22 de fev de 2016

A mídia e sua imagem

A aura de apartidarismo dos meios de comunicação se desfez, indica pesquisa Vox populi de dezembro

Um resultado da última pesquisa nacional do Instituto Vox Populi, concluída em dezembro de 2015, surpreende quem estuda a percepção da população a respeito da mídia. Ela mostra que, depois de anos de imagem predominantemente apartidária e neutra, os "grandes" veículos de comunicação passaram a ter uma nítida identidade político-partidária. Apenas a parcela menos interessada e menos informada da oponião pública ainda  a vê como equidistante dos partidos.

Da década de 1960 para cá, em razão de seu controle sobre a formulação de narrativas, os grandes grupos de comunicação realizaram a proeza de estar sempre por acima: enriqueceram na ditadura e continuaram a lucrar na redemocratização. Refestelaram-se após o golpe de 1964, em pagamento por sua participação nas articulações para derrubar João Goulart e do apoio que nunca negaram aos ditadores. Só se bandearam para a oposição quando o regime envelheceu e se revelou disfuncional a seus interesses. Ganharam de novo. Conseguiram se reposicionar, encobriram seu passado e se apresentaram  como se sempre estivessem ao lado da democracia.

As pesquisas de opinião, feitas desde o fim dos anos 1980 até recentemente, mostraram que essa estratégia havia sido bem-sucedida. Existia um quase consenso na opinião pública sobre a "neutralidade da imprensa", em que pese o ativismo nitidamente partidário de seus principais veículos. Quem não se lembra da sucessão de manobras do Sistema Globo contra Leonel Brizola? Quem se esqueceu da edição que a TV Globo veiculou do debate entre Fernando Collor e Lula no segundo turno da eleição de 1989?

A mitologia da neutralidade, curiosamente, sobreviveu até mesmo à confissão de que ela não existia. Há cinco anos, ninguém menos que a presidente da Associação Nacional de Jornais admitiu candidamente que, ao contrário do estabelecido no mito, (...) os meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste País, já que a oposição está profundamente fragilizada". Era verdade e permaneceu verdadeiro desde então.

Demorou até um número crescente de brasileiros dar-se conta de que a mídia nada tem de apartidária, nem hoje nem nunca. A lenda da neutralidade resistiu além do razoável, sustentada em estereótipos diariamente reforçados e na desatenção do público consumidor.

Na pesquisa Vox Populi de dezembro, foi perguntado aos entrevistados se achavam que "os meios de comunicação atacam muito o PT, Lula e Dilma e protegem o PSDB, Fernando Henrique e Aécio", se supunham o contrário (que atacam os tucanos e protegem os petistas) ou se "os meios de comunicação não atacam nem protegem ninguém e tratam todos da mesma maneira".

Para uma mídia que finge ser neutra, o desejável seria que a grande maioria optasse pela terceira resposta. Não é, porém, o que acontece: menos da metade, 47% dos entrevistados, a escolheu. O que significa dizer que 53% dos entrevistados não consideram que a "grande" mídia trate os partidos de forma equitativa, dos quais 26% acham que ela ataca o PT, 11% o PSDB e 16% não têm opinião.

Mais reveladores são os resultados para os grandes segmentos político-partidários em que a população pode ser dividida, petistas, antipetistas e aqueles que nem aprovam nem desaprovam o PT. Quando essas diferenciações são consideradas, os números ficam mais nítidos.

Apenas 37% dos simpatizantes do PT acham que a mídia "trata todos os partidos da mesma maneira", o que, inversamente, quer dizer que quase dois terços não a avaliam como imparcial. Entre os neutros em relação ao partido, a proporção daqueles que imaginam ser ela equidistante é também menor que no conjunto dos entrevistados.

A maioria dos que consideram que a mídia é "apartidária" é formada por antipetistas. É apenas nesse grupo que a taxa daqueles que acreditam na neutralidade ultrapassa a metade: quase 60% afirmam que os meios de comunicação "tratam todos da mesma maneira". Apenas por se identificarem com o antipetismo que nela percebem.

Este é o resultado da investida dos grandes grupos de comunicação contra o PT e suas principais lideranças. Ao escancarar que têm lado, jogaram para o alto o investimento de anos para se apresentarem como equilibrados e apolíticos. Mas não é a primeira vez que seus proprietários escolhem esse caminho. Já haviam tomado rumo semelhante em 1964.

Lá, a aposta no golpe deu certo. Agora, contudo, nada assegura seu sucesso. Disso, o que vai restar, muito provavelmente, é uma mídia com imagem indelevelmente marcada pela rotulação partidária.

Marcos Coimbra
No CartaCapital

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