12 de mar de 2016

A ordem democrática se rompe: o cerco nas ruas e nas instituições

http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/palavra-minha/a/

Essa gente se engana se pensa que o golpe jurídico-midiático vai ser um passeio no parque. Não será. Todos pagarão preço alto, inclusive aqueles que hoje usam a violência simbólica (Globo/Veja et caterva) e a força jurídica para humilhar e destruir os adversários.

Já não é mais possível dizer que estamos a um passo do rompimento da ordem democrática. O rompimento já aconteceu.

Há algumas semanas, escrevi aqui sobre esse “1964 em câmera lenta”. E o quadro se consolida.

PM cerca sindicatos: a esquerda está em minoria,
mas PSDB teme reação até dia 18
Em São Paulo, capital reaça do Brasil, a PM comandada pelo governador Alckmin (PSDB) cercou sindicatos de trabalhadores desde sexta-feira. A Globo e a Veja atacam sem nenhum limite. Guerra de extermínio, para matar a esquerda e os movimentos sociais — estejam ou não alinhados a Lula.

Ao contrário de 1964, o cerco não é comandado pelo Exército — que está quieto. Mas pela burocracia de Estado. Juízes, policiais federais, parcelas do Ministério Público Federal e das promotorias nos estados oferecem à classe média raivosa uma narrativa de “combate aos corruptos”.

1964 foi feito contra a corrupção e contra a esquerda. Nesse ponto, nada mudou. Mas os métodos são mais sofisticados.

Difícil explicar para setores mais moderados que há um golpe jurídico em curso, com apoio midiático; ou um golpe midiático, com apoio jurídico. Difícil porque surge sempre a pergunta: “mas um golpe? eles são apenas policiais e procuradores combatendo a corrupção”.

É a narrativa de que “o braço da lei não perdoa ninguém” (essa ideia devo à jornalista Laura Capriglione, formulada durante uma conversa angustiada sobre os rumos do país).

Claro que os setores organizados de esquerda e quem conhece a história do Brasil sabem bem do que se trata: combate à corrupção? Com Aécio (o senador do “terço de Furnas” e das 5 delações) e Alckmin (merendão e trensalão) comandando as massas de classe média?

Mas o fato é que essa narrativa de “braço da lei contra o partido dos corruptos” vem avançando, e atinge o ápice nesse fim-de-semana com a marcha de 13 de março.

As revistas semanais, a Globo e outras tvs servem a esse discurso, tornando “natural” que o combate à corrupção se faça apenas contra um partido e um setor da sociedade. A esquerda psolista e marineira não percebeu isso antes. Espero que agora perceba: não é o PT apenas que eles querem destruir…

Mas é evidente também que a aposta do governo Dilma, ao romper com a base popular que poderia fazer sua defesa, cria uma situação dramática.

Dilma apostou tudo na governabilidade “institucional”, digamos assim. E nos afagos ao “mercado”. Ficou sem apoio nas ruas, e não ganhou nada nos mercados e instituições.

Dilma entregou poder a Renan/PMDB do Rio, para enfrentar a ala do PMDB que desejava impeachment já em 2015. Pois agora é Renan, empoderado por Dilma na negociação do Pré-Sal, quem acerta os detalhes para o desfecho do golpe.

A PM cerca os sindicatos em São Paulo, a classe média vai pra rua, e o PMDB dá um prazo de 30 dias pra decidir a saída do governo. São 30 dias para acertar os ponteiros com os tucanos.

Em 1964, Jango caiu quando o PSD abandonou o governo e se uniu à UDN, isolando os trabalhistas. É exatamente o movimento que se repete: a UDN (tucanos) atrai o PSD (temer e seus garotos) para o ataque final.

Eles estão com pressa. Precisam derrubar Dilma e parar a Lava-Jato antes que a investigação (via STF) chegue (já chegou) a Aécio, Renan e Temer.

A essa altura, há quatro fatores que podem interromper o cerco e frear a escalada golpista:
  • Lula, no governo ou nas ruas, comandar a resistência e reagrupar o que resta de movimentos organizados dispostos ao combate (a direita faz cálculos pra saber se é melhor mantê-lo livre ou preso, qual situação seria menos danosa ao golpe);
  • a Lava-Jato, via STF, trazer novas revelações que podem desmoralizar os golpistas (Moro não o fará, porque ele integra a inteligência do golpe institucional; mas Teori mostra que não pretende poupar tucanos e peemedebistas)
  • a esquerda ir pras ruas e mostrar de forma decidida que não aceitará a colombianização do Brasil (na Colômbia, há uma combinação de autoritarismo, exclusão das esquerdas do jogo político e ataque aos direitos — tudo disfarçado sob o manto da “normalidade” institucional);
  • a direita cometer novos “erros” que comprometam seu avanço.
Esse último ponto é o que chamo de “o imponderável de Almeida”.

A ação do MP de São Paulo foi claramente um erro do lado de lá. A petição dos 3 patetas — inepta, absurda — escancara a escalada autoritária travestida de legalidade.

A direita erra, por sua arrogância.

Temer errou com sua carta chorosa, Moro errou na condução coercitiva de Lula, o MP-SP errou esta semana com a petição dos 3 patetas. Alckmin erra usando a truculência da PM. Erram porque acreditam na miragem de que haja “um país inteiro a favor de derrubar o PT, seja de que jeito for”.

A realidade não é bem essa.

Há maioria do povo, sim, inconformada por Dilma ter abandonado o programa vitorioso em 2014. E há a direita de classe média, insuflada pela mídia e por Moro.

O segundo grupo fará qualquer coisa pra derrubar o governo e prender Lula. Acha que está liberado para o vale-tudo. Mas o primeiro grupo, ao ver o abuso do segundo, pode compreender o que há em jogo.

Contemos com a capacidade da direita de escancarar seus métodos.

A direita — que cerca sindicatos e persegue (com PF e procuradores) um ex-presidente e todos aqueles que estão com ele — vai mostrar sua cara nos próximos 30 dias. Vamos ajudar a expor esse rosto sombrio.

Eles entraram numa guerra total. Estão mais fortes. Mas em posição de força muitos exércitos cometem erros. É com isso também que podemos contar, na defesa da democracia.

Mas não sejamos ingênuos. A situação é muito favorável a um golpe institucional, pela direita.

O que nos anima é que a história dá voltas. Um ataque truculento agora, ainda que amparada pela legalidade, deve ser enfrentado de forma firme.

Os movimentos sociais e a esquerda podem até perder essa batalha agora. Mas travá-la é fundamental, porque logo adiante esse governo de direita que pretende se implantar no Brasil vai mostrar seus limites.

Essa gente se engana se pensa que o golpe jurídico-midiático vai ser um passeio no parque. Não será.

Todos pagarão preço alto, inclusive aqueles que hoje usam a violência simbólica (Globo/Veja et caterva) e a força jurídica para humilhar e destruir os adversários.

A resistência será longa, devemos olhar para longe. Lutar agora — mesmo em minoria — significa mostrar que estamos vivos e que não aceitamos o desmonte do Brasil, dos direitos sociais, do Estado nacional.

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