31 de dez de 2015

Dez coisas que ajudariam o Brasil em 2016


 1 

Um certo ex-presidente fazer um curso de História do Brasil, e chegar à conclusão que quem nasceu pra fazer ponta em filme alheio jamais chegará a Pedro II, Getulio Vargas, muito menos a Luis Inacio Lula da Silva. Poderia dizer depois, “como é para a felicidade de todos e o bem estar geral da nação, digam ao povo que fico onde estou, na galeria dos personagens à espera de um Oscar de coadjuvante. Ah sim, e que desisto do golpe”.

 2 

O senador Aécio Neves fazer um curso supletivo de humildade, talvez de humanidade, com a Miss Colômbia, que admitiu a derrota depois de ter sido anunciada vencedora, e sair para o abraço — de vencedora, claro, a presidenta Dilma. Mas enfim, isto é difícil. Afinal, quem nasceu pra Aécio Neves nunca chega a Miss Colômbia.

 3 

O governador Geraldo Alckmin se matricular numa escola pública, das que quis fechar, em qualquer grau, e conviver com os estudantes que mandou reprimir. Sem medo de ser feliz.

 4 

A presidenta Dilma Rousseff fazer um curso rápido de comunicação na ECA/USP e se convencer que sim, ela tem um projeto próprio, que é dotar o país de uma infra condizente com seu papel mundial e regional, e se dispor a explicar isto pra população, sobrevoando sobre os panelaços que, aliás, não têm o menor sentido. E também a falta de comunicação dela e de sua equipe. Que também não tem o menor sentido.

 5 

O deputado Cunha, mais as bancadas da bala, da Bíblia e a rural, tomarem uma caravela e partirem com passagem só de ida para algum outro mundo. O universo é vasto e acolhedor. Para todos, um outro mundo é possível. Até pra eles.

 6 

O vice-presidente Michel Temer ler alguma biografia do outro vice, Café Filho, que, aliás, entrou na chapa com Getulio em 1950 pela esquerda, traiu o titular, foi pra direita e entrou para a história como um zero à esquerda. Um? Talvez dois. Se continuar a escrever cartas lamuriosas, Temer arrisca três.

 7 

O senador José Serra viajar para Brno, na Transilvânia, fechar-se no castelo do Drácula, e permanecer lá num sarcófago cinco estrelas, patrocinado por quem o patrocinou. A abrir em um século e ver o que resta. Chevron na veia.

 8 

O senador Álvaro Dias desistir de se candidatar à presidência pelo PV, PSB, ou outra sigla, e se candidatar a lider do coro gregoriano do Mosteiro de São Bento, em São Paulo. Voz ele tem. O canto pode lhe dar conteúdo.

 9 

A velha mídia brasileira quebrar. Quero dizer, financeiramente. A espinha ela já quebrou. A sua e a dos seus arautos. Bom, quebrada já está. Depende dos favores governamentais e das suas próprias pedaladas nas manchetes.

 10 

O PSTU se converter ao Hare Krishna, deixar sua pregação a favor do fora Dilma, FHC, FMI, PT, PCO, PCdoB, Evo Morales, Rafael Correa, etc., etc., o que seria um bom exemplo pra toda a extrema-esquerda, além de ser uma garantia de bom posicionamento na próxima encarnação.

Flavio Aguiar
No Sul21
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Janot vai analisar após recesso se abre inquérito contra Aécio


O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, vai analisar após o recesso do Judiciário se deverá ou não abrir um inquérito para investigar os senadores Aécio Neves (PSDB-MG), Renan Calheiros (PMDB-AL) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Os três parlamentares foram citados na Lava Jato pela delação premiada de Carlos Alexandre de Souza Rocha, entregador de dinheiro do doleiro Alberto Youssef. Rocha disse que Aécio recebeu R$ 300 mil em propina de um diretor da empreiteira UTC Engenharia.

A denúncia contra o tucano foi publicada nesta quarta-feira 30 na Folha de S. Paulo. Aécio afirmou em nota que a denúncia é absurda e irresponsável e que tem como objetivo desviar o foco das investigações, além de "constranger o PSDB".

Segundo o delator, Renan teria sido o destinatário de R$ 1 milhão, entregue entre janeiro e fevereiro de 2014, enquanto o senador do Amapá teria recebido R$ 200 mil. Os dois negam as acusações. Randolfe classificou a denúncia como "incabível".

No 247
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Governo acerta “pedaladas” - mas na Comunicação, continua “pagando mico”

http://www.maurosantayana.com/2015/12/governo-acerta-pedaladas-mas-na.html


O pagamento das famosas “pedaladas”, pelo governo, no penúltimo dia do ano, gerou desconfiança e ironia por parte da fascistada nos comentários das redes sociais e dos portais de sempre.

Em vez de entender que o governo retirou dinheiro de reservas do tesouro economizadas depois do governo FHC, a turma que ladra de ouvido ficou com a impressão — e está disseminando isso — que o governo teria emitido dívida nova para pagar a si mesmo, ou melhor, ao patrimônio público — considerando-se que é o maior acionista do Banco do Brasil, do BNDES e da Caixa Econômica Federal.

Enquanto essa confusão tende a persistir — e a continuar sendo usada como mote pelos seus adversários — o governo insiste em seguir mostrando que é absolutamente incapaz de contar o 2 + 2 = 4 da história econômica nacional nos últimos 13 anos — principalmente aquela parte que se refere ao pagamento dos 40 bilhões de dólares que se herdou da dívida de FHC com o FMI, e a outra, que mostra que depois se economizaram — e continuam guardados — mais 370 bilhões de dólares — aproximadamente um trilhão e quatrocentos bilhões de reais — em reservas internacionais.

Considerando-se esses números o dinheiro economizado desde 2002 — e isso o governo também não diz — daria para pagar uma dúzia de vezes o tão alardeado déficit de 120 bilhões de reais do ano que vem, sem emitir um centavo de dívida.

Não adianta, institucionalmente, parar de “pedalar”, para tentar acalmar a direita, quando, na comunicação, se continua caindo da bicicleta — e quebrando a cara — a todo instante.
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Os Marinho, os mais ricos do País, detonam o mínimo


Em abril de 1962, o jornal O Globo, à época conduzido por Roberto Marinho, publicou uma manchete em que previa algo desastroso para o Brasil: a criação de um décimo-terceiro salário.

Hoje, ninguém questiona o fato de que o décimo-terceiro é um dos principais alavancadores das vendas do comércio no fim de ano e já foi devidamente incorporado aos custos das empresas, sem que nenhum desastre tenha ocorrido.

Nesta quinta-feira, último dia de 2015, o Globo retoma sua tradição contrária a qualquer política trabalhista. Em editorial interno, classifica como "tosco" o argumento usado pelo ministro do Trabalho, Miguel Rossetto, para defender um aumento do salário mínimo ligeriamente acima da inflação — com reajuste de 11,67%, o piso salarial foi a R$ 880,00.

Segundo O Globo, trata-se de "seríssimo problema" que inviabiliza as contas públicas. O Globo ainda ironiza e afirma que, se o mínimo fosse capaz de estimular a economia, por que não triplicá-lo?

Coincidência ou não, os três irmãos Marinho (Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto) formam a família mais rica do Brasil, com patrimônio superior a US$ 25 bilhões.

A tese dos três, no entanto, não encontra amparo nos dados do Dieese, que aponta que a política de valorização do mínimo, que teve ganhos reais de 77% desde 2002, foi um dos principais fatores de inclusão social nos últimos anos.

Leia, ainda, análise do Dieese:

Aumento real do mínimo chega a 77% desde 2002 e injeta R$ 57 bi na economia

Incremento da renda promove retorno de R$ 30 bilhões em arrecadação com impostos. Segundo Dieese, cada R$ 1 de aumento do mínimo promove retorno anual de R$ 293 milhões em contribuições à Previdência

Por Paulo Donizetti de Souza – Com o reajuste de 11,67% e valor de R$ 880 a partir de 1º de janeiro, o salário mínimo nacional terá alcançado um ganho real de 77,3% acima da inflação acumulada desde 2002. Passará a ter, ainda, o maior poder de compra desde 1979 em relação à cesta básica. O novo vencimento do trabalhador que recebe o piso nacional equivale a 2,4 vezes o valor da cesta básica calculado pelo Dieese. Em 1995, no início do governo Fernando Henrique Cardoso, correspondia a 1,1 cesta.

Segundo o governo, o novo valor terá um impacto de R$ 4,8 bilhões no orçamento da União em 2016. Para o Dieese, no entanto, o acréscimo de renda aos 48 milhões de brasileiros que recebem salário mínimo representará uma injeção de recursos de R$ 57 bilhões na economia, com impacto de R$ 30,7 bilhões na arrecadação de impostos.

O efeito concreto dessa política de valorização é ainda mais benéfico para o bolso das pessoas e para as contas públicas do que a política de juros praticada pelo Banco Central. O coordenador de relações sindicais do Dieese, José Silvestre Prado Silveira, estima que o gasto anual com os juros pagos aos investidores de títulos públicos baseados na Taxa Selic seja de R$ 400 bilhões.

E ainda que o aumento do mínimo repercuta nos pagamentos da Previdência Social, já que são 22,5 milhões os aposentados e pensionistas que o recebem, os efeitos do aumento da renda em circulação na economia compensam. "Cada R$ 1 de acréscimo no salário mínimo tem um retorno de R$ 293 milhões ao ano somente sobre a folha de benefícios da Previdência Social", diz Silvestre, referindo-se ao impulso dado pela renda dos trabalhadores e aposentados no consumo e, portanto, na manutenção das atividades de empresas, comércio e serviços e no respectivo nível de emprego.

Cerca de dois terços dos municípios do país tem como principal fonte de renda e de ativação das atividades econômicas locais o salário mínimo.

Muito a evoluir

Em seu artigo 7º, a Constituição determina que entre os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, está um "salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim".

Ao anunciar o valor de R$ 880 para o salário mínimo a partir de 1º de janeiro, o governo federal não faz mais do que a obrigação de dar um pequeno passo em direção a contemplar um direito essencial historicamente descumprido, praticamente desde que os primeiros ano em que o salário mínimo foi instituído, em 1938. Mas essa busca pela recomposição de seu poder de compra de modo a cumprir a lei nem sempre esteve presente nas políticas públicas.

A política de valorização mais efetiva do salário mínimo começou a ser discutida em 2004, por pressão das centrais sindicais. Na ocasião o governo Lula apenas começava a rever a política de ajuste fiscal liderada pelo então ministro da Fazenda Antonio Palocci. Essa política de recuperação consiste de um reajuste baseado na inflação do ano que termina e na evolução do PIB no ano anterior — se estenderá pelo menos até 2019.

A pressão das centrais sindicais pela manutenção dessa política é permanente, mas ela não basta. O processo de recuperação pode perder força se o Brasil não voltar a crescer rapidamente, já que o aumento do PIB é que determinará o ganho real dos próximos cinco anos.

Em entrevista à Revista do Brasil, o professor Cláudio Dedecca, do Instituto de Economia da Unicamp, alerta, porém, que o ideal seria que todos os estratos da sociedade contassem com um crescimento da renda, e não que houvesse a perda de um segmento para ganho de outro. Por isso, é preciso que o país apresente taxas de crescimento superiores às que vêm sendo observadas. "Se continuar no ritmo atual, a política adotada para o salário mínimo, por exemplo, encontrará restrições crescentes no futuro."

No início do Plano Real, julho de 1994, o valor necessário do mínimo, calculado pelo Dieese, era nove vezes superior ao oficial (R$ 590 a R$ 64). Ao longo do governo Fernando Henrique essa diferença entre oficial e necessário oscilou de sete a oito vezes; durante a gestão do tucano um trabalhador que recebia salário mínimo chegou a precisar trabalhar 11 meses para alcançar o valor exigido pela lei. No primeiro janeiro dos brasileiros sem Fernando Henrique, em 2003, o valor nominal do salário mínimo era R$ 200, enquanto o necessário para atingir o que determina a Constituição era R$ 1.386 (quase sete vezes mais).

A partir de 2003, essa diferença passou a ser reduzida de maneira mais acentuada, chegando ao seu melhor patamar em janeiro de 2014, final do primeiro mandato de Dilma, quando o mínimo era de R$ 724 e o necessário exigido por lei, R$ 3.118,00 (3,5 vezes mais). A alta da inflação (6,22% em 2014 e estimativa de 11,5% de INPC em 2015) combinada com baixo crescimento do PIB (2,3% em 2013 e 0,1% em 2014) já promove um ligeiro recuo, e a relação mínimo oficial versus o necessário deverá estar em pouco mais de 4 vezes neste janeiro (o valor efetivo da cesta básica, base para o cálculo do mínimo necessário pelo Dieese, só será conhecido no final do mês).

O ministro do Trabalho e Previdência Social, Miguel Rossetto, disse ontem (29) em entrevista que a política de valorização do mínimo leva o governo a caminhar "na direção correta". "Renda nacional é responsável por grande parte da dinâmica econômica nacional. O mercado interno é que responde por grande parte do dinamismo da nossa economia. Essa política tem permitido fortalecer e ampliar o mercado interno, diminuído as desigualdades de renda e elevado a qualidade de vida da sociedade brasileira", disse.

Rossetto tratou ainda de criar um ambiente mais otimista para o início do ano, em que o governo é pressionado por centrais sindicais, movimentos sociais, empresários e governadores a adotar rapidamente medidas de recuperação do crescimento. O ministro afirmou que a oferta de crédito deve ter novo impulso nos próximos meses. O governo espera ainda uma retomada dos investimentos privados, sobretudo com a reativação dos setores paralisados em decorrência da Operação Lava Jato, a partir dos acordos de leniência que permitirão a empresas investigadas voltar a celebrar contratos com o setor público.

No 247
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Manual do perfeito midiota - Parte 1

Um dia você acorda transformado num enorme inseto, e não vai ter que se preocupar com mais nada

O mundo de repente se tornou muito complexo? Não se preocupe: a maneira menos dolorosa de lidar com a complexidade da existência e com aquela angústia que ela provoca é assumir a condição de midiota. Portanto, é preciso verificar se você se classifica no rol dessas pessoas afortunadas para as quais o mundo é branco ou preto.

Seria maldade perguntar se você leu o livro originalmente intitulado “Being There”, publicado em 1970 pelo escritor Jerzy Kosinski. No ano seguinte, saiu uma edição brasileira que recebeu como título “O Videota”, o que facilita as coisas. Mas, para evitar o sacrifício de ter que ler um livro inteiro, informo que a versão cinematográfica pode ser baixada ou assistida online (dublada, para facilitar), no youtube ou vimeo.com. Busque pelo título: “Muito além do jardim”.

Em resumo, trata da história de um indivíduo maduro, órfão desde o nascimento, que passou a vida cuidando do jardim do homem que o acolheu. Nunca foi à escola, não aprendeu a ler ou escrever. Tudo que sabia era o que havia visto na televisão do seu quarto.

Um dia, o dono da casa morre e ele tem que sair para o mundo. O que se segue chama-se ironia: numa sociedade muito mais complexa do que o jardim que era seu universo, as opiniões simples e reducionistas que ele havia formado ao longo dessa existência alienada soam como explosões de sabedoria. Assim, ele vai subindo na escala social à base de metáforas absolutamente primárias sobre jardinagem e programas televisivos.

Alguma relação com as opiniões que você colhe na imprensa sobre política brasileira, economia e, principalmente, sobre corrupção?

Se a resposta for positiva, você tem grande chance de se identificar como um midiota. Aliás, no romance de Kosinski e no filme, o “videota” chama-se Chance, nome que em inglês, francês ou português pode ser traduzido como “oportunidade”.


Aqui está, portanto, sua chance de reduzir a angústia de viver numa sociedade onde a ascensão social de milhões de pessoas que viviam na pobreza produziu um alto grau de complexidade. Vamos combinar: a vida era muito mais simples quando a empregada usava o elevador de serviço, andava de ônibus, não precisava de férias e conhecia o seu lugar. E a gente nem precisava registrar o emprego dela. Quebrava um vaso, podia trocar o vaso e a empregada, sem maiores danos.

Também sabemos, você e eu, que esse negócio de preto, mulato, aquele povo do norte, fazendo compra no mesmo supermercado, comprando a mesma coisa que a gente, causa um certo desconforto. Esse mal-estar aumenta muito quando os encontramos na fila do aeroporto, ou a bordo daquele navio de cruzeiro, certo?

Tudo isso é causa de angústia e isso é compreensível: você não teve a chance de se preparar para essa mistura, porque passou a vida entre a mídia conservadora e o jardim do lar burguês.

A boa notícia é que você pode reduzir esse sofrimento simplesmente assumindo sua condição de midiota.

O diagnóstico é simples e pode ser feito por você mesmo. Por exemplo, você leu nos jornais que o desemprego de março superou o de fevereiro, e saiu por aí dizendo que o Brasil está à beira do abismo. Nem se pergunta quantos dias úteis tem fevereiro, se esse é um mês em que as pessoas esperam arrumar emprego etc.

Se você assumiu que o Brasil foi para a cucuia, parabéns: você é um midiota quase perfeito.

Mas se você tem um resquício de senso crítico e questiona se esse tipo de indicador é duvidoso, ainda pode comparar o desemprego do primeiro semestre deste ano com o do ano anterior. Pode chegar à mesma conclusão, ou seja, de que o Brasil foi pelo ralo.

No entanto, se passar pela sua cabeça que 2014 foi ano de Copa do Mundo e, portanto, muitos indicadores econômicos ficaram fora da curva, sinto muito: você está deixando o confortável mundo dos midiotas.

Veja bem: não se trata de ler ou não os jornais e as revistas semanais de informação que dominam o mercado, ou de assistir os telejornais todas as noites. Ser um midiota é uma questão de postura – você precisa receber esse noticiário pelo preço de face, ou seja, tem que absorver a mensagem sem aplicar sobre ela qualquer questionamento.

Não pode considerar, por exemplo, que um ano inteiro de noticiário negativo, apocalítico, acaba produzindo o que anuncia, porque afeta o ânimo de investidores, de empresários e dos trabalhadores.

Outra chance de fazer o diagnóstico: você vibrou com a manobra do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para levar a votação a proposta do impeachment da presidente da República? Não se importou com a hipótese de que o solerte parlamentar pudesse estar desviando sua atenção das acusações que pesam sobre ele?

Depois disso, você passou a achar que o vice-presidente Michel Temer é um homem de muitas luzes, porque quase oficializou o rompimento do PMDB com a aliança governista, testando a perspectiva do impeachment?

Se a resposta for positiva em ambos os casos, você está no caminho da libertação: mais um pouco e será dispensado de emitir opiniões inteligentes sobre qualquer coisa.

Mas, se passar pela sua cabeça que até o advogado que assina o pedido de impeachment sabe que dificilmente o Supremo Tribunal Federal iria concordar com a quebra da ordem constitucional se não houve – como não há – denúncia de crime administrativo contra a presidente da República, sinto muito: ainda falta um bocado para você se considerar um perfeito midiota.

Como se vê, o Brasil se tornou muito complexo.   

Mas não perca a esperança: continue lendo diariamente os principais jornais do País, não se esqueça de olhar as manchetes nas bancas, e não deixe de assistir aos telejornais e aqueles comentaristas cheio de sabedoria sobre tudo.

Um dia você acorda transformado num enorme inseto, e não vai ter que se preocupar com mais nada.

Para ver: Muito além do jardim, dublado

Luciano Martins Costa, Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

Leia também: Manual do perfeito midiota - Parte 2; Manual do perfeito midiota - Parte 3; Manual do perfeito midiota - Parte 4.
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A Direita chama a atenção para os impostos, mas a carga tributária não cresceu agora

http://www.maurosantayana.com/2015/12/a-direita-chama-atencao-para-os.html


Assim como faz com a dívida pública, que, considerando-se a bruta, aumentou menos de 5% nos últimos 13 anos, e, no caso da líquida, caiu pela metade no período, parte da imprensa “comemorou” — ressaltando os aspectos negativos do fato — a ultrapassagem da marca “mágica” de 2 trilhões de reais em arrecadação de impostos no ano de 2015, nesta semana.

Como sempre, os que acham que o estado é o culpado de tudo — em uma era que, lembrando que o Departamento de Defesa dos EUA é o maior empregador do planeta, não existem nações poderosas sem estados fortes — aproveitam para desancar o governo e estabelecer comparações esdrúxulas.

Para esse pessoal, a carga tributária no Brasil é uma das maiores do mundo, e vem aumentando vertiginosamente nos últimos anos, no rastro do pretenso “descalabro” de uma nação que possui o oitavo maior estoque de reservas internacionais do mundo.

O que, em um e em outro caso, não corresponde aos fatos.

Para usar uma fonte insuspeita para esse público, a CIA, em seu World Fact Book, https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2221rank.html afirma que o Brasil ocupa o posto de número 51 entre as maiores cargas tributárias do mundo.

Sem entrar no mérito da questão — se a arrecadação de impostos é adequada ou não para os desafios que o Brasil enfrenta e deve esperar nos próximos anos — o importante é lembrar que a carga tributária — ao contrário do que muitos andam espalhando por aí — não "explodiu" agora.

Segundo a Receita Federal, foi no governo Fernando Henrique Cardoso, — apesar da venda de mais de 100 bilhões de dólares em empresas estatais — que a carga tributária brasileira aumentou em 6,1% pontos, passando de 26,1% do PIB em 1996, para 32,2% do PIB em 2002 — enquanto subiu em apenas 1,3% nos 13 anos seguintes, para 33,5%, em 2014.

Quem estiver insatisfeito com os impostos por aqui, pode, aproveitando o idioma, mudar-se, por exemplo, para Portugal, onde eles são de 44,7% do que se produz naquele país, que tem uma dívida bruta de 129% do PIB — que é mais que o dobro da nossa — e um desemprego — também duas vezes maior — que foi de quase 15% em 2014.
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Cinco verbetes sobre Theodor W. Adorno

Fotografia do artista plástico Elyeser Szturm feita especialmente para esta coluna

Teoria crítica

O termo “teoria crítica” surgiu como codinome para o marxismo, na década de 1930, época da ascensão do nazi-fascismo e do stalinismo. Sob tal disfarce, delineou-se uma nova formulação da doutrina, preocupada em preservar essa linhagem sem o amparo de suas âncoras tradicionais, o proletariado e o partido.

A versão então exposta, ulteriormente denominada “materialismo interdisciplinar”, atesta o predomínio intelectual e político, entre seus partidários, de Max Horkheimer, na ocasião diretor do Instituto de Pesquisas Sociais. Os artigos publicados na revista do Instituto, Zeitschrift für Sozialforschung, sobretudo, os de sua lavra, constituem a espinha dorsal do movimento que ficou conhecido como “Escola de Frankfurt”.

Examinados de um ponto de vista retrospectivo, os ensaios dos principais colaboradores – Erich Fromm, Herbert Marcuse, Walter Benjamin e Theodor Adorno – prenunciam a futura diáspora. Não seria difícil, porém, considerar os desenvolvimentos teóricos posteriores desses autores como tentativas de correção da primeira “teoria crítica”.

Adorno concebe um conceito expandido de “experiência”, mais abrangente que o de “filosofia social”, descrito por Horkheimer como a junção de teoria e pesquisa empírica, de filosofia e saber científico especializado. No decorrer de sua obra, procurou incorporar outras modalidades de conhecimento, tais como a vivência individual (cujo caso mais paradigmático aflora nos aforismos de Minima moralia, em 1951) e a reflexão sobre a arte – desdobrada em uma série de textos que encontra seu fecho na Teoria estética (1970).

Aufklärung

Durante a Segunda Guerra, Adorno e Horkheimer escreveram juntos Dialética do esclarecimento. Trata-se de uma inflexão radical na “teoria crítica”, estruturada até então sob a égide de uma práxis direcionada para a adoção de critérios e interesses racionais. O conturbado contexto mundial, concomitante à implantação de diferentes formas de economia planificada na Alemanha, na União Soviética e nos Estados Unidos, levou-os a abdicar de sua expectativa anterior de superar a injustiça por meio de uma progressiva racionalização da ordem social. Nesse cenário, emerge, ao primeiro plano, a questão: “Por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie”?1

Adorno e Horkheimer não compreendem o esclarecimento (Aufklärung) no diapasão do idealismo alemão (Kant, Fichte, Hegel), que considera esse processo como uma rota que conduz exclusivamente à emancipação. Debruçam-se sobre sua dialética própria — resumida na expressão “o mito já é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia” —,2 pressentida, entre outros, por Marx, Nietzsche e Freud.

Nessa acepção, Aufklärung torna-se indissociável da dominação social da natureza. Dialética do esclarecimento procura reconstituir a “pré-história” da reificação, na tentativa de explicar por que a mesma lógica, a da “razão abstrata”, preside, simultaneamente, a ordem econômica (a troca mercantil), a esfera do conhecimento (a ciência moderna) e as formas de dominação (e de legitimação política). Propõem assim uma reflexão sobre o caráter destrutivo do progresso, numa perspectiva que não visa “conservar o passado, mas resgatar suas esperanças”.3

Indústria cultural

Adorno e Horkheimer criaram o conceito “indústria cultural” para nomear a modalidade de arte destinada ao consumo de massa. Trata-se de um produto elaborado não mais segundo o padrão e a escala do trabalho artesanal, mas conforme o esquema capitalista de produção de mercadorias, no qual o valor de uso é reduzido à condição de mero suporte do valor de troca.

Em contraposição às expectativas de Walter Benjamin, Adorno avalia esse fenômeno, antes mesmo da redação do capítulo da Dialética do esclarecimento, como apenas mais um instrumento de dominação social.4 Enquanto Benjamin, de olho na cena russa e confiando no potencial desencadeado pela cooperação no trabalho criativo, predica a “politização da arte”, Adorno destaca a despolitização inerente a uma situação em que as massas estão confinadas à pura passividade.

A indústria cultural insere-se no quadro mais amplo da administração do “tempo livre”. A organização do lazer no âmbito do processo de valorização do capital promoveu uma racionalização de procedimentos que expandiu a reificação, prolongando a não-liberdade característica do espaço da produção, para o mundo do consumo e daí para a esfera da vida imediata. No entanto, nem por isso, adverte Adorno, cabe supor que a consciência esteja completamente integrada.

Ele confronta ainda os objetos da indústria cultural com o ideal artístico de exposição da “vida verdadeira”. Mercadorias no sentido pleno do termo, seus produtos, construídos em função do efeito visado, extinguem a autonomia da obra, por conseguinte, a própria possibilidade da arte subsistir como fonte de conhecimento, reserva utópica ou ação voltada para a emancipação.

Forma ensaio

Exacerbando uma tendência latente na primeira versão da teoria crítica, Adorno descarta o proletariado e, com ele, o partido, como motor da negatividade. A crítica da sociedade transfere sua atenção do processo de produção capitalista para a análise de seus efeitos. Esse deslocamento não significa um repúdio das teses do materialismo histórico, ao contrário, ressalta — ao atestar a inversão entre meios e fins — que o predomínio do aparato econômico ainda condiciona a consciência e o inconsciente dos indivíduos.

É, portanto, como dimensão reificada, carente de autonomia, que a subjetividade torna-se tema prioritário de investigação. O direcionamento da análise para o singular, o transitório, o não-idêntico, por sua vez, impõe uma retificação da atividade conceitual, desmontando a ilusão de uma “subjetividade constitutiva”.

O predomínio da “forma ensaio” nos textos e no estilo de Adorno deriva tanto de sua afinidade e militância na vanguarda modernista, como da premissa de que a exposição não é indiferente à teoria. A insurreição contra a totalidade sistêmica e a filosofia da identidade requer, por um lado, procedimentos específicos como o uso de tropos pouco habituais (parataxes e quiasmos, por exemplo) e a composição de constelações que associem sem hiatos o conteúdo e a dimensão especulativa. Mas também, em outra vertente, demanda construções pertinentes ao gênero “fragmento”: aforismos, notas, verbetes, pequenos escritos, estudos, palestras, artigos, modelos críticos.

Dialética negativa

Dialética negativa (1966) conecta o exame crítico dos pressupostos metodológicos do conhecimento com a compreensão do presente histórico. O livro pode ser considerado, ao mesmo tempo, o ápice e o ponto terminal do marxismo ocidental.

Nele, a contestação da filosofia tradicional desemboca em um alargamento do conceito de filosofia, um movimento reiterado inúmeras vezes ao longo da linhagem do marxismo ocidental. Adorno distancia-se dessa vertente, porém, em sua insurgência contra a primazia do método, com a tentativa de proceder “metodicamente sem método”. Mas também e, sobretudo, por sua convicção de que o capitalismo, mesmo depois de sua metamorfose em “mundo administrado”, não pode ser explicado supondo-se que as determinações características da sociedade seguem o modelo — delineado pelo idealismo alemão — de um sujeito unitário.

No sentido estrito do termo, dialética negativa designa a autoconsciência da submissão da subjetividade à sua prisão categorial, a crítica da mutilação dos indivíduos pelo cativeiro social moldado pelo aparato de autoconservação. A meditação, a reflexão “especulativa” preserva a negatividade ante o existente, limpando o terreno para um “pensamento de conteúdos”.

A metacrítica da teoria do conhecimento desdobra-se assim em crítica da sociedade. A passagem para o materialismo, um segundo giro copernicano, prepara a dialética para expressar conceitualmente o não-idêntico, rompendo com a “filosofia da identidade” que Adorno detecta tanto no par antitético “positivismo-idealismo”, como nas tentativas de assentar a dialética nas ciências naturais (Engels) ou na ação revolucionária do proletariado (História e consciência de classe).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


ADORNO, Theodor. Dialética negativa. Rio de Janeiro, Zahar, 2009.
ADORNO, Theodor. Minima moralia. Rio de Janeiro, Azougue, 2008.
ADORNO, Theodor. Teoria estética. Lisboa, edições 70, 1982.
ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985.
HORKHEIMER, Max (ed.). Zeitschrift für Sozialforschung. Reprint. München, Deutscher Taschenbuch Verlag, 1980.

NOTAS


1 ADORNO, Theodor e HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento, p. 11.
2 Idem. Dialética do esclarecimento, p. 15.
3 Idem. Ibidem, p. 15.
4 O capítulo intitula-se, significativamente, “A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas” (Idem. Ibidem, p. 113-156).

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Elyeser Szturm é artista plástico. Professor da UnB e doutor em artes visuais pela Université de Paris VIII. Ganhou o Prêmio de viagem ao exterior do XVI Salão Nacional da Funarte e o VII Salão da Bahia. Participou da Bienal 50 Anos, da 25a. Bienal de São Paulo, das mostras Território Expandido 3 e Faxinal das Artes, entre outras. A partir de hoje, passa a ilustrar a coluna mensal de Ricardo Musse, no Blog da Boitempo.

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Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.
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Propina de Aécio. A quem interessa o crime? Será fogo amigo?


De uma hora para outra a Folha de S.Paulo revolve um depoimento de um dos diversos delatores que andam por aí  uma referência clara e inequívoca que o presidente do PSDB recebeu num dado momento uma bela propina de R$ 300.000,00 de uma das diversas construtoras envolvidas em processos de corrupção.

O interessante é que esta delação foi feita no Supremo e está sendo divulgada em primeira mão por um jornal francamente contra o governo Dilma.

Estes dois indícios mostram que a notícia provavelmente foi plantada por alguém de confiança da FSP, o que exclui uma eventual tentativa de um simpatizante ou membro do governo federal ter passado esta notícia.

Seguindo métodos policiais de investigação, é possível achar suspeitos nesta ação partindo do básico. A quem interessa o crime?

Se a notícia partisse de alguém vinculado ao governo, provavelmente ela não seria divulgada pela Folha de São Paulo devido a cuidados maiores na investigação da notícia e principalmente por partir de quem partiu.

Se esta notícia não partiu do governo de quem poderia ter partido? Voltando a metodologia inicial, e sabendo que os partidos no Brasil, como no resto do mundo comportam lutas internas ferozes onde grande parte dos escândalos que aparecem nomes de pessoas partem dos próprios correligionários, ou mesmo ex-correligionários, poderemos levantar suspeitas sobre três nomes interessados em queimar de uma vez por todas a imagem de Aécio Neves.

O primeiro, e sempre suspeito de ações contra Aécio, tem-se na figura de José Serra como principal suspeito. Serra além do desgaste de imagem que tem sofrido ao longo do tempo foi desmoralizado frente aos seus pares pela taça de vinho jogada na sua cara pela ministra da agricultura, e esta desmoralização entre iguais fere em muito o ego e leva a mentes que tem por único objetivo nos dias atuais atingir o cargo de Presidente da República, ele já foi Governador, Ministro e Senador, logo a única ambição possível é a Presidência.

Por outro lado se tem uma figura que não precisa assumir o mando deste vazamento, mas tem diversos aliados e uma estrutura própria que podem decidir até a revelia do beneficiado o crime, estou falando de Alckmin. No entourage do governador há uma série de pessoas que podem após pequenas reuniões internas decidir que uma figura como Aécio não se coaduna com os princípios morais e espirituais de um “opus dei”, por exemplo.

Agora tem uma surpresa que também faria sentido que poucos pensaram, o senador paranaense Álvaro Dias. Este senador, virtual candidato a Presidência da República pelo PV, por pertencer até alguns meses ao PSDB ele sabe dos “pequenos segredos” deste partido e um desgaste na figura de seu presidente é extremamente conveniente.

Álvaro Dias talvez seja dos três suspeitos que menos se arrisca com a divulgação da propina que recebeu Aécio, e sendo ele senador pelo Paraná, bem próximo ao Juiz Moro, pode levantar uma dobradinha paranaense Dias + Moro para presidência da República, porém como a campanha precisará de tempo de TV um apoio de um partido desgastado até as eleições significaria um aumento significativo do seu cacife.

O problema é que o senador não pode levantar suspeita contra a sua figura, pois perderia o aliado no primeiro turno e com pouco tempo de TV pode não chegar no segundo. Logo as ações denunciando problemas com os três candidatos potenciais do PSDB ao Planalto deverão aparecer à conta gotas de forma discreta, porém contínua.

Um reforço a hipótese Álvaro Dias é que mesmo se sabendo que o Juiz Moro deve ter tido acesso a esta informação, o vazamento aparentemente saiu do Supremo! Algo extremamente conveniente para prosseguir com Moro ocupando a chapa ou mesmo se lançando ao senado através do PV ou outro partido de aluguel pelo Paraná.

O futuro pode confirmar toda esta hipótese, logo quem ler isto guarde e informação para entender os próximos passos inusitados que poderão ocorrer.

Rogério Maestri
No GGN
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O Novo Centro: Entre A Intolerância da Direita e O Apologismo da Esquerda


O texto a seguir tem como autor o ex-muçulmano liberal paquistano-canadense Ali A. Rizvi, que fala sobre dissidentes em países majoritariamente muçulmanos e sobre o seu papel frequentemente negligenciado na narrativa principal sobre o Islamismo (como costumam chamar o Islã político) e a potencial reforma do Islã tradicional.

O artigo é a transcrição de um discurso feito por ele no início de 2015 numa conferência sobre justiça criminal internacional, e os comentários entre colchetes são para oferecer contexto.


Fui criado numa família muçulmana, nas culturas muçulmanas de três países diferentes — Líbia, Arábia Saudita e Paquistão. Cresci principalmente em Riade, na Arábia Saudita, um aliado dos EUA com quase incondicional apoio ocidental, vivendo lá por quase doze anos. Essa terra é o local do nascimento do Islã, seu profeta Maomé e seu livro sagrado, o Corão, elementos que são reverenciados universalmente por todos os 1,6 bilhão de muçulmanos no mundo, independentemente das seitas ou denominações. O monarca tem o título de “Guardião das Duas Mesquitas Sagradas”, referindo-se aos dois locais mais sagrados no Islã, Meca e Medina. É a terra à qual muçulmanos pelo mundo todo se direcionam ao rezarem cinco vezes por dia.

Enquanto crescia lá, sentia que algo não estava certo. Até hoje, a Arábia Saudita faz decapitações públicas. Em Riade, isto é feito numa praça pública a que nós expatriados nos referimos como “Praça do Corta-Corta”. Para se ter uma ideia, no mesmo mês em que o mundo estava cambaleando de choque diante da decapitação de James Foley nas mãos do Estado Islâmico — Agosto de 2014 —, a Arábia Saudita decapitou 19 pessoas, incluindo algumas por crimes de feitiçaria e tráfico de maconha.

O governo saudita, afirmando o Corão e a Suna (tradições do Profeta Maomé) como a sua constituição, também amputa os membros dos acusados de roubo. Não se permite que as minorias religiosas pratiquem sua religião. As mulheres no país sofrem alguns dos abusos de direitos humanos mais flagrantes do mundo. São proibidas de dirigir. Precisam da permissão de um guardião do sexo masculino simplesmente para trabalharem ou viajarem. Vítimas de estupro são frequentemente acusadas de fornicação e adultério e sentenciadas a chibatadas caso não possam conseguir quatro testemunhas do sexo masculino para “provar” o crime.

Com o tempo, para a minha decepção, encontrei endosso para quase todas as ações dos sauditas no Corão — a decapitação dos descrentes nos versículos 8:12-13; a amputação das mãos pelo roubo em 5:38; a prática de lutar contra os cristãos e os judeus até que eles se convertam ou paguem a taxa da jizyah — como o Estado Islâmico faz em Mossul, no Iraque — em 9:29-30; violência doméstica em 4:34, e assim por diante. Fiquei consternado. Quando pedia aos mais velhos para explicar isso, pareciam tão pegos de surpresa quanto eu. Acontece que muito poucos dos muçulmanos moderados que eu conhecia sequer haviam lido o livro sagrado. No entanto, isso não os impedia de tentar o seu melhor para defendê-lo. Me diziam para não lê-lo “ao pé da letra”. Questionavam a autenticidade das traduções, apesar de lhes serem mostradas várias delas. Explicavam que os fundamentalistas estavam interpretando mal, ou “tirando as coisas do contexto”, não obstante, ficavam no prejuízo na tentativa de explicar qual era a interpretação ou contexto correto. Insistiam que qualquer inacuracidade ou defeito era de algum modo uma metáfora para algo mais palatável.

Então, como muita gente nos países em que cresci, perdi minha fé. Virei apóstata. Como muitos de vocês devem saber, esta — simplesmente que mudei de ideia — não é uma declaração que eu poderia fazer na Arábia Saudita ou no Paquistão tão facilmente como acabei de fazer aqui. Vi as escrituras da religião dos meus pais sendo usadas para justificar tudo desde casamentos com crianças a chibatadas de vítimas de estupro que não conseguiam quatro testemunhas do sexo masculino para provar sua inocência. E as maiores vítimas de tudo isso eram os próprios muçulmanos. Não era só eu. Havia muitos como eu que queriam se expressar acerca dessas questões, mas não podiam. Prometi a mim mesmo que, quando estivesse num país onde tivesse liberdade para me expressar, me expressaria.

Cheguei à América do Norte permanentemente nos meus vinte anos. Dois anos depois que me assentei em Toronto com minha família, os ataques do 11 de Setembro aconteceram. De repente, a conversa que vinha tendo comigo mesmo por anos estava ocorrendo em aberto. A internet agora estava aqui e logo todo mundo tinha uma voz. Foi aí que me encontrei preso entre duas narrativas, das quais com nenhuma me identificava.

A primeira era movida pela intolerância contra os muçulmanos — o que chamo de “narrativa da Fox News“: todos os muçulmanos eram simpatizantes de terroristas no armário, devemos implementar políticas de imigração mais estritas para mantê-los fora e devemos fazer perfil criminal com gente de pele parda. Essa gente de pele parda, é claro, incluía a mim e muito da minha família e amigos — esqueça que o cara da bomba na cueca era negro, Jose Padilla era hispânico e os homens-bomba de Boston vieram das montanhas do Cáucaso, que é literalmente de onde a palavra “caucasiano” é derivada. A maioria daqueles cuspindo este preconceito calhavam de ser eles próprios cristãos e judeus direitistas muito religiosos [Pastor Terry Jones, Pamela Geller e outros], o que não lhes dava muita credibilidade aos meus olhos. Já tinha lido os seus livros sagrados também, e não pareciam muito diferentes do meu.

A segunda narrativa — um tanto mais decepcionante para mim pessoalmente — vinha da esquerda liberal, a que me considero alinhado. Essa era a narrativa do apologismo, em que qualquer crítica ao Islã era confundida com intolerância. Se alguém criticasse crenças islâmicas ou os conteúdos do Corão, prontamente adquiria o rótulo de “racista”, “islamófobo” e, em meu caso, “vendido” ou “Tio Tomás”. Muitos liberais também parecem desculpar toda atrocidade cometida em nome do Islã como algum tipo de reação ao imperialismo ocidental ou à política externa dos EUA. É claro, eles não estavam completamente errados — as causas da perturbação no mundo muçulmano são complicadas e variadas –, mas também sabia em primeira mão que afirmar que estas crenças profundamente arraigadas nada tinham a ver com o comportamento que elas claramente geravam era insincero na melhor das hipóteses, e na pior, perigoso: dava cobertura aos fundamentalistas, ainda que inadvertidamente. [Os governos fundamentalistas e grupos militantes usariam esta narrativa da extrema esquerda de vitimização como um endosso para oprimirem ainda mais seu próprio povo e tirar seus direitos.] Os fundamentalistas em países de maioria muçulmana prosperam nesta narrativa. Com frequência, é a única coisa boa que têm a seu favor.

Este era o meu conflito — queria poder criticar o Islã como alguém deveria poder criticar qualquer conjunto de ideias, mas não queria ser visto como demonizando um povo inteiro — o povo por quem fui criado e com quem cresci. Nenhuma narrativa fazia essa distinção entre ideias e pessoas. É crucial enfatizar a diferença entre a crítica ao Islã e a intolerância contra os muçulmanos: a primeira alveja uma ideologia e a segunda alveja seres humanos. Isto é obviamente uma diferença muito significante, não obstante ambas são frequentemente amontoadas sob o infeliz termo guarda-chuva da “Islamofobia”.

O negócio é esse: seres humanos têm direitos e merecem respeito. Ideias, crenças e livros não. O direito a crer no que quisermos crer é sagrado; as próprias crenças não são. De fato, foi precisamente por causa dos abusos horríveis que presenciei muçulmanos normais sofrerem sob políticas teocráticas e a lei Sharia que quis começar um diálogo para ajudar a quebrar o tabu de criticar a religião.

Agora, não vamos poder resolver o problema de engatilhar uma reforma no mundo islâmico nesta brecha de tempo de 15 minutos. Mas a minha mensagem para vocês é esta: Há muitos, muitos lá fora com histórias similares à minha. Há uma narrativa alternativa reverberando dentro desses países de maioria muçulmana que é bem diferente da que temos aqui após ter sido filtrada pelas leis de blasfêmia e de restrição de expressão endossadas pelo estado. Infelizmente, não a ouvimos — porque a maior parte é silenciada antes de chegar a nós.

Muitos deles se identificam como liberais, não obstante se sentem traídos pelas suas contrapartes liberais ocidentais, que, as vezes por medo de serem vistos como islamofóbicos (o que chamo de “islamofobia-fobia”), ignorarão grandes injustiças iliberais como a subjugação das mulheres, ou a discriminação contras os gays, no momento em que são endossadas num livro sagrado. Aí, é lavar as mãos — porque é parte da religião “deles”, ou da cultura “deles”, que simplesmente deve ser respeitada a todo custo. A “eles” se aplica um padrão diferente — o que é conhecido como a “bitolagem leve das baixas expectativas”.

Meu grande amigo, Raif Badawi, está atualmente numa prisão em Jidá, na Arábia Saudita. Foi sentenciado a dez anos de prisão e 1000 chibatadas, das quais as primeiras 50 ele recebeu em Janeiro, apenas três dias antes que o embaixador saudita atendesse à mobilização pela liberdade de expressão em Paris, após os ataques ao Charlie Hebdo. Seu crime, como muitos de vocês sabem, é blogar — as acusações oficiais foram “adotar o pensamento liberal”, e “iniciar um website liberal”. Agora ele pode até estar encarando morte por decapitação por apostasia.

O presidente Obama não mencionou o caso de Raif Badawi na sua última visita à Arábia Saudita. O [ex] primeiro ministro [canadense] Harper — que tem criticado constantemente o niqab e o extremismo islamista — tem estado em silêncio acerca do caso de Raif apesar do fato de que a esposa e filhas dele estão vivendo bem aqui no Canadá e fazendo uma campanha incansável para a sua libertação. [Este é o custo que pagam os nossos companheiros liberais dissidentes através do mundo muçulmano por se expressarem. Como seus aliados liberais, devíamos apoiá-los.]

Este não é um problema que será resolvido militarmente. A cada vez que um grupo militante é derrotado, surge outro que é ainda mais brutal, explorando um novo conjunto de queixas para expandir seu poder de recrutamento. E este não é mais um problema regional, como podemos ver pelos passaportes ocidentais portados por milhares de membros do Estado Islâmico. Esta é também uma batalha ideológica. Podemos continuar podando os galhos, mas há uma ideologia subjacente que sempre esteve na raiz disso. Vimos isso dois séculos atrás no conflito de Thomas Jefferson com os Estados Berberes [antes que a política externa dos EUA sequer existisse]. E ainda vemos hoje como o Estado Islâmico.

Obrigado.

Ali A. Rizvi é um escritor, médico e músico paquistano-canadense que vive em Toronto. Atualmente está escrevendo seu primeiro livro, The Atheist Muslim: Losing My Religion but Not My Identity. [O Muçulmano Ateu: Perdendo Minha Religião mas Não Minha Identidade].

Luan Marques
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Planilha de vôos do governo Aécio em Minas é adulterada: sumiram os “passageiros”

Ele
O Gabinete Militar de Minas Gerais abriu um inquérito para apurar o desaparecimento de dados das planilhas dos vôos do governo Aécio Neves, entre 2003 e 2010, informa um membro do Ministério Público de MG.

O caso acontece na mesma semana da denúncia do entregador de dinheiro do doleiro Alberto Youssef, o qual, em delação premiada, afirmou que levou R$ 300 mil a um diretor da UTC em 2013. Esse diretor lhe disse que o montante ia para Aécio Neves.

As viagens foram tema de uma série de reportagens no DCM. As quatro aeronaves de Minas — dois jatos, um Citation e um Learjet, um helicóptero Dauphin e um turboélice King Air — foram utilizadas mais de 1400 vezes naquele período.

Em 198 ocasiões, Aécio não estava presente. Um decreto de 2005, assinado por ele, determina que o uso do equipamento destina-se “ao transporte do governador, vice-governador, secretários de Estado, ao presidente da Assembleia Legislativa e outras autoridades públicas ou agentes públicos, quando integrantes de comitivas dos titulares dos cargos”. Tudo “para desempenho de atividades próprias dos serviços públicos.”

Sem a presença de Aécio, os aviões e o héliceptero serviram para transportar, entre outros, Luciano Huck, FHC, José Wilker, Milton Gonçalves, Boni, Roberto Civita, Ricardo Teixeira, a irmã Andrea Neves, o primo Quedo e demais parentes e amigos.

José Serra e Geraldo Alckmin também passearam. Há na relação “Roberto Marinho”, que estava na companhia de Sérgio Guerra, ex-presidente do PSDB. A advogada de Roberto Irineu Marinho, um dos donos da Globo, afirmou ao DCM que não se trata dele.

A lista foi obtida através da Lei de Acesso à Informação. Em seu primeiro formato, ela fornecia detalhes como ano, data, solicitante, passageiros, origem, destino e custo. Veja abaixo:

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Verifica-se que Roberto Civita, dono da Abril morto em 2013, foi a Brumadinho com a mulher. Tudo às custas do contribuinte das Gerais. Ali fica localizado o museu de Inhotim.

Segundo a assessoria de Aécio, o empréstimo do Dauphin “atendeu o objetivo de divulgar o Museu de Arte Contemporânea apresentando-o a um dos maiores empresários de comunicação do país”. A “prova” é uma matéria laudatória na Veja. Então tá.

Na nova “formatação” das fichas, sumiram dados como a aeronave usada e quem estava a bordo. Ficaram apenas o “solicitante” (sempre o governador) e o destino.

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Ao DCM, a assessoria de imprensa do governo de MG contou que também está apurando o que pode ter acontecido com os relatórios originais.

Kiko Nogueira
No DCM
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Aretha Franklin (You Make Me Feel Like) A Natural Woman - Carole King - Kennedy Center Honors 2015


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Conservadorismo do Congresso só pode ser derrotado pela mobilização popular, afirmam deputados

Em entrevista, os deputados Jandira Feghali (PcdoB), Wadih Damous (PT) e Ivan Valente (PSOL) analisam o cenário político brasileiro, o processo do impeachment e as manobras de Eduardo Cunha para permanecer na Presidência da Câmara.

Ivan Valente (esq), Wadih Damous (centro), Jandira Feghali (dir)
O cenário político brasileiro e os fatos diários do Congresso Nacional têm superado qualquer trama de novela. Impeachment, manobras políticas, aliados que se tornam inimigos, e vice-versa, estão no cotidiano do noticiário. 

Para analisar a conjuntura atual, o Brasil de Fato entrevistou três deputados que fazem oposição aos retrocessos no Congresso: Ivan Valente (PSOL), Jandira Feghali (PCdoB) e Wadih Damous (PT).

Os três acreditam que a presença de Eduardo Cunha (PMDB) na Presidência da Câmara dos Deputados envergonha o país, que o processo de impeachment aberto por ele é um ato oportunista e que, para travar as pautas conservadoras no parlamento, é necessário que haja pressão de movimentos populares nas ruas.

Confira a entrevista completa:

Como vocês avaliam os processos atuais na Câmara, como o pedido de impeachment de Dilma Rousseff e as manobras de Cunha na Comissão de Ética?

Ivan Valente: As manobras do Cunha tendem a chegar num limite que causam um impacto grande na opinião pública. É uma figura que não pode permanecer a frente de uma das casas, ainda mais acusado de corrupção explícita.

Em relação ao impeachment, existe um clima de criar uma maioria na Câmara para apoiar o afastamento da presidente. O esfacelamento da base aliada do governo pode gerar uma instabilidade política muito grande, se não houver movimentações de rua fortes pela esquerda.

Jandira Feghali: O processo em curso envergonha o Parlamento, desrespeita a Constituição e golpeia o Estado Democrático de Direito. Assistimos a uma tentativa de, sem qualquer fundamento, enfiar goela abaixo o impeachment, sem o rito devido previsto pela Constituição e pela lei. É, verdadeiramente, um golpe.

Sobre o Conselho de Ética, é imoral o que está ocorrendo. Um golpe dentro do golpe. Manobra atrás de manobra para adiar, interromper ou atrapalhar os trabalhos do colegiado. É inaceitável.

Wadih Damous: Tanto em relação ao impeachment como na representação contra o presidente da Câmara no Conselho de Ética, Eduardo Cunha faz manobras, escarnece a nação, pisoteia a Constituição, desrespeita as leis e o regimento interno. O deputado não reúne mais qualquer condição moral e jurídica de permanecer a frente da Câmara.

O impeachment é um processo que integra uma tentativa de golpe de Estado, não mais nos moldes clássicos do passado, mas agora uma nova modalidade de golpe parlamentar, tendo em vista que não há qualquer motivo para o seu processamento.

O ano de 2015 foi repleto de pautas conservadoras e retiradas de direitos por parte da Câmara. Como reverter esta situação?

Ivan: A pauta conservadora na economia teve apoio do governo com o ajuste fiscal. A terceirização passou na Câmara e, no campo dos direitos civis e democráticos, tivemos uma ofensiva muito forte de setores conservadores. Essas pautas revelam a base de sustentação que dá energia a Cunha, a fidelidade que ele ainda tem na Câmara após tantas denúncias e desgastes.
Essa composição congressual é muito à direita e não houve por parte do governo o intuito de formar uma contrapressão de rua para o enfrentamento dessas bancadas.

Jandira: Quando analisamos a composição da Câmara dos Deputados, nesta nova legislatura, já esperávamos dificuldades. Uma maioria conservadora tomou o lugar de setores representativos da sociedade, que ficaram sub-representados.

Mesmo assim, não imaginávamos que a situação chegasse a tal ponto. Para combater este descompasso entre representantes e representados é preciso, em primeiro lugar, disputar posições e divulgar amplamente as arbitrariedades e os prejuízos que determinadas pautas carregam.

Muitos resultados nefastos que passaram pela Câmara conseguiram ser revertidos pelo Senado Federal, como foi quando da votação do financiamento de campanhas. O caminho é este, resistir, ganhar apoio para uma pauta mais avançada e denunciar as tentativas de retrocesso.

Damous: Isso só vai ser revertido com o tempo. Alguns projetos foram aprovados e outros não, e temos que continuar trabalhando para que eles não sejam aprovados.

Tudo isso é o legado maldito do Eduardo Cunha: pautas bombas, projetos que agridem os direitos e garantias individuais. É uma herança maldita.

O que os deputados de esquerda podem fazer frente a esse conservadorismo crescente na Câmara?

Ivan: Temos feito um enfrentamento direto no processo de cassação do Cunha. O enfraquecimento dele foi o que baixou a temperatura do impeachment. Mas a insatisfação social continua. O que nós podemos fazer é resistir, mas precisamos de apoios dos movimentos sociais e populares. 

Porque no parlamento a correlação de forças é extremamente desfavorável. É só ver o que está acontecendo no Conselho de Ética da Câmara. Até os meios de comunicação conservadores têm mostrado do que o Cunha é capaz.

Jandira: Temos que trabalhar unidos no Parlamento e juntos do povo, nas ruas. Ocupar os espaços públicos com movimentos sociais, sindicatos e sociedade civil não-organizada são fundamentais para denunciar tentativas de retrocesso e conscientizar a população sobre esses riscos.

Quando há esta mobilização e a sociedade se manifesta, vemos uma possibilidade efetiva de combater os ataques aos direitos já garantidos.

Damous: Nós temos resistido e tomado uma série de atitudes, como denúncias lá na Câmara e na sociedade. Mas nós temos uma margem muito estreita porque há uma grande articulação conservadora no Brasil, começando na grande imprensa, passando pelo parlamento e pelo Eduardo Cunha.

O nosso papel é de resistência e de tentar barrar esses projetos, mas, muitas vezes, a gente não consegue por conta da ampla maioria que eles tem.

Que impactos esse tipo de atuação da Câmara tem para a sociedade e a forma como ela enxerga a política?

Ivan: Tem um desgaste global do parlamento brasileiro com a manutenção do Eduardo Cunha lá. Ele virou um vilão nacional, mas, ao mesmo tempo, ele é útil à direita por conta do impeachment. Ele se beneficiou dos vacilos do PT e do oportunismo da direita, o que deu sobrevida a ele.

Jandira: É um impacto muito negativo, porque a atitude de alguns contamina a todos. Não raro escutamos frases como "são todos ladrões", "política é coisa de gente corrupta". Isso é lamentável, porque a política é instrumento da democracia, é ferramenta da transformação social.

A imagem do golpismo escancarado, do "vale tudo", só interessa aos que não toleram o regime democrático. O Parlamento não é, nem pode ser assim. A política precisa ser valorizada, as pessoas precisam enxergar na política um caminho para a superação de problemas, dificuldades sociais, de melhoria da vida do cidadão.

Damous: Isso, sem dúvida, compromete a visão do Congresso na sociedade. Eu tenho certeza que, se formos fazer uma pesquisa de como a população avalia o parlamento, o resultado vai ser o pior possível.

Claro que há outros problemas e a política nunca foi bem avaliada no Brasil, mas o Cunha está levando isso a patamares jamais vistos. A permanência dele na Presidência da Câmara está se tornando um escândalo internacional.

Qual o papel da sociedade e movimentos populares organizados nesse cenário? O que se deve fazer fora do Congresso para enfrentar um golpe institucional e a retirada de direitos?

Ivan: O papel dos movimentos sociais progressistas de esquerda é de ir contra o ajuste fiscal, contra o Cunha, as terceirizações, as privatizações. O papel desses movimentos é vital para brecar qualquer ofensiva de direita.

E é importante que ele seja volumoso, para sensibilizar amplas camadas da sociedade. Não basta dizer que grandes entidades estão na rua, mas mostrar a real capacidade de mobilização. Isso teria um impacto importantíssimo nos rumos do Congresso e na conjuntura nacional, impedindo esse oportunismo político.

Jandira: O PCdoB defende uma ampla mobilização contra os golpes em curso. Golpe institucional, golpe contra direitos, golpe contra a tolerância e contra a cidadania. Temos que ocupar as ruas e as redes para fazer frente à militância do ódio e, pouco a pouco, fazer prevalecer a pauta voltada para o desenvolvimento econômico e social.

Damous: A sociedade civil tem que entender que ela não pode se deixar contaminar pelo veneno da grande imprensa, que acaba moldando consciências, e entender que sem democracia nós não temos o caminho correto para as mudanças. Por mais que não se goste do governo e que ache o governo ruim, o que está em jogo hoje é a legalidade.

Bruno Pavan e José Coutinho Júnior
No Brasil de Fato
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Recapitulando

Uma crônica escrita para ser lida no dia 31 de dezembro ou é o que se espera de uma crônica escrita para ser lida no dia 31 de dezembro — um apanhado final do que foi o ano que termina, uma retrospectiva dos seus melhores e piores momentos, etc. — ou um monumento à alienação. Cheguei a pensar em escolher uma figura que simbolizasse o ano e o Brasil em que estamos vivendo e estava quase me definindo pelo Japonês Bonzinho, mas acabei optando por desconsiderar a data. Me recuso a recapitular, ainda mais um ano de péssima qualidade como foi 2015, que, fora a volta do Botafogo à primeira divisão, não teve nada que o recomendasse. Prefiro aproveitar o espaço para fazer uma retrospectiva pessoal, de coisas que a vida me ensinou, da sabedoria acumulada através dos anos que, penso, as novas gerações podem aproveitar.

Aprendi que filosofia é tudo que você diz com o olhar parado — a não ser que você esteja dando um pum.

Que felicidade é descobrir que ainda tem Coca na latinha que você pensava ter esvaziado.

Que a frase mais enternecedora da língua portuguesa é “esse é o colesterol bom”.

E a mais bonita é “os triglicérides estão normais”.

Que o controle remoto é a maior invenção da humanidade desde a varinha para coçar as costas. 

Que o pudim de laranja é a única prova convincente da existência de Deus.

Além da Patrícia Pillar, claro.

Que em terra de cegos o trânsito deve ser uma loucura e quem tem um olho abre uma seguradora.

Que algo morreu dentro de alguns brasileiros com a descoberta de que não se pode confiar mais nem em bancos suíços, e nada mais é sagrado. 

Que você sabe que não está agradando quando a mulher olha para você como se tivesse acabado de tirá-lo do seu nariz.

Que você sabe que está ficando velho quando a sua memória... a sua memória... O que é que eu ia dizer, mesmo? 

Que você sabe que está ficando velho quando só consegue sair da poltrona na terceira tentativa e aí esquece por que se levantou. 

Que você sabe que está ficando um velho filosófico quando lhe perguntam o que você acha de viver no Brasil e você responde “A gente acaba se acostumando...”.

Luís Fernando Veríssimo
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Falta um 11º mandamento na lista bíblica de Dallagnol


Há duas maneiras de ler a Lava Jato: pelas manchetes e pelas entrelinhas.

Já que as manchetes são óbvias, vamos a uma releitura através das entrelinhas do que saiu publicado nos últimos dias.

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O repórter policial da Folha, Frederico Vasconcellos, divulgou trechos de um trabalho de Ségio Moro de 2004, sobre a Operação Mãos Limpas, da Itália. Já havia sido divulgado e analisado no Blog há tempos. Como é repórter policial, restringiu-se aos abusos para-legais analisados por Moro na Mãos Limpas, e vistas por ele como imprescindíveis para a Lava Jato. Tipo, em linguagem policial: tem que manter o suspeito na prisão o máximo de tempo possível afim de que ele abra o bico.

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Mais sofisticado, o colunista Mário Sérgio Conti aborda outros ângulos do trabalho, exaustivamente discutidos no Blog. Um deles, o uso desabusado da imprensa, através do vazamento de notícias visando comandar a pauta.

Aborda também os aspectos geopolíticos da cooperação internacional — a rede internacional de autoridades de vários países, montada inicialmente para o combate à narcotráfico e ao terrorismo e, depois, estendida para outras atividades ilícitas, sob controle estrito das autoridades norte-americanas.

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Aqui, mostramos claramente que a cooperação internacional tornou-se uma peça da geopolítica norte-americana, visando impedir concorrência desleal de empresas de outros países contra as americanas.

Conti faz uma baita ginástica para a conclusão óbvia: na cooperação internacional, os Estados Unidos entram com motivação econômica. O óbulo: "Para os toscos,  é um garrote vil do imperialismo norte-americano". Para ele, que é sofisticado, "a corrupção beneficia as burguesias locais, mormente (sic) de países periféricos, em detrimento da classe dominante do Império". E justifica como um gesto de auto-defesa dos EUA — aquele país cujas ferramentas de espionagem não pouparam sequer presidentes de nações amigas.

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Pelo conteúdo, o artigo foi montado em cima de entrevistas com membros da Lava Jato, que admitem o jogo. Segundo eles, "admite-se que a motivação americana (e não apenas ela) tem boa dose de mercantilismo". Mas, no frigir dos ovos, acreditam que seja benigna, pois "ajuda o Brasil a resolver seus problemas".

A maneira como as corporações norte-americanas instrumentalizam suas instituições torna o Brasil um peixe fácil. É para ajudar o Brasil a resolver seus problemas que a Lava Jato tratou de criminalizar financiamentos à exportação de serviços, que o MPF tenta a todo custo envolver o BNDES e espalhar suspeitas sobre ações diplomáticas na África.

Nem se culpe juiz, procuradores e delegados. Eles apenas se valem de forma oportunista da fragilidade institucional brasileira, da visão rala de interesse nacional, de uma presidente politicamente inerte e de um Ministro da Justiça abúlico para ocupar espaços.

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A manipulação da mídia ficou clara em um episódio ocorrido ontem. Nos depoimentos, qualquer menção a Lula é vazado no mesmo dia.

Ontem, o repórter Rubens Valente, da Folha — que não pertence ao circuito mídia-Lava Jato — levantou o depoimento de um delator apontando propinas a Aécio Neves. É de junho passado. Passou seis meses inédito.

No período da tarde, a Lava Jato tratava de vazar correndo outro depoimento, indicando pagamento de propinas ao presidente do Senado Renan Calheiros, a um senador da Rede, Randolfo Rodrigues.

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Todo dia o procurador Deltan Dallagnol aparece em sua campanha pelos 10 pontos a serem alterados na lei para combate à corrupção.

Se fosse uma campanha efetivamente isenta, o 11º ponto seria a obrigação do Procurador Geral da República e do Supremo Tribunal Federal (STF) de abrir os dados em relação a todo pedido de vista ou todo inquérito engavetado. E de se criar formas que impeçam o uso político do vazamento seletivo de inquéritos.

No STF, o ex-Ministro Ayres Britto engavetou por dez anos, sem nenhuma explicação, o inquérito sobre o mensalão mineiro. Tinha que apresentar em uma sessão, foi tomar um café no intervalo, e na volta simplesmente deixou de falar sobre o inquérito.

Do mesmo modo, desde 2010 dorme na gaveta do PGR um inquérito contra Aécio Neves, acusado de ter conta no paraíso fiscal de Liechtenstein em nome de uma offshore. Como o próprio Procurador Geral observou, na denúncia contra Eduardo Cunha, o uso de offshores visa esconder a verdadeira identidade dos titulares da conta. E se visa esconder, é porque o dinheiro é de procedência duvidosa.

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De fato, o país precisa ser passado a limpo. E a Lava Jato tem feito um trabalho completo de desvendar as maracutaias de um lado. Mas esconde e blinda os malfeitos do outro lado.

Se ataca só um lado — a ponto de deixar por um fio o mandato de uma presidente inerte — e poupa o outro, é evidente que instrumentaliza o combate à corrupção em favor de interesses corporativos e políticos.

Essa hipocrisia não pode perdurar muito, ainda mais em um ambiente de redes sociais.

Luís Nassif
No GGN
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