28 de dez de 2015

Saí do anonimato, por Garoto do Leblon


Eu sô foda meu. Eu tinha mesmo que chamar esse fdp de bandido. Não é só por ele ser do PT, ficar se derretendo pelos sem terra, sem teto, sem merda nenhuma. É mais por ele não saber o que é bom na vida. Com as musiquinhas que ele faz ele ganha milhões, vende e é endeusado no mundo todo e eu aqui, implorando ao papai pra ganhar os porshes. Esse bosta poderia ter vinte porshes, poderia me contratar para dar um jeito na vida dele, mostrar o que mundo de  bom.

Se eu fosse ele, em vez de me preocupar com pobres, compraria vários porshes, um yatezinho igual ao do Dinis, de 150 pés, e já reservava vaga para assistir a F1 em Mônaco, ia torrar uma grana no Cassino, comprava um jatinho, trocava a mulher de 60 por três de 20, escolhidas nas novelas da Globo, no Big Brother....puttzzz, tem um pernilongo aqui no quarto, só faltava essa pra estragar o meu sono...amanhã a Maria vai ter comigo. Sempre falo pra essa analfabeta que depois de limpar o quarto tem que fechar a janela, amanhã ela não escapa. Será que a tal lei Maria da Penha vale também pra empregada? Não sei porque acabaram com o pelourinho.

Até sou um cara legal. Não tenho nada contra o cara pensar diferente, mas ficar falando merda  por ai já é demais. Se fosse um pé-de-chinelo ainda dava. Mas um cara que tem apartamento em Paris? Então o cara não é merda?. Bem que se diz que Deus dá olho pra quem não enxerga. Já na ditadura militar esse fdp poderia ter si fudido. No Chile dizem que os milicos do Pinochê cortaram os dedos de um tal Vitor, que era o Chico deles. Pena que os nossos milicos não pegaram ele de jeito. Se não sai cagada na bomba do Riocentro a gente não teria essas musiquinhas sonolentas que fala em banda passar, apesar de você, operário em construção, acorda amor, gota d’água, o que será, deus lhe pague...Tudo subversão, até calesse, só agora me falaram que é cálice de vidro, mas quer dizer calessse, pura subversão subliminar como fala o Tonhão da Academia.

Fascismo? Eu lá sei o que é essa bosta? Mas se tão falando que sou fascista é porque é bom, é porreta, coisa de macho. Amanhã em vez de levantá peso vou meter a mão no uatsap e falar desse cantorzinho ignorante que pensa que é Deus... . Intelectual é o Tonhão. Tá certo ele quando diz que toda unanimidade é burra. Vou falar isso pro Chico merda.

Pelo menos fiquei famoso. Tô bombando no feice. Já teve uma garota do Ipanema, agora tem o garoto do Leblon. Quem sabe o Vinicius faz uma música pra mim. O Vinicius não, também é subversivo. O Milton Nascimento? O Caetano? O Martinho? O Gil? O Taiguara? Oooops. Vou ficar sem música, cantor é tudo subversivo.

Ninguém me dava bola, sempre fui um anônimo ilustre mas desconhecido, acho que só sou famoso quando pego meu bronzeado no Posto 6 e na Academia. E vejam só, numa hora que meto minha espontaneidade pra fora, todo mundo agora fala de mim, os jornais dizem que o cara veio bater boca comigo, tô até na TV, a turma agora me admira, vai chovê mulher na minha horta, pode sobrar grana, quem sabe consigo virar deputado. O Bolsonaro não conseguiu? Meu pai vai para de me encher o saco, falar pra mim ir a faculdade. Preciso achar mais fdp pra xingar e ser elogiado nos jornais. Que glória se eu encontrasse aquela presidente de merda ou o operário aleijado que foi presidente, andando aqui pelo Leblon. Mas eles tem simancol, nunca vão chegar no pedaço.

Preciso dormir, amanhã tenho que decidir se aceito fazer a palestra pro pessoal dos revoltado de São Paulo. Será que vai dar? Prá falar até uns cinco minutos acho que consigo, mas se for mais onde vou encontrar assunto? Vou de qualquer jeito, falo pro Tonhão escrever o que eu devo falar, pego uma janta e quem sabe sobra uma paulista. A vida tá chata, preciso variar um pouco.

Garoto do Leblon

Percival Maricato
No GGN
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Pesquisa Vox Brasil/CUT mostra que quase 90% dos trabalhadores são contra mudanças nas regras da Previdência Social

A rejeição à retirada de direitos trabalhistas e sociais é unanimidade em todas as regiões do País


As mudanças nas regras da Previdência Social que, segundo a mídia, serão propostas pelo governo, são rejeitadas pela grande maioria dos trabalhadores de todas as faixas de renda, etárias e níveis de escolaridade de todas Regiões do País, segundo pesquisa Vox do Brasil encomendada pela CUT.

A rejeição aos cortes nos programas sociais atingiu índices ainda maiores, especialmente na Região Nordeste, onde 90,5% dos pesquisados são contra. Os índices contrários aos cortes são maiores nas  mais baixas faixas de renda e escolaridade.

A pesquisa mostrou, também, que os trabalhadores estão atentos e apoiam as medidas que podem estimular a geração de emprego, como o aumento da oferta de crédito para fortalecer o mercado consumidor, programas para estimular as empresas a manter os empregos e para ajudar as pequenas e médias empresas.

A CUT decidiu testar nas ruas a agenda que propõe para o Brasil voltar a crescer gerando mais emprego e renda e constatou que a pauta da Central está afinada com o que pensam e querem os trabalhadores. A maioria absoluta da classe trabalhadora brasileira aprova as medidas para promover o desenvolvimento, debatidas no 12º CONCUT realizado em outubro, e rejeitam o ajuste fiscal e medidas de retirada de direitos conquistados.

Essa é a primeira pesquisa de opinião feita por uma central sindical brasileira para saber o que os trabalhadores pensam sobre as medidas que estão sendo debatidas na área econômica do governo. “Só os empresários faziam pesquisa.  Agora, isso acabou. Também precisamos de um instrumento como esse — pesquisa de opinião — para saber se nossas propostas são aprovadas e também para definir estratégias de luta para defender os direitos da classe trabalhadora” diz o presidente da CUT, Vagner Freitas.

Sobre os resultados desta primeira pesquisa, Vagner avalia que a mais importante conclusão é que a maioria dos brasileiros aprovam as propostas da CUT para o Brasil sair da crise, voltar a crescer, gerar emprego e melhorar a renda. Isso, diz ele, “é um sinal de que a prioridade do governo deve ser a substituição imediata da atual política econômica que só tem gerado recessão e desemprego por uma que priorize os interesses da classe trabalhadora”

O Vox Brasil pesquisou, entre os dias 11 e 14 de dezembro, 2.000 pessoas com mais de 16 anos, nas áreas urbanas e rurais de 125 municípios de todos os Estados e do Distrito Federal.

Vamos aos dados:

Previdência social

Vox - aposentadorias

88% dos pesquisados responderam que o governo não deveria dificultar as regras para aposentadorias. Do total, 87,3% são homens, e 87,7% mulheres. Apenas 9% (9,7% homens e 8,2% mulheres) concordam com a medida que está sendo analisada pela equipe econômica e 4% não souberam ou não responderam (3% homens e 4% mulheres).

Dos 88% contrários a mudanças nas regras da Previdência Social, 87,6% são jovens e 88,3% adultos; o percentual dos que têm ensino fundamental e médio foi igual 87,7%. Já entre os que têm nível superior, foi de 88,3%. Quanto a faixa de renda, são conta a medida 87,8% dos que ganham até 2 salários mínimos (SM), o mesmo percentual (87,8%) dos que ganham entre 2 e 5 SM e 86,4% dos que ganham mais de 5 SM. A maioria é formada por nordestinos, 89,2%. Outros 85% vivem na Região Central/Norte, 87,1% no Sudeste e 88,4% no Sul.

Cortes nos programas sociais

Vox - programas sociais

Quanto aos programas sociais, 75% dos trabalhadores responderam que o governo não deve cortar recursos. O percentual entre homens (75,2%) e mulheres (75,5%), foi praticamente igual. Outros 21% disseram que o governo deve fazer cortes. Novamente, os percentuais entre homens (21,6%) e mulheres (20,9%) foram quase iguais. Apenas 3% não souberam ou não responderam (NS/NR)

A maioria dos contrários aos cortes nos programas sociais é formada por pessoas com baixa escolaridade (81,3% têm ensino médio), ganha pouco (85,1% até 2 SM) e vive no Nordeste (90,5%).

Aumento da oferta de crédito 

O aumento da oferta de crédito para fortalecer o mercado consumidor, uma das propostas da CUT pesquisadas pelo Vox Brasil, foi aprovado pela maioria dos/as trabalhadoras/as. Para 65% dos entrevistados, a medida ajudaria o país, 14% acham que não, 12% acham que nem ajuda nem prejudica e 10% (NS/NR).

Dos 65% que aprovam, 66,1% são homens e 63,7% mulheres. 61,6% são jovens e 66,5% adultos. A média de aprovação foi de 65% em todas as faixas de renda e escolaridade. O Nordeste foi a Região onde os trabalhadores mais apoiaram a medida (75,5%), seguido pelo Sudeste (63,5%), Sul (57%) e Centro Oeste/Norte (57%).

Programa para dificultar demissões e incentivar empresários a manter empregos

vox dificultar demissões

A preocupação com o desemprego ficou comprovada em vários momentos da pesquisa. Quando a questão apresentada foi se ajudaria o país se o governo dificultasse demissões e desse incentivo para os empresários manterem os empregos, 80% dos trabalhadores responderam que a medida ajudaria o país, 7% que prejudicaria e 8% que nem ajudaria nem prejudicaria. Apenas 5% não souberam (NS) ou não responderam (NR).

Desses 80% que aprovam a medida, 80,7% são do sexo masculino e 79% feminino; 78,1% são jovens e 81,8% adultos, de todos os níveis de escolaridade (79,8% do ensino fundamental, 81,5% ensino médio e 75,9% superior) e faixas de renda (80,8% ganham até 2 SM, 80,8% de 2 a 5 SM e 75,5% mais de 5 SM. A medida foi aprovada em todas as Regiões do país: 83,3% no Nordeste, 79,3% Centro Oeste/Norte, 78,9% Sudeste e 76,2% Sul.

Programa para ajudar pequenas e médias empresas

Além da criação de programas de incentivo para as empresas, os trabalhadores defendem a redução de impostos. Para 86% dos entrevistados, ajudaria o país a criação de um programa para incentivar as pequenas e médias empresas. A aprovação atinge ambos os sexos (87,1% homens e 85,7% mulheres), em todas as faixas de renda (85,6% entre os que ganham até 2 SM, 84,9% de 2 a 5 SM e 91,1% mais de 5 SM), etárias (85,1% dos jovens e 89,4% dos adultos) e níveis de escolaridade (83,8% ensino fundamental, 88% ensino médio e 90,8% superior). Os maiores índices de aprovação foram registrados nas Regiões Nordeste (89,6%), Centro Oeste/Norte (89,3%). No Sudeste o índice de aprovação foi de 84,1% e no Sul de 83,4%.

Propostas para reduzir impostos sobre salários

Questionados sobre redução de impostos sobre salários e aumento de impostos sobre os lucros e ganhos das empresas, os trabalhadores defenderam as opções que, para eles, ajudam a garantir ou aumentar os postos de trabalho. 82% responderam que diminuir impostos sobre salários ajudaria o país. Para 7% prejudicaria. Outros 7% acham que nem ajuda nem prejudica e 5% (NS/NR).

Dos 82% favoráveis à redução de impostos sobre salários, 83,3% são homens e 80,4% mulheres; 80% são jovens e 84,4% adultos. A medida é aprovada em todas as faixas de renda (81,3% dos que ganham até 2 SM, 82% dos que ganham entre 2 e 5 SM e 82,4% dos que ganham mais de 5 SM) e níveis de escolaridade (79,6% ensino fundamental, 85,1% ensino médio e 81,6% superior). Mais uma vez, a maior aprovação é no Nordeste, 85,3%. No Centro Oeste/Norte, 79,3%, no Sudeste, 82,3% e no Sul, 76,2%.

Já a pergunta sobre aumento de impostos sobre os lucros e ganhos das empresas dividiu os entrevistados. Para 49% (49,9% homens e 47,4% mulheres; 47,6% jovens e 49,2% adultos) a medida ajudaria o país. Para 31% (30,9% homens e 36,3 mulheres, sendo 30,2% jovens e 31,9% adultos), a medida prejudicaria. Outros 12% responderam que não ajudaria nem prejudicaria e 9% (NS/NR).

Quanto as faixas de renda, houve uma divisão na avaliação de que a medida pode prejudicar ou ajudar o país — os que ganham menos aprovam mais a proposta. Para 51,1% dos que ganham até 2 SM a medida ajudaria — 25,4% responderam que prejudicaria. Nas faixas de 2 a 5 SM (47,1% acreditam que ajudaria e 33,5% que prejudicaria), entre os que ganham mais de 5 SM, os percentuais foram 46,5% ajudaria e 34,9% prejudicaria.

Ajuste fiscal 

Já o ajuste fiscal divide os pesquisados. Para 42% o ajuste atinge igualmente todos os segmentos da sociedade. Outros 47% acreditam que atinge mais os trabalhadores. Os índices são parecidos quando se analisam os dados por faixa etária e renda. Para 44,1% dos homens e 40,8% das mulheres atinge toda a sociedade. Para 47,2% dos homens e 46,9% das mulheres atinge mais a classe trabalhadora.

A questão da moradia

Sob qualquer aspecto que se aborde a questão da moradia, a resposta dos/as trabalhadores é a mesma: é preciso investir mais. Para 83% do universo pesquisado, fazer uma ampla reforma urbana, destinando áreas de prédios mal aproveitados para moradia popular ajudaria o Brasil. Só 5% discordaram, 8% acham que nem ajuda nem prejudicaria e 4% (NS/NR).

Concordam que ajudaria o país 82,7% dos homens e 83% das mulheres; 83,6% são jovens e 83% adultos, de todas as faixas de renda (86,3% até 2 SM, 82,3% de 2 a 5 SM e 77,2% mais de 5 SM) e de escolaridade (83,7% ensino fundamental, 83,5% ensino médio e 78,8% ensino superior). O maior índice de aprovação vem da Região Nordeste, 89,7%, seguido do Centro Oeste/Norte, com 88,1%, Sudeste com 79,4% e Sul, com 73,6%.

Minha Casa, Minha Vida

vox-minha casa

Quanto ao aumento do investimento no programa do governo Federal Minha Casa, Minha Vida, para 82% dos trabalhadores a medida ajudaria o país. Outros 7% disseram que prejudicaria 8% que nem prejudica nem ajuda e 3% (NS/NR).

Entre a maioria que aprova, 81,5% são homens e 82,3% mulheres. 84,7% são jovens e 80,4% adultos, com ensino fundamental 86%, médio 81% e superior. A medida também é aprovada em todas as faixas de renda (87,8% dos que ganham até 2 SM, 80,9% de 2 a 5 SM e 71,9% mais de 5 SM). No Nordeste, a medida foi aprovada por 91,4% dos entrevistados. No Centro Oeste/Norte por 85,9%, no Sudeste por 78,5% e no Sul por 68,6%.

Reforma agrária

Vox reforma agrária

A reforma agrária também é aprovada por trabalhadores do campo e da cidade. Diante da pergunta “fazer uma ampla reforma agrária, com distribuição de terras para agricultores de baixa renda, ajudaria o país ou prejudicaria o país”, 76% responderam que ajudaria e apenas 9% discordaram, 11% respondeu que não ajudaria nem prejudicaria e 5% (NS/NR).

Uma bandeira histórica da CUT, a cobrança de impostos sobre heranças e grandes fortunas, ajudaria o país para 48% dos entrevistados. Outros 25% acreditam que prejudicaria, 18% acham nem ajudaria nem prejudicaria e 9% (NS/NR). Os percentuais de aprovação entre homens e mulheres, jovens e adultos, inclusive por faixa de renda tiveram percentuais parecidos (ver abaixo).

Outra bandeira da CUT, a questão da educação, está entre as grandes preocupações da sociedade brasileira. A pergunta foi “aumentar o financiamento da educação, aumentando os recursos do Prouni e do FIES, ajudaria o país. 85% responderam sim, apenas 4% discordaram, 6% optou por nem ajudaria nem atrapalharia e 5% (NS/NR).

vox - recursos para educação fies

As respostas mostraram também que a taxa Selic é uma preocupação nacional. Isso em todas as  83% dos trabalhadores acreditam que a redução da taxa de juros ajudaria o país, só 6% pensam o contrário, 7% respondeu que não prejudicaria nem ajudaria e 4% (NS/NR). Os percentuais de aprovação à redução da Selic atingem mais de 80% em todas as faixas etárias, de renda e nível de escolaridade. Entre as Regiões do país, só no Sul o percentual (76,5%) ficou abaixo de 80%. No Nordeste 87,1% dos entrevistados apoiam a redução, no Centro Oeste/Norte 83,4% e no Sudeste 83,4%.

Vox - taxa de juros




Marize Muniz, da Assessoria de Imprensa da CUT
No Viomundo
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Personagem do Ano: A mãe que devolve o cartão do Bolsa Família

A mulher que veste a melhor roupa e vai entregar o cartão, em um ano de crise, é a grande figura de 2015.

A personagem do ano é a mulher que sai de casa arrastando chinelos e se dirige a uma repartição do município para dizer:

— Vim aqui devolver o cartão do Bolsa Família.

A cena repetiu-se milhares de vezes durante todo o 2015 em prefeituras do sertão nordestino ou daqui mesmo, de Canguçu, de Rosário, de Cacequi. A mãe aprochega-se do balcão para anunciar uma decisão importante. Enfia a mão na bolsa em busca do cartão e puxa aquilo que é provisório em meio a outras coisas muito permanentes. E a moça do guichê pergunta:

— A senhora pode me dizer por que está devolvendo o cartão?

— Porque agora, e enquanto Deus desejar, não preciso mais disso.

Imagine a cena da mãe que sai de casa perfumada, com o melhor vestido floreado, não para pedir ajuda, mas para dizer que não precisa mais do amparo do governo para dar de comer aos filhos. Como a decisão foi tomada com o marido e a filharada, mesmo que a grande maioria nem marido tenha?

São as mulheres que fazem a gestão do benefício do Bolsa Família. Multiplicam os contadinhos. Mas, segundo alguns contrariados com tanta fartura, seriam o exemplo de povo viciado em esmolas. Uma mãe viciada em cento e poucos reais por mês.

Viciada em moedinhas que compram farinha de mandioca, do mesmo jeito que alguns empresários se tornaram viciados em subsídios, isenção de impostos, financiamentos com juro baixo, esquemas de proteção de mercado e outras mumunhas. Enquanto, claro, falam mal do Estado.

Uma mãe assim deveria dar curso de bons modos aos que atacam o Bolsa Família como distorção que não faz bem ao povo e ao país. O povo deveria entregar-se aos milagres do livre mercado, que muitos dos detratores do Bolsa Família defendem só nas teorias.

E também juízes, promotores e procuradores beneficiados com auxílio-moradia e auxílio-alimentação perpétuos podem aprender com uma mãe pobre que se dispõe a devolver aquilo que não precisa mais, porque arranjou um emprego ou descobriu um jeito de se virar sem o socorro do governo.

A personagem de um ano de crise braba não é uma, são as milhares de mães que entregaram o cartão do Bolsa Família em 2015, sem que ninguém lhes pedisse.

Os outros agarrados a benefícios mais graúdos, que ainda se lambuzam em privilégios que eu, você e todos nós pagamos, deveriam conversar com essas mães. Mas é difícil. Eles preferem continuar viciados em bolsas fartas que também as mães do Bolsa Família ajudam a sustentar.

Moisés Mendes
No Luiz Müller Blog
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"Apesar da crise" - Balneário Camboriú - lotação esgotada


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Fantasmas invadem hoteis do Rio de Janeiro



Gerson Carneiro
No Viomundo
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SC: O rio Papaquara está morrendo

Rio Papaquara visto da SC-401.
Foto: AGS
Fotos de um visitante estrangeiro mostram a situação do rio Papaquara na manhã desta segunda-feira (28.12), encaminhadas ao Daqui na Rede com uma pergunta: “O que estaria provocando esse crescimento desordenado de plantas aquáticas?”. A resposta está na primeira parte de uma Ação Civil Pública proposta pela procuradora da República Analúcia Hartmann, em 18 de agosto de 2014, tendo como ré a Casan, apontada como principal causadora da poluição nesse curso d’água.

Dados gerais sobre a bacia em “Diagnóstico socioambiental e perspectivas de sustentabilidade para a região de entorno do rio Papaquara, Florianópolis/SC“, por Erico Porto Filho, Larissa Beatriz Waskow, Antonio Waldimir Leopoldino da Silva, Eduardo Juan Soriano Sierra. O trabalho foi apresentado no III Congresso Brasileiro de Gestão Ambiental, Goiânia-GO (19 a 22.11.2012).

Rio do Bráz

Se o rio Papaquara desemboca no rio Ratones, coração da Estação Ecológica de Carijós, com reflexos na Daniela, Sambaqui e Barra do Sambaqui, o rio do Bráz invade a praia de Canasvieiras, junto ao trapiche de embarque e desembarque das escunas que realizam passeios pela Baía Norte de Florianópolis.

O Jornal do Almoço, da RBS TV, fez matéria sobre o tema nesta segunda-feira (28.12), citando como fonte da poluição “lançamentos clandestinos”, sem referência à Estação de Tratamento de Efluentes da Casan. No mesmo noticiário, anúncios publicitários da concessionária, deixando claro o motivo da omissão.



Sobre a poluição do rio do Bráz, provocada pela Casan:
1) “Laudo confirma: Rio do Bráz e Canasvieiras são poluídos pela Estação da Casan“. Coluna Moacir Pereira/DC.

2) “A morte do rio do Bráz“. Artigo de Ana Echevenguá.

No Daqui na rede
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2015, o ano em que o fascista de Facebook pulou para a vida real (+ vídeo)

Profissão revoltado online
2015 foi o ano em que o fascista que já havia transformado o Facebook numa festa de família disfuncional interminável finalmente saiu para a rua.

Uma rápida cronologia (eventualmente, incompleta):
  • Em fevereiro, o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega foi hostilizado no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Num hospital, repito. “Não tem vergonha na cara! Vai para o SUS!”, gritava uma mulher
  • Em maio, o mesmo Mantega foi xingado num restaurante caro por dois animais (Acabou processando-os. Foram obrigados a um pedido de desculpas fingido)
  • No mesmo mês, Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde e atual secretário de Relações Governamentais da cidade de São Paulo, teve de se retirar quando almoçava por causa de uma turma ruidosa que pediu uma salva de palmas irônica em sua “homenagem”
  • Em julho, um bolsonarista invadiu a comitiva de Dilma em Washington e passou a gritar impropérios. Só parou quando apareceu a segurança do lugar
  • Em outubro, fascistas desrespeitam o velório do ex-presidente do PT, José Eduardo Dutra, em Belo Horizonte e distribuem panfletos com a inscrição "Petista bome é petista morto'". (N.E.: acrescentado ao original)
  • Em novembro, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, ouviu ofensas de um sujeito acompanhado da mulher em Belo Horizonte. O homem  se acoelhou depois que Ananias perguntou seu nome
  • Eduardo Suplicy, em outubro, levou dedo na cara, ameaças e perdigotos de extremistas na Livraria Cultura, especialmente de uma senhora apoplética
  • Há uma semana, Chico Buarque foi cercado por playboys no Leblon que não se conformavam com seu apoio ao PT. Um deles, um desqualificado chamado Guilherme Mota, o chamou de “merda”
Provavelmente estou esquecendo outras ocorrências. Todas essas agressões tiveram como cúmplices os responsáveis pelos locais onde elas ocorreram. Ninguém, desde a direção até o gerente ou o garçom, esboçou qualquer gesto próximo de uma defesa das vítimas.

O discurso de ódio finalmente se transformou em violência física, na melhor tradição fascista. Muito se deve a gente Marcello Reis, o fundador dos Revoltados Online, um pioneiro, uma espécie de australopiteco da histeria virtual. Ele foi seguido por outros líderes golpistas, como Kim Kataguiri e Fernando Holiday, do MBL, entre outros e outras.

Eles contaminaram as redes com uma liberdade total para caluniar, mentir, difamar, inventar — tudo numa aceleração mental permanente, como se pelotões comunistas estivessem à frente deles, nus, prontos a subjugá-los ali, naquele momento.

O mau comportamento transbordou. De repente, a cunhada estava xingando a sobrinha de imbecil, o primo acusava o irmão de receber dinheiro de Cuba, amizades de 40 anos romperam etc.

Nas manifestações, crianças foram expostas a adultos mandando Dilma tomar no cu e velhinhas de praça carregavam cartazes com frases do tipo “Por que não mataram todos em 64?”.

Para usar uma imagem gasta, o ovo da serpente foi chocado. O que falta para esse “povo de bem” pegar uma porrete para bater nos “inimigos” em 2016? Nada.

O que estava confinado às margens da vida social e política tornou-se mainstream. Uma vez que essa delinquência passa a ser aceita, ela corroi a democracia e deixa tudo mais fraco e dividido.

Essa canalha não será a primeira a fazer a transição do ridículo para o perigoso e, finalmente, para o trágico. A vantagem é que, neste ano, tudo ficou claro como o dia e você não terá o direito de se surpreender. Mais do que isso, ficou evidente o nosso dever de reagir.

Kiko Nogueira
No DCM



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"A corrupção não começou nem aumentou nesse governo — sempre existiu", Dallagnol


Mesmo espremido pela jornalista, procurador da Lava Jato garante: "A corrupção não começou nem aumentou nesse governo — sempre existiu — e contra Lula e Dilma não há NADA!" Para ele, mudar governantes não resolve problema de corrupção.

(Que chato, né?)


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O pior jornalista do ano

Vários atributos levaram Merval ao prêmio
O pior jornalista de 2015 foi Merval Pereira. Merval bateu concorrentes fortes, a maior parte dos quais na sua própria empresa, a Globo.

Ali Kamel, diretor de telejornalismo da Globo, foi um dos derrotados por Merval. Kamel, num ano marcado por tantas manifestações de racismo, tem sido lembrado por um livro que lançou em 2008. O título é: “Não somos Racistas.”

Kamel dedicou o livro — na verdade uma coleção de artigos — a seus patrões, e eis aí uma característica que o une ao vencedor Merval: eles são mais Marinhos que os próprios Marinhos.

Para ganhar o prêmio de Pior Jornalista de 2015, Merval fez coisas como afirmar, categórico, que imperaria o voto de Fachin na sessão decisiva do STF sobre o roteiro do processo de impeachment.

Fachin, relator do caso, deu um voto, como se lembram todos, mata-Dilma. Se ele fosse seguido, Dilma estaria virtualmente liquidada.

Merval afirmou que Fachin teria uma quase unanimidade entre seus colegas no STF, e deu a seu texto o sugestivo título de “Caminho Livre”. (Caminho livre para o golpe, naturalmente.)

O voto de Fachin foi destroçado graças ao brilho da divergência do ministro Luís Roberto Barroso, num dos momentos capitais dos destinos da República em 2015.

Como um jornalista experiente como Merval comete um disparate de principiante ao afirmar, na véspera, o resultado de algo tão incerto?

É sabido que um erro leva a outro. O equívoco inicial foi Merval infringir a regra básica do jornalismo, criada pelo grande editor Joseph Pulitzer: “Jornalista não tem amigo.”

Mas Merval tem. Um deles é Gilmar Mendes, provavelmente o juiz mais partidário da história do STF. Tudo sugere que Gilmar passou a Merval sua visão sobre o que decidiria o STF.

E Merval a comprou. A suspeita é reforçada pelo comportamento de Gilmar na sessão que definiu o caminho do impeachment. Ao ver ir para o lixo o voto de Fachin, e com ele o seu próprio, Gilmar levantou-se abruptamente e deixou o plenário.

Merval jamais trabalharia com Pulitzer, mas é o ideal para os Marinhos. É a voz dos donos. Para usar uma clássica imagem bíblica, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que encontrar um texto de Merval que vá contra as opiniões dos Marinhos.

Em 2015, além de profeta fracassado, Merval foi também um torcedor apaixonado, outra agressão ao bom jornalismo.

Ele torceu sempre pelo impeachment, pela crise política e pela catástrofe econômica. Jamais se comportou como jornalista. É como se estivesse numa arquibancada do Maracanã, embrulhado a uma bandeira com inflamadas palavras reprovatórias contra o petismo, o lulopetismo e qualquer coisa ligada ao PT.

Merval hoje é o símbolo do jornalismo patronal, em que o papel dos jornalistas é, simplesmente, defender os interesses dos donos.

Num passado não tão distante, jornalistas eram majoritariamente progressistas, e disso resultava um certo equilíbrio nas publicações. Os donos, previsivelmente conservadores, puxavam para um lado e os editores progressistas para o outro, e a síntese era frequentemente um conteúdo rico e plural.

Dois exemplos notáveis foram a Folha sob Cláudio Abramo e a Veja sob Mino Carta.

Hoje, o estilo Merval se espalhou. Espécie de decano do jornalismo patronal, Merval é uma triste referência para jornalistas jovens.

Todas essas coisas somadas, é dele, merecidamente, o título de Pior Jornalista do Ano.

Paulo Nogueira
No DCM
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Se o Jardim fizer jornalismo, não precisa fazer baixaria e ser “zoado” por Cunha


O espetáculo deprimente da “barriga” não assumida da coluna de Lauro Jardim sobre a falsa viagem de Eduardo Cunha à Cuba, a bunda “roubada” da irmã da Kim Khardashian e as sandices postadas por Eduardo Cunha no twitter, acusando a Globo de estar a serviço do PT poderia ter sido evitado com apenas duas palavras: jornalismo e decência.

Decência, para reconhecer que a coluna tinha dado uma informação errada e corrigir o erro sem “malandragens”.

Jornalismo, para deixar de se preocupar com bobagens de uma mocinha mal educada na internet e ir atrás dos negócios da família Cunha, que podem ou não ser corretos.

Por exemplo, todos ficam falando das “filhas do Cunha”, por conta de que uma delas é beneficiária de uma das contas da Suíça.

Mas Cunha tem quatro filhos, as três moças (um delas enteada, palavra imprecisa para a filha alheia que se cria como sua) e um rapaz, de 22 anos, Felipe Dytz da Cunha.

Ele
Este rapaz tem, três anos depois de terminar o Segundo Grau, uma dezena de empresas. A maior parte de comércio eletrônico e propaganda, sozinho ou em sociedade com as irmãs, sendo ele o sócio-diretor.

Estão sediadas no mesmo prédio do escritório de Cunha, na Avenida  Nilo Pecanha, 50 – Salas 3201, 3203 e 32129. O delas é na sala 2909. Ou então, na Avenida das Américas, 1155, sala 1905, como é o caso da GDAV Comercio – Gdav Comercio de Produtos Eletrônicos Esportivos e Papelaria, microemepreendedor individual que, entretanto, aparece na internet no tão pomposo quanto vazio site Global Nutricional, que além de dividir o endereço no Brasil, tem filial no chique 616 Corporate Way, Suite 2-3420 Valley Cottage, NY.

Endereço onde estão também a Aluni, plataforma de educação à distância que Felipe divide com Danielle Cunha. Ah, e a GFC, também do rapaz, que é uma “uma holding de investimentos, que além do aporte de capital e consultoria, também coloca a mão na massa nos processos essenciais de estudo de viabilidade, construção, desenvolvimento e execução do negócio.”

Pode ser que o rapaz seja um gênio dos negócios. Pode ser que não. Aqui a gente não embarca ninguém para Cuba sem ter certeza que embarcou.

Bem, isso é o que o modesto “blogueiro sujo” aqui pode publicar, sem acusar ninguém, porque não tem os meios de um grande jornal e suas equipes de repórteres, mas fica contente em oferecer como pauta para a grande imprensa.

Já me é paga bastante não ver o jornalismo publicar bundas em lugar de informação.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A onda conservadora e o impasse da esquerda

Em seu mais recente artigo na Folha de S. Paulo (25/12/2015), Vladimir Safatle procura desconstruir a imagem de uma “onda conservadora” na política brasileira.

Reconhecendo que “o Brasil sempre foi um país com uma grande parcela de sua população claramente identificada ao pensamento conservador”, Safatle enumera episódios da história recente do Brasil nos quais o conservadorismo aflorou, para então concluir: “nada disto mudou muito, só perdeu seu contraponto”.

Nesses termos, o problema residiria no contraponto, isto é, na esquerda:

“Mas seria interessante se perguntar se o fenômeno que vemos hoje é realmente uma onda conservadora ou simplesmente a decomposição radical do que poderíamos chamar de ‘campo das esquerdas’. Uma decomposição que não foi fruto de complôs internacionais e de recrudescência do ódio, mas de impasses e erros próprios”.

Onda conservadora

Se é verdade que o conservadorismo deita profundas raízes na sociedade brasileira, é difícil concordar que a atual conjuntura não tenha produzido algo de novo a partir do velho conservadorismo, ou seja, que não estejamos diante de um novo conservadorismo, mais forte e com novas feições.

A onda conservadora existe. Trata-se de algo novo e complexo, que vai do individualismo consumista produzido pelo lulismo nas classes subalternas até o sentimento de mal-estar na classe média tradicional em face da perda relativa de prestígio e status produzida pela mobilidade social dos últimos anos. As recentes manifestações pró-impeachment amparam-se nessa segunda vertente.

Talvez seja no cinema o campo em que aparece de maneira mais nítida a produção do conservadorismo a partir do tecido social.

Em meio a isso tudo, soa simplista a afirmação de que o fortalecimento de ideias e manifestações conservadoras na sociedade decorra da ausência do contraponto de esquerda. Na verdade, o que a experiência ensina é o exato oposto: o contraponto de esquerda tende a alimentar ainda mais o conservadorismo, como bem mostram nossos vizinhos latino-americanos, que não estão melhores do que nós.

Além disso, seria honesto lembrar que nossa onda conservadora foi sendo incrementada a conta gotas por contrapontos de esquerda, muitos dos quais vindos do governo (como o programa Mais Médicos, a Comissão da Verdade e as políticas das secretarias nacionais vinculadas à presidência da República, só para dar alguns exemplos). Não é por acaso que o alvo principal de Bolsonaro, Feliciano e cia. seja o PT. Uma leitura do conservadorismo no Brasil atual não pode deixar esses dados de lado.

É certo que o objetivo de Safatle é contrapor-se a um tipo de intervenção, próprio de uma militância governista fanática, para quem todos os problemas devem ser imputados à direita. Trata-se de um embate intelectual, no campo da crítica. Todavia, negar pura e simplesmente a existência de uma onda conservadora acaba sendo tão empobrecedor quanto atribuir todos os problemas à dita onda. Se o que se quer é polarizar com a militância governista, o resultado foi um nivelamento por baixo da polarização. Enquanto para uns tudo é onda conservadora, para outros não há onda conservadora. Entre uns e outros, é o pensamento crítico que perece, deixando o campo aberto para o fanatismo.

Impasse da esquerda

Se a decomposição radical do campo das esquerdas foi fruto de erros próprios, resta saber por que razão a crítica de Safatle não alcança o lugar de onde ele fala, isto é, a esquerda socialista. Isso inclui a esquerda do PT, bem como seu próprio partido e a tese à qual ele associou-se no interior do PSOL.

Tem sido lugar comum entre os intelectuais de esquerda a ideia de que apenas e tão somente o PT deve ser criticado. Para estes, a razão pela qual só o PT merece ser criticado é tão óbvia, tão autoevidente que sequer merece justificativa. “A culpa é do PT”, é o que se lê aqui e acolá.

Mas se estamos diante da decomposição do campo das esquerdas, como nota Safatle, não seria o caso de dirigir a crítica à esquerda no seu conjunto? Se a esquerda socialista é pequena ou muito pequena — argumento o mais das vezes utilizado por ela própria para eximir-se da crítica —, cabe notar que sua pequenez não é um dado da natureza, nem deve ser imputado pura e simplesmente ao sistema. Aqui também são os erros próprios que devem ser vislumbrados.

As duas últimas eleições presidenciais mostram que há espaço para uma terceira via. Um espaço eleitoral, político e social que, se ocupado pela esquerda socialista, empurraria a conjuntura para a esquerda. Não é exatamente a capacidade de a esquerda socialista ocupar um espaço social à esquerda a chave para o necessário contraponto à onda conservadora? A quem interessa uma esquerda socialista pequena e isolada, enquanto Marina e o PSDB polarizam com o governo e o PT?

Dizemos isso porque é o próprio Safatle quem lembra: “a última eleição teve uma candidata com 20% de votos e, no fundo, sem partido”. Ocorre que Marina chegou onde chegou não por acaso, mas fundamentalmente porque ela acertou. Não saiu do governo antes de o governo começar, mas na hora certa e do jeito certo. Não fez oposição ao lulismo, antes apresentou-se como continuação e superação deste.

Ao contrário do que muitos pensam, o espaço ocupado por Marina não se situa na classe média tradicional, mas na nova classe trabalhadora. Sobretudo entre os jovens e nas grandes cidades. Esse espaço não poderia ter sido ocupado pela esquerda socialista? Sim, mas as condições para isso não seriam simples. Exigiriam da esquerda socialista e do PT outra estratégia política. Uma estratégia de esquerda, na qual lulismo e esquerda socialista convergiriam.

Apesar de central, a eleição majoritária não resolve o problema da composição do Congresso Nacional. Quanto a isso, tanto quanto é pobre a afirmação de que o Congresso representa a população — como se existisse representação política perfeita —, a negativa também é simplista e empobrecedora. (Para um estudo sério sobre o assunto, ler André Singer, Esquerda e direita no eleitorado brasileiro, Edusp, 1999; há inúmeras monografias produzidas recentemente sobre o assunto).

Ao contrário do que Safatle argumenta, não há uma tendência do voto de presidente influenciar o voto proporcional, ao menos não como Safatle quer fazer crer. Os resultados estão disponíveis para quem quiser ver.

Finalmente, imaginar que, sob outras leis eleitorais e com outra mídia, o Congresso Nacional seria qualitativamente mais à esquerda, soa como uma maneira de apaziguar a consciência. Primeiro porque as leis eleitorais e a mídia são as armas do inimigo, e numa guerra nunca o inimigo abdica de suas armas (1); segundo porque as pessoas pensam, de modo que o voto é sim expressão de uma percepção do eleitor(a) sobre a posição que o candidato(a) e/ou o partido ocupam no espectro ideológico. E, afinal, “o Brasil sempre foi um país com uma grande parcela de sua população claramente identificada ao pensamento conservador”.

Crítica e autocrítica

Veja-se o caso da Espanha: o Podemos teve uma votação impressionante, como bem lembra Safatle. Mas convém notar: com as mesmas regras eleitorais de sempre (2). Nós também podemos, desde que façamos como eles: entendamos o Brasil e inovemos nossa estratégia. Criemos uma estratégia adequada ao Brasil, capaz de fazer frente às condições tais quais existem.

O problema é que isso exige autocrítica, e toda autocrítica coloca em risco a própria identidade e a coesão do grupo, e nem todos estão dispostos a enfrentar o fantasma da crise de identidade e da quebra da coesão. Mais cômodo e seguro é aferrar-se à situação atual, ainda que seja de derrota.

A paralisia não acomete apenas o PT e o governo — que também devem fazer uma dura autocrítica.

Há também na esquerda socialista uma situação de paralisia, ou seja, uma fixação ideológica que impede a inovação estratégica: tanto quanto o PT não consegue incorporar em sua estratégia a esquerda socialista, que não ocupa lugar algum na estratégia do lulismo, esta — esquerda socialista — igualmente não consegue incorporar o lulismo em sua estratégia. Enquanto a única alternativa que o lulismo produziu foi Marina, a estratégia do PSOL segue sendo a mesma dez anos depois de sua fundação: oposição.

Se há paralisia, o ponto é que a paralisia é da esquerda no seu conjunto e só dessa perspectiva ela pode ser compreendida. Daí a razão pela qual a superação dos impasses da esquerda no atual momento histórico exige um esforço mais elevado de crítica, de uma crítica dirigida à esquerda no seu conjunto. Crítica dirigida apenas ao PT ou apenas à esquerda socialista não é crítica, mas caricatura de crítica.

A recusa de Safatle em associar à crítica ao PT a autocrítica — não dele, pessoal, mas do lugar de onde ele fala — é emblemática do momento por que passamos no campo intelectual e político na esquerda brasileira. Momento que carece superarmos.

(1) É conhecido o argumento, preponderante entre a esquerda socialista, de que o PT (o governo) poderia mudar as leis eleitorais e a mídia se quisesse, e de que a mudança não ocorreu porque o PT (o governo) não quis. Por vezes, o argumento é mais sofisticado: o PT e o governo poderiam mobilizar a população para, nas ruas, desequilibrar a correlação de forças do Congresso e, com isso, aprovar quaisquer medidas; mas o PT e o governo abdicaram da mobilização como estratégia — o que é verdade, embora não seja verdadeira a ideia de que a mobilização provavelmente conduziria a um resultado favorável.

Há, enfim, quem compare o Brasil com a Venezuela, ignorando que o chavismo surgiu de processos muito particulares (cada país tem a sua história) e que o PSUV sozinho logrou por muitos anos ter maioria no parlamento venezuelano. Com argumentos como esse, demonstra-se apenas uma profunda ingenuidade, uma visão romântica da política brasileira, na qual se ignora a situação concreta das classes sociais no Brasil — alguns na esquerda socialista chegam a atribuir à classe média uma feição progressista! — e na qual se atribui ao PT (e ao governo) um poder que estes definitivamente não têm. No fundo, estes argumentos apenas demonstram uma fantasia a respeito das classes sociais no Brasil e o desejo de um governo com superpoderes, o que não deixa de ser irônico em face da pouca força daqueles que argumentam nesse sentido.

(2) Para compreender como o Podemos construiu uma estratégia original a partir de uma leitura avançada da situação concreta da Espanha, conferir: Pablo Iglesias, Entendendo o Podemos, Revista Mouro, janeiro de 2016, tradução de Joana Salém Vasconcelos (contato@mouro.com.br)

Antônio David
No Viomundo
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Mino Carta e a realidade sobre a Democratização da Mídia





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Os ignorantes do Leblon

Nunca aprendi a rezar o Pai Nosso. Comemorávamos Natal só porque é aniversário da minha mãe. Celebrávamos a Páscoa, mas confesso com bastante vergonha que não faço ideia do que significa. Sim, sei que tem a ver com Jesus. Mas não sei qual era a relação dele com o coelho, e nem por que raios esse coelho põe ovos, e por que diabos são de chocolate.

O mais perto que tinha de religião lá em casa era a música: meus pais só veneravam deuses que soubessem tocar. Ninguém rezava antes de comer, mas minha mãe botava a gente pra dormir religiosamente cantando Noel e acordava cantando Cartola. Meu pai passava o dia no sax tocando Pixinguinha e a noite no piano tocando Nazareth. Música não era um pano de fundo, era o caminho, a verdade, a vida. Tom era o Pai, Chico, o Filho, Caetano, o Espírito Santo.

Podia falar os palavrões que eu quisesse, mas ai de mim se ousasse tocar violão com acordes simplificados. "A pessoa que fez esse arranjo devia ir presa", dizia minha mãe. Preferiam me ver pichando muros a me ver batucando atravessado. Quando descobriram que eu fumava maconha, meus pais me disseram que não tinha nada de errado, desde que eu só fumasse em casa. Quando eu comprei um CD do LS Jack, disseram que não tinha nada de errado, desde que eu nunca ouvisse aquilo em casa.

Às vezes organizavam um sarau que parecia missa. "Silêncio, que se vai cantar o fado", dizia a Luciana Rabello, e daí tocavam choro como quem reza. Todos se calavam como numa igreja. A criança que abrisse o bico tomava logo um tabefe. Aquilo era sagrado. Pra mim, ainda é.

Herdei deles a devoção (sem herdar, no entanto, o talento para a música). Às vezes queria me importar menos com isso. Quando vejo as agressões ao Chico — e não estou falando do bate-boca na calçada, mas da campanha difamatória da qual os ignorantes do Leblon são meros leitores —, para mim é como se chutassem uma santa ou rasgassem a Torá. Como sou a favor da liberdade total de expressão, inclusive quando ela fere o sagrado dos outros, limito-me a torcer para que passem a eternidade ouvindo Lobão e Fábio Jr., intercalados com discursos do Alexandre Frota e Cunha tocando bateria. Uma coisa é certa: a oposição e sua trilha sonora se merecem.

Gregório Duvivier
No fAlha
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Museu da Língua Portuguesa: expositor desmente reportagem em tom de acusação veiculada pelo JN


O Instituto Casa da Ribeira, um dos responsáveis pela exposição sobre Câmara Cascudo desmente reportagem da Rede Globo sobre o incêndio no Museu da Língua Portuguesa. O incêndio ocorreu no dia 21/12 e consumiu praticamente todo o espaço do museu interditando também o setor de passageiros da estação de trem que faz parte do anexo.

Veja aqui reportagem de Fernando Sato dos Jornalistas Livres realizada no dia do incêndio: “Quando as palavras queimam”.

Em reportagem exibida no dia 24/12 o Jornal Nacional não se limita a apresentar fatos, mas se propõe a definir possíveis resultados de laudos que ainda não foram divulgados, bem como a indicar culpados e conclusões a respeito da origem do incêndio sugerindo que este teria se iniciado em “refletores antigos” instalados pelos expositores. Até o momento a perícia apresenta somente hipóteses, dentre elas a de curto-circuito, como motivo do ocorrido. Duas frases do repórter José Roberto Burnier chamam bastante atenção:
“Ficavam penduradas uma série de redes, redes de dormir, e em cima dessas redes uma série de refletores que foram instalados, não pelo museu, mas pelo pessoal da exposição do Câmara Cascudo”.
e acrescentou:
“são refletores até antigos porque a ideia era essa mesmo: de dar uma ideia da época de Câmara Cascudo”.
A reportagem do Jornal Nacional não deixa claro, por outro lado, que um funcionário do museu trocava uma luminária em uma das torres do museu, possivelmente no segundo andar do edifício (segundo reportagens do jornal o Estado de São Paulo e do site da rádio RB2).

Fica explícita na própria reportagem a tentativa do jornalista ou da rede de TV dos Marinho em apontar — antes que investigações sejam concluídas  —  não só um culpado conveniente mas também sua versão própria dos fatos à revelia de qualquer dado pericial ou avaliação técnica oficial.

Não causa estranheza a postura da rede de TV pelo fato de o Museu da Língua Portuguesa ser a realização de uma parceria entre o Governo do Estado de São Paulo  —  governado há mais de duas décadas pelo governo do PSDB, desde antes da inauguração do museu em 2006  —  e pela Fundação Roberto Marinho, um dos vários tentáculos das Organizações Globo, que recentemente inaugurou no Rio de Janeiro outro espaço de exposições, o “Museu do Amanhã”.

Resta saber se material jornalístico como o exibido pelo Jornal Nacional na noite de véspera de Natal será utilizado como prova judicial contra os expositores, algo que tem se tornado comum em diversos casos envolvendo, por exemplo, julgamentos de políticos ou servindo para que representantes parlamentares fundamentem seus discursos.

O fato é que de um lado, os patrões do jornalista (Organizações Globo) e de outro, os patrões dos investigadores do caso como a Secretaria de Segurança Pública (Subordinada ao Governo do Estado de São Paulo) têm interesse direto no caso pois são sócios do museu  —  o que seria um motivo adicional para que conclusões apressadas como as do jornalista fossem minimamente evitadas. Já se observa que ao menos as organizações Globo não se preocuparam em se ater a noticiar o incêndio do museu, mas passaram também a especular a respeito dos possíveis culpados submetendo a responsabilidade pela segurança do museu não aos mantenedores do espaço, mas aos expositores, sugerindo que estes últimos, tivessem a responsabilidade e obrigação de dominar a estrutura de segurança do local em que se realizava a exposição. Resta saber se as instituições de investigação paulistas cometerão o mesmo erro que a equipe de reportagem da Rede Globo cometeu.

Não se pode propor a inocência de qualquer uma das partes, mas não se pode também, tal como se vê na reportagem da TV Globo, fazer ilações a respeito dos possíveis culpados. A reportagem de Burnier vai contra estes dois princípios.

Veja aqui a reportagem da Rede Globo: título: “Imagens indicam onde começou o fogo no Museu da Língua Portuguesa”



Algumas questões que necessitam de respostas:

Estariam ligados os refletores num dia de museu fechado ao público? Porque?

Quem são os responsáveis por ligar e desligar, trocar lâmpadas de luminárias utilizadas nas exposições?

A responsabilidade pela manutenção e garantia de segurança dos espaços do museu são do museu ou dos expositores? Seria de ambos? Em qual nível?

Se a exposição pudesse oferecer qualquer risco à segurança do espaço e dos visitantes porque os responsáveis pelo museu aceitariam receber instalações que não atendessem seus critérios de segurança?

O incêndio resultou na morte de um brigadista civil que trabalhava no Museu: Ricardo Pereira da Cruz  —  39 anos.

A prefeitura de São Paulo indicou por meio de nota que o museu não tinha o alvará emitido, o que deixa o museu em condições similares às da Boate Kiss que também não tinha alvará de funcionamento válido e que, entretanto, tem sido cobrada pela justiça e sociedade com o devido rigor pela responsabilidade no incêndio que matou 242 pessoas em 27/01/2013.

Em nota, o instituto Casa da Ribeira, um dos responsáveis pela exposição sobre Câmara Cascudo no museu da língua portuguesa, desmente a matéria veiculada pela rede Globo. Veja abaixo a nota na íntegra:
“A equipe responsável pela curadoria da exposição “Câmara Cascudo: O tempo e eu (e vc)”, aberta desde outubro no Museu da Língua Portuguesa, vem a público para comunicar que as informações veiculadas no programa Jornal Nacional  —  TV GLOBO na noite da última quinta-feira (24/dezembro) não são verídicas.

A afirmação de que utilizávamos “(…) refletores antigos, porque a ideia era a de dar um clima mais da época de Câmara Cascudo” não reflete em absoluto o discurso estético e ético do nosso trabalho, e redunda em um arsenal de suposições precipitadas ou boatos. Em nenhum momento nosso trabalho se pautou em priorizar propostas artísticas em detrimento da segurança tanto do público como dos profissionais que trabalharam conosco.

Somos uma equipe de profissionais que atua há mais de 15 anos no mercado, e entendemos a possibilidade de criar uma exposição para o Museu da Língua Portuguesa como uma celebração dessa trajetória. Em função disso, todos os contratados para executar a exposição conosco são empresas reconhecidas pela alta qualidade técnica e com equipamentos novos, modernos e em excelente estado de uso. Confiamos no trabalho e na seriedade dos envolvidos, com destaque para a empresa “Armazém da Luz”, responsável pela locação de equipamentos, montagem e manutenção de toda a parte elétrica da iluminação no espaço.

Por oportuno frisamos que a ocupação da exposição temporária obedeceu aos critérios rigorosos de segurança do museu.

Acreditamos que somente a perícia técnica é instrumento competente para emitir um laudo que reflita a realidade dos fatos. Trabalhamos nesse sentido e seguimos confiantes na justiça e no jornalismo sério, imparcial e comprometido com a verdade.”
A aparente tentativa de responsabilizar exclusivamente o expositor e de inocentar o museu das Organizações Globo e do Governo do Estado de São Paulo que se observa sem muito esforço na reportagem do Jornal Nacional dá indícios de que o jornalismo dos grandes meios de comunicação ou não sabem distinguir seus próprios interesses dos interesses da sociedade, ou sabem bem distingui-los colocando sempre à frente seus próprios interesses em detrimento aos da sociedade.

Na noite deste domingo (27/12) o programa Fantástico da Rede Globo voltou a mencionar que o incêndio teria começado na exposição sobre Câmara Cascudo.



Allan Ferreira e Ana Trevisan
No Jornalistas Livres
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