28 de fev de 2016

Papa Francisco e Macri: Queda de braços entre dois mundos


O Papa Francisco recebeu na manhã de ontem (27) o presidente argentino Mauricio Macri, com uma frieza que congelou a algazarra da comitiva.

Apenas uma troca protocolar de presentes, uma foto e uma saudação azeda, que duraram poucos minutos. Vinte e dois minutos para sermos exatos.

O Papa conhece muito bem Mauricio Macri porque antes tinha sido Cardeal de Buenos Aires.

E também conhece muito bem a esposa do presidente, Juliana Awada, porque tanto ela como sua família utilizam  oficinas têxteis clandestinas que frequentemente têm mão de obra escrava; essas que ele, como Cardeal, denunciou muitas vezes.

Foto: Claudio Onorati, Reuters
O presidente argentino levou de presente para o Sumo Pontífice um poncho e uma réplica da Cruz de Matará.  A cruz original, de madeira de juazeiro (Ziziphus mistol), foi talhada pelos jesuítas por volta do ano 1594, quando se estabeleceram na província de Santiago del Estero, com a finalidade de evangelizar a população nativa: os matarás.

Este povo era na realidade um grupo de aborígines tonokotes que tinham sido sequestrados em 1585 pelos conquistadores, e que tinha se estabelecido pela força nesse lugar como mão de obra escrava para os espanhóis, que os rebatizaram com esse sugestivo nome de Matará, que não fazia mais do que predizer seu destino, porque depois foram exterminados.

A localidade de Matará é hoje uma aldeia de 1700 habitantes. E essa região continua sendo hoje a fornecedora de mão de obra escrava para os proprietários de terras.

O Movimento de Camponeses de Santiago del Estero (MO.CA.SE)  conhece bem a família Macri. Faz 30 anos que tem que lidar com eles, desde quando a mudança climática e os avanços tecnológicos da indústria agropecuária fizeram desse canto desértico de nosso país, um lugar cultivável.

Os Macri fizeram parte desse grupo de empresários que, com seus contatos com políticos corruptos, foram escriturando essas terras que não tinham um título de propriedade em nome dos habitantes originários, e foram ficando com os pequenos sítios. Igual que os colonizadores, um dia chegavam com as patrolas e a polícia local, e expulsavam os habitantes das suas casas. Cercavam com arame o campo e botavam fogo às humildes moradias com todos os pertences dentro.

Esta não foi a única provocação de Mauricio Macri ao Sumo Pontífice: chegou acompanhado de três governadores, Rosana Bertone, familiar de Tarcisio Bertone, um cardeal italiano que foi secretário de Estado durante o papado de Bento XVI e trabalhou para evitar que Francisco fosse nomeado Papa; Juan Manuel Urtubey, o governador de Salta, denunciado por ser cúmplice de narcotraficantes; e o governador de Mendoza Alfredo Cornejo, quem em seu plano de ajuste incluiu o corte aos subsídios das escolas católicas na sua província.

As casualidades da história fazem com que ontem, em Roma, dois argentinos, um latifundiário e explorador de trabalhadores, casado com uma escravista; e outro um  jesuíta que tenta evangelizar os selvagens capitalistas, tenham se encontrado por razões diplomáticas. As imagens divulgadas dessa reunião não fazem mais que confirmar a distância que existe entre um e outro.

Nos dias prévios, o Papa tinha recebido  Eduardo “Vasco” Murúa, presidente do Movimento Nacional de Empresas Recuperadas, e Guillermo Robledo, do Movimento Hélder Câmara Para a Paz entre os Povos, que lhe pintou a paisagem em que vivemos os argentinos: estigmatização dos trabalhadores federais;  perseguição aos camelôs;  repressão e criminalização do protesto social;  além das medidas econômicas que levaram o país a uma estagnação virtual com inflação alta.

Com certeza, o Sumo Pontífice leu o documento que um dia antes emitiu o Encontro Nacional de Sacerdotes em Opção Preferencial pelos Pobres, que faz uma enumeração das principais medidas do governo de Mauricio Macri, que é realmente desolador, e cujas palavras finais são uma súplica aos membros do governo:  “…Transcorridos pouco mais de dois meses deste governo legal, mas de gestos perversos, não duvidamos em pedir “em nome de Deus e deste sofrido povo cujas lamentações sobem até o céu” modifiquem o modelo! Com o Papa Francisco gritamos: Este modelo mata!”

Fiel a seu mandato e sua missão evangelizadora, o jesuíta lhe entregou a Encíclica “Laudato si” (Louvado sejas!), com a esperança de que Mauricio Macri a leia, mas no seu gesto adusto se podia ver a firme convicção de que embora o fizesse, o presidente argentino não a entenderia.

Débora Mabaires, Buenos Aires
No Desacato

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