premiada


Há muito tempo que eu sinto um forte mau cheiro de gente — que eu não sei quem é — operando no mercado financeiro em cima de supostas delações premiadas bombásticas soltas na imprensa que depois são desmentidas (no todo ou em parte).

Hoje a revista IstoÉ solta uma recombolesca "reporcagem", que a gente vê ser falsa só de olhar as fotos. A letra da primeira página da suposta delação premiada de Delcídio Amaral, está em fonte do tipo de máquina de escrever antiga. Não é igual as letras do resto do texto do suposto documento. Clara evidência de montagem.

Mas quando o boato é publicado como se fosse notícia, "na hora certa", com o pregão das bolsas aberto, como ocorre hoje, fortunas mudam de mãos em poucos minutos e continuam mudando por algumas horas, nas operações na Bovespa e com o dólar.

O texto da "reporcagem" também é um primor de fantasia romanceada, de deixar o site "Sensacionalista" com inveja, pela capacidade ficcional criativa.

A suposta delação de Delcídio publicada na IstoÉ praticamente delata todas as "reporcagens" das revistas Veja, Época e IstoÉ juntas, feitas desde a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, mas nada diz sobre a Alstom, as termelétricas no período em que ele foi diretor da Petrobras no governo FHC. E nada diz sobre o ex-sócio do senador José Serra (PSDB-SP), Gregório Marin Preciado, no episódio da compra de Pasadena. Estes dois fatos já constam de peças jurídicas da operação Lava Jato.

No período eleitoral houve o forte cheiro do uso de pesquisas de intenção de votos para especular nas bolsas. Havia também o cheiro de especuladores se aproveitando de depoimentos da Lava Jato abertos à imprensa, feitos no horário de funcionamento das bolsas, que afetavam cotações da Petrobras e do dólar.

Não insinuo e não creio que agentes públicos da Lava jato tenham agido com intenção de favorecer especuladores. Acredito até, a priori, que podem nem ter pensado nisso como efeito colateral da sanha de expor politicamente ao desgaste quem pré-julgavam culpados pela simples delação, antes de obter provas. Mas foram incautos e podem ter sido usados sem saber para os propósitos de especuladores.

Eu não descartaria nem a hipótese de delatores terem agido de comum acordo com especuladores em determinados depoimentos abertos à imprensa que, logo noticiados em pleno horário de pregão, causaram um reboliço nas cotações de ações da Petrobras e no dólar.

É muita ingenuidade achar que todo delator, que mentiu a vida inteira para roubar, se torne um honestíssimo arrependido e que não trate a negociação de delação premiada como mais um negócio em sua vida, com cálculo de perdas e ganhos.

Por isso delações sensíveis devem ser sigilosas, e só as provas concretas a que a delação levar devem ser públicas. Senão a corrupção impune no mercado financeiro faz a festa, em valores muitos maiores do que as propinas que diretores e operadores corruptos receberam. E sem precisar colocar nenhum tijolo em nenhuma obra.

Zé Augusto
No Amigos do Presidente Lula

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