27 de dez de 2015

Como adestrar seu aluno

A Folha de São Paulo continua com sua campanha para retroagir a educação brasileira ao tempo da palmatória — ideologia e interesse.


Mais um editorial contra o modelo de ensino previsto no Plano Nacional de Educação (PNE) e na BNC – Base Nacional Comum Curricular do MEC. Como este de 27 de dezembro de 2015 é a terceira ou quarta vez que a Folha volta ao assunto, nota-se que ele é caro a alguém de muita influência no jornal.

Educação fora da caixa” — esqueçam o título, é contrapensar criado pelo “Ministério da Verdade”. Para a crítica sobre o assunto basta voltar a ”E, no entanto, eles nos temem”.

A acrescentar, apenas que, seja quem for o patrocinador do retrocesso educacional na Folha, seus argumentos são vazios.
“Chega a ser aflitivo contemplar o desfiladeiro que separa o que é preciso fazer pela educação brasileira daquilo que na prática se está fazendo. Precisamos de uma revolução, mas não logramos nem mesmo conceber uma reforma decente”.
Retórica grandiloquente e nada mais. Substitua educação brasileira, no parágrafo acima, por saúde, meio ambiente ou paz mundial e fica tudo do mesmo tamanho.

Mas o que propõem o editorial, quando propõe alguma coisa?
“Um choque de gestão nas escolas públicas”.
Ato falho, sem dúvida. Denuncia claramente a ideologia por traz das críticas. Se não o partido.

E os riscos também. Os últimos choques de gestão que assistimos serviram para construir aeroportos em terras de parentes e para transportar amigos bem nascidos em aeronaves do Estado. Serviram também para provocar crises de abastecimento de água à população, mas garantindo alta lucratividade aos donos da empresa de abastecimento. Que em princípio era pública.

Vejamos a metodologia de ensino preconizada:
“… dar aulas de verdade, que utilizem o tempo disponível para explicar o conteúdo definido e sua utilidade; propor exercícios sobre o que foi ensinado; corrigir os erros cometidos e explicar por que são erros”.
Isso não é educação, isso é adestramento.

Educação utilitarista e tecnicismo educacional.

Pode até treinar trabalhadores braçais, ou cobradores de falta. É também o método utilizado para adestrar animais. Mas, sem dúvida, não forma cidadãos críticos de sua realidade e com saberes para interferir nessa realidade.

E, por certo, nem deseja formá-los.

Basta isso.

Não é necessário entrar no mérito de propostas, tais como:
  • cobrar pelo ensino superior nas universidades públicas,
  • demitir professores que não demonstrem “empenho e desempenho” e
  • fechar escolas “ruins” ou entregar sua gestão a “organizações sociais”,
para perceber que há método atrás de tantas sandices e muita ideologia e interesses.

PS1: para quem desejar entender um pouco mais sobre em que estágio do desenvolvimento pedagógico se encontra a proposta da Folha: aqui.

PS2: esta Oficina apoia a educação cidadã e o Movimento Golpe Nunca Mais.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Consertos Gerais e Poesia
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Não nos esqueçamos de Mariana e da bacia do rio Doce!


Quando fui a Bento Rodrigues,  senti como se estivesse invadindo a casa e a dor das pessoas. Foi muito doloroso andar pelos vários caminhos antes percorridos pela lama!

Após um mês do crime, o cheiro de putrefação ainda é forte em alguns trechos.  É preciso colocar os pés na lama para ter um pouco da dimensão do que se passou. Ver como a vida de uma comunidade foi destruída.  Achar o carnê do INSS de algum trabalhador, encontrar a escola municipal, a lata de óleo de cozinha ainda cheia, ver a sinuca do bar retorcida. Ver o que antes era casa estar, completamente, invadida pela lama.

Mariana Procurei acompanhar os desdobramentos da Comissão Extraordinária da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Por quase uma hora, deputados indignados com a crítica que fiz discutiram e aprovaram um requerimento me “convidando” a explicar a minha opinião.

Mas não vi a mesma indignação quando um pescador de Conselheiro Pena relatou que a Samarco ainda não havia aparecido na cidade para responder aos mais 140 pescadores da Associação o que pescarão no Rio Doce depois que a lama, que afirmaram não ser tóxica, passou pela região.  E, até eu escrever este texto, os mesmos que querem explicações não “sujaram” os pés na “lama da Samarco/Vale/BHP”, pois não foram a Bento Rodrigues.

E o que relatei há um mês continua acontecendo: a Samarco é quem delimita quem é atingido, o que vai receber e  qual  Comissão de Atingidos vai escutar. São os psicólogos e assistentes sociais contratados por ela que prestam a assistência autorizada às vítimas do crime.

Durante uma reunião da Comissão Extraordinária, sem nenhum constrangimento, alguns deputados estaduais demonstraram preocupação com a empresa, chegando ao cúmulo de associar que a queda no Produto Interno Bruto (PIB) mineiro, em função da paralisação da empresa, afetará a economia do Estado comprometendo o salário dos professores estaduais!

O rio Doce agoniza, as comunidades atingidas estão expostas ao poder econômico das mineradoras e os governos locais lutam para minimizar os impactos do crime, alimentando a falsa ideia de que está tudo se acertando (com honrosas exceções, como o prefeito de Baixo Gandu/ES), mas a lama continua chegando ao rio Doce, situação que a Samarco afirma só resolver em fevereiro de 2016.

E as vítimas do crime são transformadas em culpadas, erraram por estarem na frente da lama.  Era um crime anunciado: a barragem rompida estava recebendo, irregularmente, rejeitos de mina da Vale S/A e não apenas da Samarco; o aumento no consumo de água e energia indica o aumento da produção, numa estratégia de manter os lucros, com a queda do valor do minério.

O local da barragem de Fundão poderia ter sido outro, mas como a ideia era aumentar a capacidade de recebimento de rejeitos unificando com a barragem de Germano, ficou na frente de uma comunidade que antes do crime já sofria com a falta de água ocasionada pela mineração.

E se você prestar atenção agora em Bento Rodrigues, depois da tragédia, fica com uma estranha e absurda sensação de que o lugar para uma nova barragem de rejeitos já está resolvido.  Não se esqueçam de Mariana.  O criminoso sempre conta com a falta de memória de um povo para seguir impune e cometendo novos crimes!

Beatriz Cerqueira é professora, presidenta da CUT/MG e coordenadora-geral do Sind-UTE/MG
No Viomundo
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Entrevista com Fernando Savater


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Brincando com fatos e números

O malabarismo necessário ao jornalismo de oposição.


Brincando com números

Como transformar um crescimento de 9% em uma retração de – 1%?

Suponhamos que, neste Natal, o volume financeiro das vendas em shoppings tenha crescido 9% em relação ao montante de 2014. Nada mal, considerando-se momento que vivemos, diga-se de passagem. A inflação de 2015 está estimada em torno de 10%.

Agora, junte as duas informações.
“As vendas de Natal nos shoppings tiveram queda de 1% em 2015 em relação ao mesmo período do ano passado, já descontada a inflação do período”.
É assim que a Folha apresenta os resultados divulgado pela Alshop – Associação Brasileira de Lojistas de Shopping.

Será que entendi?

9 – 10 = -1.

Aritmética barata, subtraíram do valor das vendas de 2015 o valor das vendas de 2014 corrigido pelo índice de inflação?

O que a inflação tem a ver com o retorno financeiro das vendas de natal nos shoppings? Na prática, nada. Muito menos com o lucro obtido com as vendas natalinas. Que pode ter sido muito bom.

Mas dá uma manchete legal: “Shoppings têm pior Natal dos últimos dez anos”.

Brincando com fatos

Como fazer com que 18 anos de história desapareçam?

Entregue a missão para José Ribamar Ferreira — articulista dominical da Folha de São Paulo no caderno “Ilustrada”.

No seu artigo de 27 de dezembro de 2015, “Fim de uma etapa”, ele comenta a situação atual da política sul-americana e as recentes vitórias do campo da direita na Argentina e Venezuela. Traçando um perfil histórico, sai-se com esta:
O fim dessas ditaduras [as ditaduras militares na América do Sul], por sua vez, abriu caminho para esse novo populismo [os governos de esquerda (socialismo bolivariano, na sua definição); no Brasil, iniciados com Lula], que se apresentou como o oposto dos regimes militares, anticomunistas por definição”.
No Brasil, o último governo militar é de 1985 e Lula chega ao poder em 2003. Ou seja, José Ribamar, sumiu com Sarney, Collor e, principalmente, FHC. Na América do Sul, além de FHC, Menem na Argentina e Fujimori no Peru, jamais existiram.

O que colocou os governos de esquerda no poder na América do Sul não foi o fim das ditaduras, foi o fracasso do neoliberalismo dos anos 90. Esse sim, sucessor das ditaduras. Mas José Ribamar, que é um cristão novo do capitalismo selvagem, não vai se ater a esses detalhes.

Delirando

O professor Elio Gaspari acredita que encontrou a fórmula para que a presidente Dilma conduza a economia brasileira ao nível da americana, pelo menos nos que se refere ao “custo Brasil”.

Basta que ela passe a lavar as suas calcinhas no banheiro.

Talvez seja interessante um conhecido mais chegado alertar a família… de Gaspari.

PS 1: atenção antenados, ser a favor do impeachment ficou démodé. O elegante, agora, é apoiar Dilma para garantir liberdade para o Ministério Público lutar contra a corrupção.

PS2: totalmente na moda, esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Consertos Gerais e Poesia
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Uma cartada a favor dos bancos

O BC quer impedir o Cade de apurar crimes cometidos pelo sistema financeiro

Tombini, do Banco Central, contra Carvalho, do Cade
O escândalo internacional do cartel do câmbio ressuscitou uma velha disputa brasileira. Desde julho na mira das autoridades antitruste locais, 15 instituições financeiras contam até aqui com um aliado no governo. Em debates a portas fechadas e com recados públicos sutis, o Banco Central às vezes parece atuar como advogado dos investigados.

Contesta o direito do Conselho Administrativo de Defesa Econômica de investigar a banca e afirma ser “praticamente impossível” manipular o dólar oficial. E tentou arrancar do Palácio do Planalto uma lei capaz de liquidar as apurações em curso no Cade.

Há mais de dois anos estuda-se no governo a ideia de autorizar o BC a selar acordos de leniência com instituições financeiras flagradas em irregularidades.

Nesses acordos, uma empresa confessa seus crimes, entrega os comparsas e em troca consegue benefícios penais e anistia de multas. O Cade pode aceitar delações premiadas graças a uma lei de 2011 e, por causa dela, nasceu a apuração do cartel do câmbio.

Após essa investigação começar, as conversas sobre acordos de leniência do Banco Central foram apressadas na área econômica. No fim de setembro, uma proposta chegou ao Planalto, com o pedido para Dilma Rousseff decretar uma medida provisória.

Pelo texto, só o BC poderia abrir e comandar processos administrativos contra agentes do sistema financeiro, incluídos aí os casos de formação de cartel, como esse do câmbio. Se a MP vingasse agora e nesses termos, detonaria um imbróglio jurídico, com os bancos gratos por ganhar de Brasília uma arma para melar as apurações do Cade e negociar com quem, digamos, os compreende.

Em reuniões na Casa Civil para discutir a MP, porta-vozes da autoridade monetária rejeitaram todas as sugestões de incluir no texto um dispositivo que liberasse o Cade para vigiar os bancos em parceria com o BC quando estivesse em jogo a livre concorrência.

O órgão antitruste não foi menos inflexível. Consta que seu presidente, Vinicius Marques de Carvalho, ameaçou pedir demissão, se levasse a pior. Diante do impasse, o Planalto resolveu deixar a medida provisória de lado, ao menos por enquanto. Uma derrota para Alexandre Tombini e companhia.

Disputa de competências à parte, o xerife da concorrência e a autoridade monetária não estão na mesma sintonia nem mesmo sobre a existência de um cartel mundial de câmbio com impactos no Brasil, outro exemplo de como a turma na mira do Cade está coberta de motivos para torcer pelo Banco Central.

Em jogo, o acordo de leniência com instituições
acusadas de manipular o real
O BC esforça-se por convencer a plateia, no governo e fora, de que é “praticamente impossível” manipular a taxa de câmbio oficial brasileira, a Ptax, calculada todos os dias pela instituição com base nas transações diárias com dólar comunicadas pelo “mercado”.

Seu diretor de Política Monetária, Aldo Mendes, defendeu essa posição no Senado em outubro. Segundo o Banco Central, há no máximo “indícios de tentativa de atuação em conluio” na fixação de spreads, porcentual de lucro obtido pelos negociantes com a diferença entre o valor de compra e o de venda de dólar.

Posição curiosa, mais realista do que o rei. Das 15 instituições na mira do Cade por suspeita de cartel, cinco fecharam, em maio, um acordo com autoridades americanas para se livrar de processos criminais instaurados, entre outras razões, pela irregularidade investigada aqui, manipulação do câmbio.

Barclays, Citigroup, JP Morgan, Royal Bank of Scotland e UBS confessaram a culpa e toparam pagar multas somadas de mais de 5 bilhões de dólares.

A apuração no Brasil surgiu, inclusive, de um acordo de leniência do Cade com uma das instituições multadas nos EUA. Para merecer os benefícios da delação, o suíço UBS teve de admitir sua culpa.

Entre os demais investigados, estima-se que quatro estão em fase de negociação de um Termo de Compromisso de Cessação, uma leniência menos atraente. O TCC garante redução de multas, não anistia e não os protege de ações penais.

Se um dos termos for assinado, será mais fácil provar o cartel. E os bancos que preparem o bolso. As multas no Cade e as ações de indenização prometidas pelos exportadores devem ultrapassar a casa do bilhão de reais.

A briga entre o Cade e o BC pela vigilância do sistema financeiro vem de longe. Historicamente, o Banco Central considera o setor como de sua alçada. Se há banco envolvido com fusão, aquisição e conduta contrária à livre concorrência, quer a primazia total para investigar. O órgão antitruste rebelou-se contra isso no governo Fernando Henrique Cardoso e não se aquietou mais. Procurado, o BC não se pronunciou.

O pontapé do conflito foi a compra do antigo Banco de Crédito Nacional pelo Bradesco, em dezembro de 1997, aquisição aprovada pelo BC, que não viu riscos para o funcionamento do sistema financeiro, embora não tenha sido examinada pelo Cade em seus aspectos concorrenciais.

Em 2001, o então advogado-geral da União, Gilmar Mendes, assinou um parecer ao gosto da equipe econômica comandada à época por Pedro Malan. Na briga com o Cade, o BC tinha razão, segundo Mendes. Mesmo ratificado por FHC, o parecer não acalmou o órgão antitruste.

Dias após o parecer, chegou à análise do Cade uma proposta para desfazer a joint venture BCN Alliance, na qual o Bradesco entrara ao adquirir o Banco de Crédito Nacional. O Cade aproveitou a chance e aplicou uma multa de 127 mil reais no Bradesco por este não tê-lo acionado quando da aquisição do concorrente.

A multa desencadeou uma batalha judicial sem fim, cujo pano de fundo é a definição sobre qual órgão federal tem a competência para examinar práticas anticoncorrenciais no sistema financeiro. O caso está no Supremo Tribunal Federal, sob a relatoria do ministro José Dias Toffoli.

André Barrocal
No CartaCapital
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O elo entre a Lista de Furnas e o mensalão tucano

O diretor de Engenharia, Planejamento e Construção de Furnas, Dimas Toledo, que a lista revela como o
mentor do esquema de corrupção
No ano de 2001, ao emergir do subterrâneo da política, Nilton Antônio Monteiro entregou ao Ministério Público e a um deputado do Espírito Santo documentos que revelavam o envolvimento da mineradora Samarco no pagamento de propina a autoridades do estado, à época governado pelo tucano José Ignácio Ferreira. Alguns meses depois, alguns políticos estavam presos e secretários foram demitidos.

Em 2005, Nilton Monteiro entregou a políticos do PT e à Polícia Federal recibos de depósitos, procurações e uma lista com nomes de políticos mineiros que receberam em 1998 dinheiro desviado do governo de Eduardo Azeredo através do publicitário Marcos Valério, no esquema que ficou conhecido como Mensalão de Minas Gerais.

Demorou dez anos para sair a primeira condenação no caso do Mensalão de Minas Gerais. O ex-governador Eduardo Azeredo foi condenado a 20 anos e 10 meses de prisão. Foi uma decisão de primeira instância, ainda sujeita a recursos, mas na sentença chama a atenção o número de vezes em que Nilton Monteiro é citado: 66 vezes, numa sentença que tem 125 páginas.

Nilton Monteiro é também o autor da denúncia da Lista de Furnas e a pergunta que sobressai da leitura do texto que condena Azeredo é: se Nilton Monteiro acertou quando denunciou o esquema de propina no Espírito Santo e teve suas revelações confirmadas pela sentença do Mensalão de Minas Gerais, por que a Procuradoria Geral da República ainda não investigou os políticos que integram a Lista de Furnas?

No início da semana passada, eu fiz esta pergunta à assessoria de imprensa da Procuradoria Geral da República, em Brasília, que me pediu para formalizar o questionamento via e-mail. Foi o que fiz, e até agora não recebi resposta.

Também procurei a assessoria do senador Aécio Neves, em razão do protagonismo dele na Lista de Furnas, seja por indicar pessoas que deveriam receber recursos, inclusive sua irmã, Andrea, seja por ser apontado como padrinho político do diretor de Engenharia, Planejamento e Construção de Furnas, Dimas Toledo, que a lista revela como o mentor do esquema de corrupção.

“Não posso. Tem pressão do Aécio, tem pressão do Aécio”, teria dito em 2004 o então ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, quando o deputado delator do Mensalão de Brasília Roberto Jéfferson, presidente do PTB, cobrou a indicação de um apadrinhado seu para o posto de Dimas Toledo. A assessoria prometeu enviar uma nota do senador, que é presidente do PSDB, ou me colocar em contato com ele, mas não fez nem uma coisa nem outra.

Lendo a sentença da juíza que condenou Azeredo, Marisa Pinheiro Costa Lage, o que se vê é o esforço da defesa do ex-presidente Azeredo em desqualificar o denunciante Nilton Monteiro. O próprio Azeredo, ao ser interrogado no ano de 2011, diz:

“É inacreditável que uma figura dessas seja levada em consideração. Quando eu vejo, aí, fatos novos que acontecem no dia a dia, hoje, eu me lembro muito disso. Eu estou vendo aí, hoje mesmo, nesses episódios de hoje, uma coisa parecida: falsificação de assinatura, cartório, coisa parecida com o que aconteceu comigo”, disse Azeredo.

Os “episódios de hoje” a que Eduardo Azeredo se refere são os desdobramentos da denúncia da Lista de Furnas. Naquele ano, a imprensa repercutia a investigação da Polícia Civil de Minas Gerais, estado à época governado pelo aliado de Aécio Neves, Antônio Anastasia, que apontou Nilton Monteiro como chefe de uma quadrilha de falsários.

A juíza que condenou Azeredo cita também o trecho de um depoimento prestado no Senado por Cláudio Mourão, tesoureiro da campanha de Azeredo. A então senadora Ideli Salvatti pergunta se Mourão ameaçou Nilton com a expressão “vou te pegar, acabar com a sua vida e vou te arrebentar.” Mourão responde: “Pode ter sido. Já passou a raiva. Falei com ele na hora, mas o que ele merece é isso.”

A sentença menciona ainda o episódio em que um carro de Nilton foi incendiado, fato já revelado nesta série de reportagens. Ao falar sobre Nilton Monteiro, a juíza lembra que não existem condenações contra ele e, ainda que houvesse, “qualquer pessoa pode ser testemunha, dando-se ao seu depoimento o valor devido, devendo ser consideradas suas declarações desde que sejam corroboradas pelas demais provas dos autos.”

E, no caso das denúncias de Nilton Monteiro, provas não faltaram.  “É necessário que seja dada credibilidade às declarações de Nilton Monteiro, haja vista que diversas de suas afirmações foram confirmadas pelas testemunhas, como Marcos Valério, que o recebeu em seu escritório, para tratar de assuntos relacionados à campanha tucana em Minas Gerais.”, escreveu a juíza.

A magistrada lembra também que Nilton Monteiro apresentou documentos, como a procuração que Cláudio Mourão entregou a ele, para cobrar dívida de campanha junto a Azeredo e recibos de depósitos, além de anotações de Walfrido dos Mares Guia, vice-governador de Azeredo, com o “resumo da movimentação financeira ocorrido no ano de 1998”.

Tudo confirmado por perícia ou pelo próprio autor das anotações. Denise Landim, amiga de Cláudio Mourão, deu um depoimento que revela a proximidade de Nilton Monteiro com o grupo de políticos tucanos. Ele esteve em sua casa, levado por Cláudio Mourão, para tratar do investimento em uma ilha de Cabo Frio, Rio de Janeiro.

Na semana passada, eu fui para Bauru, no interior do Estado, para levantar informações sobre uma das empresas que se destacam na Lista de Furnas como doadora de recursos de caixa 2 para os políticos. Para testar a credibilidade de Nilton Monteiro, tirei foto da casa onde o dono da Bauruense, Airton Daré, morou, uma mansão que ocupa um quarteirão inteiro, e enviei por mensagem a Nilton Monteiro.

Você conhece esta casa? Perguntei. “É a casa do Daré, em Bauru.” Você já esteve aqui? “Muitas vezes” Fazendo o quê? “Pegando malas de dinheiro, para entregar a políticos que o Dimas indicava.” Por conta própria, Nilton acrescentou: “E eu viajei muito no avião dele, com um pau mandado do Daré, o Carlos Braga, que era genro dele”.

Airton Daré, fundador da Bauruense
Airton Daré, fundador da Bauruense
O genro e o avião faziam parte das minhas anotações, citados em entrevistas que fiz com pessoas que conviveram com Daré, mas eu não havia comentado nada com Nilton Monteiro. Daré morreu no dia 19 de junho de 2011, mas a empresa que fundou continua ativa e muitos dos diretores que o auxiliaram nos negócios da empresa continuam no mercado. Alguns até dão entrevista, sob a condição de anonimato.

Comecei a levantar informações sobre a Bauruense depois que o doleiro Alberto Youssef contou, em delação premiada na Operação Lava Jato, que a empresa repassava mensalmente propina a dois deputados federais, José Janene, do PP, para quem ele trabalhava, e Aécio Neves, do PSDB, ambos da base de sustentação política do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Youssef diz que o dono da Bauruense repassava pelo menos 100 mil dólares por mês (390 mil reais pelo câmbio atual) a Janene e uma quantia não especificada para Aécio Neves. O vídeo com o trecho dessa delação foi vazado e se encontra disponível na internet.

Nesse vídeo, Janene, de camiseta cinza de mangas curtas, demonstra muita tranquilidade e, com as mãos sempre cruzadas, pressionando e afastando os dedos, conta como soube do envolvimento de Aécio no esquema.

O dono da Bauruense, ao discutir valores de propina com José Janene, na presença de Youssef, dizia que não podia aumentar a quantia porque “ainda tem a parte do PSDB”. Youssef era o operador de Janene e o procurador pergunta quem era o operador do PSDB.

“Sei por ouvir dizer que era a irmã do Aécio”, afirma. No vídeo, ouve-se o procurador dizer que tinha uma foto de Andrea Neves e fazer menção de mostrá-la a Youssef, que diz não poder reconhecer. “Estamos falando de coisa de vinte anos atrás”, diz. O procurador insiste se ele teve contato com Andrea, e Youssef diz: “Não.”

O que Youssef demonstra não ter dúvida era sobre a divisão da diretoria de Furnas: “Ele (Janene) dividia essa diretoria com o então deputado Aécio Neves”. O procurador pergunta se a propina entregue à irmã de Aécio era em espécie, assim como para ele: “Acredito que sim”.

Dinheiro em espécie existia na casa de Airton Daré. “O Daré era um homem muito discreto e muito inteligente”, conta Nilton. Ele esteve na casa de Daré em Bauru, levado de avião particular, para recolher mala. Diz que foi lá em nome do Dimas Toledo, então diretor de Construção, Engenharia e Planejamento de Furnas.

No mesmo endereço, à rua José Salmen, número 28 da quadra 4 (os números em Bauru são diferentes, contados por quadra) os vizinhos se recordam de que, em 2006, entraram policiais federais, para uma operação de busca e apreensão.

“Os homens estavam armados e com colete preto, com Polícia Federal escrito”, recorda um vizinho. “Igual a essas cenas que a gente na televisão”, acrescenta. Só que, ao contrário dos tempos da Operação lava Jato, a apreensão na casa de Daré não passou na televisão. Os policiais estiveram nesta casa, na sede da empresa e no apartamento do dono da Bauruense, no condomínio Mônaco, na Vila Universitária.

Os policiais encontraram no apartamento mais de 1 milhão de reais em espécie e cerca de 350 mil dólares, também em espécie. Em sua defesa, Daré disse que era dinheiro para pagar funcionários de suas fazendas, mas não conseguiu provar o saque das contas.

Entre 2000 e 2005, a Bauruense recebeu cerca de meio bilhão de reais por serviços prestados a Furnas. A Corregedoria Geral da União, criada em 2003, investigou os contratos da Bauruense e, segundo a procuradora da república Andréia Bayão, encontrou indícios da existência dos crimes de corrupção passiva, peculato e de fraude a licitação, “antecedentes aos de lavagem de dinheiro”.

Entre os fatos suspeitos citados, está o superfaturamento de preços, o pagamento por reajustes e vantagens que caberiam exclusivamente à empresa e até a contratação pela Bauruense de um irmão do funcionário responsável pelas licitações da estatal.

A procuradora diz ter encontrado nos relatórios da CGU e também do Tribunal de Contas da União “evidências de que Furnas estava inserida dentro de um esquema criminoso voltado para obtenção de vantagens ilegais em benefício de funcionários públicos e políticos”.

Daré é apontado pela procuradora Andrea Bayão como beneficiário do “esquema criminoso” e, para sustentar a acusação, a procuradora solicitou à Receita Federal um estudo sobre a evolução patrimonial dele, a partir da quebra do sigilo fiscal. Em 2002, Daré declarou bens e direitos no valor aproximado de 35 milhões de reais. Em 2006, seu patrimônio declarado era de R$ 58 milhões.

“Sua evolução patrimonial ou é superior aos seus rendimentos ou fica no limite dos seus rendimentos, o que lhe impediria de fazer quaisquer outros gastos com moradia, lazer, consumo”, escreveu a procuradora na denúncia à Justiça, em que pede a condenação de onze pessoas, entre elas o diretor de Furnas Dimas Toledo e o empresário Daré.

Daré e Dimas Toledo são dois lados da mesma moeda, cada um de um lado do balcão, mas unidos por negócios em estatais, que só a corrupção política pode proporcionar. Dimas começou a trabalhar em Furnas no ano de 1968, logo depois de se formar em Engenharia pela Faculdade de Itajubá, Minas Gerais, o mesmo ano em que Daré fundou a Baruense, para prestar serviços em Ilha Solteira, inaugurando um longo e duradouro relacionamento com a estatal paulista de energia CESP.

Daré também era formado em Engenharia pela Universidade de Londrina, só que no ramo florestal, o que lhe permitiu fazer negócios de reflorestamento no Estado do Mato Grosso antes de entrar no setor de energia.

Segundo o inquérito da Polícia Federal, Dimas, quando ausente, era chamado de Gordo pelos empresários que prestavam serviços em Furnas. Daré também tinha muitos quilos além do peso ideal. Ambos investiram em imóveis. Dimas é dono de uma fazenda na Serra da Bocaina, Minas Gerais, seu Estado Natal, e comprou muitos imóveis em Resende, no interior do Rio de Janeiro.

Segundo pessoas que trabalharam com ele em Bauru, Daré adquiriu mais de 150 imóveis urbanos e comprou algumas fazendas, entre elas uma às margens do rio Tietê, onde criou uma espécie de clube de campo para seus mais de mil funcionários. No local, todo fim de ano, realizava uma grande festa de confraternização.

“Ninguém saía sem presente da festa”, conta um ex-diretor do grupo. E eram presentes caros, de televisores a carros. Mas a forma como ele realizava o sorteio revela como conduzia seus negócios. “Os ganhadores dos carros eram escolhidos antes. Todos os nomes estavam no saco, menos aqueles que ganhariam os carros. Estes estavam na mão do próprio Daré. Ele colocava a mão no saco, mexia, mas não pegava nenhum papel. Ele já estava com ele na mão”, diz.

Ninguém percebia e, se percebesse, havia motivos para não ligar. Daré era um homem de hábitos simples e generoso, não só com empregados. Quando o genro, Carlos Braga, quis ser deputado estadual, em 1998, pelo PP de Paulo Maluf, Daré bancou a campanha, ao custo de quase 70 reais o voto.

Era conhecido o patrocínio que dava às campanhas do vereador Paulo Madureira, embora não tivesse negócios significativos com a administração pública do município. Não que ele não quisesse. Chegou a comprar 28 caçambas, na expectativa de assumir a coleta de lixo na cidade, mas teve que destinar a frota a outro município onde já prestava o serviço, Campinas.

Apaixonado por esporte desde seu tempo de pessoa simples em Pederneiras, onde nasceu e ajudava o futebol amador, bancava o time do Parquinho, de Bauru, e financiava uma escola de samba.

Um dos aviões da Bauruense, um jatinho Citation

Tentou fazer do filho, que também se chama Airton, uma estrela da Fórmula Indy, mas Darezinho não chegou a obter grandes resultados, embora patrocínio não lhe faltasse, inclusive um do Banestado, o banco público do Paraná, que protagonizou na época das privatizações de Fernando Henrique Cardoso um dos maiores escândalos de evasão de divisas do Brasil.

Os vizinhos de sua casa da rua José Salmen, Jardim Estoril, lembram que ele dava grandes festas, inclusive uma com a dupla sertaneja César e Paulinho. Perto desta casa, ele comprou na planta quatro apartamentos de um andar inteiro, no edifício Marselha, o metro quadrado mais caro de Bauru. Lá moram seu filho, o Darezinho, e a ex-mulher Cláudia. A Bauruense tem cinco aviões, sendo um deles o jato Citation.

Na década de 90, comprou uma rádio Auri Verde, de Bauru. Mas a emissora foi parar em suas mãos por caminhos, digamos assim, tortuosos. O prefeito de Bauru era Antonio Tidei de Lima, e a rádio Auri Verde, AM de grande audiência nas classes populares, o apoiava. Mas ainda não pertencia a Daré.

Em troca do apoio, conseguiu dinheiro da prefeitura para reformar todo o prédio. Um locutor lembra que, para driblar a restrição da lei eleitoral, a rádio noticia que haveria evento em determinado lugar. No encerramento do boletim, o locutor informava: “Tidei a dica.”

O relacionamento entre Tidei de Lima e o dono da rádio, azedou e as verbas deixaram de ir para a rádio, que ameaçou fazer oposição. Para evitar desgaste político e a perda de popularidade, o prefeito telefonou para amigos no Palácio dos Bandeirantes, onde o chefe era Luiz Antônio Fleury Filho, também do PMDB.

Tidei pediu ajuda, a solução encontrada foi propor a Daré comprar a rádio. “Uma pessoa ligada ao governador ligou para o Daré e disse que ele deveria comprar a rádio”, conta. Daré teria dito: “Mas eu não entendo nada de rádio e por que vou gastar dinheiro comprando a rádio?” O governo viabilizou a compra, autorizando Daré a interromper o pagamento de propinas a três autoridades do Estado, incluindo um dirigente da CESP.

Na rádio, era proibido dizer o nome de Daré. Quando Daré bateu um carro, a caminho do aeroporto, a rádio ignorou o fato, e funcionários da Bauruense pressionaram os jornais a não dar a notícia. A informação foi publicada no Jornal da Cidade, o maior de Bauru, mas sem nenhum destaque, como queria Daré.

Quando ele morreu, em 2011, um executivo da empresa telefonou e disse que não era para noticiar a morte. A ordem não foi acatada, em razão da relevância da notícia. “Todo mundo em Bauru sabia que ele era o dono da rádio. Como é que não íamos dar?”

No aspecto pessoal, assumia ser mulherengo. Certa vez, na companhia do genro em um avião, telefonou para um amigo e disse que queria vê-lo em seu escritório, em Bauru.

O amigo foi até lá e ele o recebeu na companhia de uma mulher muito bonita e bem mais nova do que ele. Daré pediu que o amigo aguardasse na antessala. Pouco depois, ele voltou, sozinho, com uma revista Playboy na mão, e mostrou a capa, dizendo, baixinho: “É ela”. O amigo viu que a mulher que lhe fora apresentada minutos antes era a mesma da capa da revista.

As pessoas com quem conversei fazem relatos com detalhes, como do dia em que um deles foi até o Café Photo, conhecido prostíbulo de luso em São Paulo, para entregar a um intermediário mala de dinheiro. “Parecia filme do 007”, afirma.

A orgia de malas e contratos fraudulentos que uniu a Bauruense de Daré a Furnas de Dimas Toledo, sob a proteção de um esquema político, é muito bem contada na investigação da Procuradoria da República no Rio e confirmada sem muita dificuldade com o levantamento de informações em Bauru. Mas esta é uma pequena parte da história.

Eu procurei a Bauruense e fui orientado a enviar as perguntar por e-mail ao diretor jurídico, Rinaldo. Foi o que fiz, na terça-feira, dia 22 de dezembro e até agora não recebi resposta.

Além da Bauruense, há outras empresas envolvidas no esquema de Furnas e uma penca de consultorias de fachada que celebravam contratos milionários com os prestadores de serviços da estatal apenas com o objetivo de desviar dinheiro para as malas da corrupção.

O ex-superintendente administrativo da Toshiba do Brasil, José Antonio Csapo Talavera, contou à Polícia Federal que a multinacional utilizava “notas frias, retratando serviços de consultorias inexistentes por empresas de fachada com a finalidade de esquentar recursos não declarados pela Toshiba ao Fisco.”

Talavera ouviu de um colega da Toshiba, Dieickson Barbosa, superintendente técnico comercial, que a usina termelétrica que a Toshiba construiria para Furnas em 2001, em um contrato obtido sem licitação, já trazia embutido em seu preço o valor da propina que seria paga a políticos que controlavam Furnas.

Detalhe importante: contratos como estes foram assinados sem licitação em razão de uma medida provisória editada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que alegava o risco de apagão para acelerar a contratação de empresas, sem a necessidade de concorrência pública.

Com o depoimento recente de Alberto Youssef, envolvendo Aécio Neves no esquema de corrupção de Furnas, a Polícia Federal consultou o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, para saber se não seria o caso de abrir inquérito.

O procurador, única autoridade com poderes para investigar um senador da República, entendeu que não era o caso, em razão da dificuldade de levar adiante a apuração, já que o deputado José Janene e o dono da Bauruense estão mortos.

Minha apuração em Bauru, com a localização de testemunhas que conheceram os negócios de Daré por dentro, e a simples leitura da denúncia da procuradora Andrea Bayão, com os nomes e os fatos que levam à conclusão de que houve um grande esquema de corrupção em Furnas, mostram que compor este quebra-cabeças não é uma tarefa difícil. A primeira prova já está pronta. É a Lista de Furnas, com a assinatura autêntica de Dimas Toledo, o Gordo.

O lobista Nilton Monteiro, autor da denúncia da Lista de Furnas
O lobista Nilton Monteiro, autor da denúncia da Lista de Furnas


Joaquim de Carvalho
No DCM
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Argentina: Macri retira Senado TV do ar; medida viola convênio com Parlatino e afeta 23 países

Canal foi criado por Daniel Scioli, ex-candidato à presidência; governo justifica que suspensão é para reprogramar e potencializar sinal do canal

Gabriela Michetti, vice-presidente de Mauricio Macri, autorizou a medida
O governo recém-eleito da Argentina ordenou neste sábado (26/12) a suspensão imediata das transmissões do canal Senado TV. A medida viola o convênio com o Parlatino (Parlamento Latino-Americano), organização regional de Parlamentos, que possui o canal Parlatino Web TV, cujo servidor se encontra na plataforma do Senado TV, como explicou o ex-presidente do órgão, Carolus Wimmer. De acordo com ele, os 23 países integrantes serão afetados pela medida.

“Isto joga fora anos de trabalho e esforços que foram feitos desde o Parlatino para democratizar o acesso aos meios e a população às sessões do Parlamento, por tanto lesiona o direito à informação oportuna e verdadeira dos povos da América Larina e do Caribe”, destacou Wimmer.

A retirada do ar foi autorizada pela vice-presidente do país, Gabriela Michetti, e anunciada pelo secretário administrativo do Senado, Helio Rebot. De acordo com ele, a medida foi tomada para “reprogramar e potencializar” o sinal da emissora e, para isso, decidiram “aproveitar o recesso de janeiro, quando a casa fecha administrativamente”.

Além da exibição de sessões da Câmara e algumas reuniões de comissões, a programação do canal incluía entrevistas com senadores, um noticiário central e uma emissão semanal sobre culinária.

Para Wimmer, tirar a emissora do ar é um retrocesso, pois o objetivo da rede “é permitir que o povo veja o que fazem e como votam seus deputados nas diferentes comissões, a fim de exercer também uma vigilância social necessária sobre a atividade parlamentar daqueles que nos representam como legisladores dentro e fora do país”.

O Senado TV foi criado pelo ex-candidato à presidência argentina Daniel Scioli durante sua gestão como presidente do Senado, baseado no canal de mesmo nome que opera no Brasil.

Intervenções

A medida faz parte de uma série de outras decisões tomadas por Macri.

Martín Sabbatella, dirigente da Afsca, foi destituído de seu cargo por meio de um decreto presidencial
O presidente recém-eleito transferiu a responsabilidade de regulador da Lei dos Meios, antes da Afsca (Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual), para o Ministério das Comunicações — apesar dos protestos da população.

E, na última quinta-feira (24/12), Macri ordenou o desalojamento do organismo e, por decreto, a saída de Martín Sabbatella, presidente da Afsca, cujo mandato se encerraria em 2017.

O ministro das Comunicações, Oscar Aguad, contudo, voltou a assegurar que a Lei dos Meios — que impede o monopólio sobre os meios de comunicação e é bastante atacada pelo atual presidente — “não será tocada, por enquanto”.

No Opera Mundi
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Mídia esconde regressões na Argentina

A mídia brasileira, com seus dogmas neoliberais e seu complexo de vira-lata, comemorou a vitória de Mauricio Macri na vizinha Argentina. "Fim do kirchnerismo", soltou rojões. Mas ela poderá morder a língua mais cedo do que tarde. Em menos de um mês da sua posse, o queridinho dos EUA e das elites locais e latino-americanas já desponta como um ditador de quinta categoria, que poderá incendiar o país vizinho. Os trabalhadores argentinos, conhecidos por sua combatividade, já dão sinais de que não vão aceitar passivamente a truculência do empresário mafioso que agora ocupa a Casa Rosada.

Empossado em 10 de dezembro, Mauricio Macri já escancarou o seu jeito autoritário de governar. Por decreto, sem a aprovação do Senado, ele nomeou dois ministros na Suprema Corte — o equivalente ao STF no Brasil; por decreto, cassou os mandados dos dirigentes dos dois órgãos que aplicam a "Ley de Medios"; por decreto, proibiu os "piquetes" no país, os tradicionais bloqueios de estradas como forma de protesto social. Para o seu ministério, Macri nomeou agiotas e outros neoliberais de carteirinha. Como plano de governo, ele anunciou que pretende impor um duro plano de austeridade. Ele também voltou a falar em anistia para os generais e torturadores da sanguinária ditadura militar do país. 

15 mil em defesa da Ley de Medios

Os sinais de resistência já pipocam. A decisão de extinguir por decreto os mandados dos dirigentes da Autoridade Federal dos Serviços de Comunicação Audiovisual (AFSCA) e da Autoridade Federal de Tecnologias da Informação e Comunicações (AFTIC) gerou revolta. Martín Sabbatella, coordenador da AFSCA, rejeitou deixar o cargo. A policia foi acionada para evacuar o prédio em Buenos Aires. O jornal Página/12, único impresso crítico do país, relata que o novo ministro das Comunicações, Oscar Aguad, tem como missão enterrar a "Ley de Medios", aprovada pelo parlamento e sacramentada pela Suprema Corte. Macri já foi apelidado de "presidente do Clarín", o império midiático da Argentina.  

Uma semana após a posse do "presidente do Clarín", cerca de 15 mil argentinos já realizaram um ato em Buenos Aires "contra o golpismo macrista" e em defesa da democratização das comunicações. Os manifestantes carregaram cartazes com os dizeres: "Na lei de meios não se toca", "Macri = censura" e "nem decretos, nem repressão". Eles também protestaram contra a intenção do governo de extinguir o programa televisivo "678" na TV Pública, uma das poucas vozes críticas da televisão argentina. "Nós lutamos contra Videla [Jorge Videla, o sanguinário ditador da argentina] e vamos continuar lutando pela democracia", afirmou Estela de Carloto, líder do movimento Avós e Mães da Praça de Maio.

Repressão violenta aos trabalhadores

No que se refere à proibição de piquetes, o primeiro confronto já ocorreu. Segundo a agência Reuters, "as forças de segurança argentinas enfrentaram trabalhadores que protestavam no acesso ao principal aeroporto do país nesta terça-feira (21), depois do novo governo de Mauricio Macri ter advertido que não toleraria bloqueio de rodovias, prática que costuma ser usada como forma de protesto".

"A TV argentina mostrou embates violentos entre funcionários da empresa avícola Cresta Roja e os soldados, que lançaram água e dispararam balas de borracha para dispersar os manifestantes. Vários trabalhadores ficaram feridos... Imagens de enfrentamentos entre forças de segurança e manifestantes haviam praticamente desaparecido nos últimos 12 anos, durante os governos de Néstor Kirchner e Cristina Kirchner, que haviam orientado policiais e soldados a não reprimir os protestos".

Golpe na Suprema Corte

Já a imposição de dois juízes da Suprema Corte gerou críticas até entre apoiadores do novo ditador. A Folha tucana, que festejou a derrota do kirchnerismo, relatou cautelosa: "Mauricio Macri já entrou em sua primeira polêmica ao nomear por decreto dois juízes da Suprema Corte. O dispositivo, embora previsto na Constituição, foi usado uma única vez, segundo disse à Folha o constitucionalista Daniel Sabsay, professor da Universidade de Buenos Aires. A iniciativa gerou rejeição no próprio bloco que apoiou a eleição de Macri, entre juristas e na opinião pública".

A indicação de Horacio Rosatti e Carlos Rosencrantz para a Suprema Corte deveria, por tradição, ser aprovada por dois terços do Senado. Mas o PRO, sigla de Mauricio Macri, não tem maioria na Casa, que é hegemonizada por peronistas e kirchneristas. "É uma medida autoritária inédita na democracia e deve ser anulada", protestou no Twitter o Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel. Apesar da postura autoritária, a mídia venal da Argentina — e também a do Brasil — evita criticar o novo ditador. "Agora que Cristina Kirchner se foi, não há mais crítica", afirma a professora Libertad Mariana Strazzeri, que condena a descarada "campanha midiática em favor de Macri". 

"Macri faz xixi e a TN [canal do Grupo Clarín] diz que chove", dizia um cartaz na manifestação em defesa da Ley de Medios. A paciência dos argentinos, porém, tende a rapidamente se esgotar diante do truculento e antipopular Maurício Macri. A mídia hegemônica argentina — e brasileira — ainda vai ter muita dor de cabeça para explicar esta brutal regressão.

Altamiro Borges
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Cunha alucina e diz que Globo apóia o PT


O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB) ficou revoltado com a informação divulgada ontem por Lauro Jardim, de O Globo, de que ele teria viajado para Cuba com sua família. Além de rebater a nota, Cunha, alucinado, usou o seu Twitter, neste domingo (27), para acusar as Organizações Globo de apoiarem o PT e de tentarem fazer dele o vilão do país.

"No futuro assistiremos as organizações Globo, a exemplo do que já fez com a ditadura militar, pedirem desculpas por apoiarem o PT", postou o peemedebista.

Segundo ele, "todos dias assistimos o JN com matérias longas de apoio à presidente e matérias longas tentando me colocar como vilão do país, como se eu fosse o chefe do governo que assaltou a Petrobras". "Certamente isso terá um preço sobre a credibilidade desse órgão de imprensa e o povo não é bobo", complementou. Resta saber que edição do Jornal Nacional Cunha tem assistido na qual a presidente Dilma Rousseff é alvo de qualquer reportagem positiva.

Contra Lauro Jardim, Cunha foi ainda mais duro. Abaixo a sequência de postagens dele:














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Conheça aqui a história dos patrões do FHC


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A questão

Na Grécia, na Itália, em Portugal e agora na Espanha a esquerda não chegou ao poder mas chegou perto o bastante para incomodar a direita e o centro, em alguns casos negando-lhes maioria parlamentar. Na Grécia a extrema esquerda assumiu mesmo o poder. Não assumiu integralmente seu extremismo, mas está lá, um exemplo de alternativa possível para o conservadorismo dominante. O crescimento da esquerda é consequência direta das medidas de “responsabilidade fiscal", em contraste com a responsabilidade social que durante tantos anos informou os “welfare states" europeus, e que transformaram "austeridade" num palavrão.

O desencanto crescente com o desmonte dos estados de bem estar social e a crescente convicção de que a política e os políticos não têm nenhuma voz numa economia gerida pelo capital financeiro e pelas multinacionais — a não ser para dizer que é mais “responsável” pagar uma dívida do que alimentar um filho — tem impelido não só a rebeldia de esquerdas como a Podemos na Espanha como o populismo de direita. E não é nem preciso fazer a analogia fácil com a ascensão do nazismo numa Alemanha desencantada para lembrar do que o populismo de direita é capaz.

No fim, aceitando-se a hipótese de que ninguém tem o monopólio dos bons sentimentos e nem o mais desalmado financista quer a morte de criancinhas para que o mercado funcione, a questão passa a ser — na Europa, no Brasil ou na Cochinchina — até onde responsabilidade fiscal e responsabilidade social são compatíveis e podem conviver. Não vale invocar país escandinavo, onde as duas coisas não se excluem. São países frios, com aquecimento central e uma tradição de aconchego social. Quero ver é no mundo real.

Luís Fernando Veríssimo
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Vai ganhar! Fernando Henrique Cardoso & Chico Buarque


Imagem do flexidisc feito para a campanha eleitoral de FHC para a prefeitura de São Paulo em 1985 com um samba composto por Chico Buarque.

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Claro

— Por que “claro”?

— O que?

— “Claro”. Você disse “claro”, quando o garçom perguntou se sua caipirinha era de vodca.

— E daí? Eu prefiro caipirinha de vodca.

— Mas por que o “claro”?

— Como?

— Quando você disse “claro” foi como dizer “que pergunta”. Que é óbvio que caipirinha tem de ser de vodca. Você estava fazendo uma crítica indireta à caipirinha de cachaça, insinuando que cachaça é claramente inferior à vodca. Que caipirinha de cachaça é uma coisa impensável. Que o garçom deveria saber isto, sem precisar perguntar.

— Você endoidou?

— Ou então, quando disse “claro”, você estava dizendo que o garçom deveria ter visto, na sua cara, que você é um homem de vodca. Que alguém da sua classe, com a sua sofisticação, com o seu bom gosto, jamais preferiria cachaça.

— Eu não acredito no que eu estou ouvindo...

— No fundo, o seu “claro” foi uma declaração política. Você se declarou da elite, e estranhou que o garçom não notasse, ou tivesse dúvida.

— Tudo isso só porque eu pedi uma caipirinha de vodca?

— Não. Se você tivesse apenas pedido uma caipirinha de vodca, seria uma coisa. O que eu não entendi foi o “claro”. Por que “claro”?

— Eu nem pensei no que estava dizendo.

— Claro que não pensou. Seu elitismo é arraigado. Seu reacionarismo é visceral.

— Ah, agora eu sou reacionário só porque prefiro vodca em vez de cachaça?

— Não. Porque você disse “claro”.

— Vem cá. Nós não somos da mesma classe? Se eu sou elitista, você também é.

— Pedi minha caipirinha de cachaça, velho.

— Ah, é? E até onde sua preferência por cachaça também não é uma declaração de princípios? Uma maneira de dizer que você é da elite, mas está com o povão? Sabe de uma coisa? Eu estou cansado de elite com culpa. Aposto que você tem horror a cachaça e só não pede caipirinha de vodca pra não pensarem que está traindo as massas.

— Ah é? Ah é? Melhor elite com culpa do que elite alienada.

— Eu só não entendo como a nossa amizade durou tanto tempo.

— Garçom! Suspende as caipirinhas!

Luís Fernando Veríssimo
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Prédios mais altos do país cobrem o sol em Balneário Camboriú (SC)





Em uma faixa litorânea de cinco quilômetros entre uma movimentada rodovia e áreas de preservação, construtoras erguem uma fileira de arranha-céus. No térreo, a disputa é por um lugar ao sol: os edifícios criaram zonas de sombra na areia da praia.

Imune à crise, Balneário Camboriú, praia no litoral norte de Santa Catarina, deve dominar em breve a lista de detentores dos maiores prédios da América do Sul. Diferentemente de outras partes do mundo, os edifícios mais altos do país não serão comerciais, pois servirão de residência para veranistas.

Três empreiteiras locais disputam o título de responsável pelo maior arranha-céu. Hoje, a marca está com o Millenium Palace, de 45 andares. Com a ajuda de uma antena, ele chega aos 177 m e ultrapassa o edifício paulistano Mirante do Vale (170 m).

Dois empreendimentos em construção vão passar dos 240 m: o Yachthouse (74 andares) e o Infinity Coast (66). As construtoras analisam a viabilidade de projetos com mais de 80 andares e alegam que as Megaconstruções são feitas por necessidade de mercado. A regra é evitar apartamentos sem vista para o mar. Com a escassez de terrenos, a saída seria construir, no máximo, duas unidades por pavimento.

Arranha-céus escondem o sol nas praias de Balneário Camboriú
Arranha-céus escondem o sol nas praias de Balneário Camboriú
Diorgenes Pandini
Celebridades

"Para viabilizar a obra, [os prédios] precisam de estrutura compatível com os preços dos terrenos, que são caros. É uma das áreas mais valorizadas do país", diz Altevir Baron, diretor da construtora FG Empreendimentos, que tem a atriz americana Sharon Stone como garota-propaganda.





Com 128 mil habitantes, Balneário Camboriú atrai aposentados e endinheirados. Segundo as construtoras, um dos públicos-alvo são milionários do agronegócio do Centro-Oeste e do Sul.

A região também chama a atenção de celebridades, como o cantor Luan Santana e o jogador Neymar, que compraram imóveis por lá. Os empreendimentos seguem a linha "condomínio-clube" e têm unidades que custam por volta de R$ 3 milhões.

Zona de sombra

Os empresários dizem buscar tecnologia fora do país, já que o Brasil não tem expertise em edificações desse porte. São feitos testes em túneis de vento na Inglaterra, e os elevadores importados podem funcionar em alturas superiores a 150 m.

O estilo das construções, que varia de colunas gregas a dezenas de andares envidraçados, gera comparações com Dubai, nos Emirados Árabes, que hoje tem o maior edifício do mundo, com 828 m.

Mas também desperta críticas. A mais visível delas é a zona de sombra que as construções projetam na praia a partir do meio da tarde. Há também os paredões dos prédios, que transformam ruas em corredores de ventania. "Ninguém gosta de ficar em uma rua sem luz do dia. Querem fazer [de Camboriú] a Mônaco brasileira, mas veja bem: isso não é um elogio", diz o professor de arquitetura Carlos Barbosa, da Universidade do Vale do Itajaí.

Barbosa diz que as torres não se destacam na paisagem, já que são construídas umas próximas às outras e em ruas estreitas. Procurada, a prefeitura não confirma as alturas projetadas dos arranha-céus em construção e ressalta que vários ainda estão sob análise. Afirma, porém, que vem tomando medidas para evitar o adensamento urbano, outro questionamento frequente à ambição das construtoras.

O município tem cobrado das incorporadoras a criação de garagens públicas nos prédios. A construção de edifícios mais altos também exige taxas que podem passar de R$ 50 mil por apartamento. "É preciso equilibrar estrutura urbana, qualidade de vida e atratividade para quem vier investir", diz Alcino Pasqualotto, diretor-geral da construtora Pasqualotto.

Arranha-céus no litoral de SC
Balneário Camboriú deve ter os prédios mais altos do país nos próximos anos



1 - Yatchouse
Tem altura prevista de 275 m e está previsto para 2019




2 - Infinity Coast
Tem altura prevista de 240 m e não tem previsão de conclusão


3 - Edifício Millenium Palace (2014)
186 m de altura

Foto: Jair Prandi - http://www.viagensecaminhos.com



4 - Edifício Villa Serena (2013)
141 m de altura




Altino Arantes (Banespão) (1947)
161 m de altura São Paulo (SP)


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Mortes no mar

A precisão dada ao número é inverídica. Apesar de ser número oficial, resultante das informações também oficiais de países-membros da Organização Internacional para as Migrações (já impreciso o próprio nome, com o dúbio "para", também em francês e inglês).

Os "3.692 mortos ou desaparecidos" — muitas, muitas crianças — são os casos certificáveis dentre os que sucumbiram na tentativa de chegar ao continente europeu por mar, do início do ano a 21 de dezembro. Muitas das embarcações improvisadas naufragaram em mar alto sem que mesmo os ocasionais sobreviventes soubessem quantos as superlotavam. Fotografadas, temos visto embarcações assim, como se fossem as cadeias torturantes no Brasil, com centenas onde mal caberiam poucas dezenas. São vencidas pelo mar com facilidade.

O soldado com o menininho morto nos braços, ainda retirando-o do mar, emocionou o mundo. Por dois dias. Nessas 48 horas, governos, entidades internacionais, imprensa, comandos militares, separados e juntos, mostraram o poder de arregimentação da sua consciência humanitária. Ideias e emissários voaram entre Berlim e Paris, Roma e Bruxelas e Londres, Malta e Berlim. A Europa não poderia permitir a tragédia dos que tentavam refugiar-se de guerras e da fome: nela buscavam a vida.

Procedentes da orla do Mediterrâneo e do miolo da África, a Europa não podia esquecer, eram ainda vítimas da perversa colonização europeia que arruinou as culturas e fez o longo roubo de seus países. O interesse e a rapidez dos governos, das instituições e da própria União Europeia seria a Europa moderna e democrática em ação.

De tudo, de tantos e apressados encontros, propostas, debates, conferências, planos e disposições, o que de fato resultou foi posto em prática e vigora ainda: enquanto uns poucos navios navegam bem ao largo das costas de onde procedem refugiados, um entendimento tácito passou a evitar a divulgação de imagens chocantes e comoventes da tragédia continuada. Os humanos, sobretudo os civilizados europeus e americanos, são muito sensíveis. Fotos convenientes são as de salvamentos e chegadas, que temos visto, embora as notícias não omitam as incessantes mortes e os desaparecimentos no mar.

Nada foi feito para atenuar as causas, em seus pontos focais, das fugas em massa, desesperadas. Nada. Não se trata de problema recente, ainda sem o tempo para planejar e executar as providências possíveis. A fuga africana vem de muitos anos, sempre em crescendo. Diferente da correnteza migratória que em 2015 saiu do Oriente Médio e da Ásia para a Europa, tangida pelas lutas na Síria, de onde já fugiu cerca de meio milhão, no Iraque e no Afeganistão. Esses são os refugiados (brancos) que não deixam de ter algum interesse para certos países europeus, onde preenchem as necessidades de serviçais. Só a Alemanha precisa de 400 mil a 500 mil novos trabalhadores por ano, quota que os alemães não preenchem.

Uma certeza, portanto, para 2016: nada mudará para os que se lançam ao mar, em improvisos náuticos, como fugitivos de guerras e da fome em busca da civilização europeia. Vão passar o novo ano tanto sob as condições de vida e de morte de seus antecessores como sob a indiferença hipócrita e perversa em que veem a sua salvação. As crianças, nem isso. Mais indefesas e incapacitadas, nem sequer escolheram a fuga e o mar impiedoso.

O começo

Foi bom ser Chico Buarque o alvo dos fascistoides que o atacaram verbalmente no Leblon, entre os quais um tal Álvaro Garnero Filho, que traz no nome a sua ficha. Será sempre lembrado o lado a iniciar esse tipo de agressão no Rio de Janeiro, como ficou em São Paulo com a agressão ao ex-ministro Guido Mantega e sua mulher.

A lembrança fixada pelo nome de Chico Buarque evitará a malandragem aplicada à estupidez da "desconstrução", que, lançada por Aécio Neves, como os arquivos de jornais provam, quando se mostrou negativa ficou atribuída a Dilma Rousseff.

Chico, além do mais, tira isso de letra.

Janio de Freitas
No fAlha
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