7 de dez de 2015

Por que Aécio emprestou o avião de Minas para Delcídio voar no Rio de Janeiro?

Ele
Para alguém que dispôs do equipamento público para uso privado com tanta desfaçatez, chama atenção a escalada demagógica de Aécio Neves em defesa da ética e da moralidade. A prisão de Delcídio do Amaral e o acolhimento do pedido de impeachment por Eduardo Cunha reacenderam a chama golpista no coração do senador.

Numa entrevista a uma rádio de Pernambuco, Aécio se referiu ao ex-colega Delcídio como “chefe de uma grande máfia”.

“O sentimento foi primeiro de perplexidade, quase que de descrença em relação ao acontecido. Depois, quando os documentos começaram a ser distribuídos, o sentimento passou a ser de indignação”, disse. Aproveitou para reforçar a necessidade de afastamento de Dilma.

A planilha dos vôos do governo Aécio em Minas Gerais, entre 2003 e 2010, é uma aula de tráfico de influência e patrimonialismo. Foram 1430 viagens ao todo, 110 com pouso ou decolagem do aeroporto de Cláudio.

Em pelo menos 198 ocasiões ele não estava a bordo. E, numa delas, em 7 de junho de 2006, quem estava ali era Delcídio do Amaral, num vôo solo no Rio de Janeiro no Learjet (um dos jatos do estado; Aécio também costumava liberar o helicóptero e um turboélice).

delcidio

Um ano antes, o petista ganhara projeção nacional ao presidir a CPI dos Correios, que apurou o mensalão. Estava, na época do passeio pago pelo contribuinte mineiro, licenciado do Senado para disputar o governo de Mato Grosso do Sul (seria derrotado no primeiro turno por André Puccinelli, do PMDB).

Um decreto de 2005 estabelece que as aeroves destinam-se “ao transporte do governador, vice-governador, secretários de Estado, ao presidente da Assembleia Legislativa e outras autoridades públicas” e servem “para desempenho de atividades próprias dos serviços públicos”.

O que Delcídio, de licença, estava fazendo com um avião de Minas no Rio de Janeiro?

Essa é uma pergunta que os dois, Aécio e Delcídio, podem responder. Eles não eram, aparentemente, amigos íntimos, como era o caso de Acciolly, por exemplo, padrinho de casamento do tucano e usufrutuário da Aeroneves.

Mas há o registro de uma nota da colunista Mônica Bergamo em 22 de fevereiro de 2006 do camarote do concerto do U2 no estádio do Morumbi que ajuda a entender um pouco como a coisa funcionava:
O governador de MG, Aécio Neves, emendou uma festa na outra e veio direto do Rio para o show do U2. “É impressionante a energia dele”, dizia Maika, mulher do senador Delcídio Amaral, presidente da CPI dos Correios. “Resolve o problema de um, resolve o problema de outro…”.

O problema, ali no camarote, era obter uma pulseirinha amarela que dava acesso à “hot area”, bem em frente ao palco, destinada aos fãs mais ardentes da banda, escolhidos entre aqueles que chegaram uma semana antes e que acamparam na porta do Morumbi, por exemplo.
O moralismo de Aécio Neves estava adormecido ou de ressaca? Basta ver, por exemplo, a quantidade de viagens de Ricardo Teixeira nas aeronaves: seis, nenhuma com a presença do governador. Teixeira já era Teixeira (eis aí, aliás, um ponto em comum entre Aécio e Delcídio: a amizade com o capo da CBF).

Em 2006, Aécio seria reeleito para o governo de MG e o PSDB vivia uma pax romana com o PT no segundo mandato de Lula. Mas quem dá a pista da cortesia com o chapéu alheio daquele Aécio de nove anos atrás é a senhora de Delcídio, Maika — a mesma que culpou Dilma pela desgraça do marido: Aécio “resolve o problema de um, resolve o problema de outro…”

Kiko Nogueira
No DCM
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Operação Zelotes mostra a sonegação dos barões que a midiona tenta esconder


Novamente a Operação Zelotes volta para as manchete da grande mídia com uma única tarefa:  atacar a imagem de Lula falando de seu filho.

Reportagem de hoje da Folha de São Paulo diz que um lobista fez um pagamento que pode ter sido de verba ilícita, segundo investigações da CARF, para uma empresa de marketing esportivo que tem o filho de Lula como proprietário. Viu só quantas voltas eles deram para, SUPOSTAMENTE, chegar até o filho de Lula? Pois é. Mandaram foi logo na manchete e bem diretão.

Quer ver sobre o que trata, verdadeiramente, a Operação Zelotes que a midiona trata de esconder? Então, vem com a gente!

A Zelotes é uma CPI que investiga o pagamento de propinas milionárias, por parte de grandes empresas, para juízes da CARF, orgão da Receita Federal, em troca de “abono” ou “desaparecimento” de débitos tributários, ou seja, dos impostos devidos. Estima-se que os valores sonegados por meio dessa prática chegam a R$ 19 bilhões. São bem maiores que os da Lava-Jato, que está em todos os noticiários, por exemplo. Mas, como na Operação Zelotes tem muita gente bacana envolvida, você não vê ela após cada “plim plim” na sua tela.

Até porque, a Rede Globo é uma das investigadas na operação pela suposta sonegação de R$ 672 milhões do Gupo RBS, uma de suas afiliadas. Veja alguns valores “supostamente” sonegados por essas grandes empresas, segundo a CPI da CARF.

Santander – R$ 3,3 bilhões

Bradesco – R$ 2,7 bilhões

Gerdau – R$ 1,2 bilhão

Safra – R$ 767 milhões

RBS – R$ 672 milhões

Camargo Corrêa – R$ 668 milhões

Mitsubishi – R$ 505 milhões

Carlos Alberto Mansur – R$ 436 milhões

Cervejaria Petrópolis – R$ 406 milhões

Marcopolo – R$ 260 milhões

Cimento Penha – R$ 109 milhões

Bank Boston – R$ 106 milhões

Petrobras – R$ 53 milhões

Copersucar – R$ 62 milhões

Évora – R$ 48 milhões

Embraer – R$ 12 milhões

BRF – Os números ainda estão sendo apurados

Você pode ler mais sobre a verdadeira Operação Zelotes e seus valores astronômicos abafados pela grande mídia http://goo.gl/LK0HUv ou aqui http://goo.gl/6VzOZ2

No MudaMais
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Novo código da mineração é escrito em computador de advogado de mineradoras

Dados criptográficos revelam que texto foi criado em um laptop do escritório Pinheiro Neto, que defende Vale e
BHP, e modificado por um de seus sócios, o advogado Carlos Vilhena

O documento oficial do projeto de lei proposto por deputados federais para o novo Código da Mineração, que define as regras do setor, foi criado e alterado em computadores do escritório de advocacia Pinheiro Neto, que tem como clientes mineradoras como Vale e BHP.

As mudanças feitas a partir das máquinas do escritório vão de tópicos socioambientais a valores de multas em caso de infrações. O valor máximo da "multa administrativa simples" para empresas mudou três vezes: no original era de R$ 1 milhão, depois passou a R$ 5 bilhões, e terminou fixada em R$ 100 milhões.

Dados criptografados do arquivo revelam que o conteúdo foi criado em um laptop do escritório Pinheiro Neto e modificado em pelo menos cem trechos por um de seus sócios, o advogado Carlos Vilhena - apesar de ser assinado pelo deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), relator do projeto de lei.

Procurado, o escritório Pinheiro Neto reconheceu as alterações feitas em seus computadores, mas informou que o advogado Carlos Vilhena "não atuou como representante do escritório nessa questão".

Sobre os registros de mudanças no texto em nome do escritório, o grupo afirma que "Dr. Vilhena usou um laptop do escritório, em regime de comodato, fora do ambiente de trabalho".

A BBC Brasil também conversou com Vilhena. Ele afirma ter colaborado "voluntariamente" no texto do projeto de lei mas nega ter criado o texto.

Segundo a Câmara, a votação do novo código corre em regime de prioridade e deverá ocorrer no próximo dia 9 - pouco mais de um mês após o rompimento de uma barragem de mineração da Samarco, controlada por Vale e BHP Billiton, que resultou em 3 milhões de toneladas de resíduos químicos e lama espalhados por cidades de Minas Gerais e Espírito Santo.

Escritório Pinheiro Neto reconheceu as alterações feitas em seus computadores, mas informou que o advogado
Carlos Vilhena "não atuou como representante do escritório nessa questão"
Procurada, a Vale disse que não vai comentar o assunto. A anglo-australiana BHP não respondeu aos pedidos de entrevistas.

'Trabalho voluntário'

Fontes dentro do Congresso e advogados consultados pela BBC Brasil afirmam que a participação de escritórios de advocacia ligados a empresas na redação de leis é uma "praxe" em Brasília.

O Código de Ética da Casa proíbe que deputados financiados por empresas relatem "matérias de interesse específico" de empresas que bancaram suas campanhas - caso de Quintão, que, segundo o Ibase, recebeu em torno de R$ 2 milhões de mineradoras nas eleições de 2014 (e não respondeu à pergunta da reportagem a respeito).

Mas nada na lei impede diretamente a participação voluntária de advogados no processo, mesmo se eles trabalharem para empresas interessadas.

Se, por um lado, estes escritórios têm o conhecimento necessário para a redação destas leis, por outro, a prática é questionada por acontecer na maior parte das vezes sem o conhecimento da sociedade, de forma pouco transparente.

Por e-mail, Vilhena se definiu como "militante na área mineral há mais de 25 anos", disse que "não recebeu honorários por este trabalho" e afirmou que "não criou ou alterou" o projeto de lei. "Apenas ajudei na redação de modificações amplamente discutidas."

"Eu não diria que o documento foi gerado pelo escritório", diz o sócio. "As alterações que foram discutidas nas últimas semanas é que foram, talvez algumas delas, incorporadas ao texto usando um laptop que peguei emprestado."

As mudanças feitas pelas máquinas do escritório vão de tópicos sociambientais a valores de multas em caso de
infrações.

Sobre o registro de criação do arquivo dentro do escritório Pinheiro Neto, ele diz que "talvez tenha gravado o arquivo dentro daquele computador e talvez o computador entendeu que (o arquivo) tenha sido gerado ali, não sei".

'Disponível para consulta'

Cotado desde o último fim de semana, segundo a imprensa nacional, para se tornar o novo ministro da Aviação do governo Dilma, o deputado Leonardo Quintão enviou nota com parágrafos idênticos aos enviados pelo advogado Vilhena (veja na íntegra no fim do texto).

"O advogado Carlos Vilhena não criou ou alterou o substitutivo, mas ajudou na redação de modificações discutidas entre o deputado Leonardo Quintão, o deputado Sarney Filho, o deputado Arnaldo Jordy, seus assessores, consultores da Câmara dos Deputados e representantes do Ministério Público Federal, nas pessoas dos Drs. Darlan e Antonio Artur, de forma a contemplar matérias de cunho socioambiental no substitutivo", afirmou Quintão.

"Cabe acrescentar que o texto do novo Código da Mineração é público e sempre foi disponibilizado no site da Câmara dos Deputados para consulta."

A participação do representante do escritório de advocacia no texto, entretanto, não é citada, nem no site do deputado, nem no site da Câmara ou da comissão.

Deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), redator do novo Código de Mineração, foi financiado por mineradoras
na campanha de 2014
Para o especialista em combate à corrupção Fabiano Angélico, consultor da Transparência Internacional, o caso indica uma "relação entre financiado e financiador".

"É muito ruim quando um determinado setor é fortalecido por meio de relações de proximidade, e tem instrumentos para interferir em processos de seu próprio interesse", afirma. "Esse tipo de relação ainda acontece porque o Brasil, diferente da União Europeia, não tem regulamentação para lobby. Estamos anos atrás."

Segundo Angélico, "é importante a regulamentação e a transparência em tudo o que envolve o lobby, porque nunca será possível evitar que interesses privados tentem influenciar a agenda pública. Os interesses dos setores econômicos sempre vão querer ter acesso a quem toma decisões."

"E a gente sempre cobra a postura de integridade do setor privado: pesquisa acadêmica traz 'disclaimer' frisando que a pesquisa foi ou não financiada por fulano de tal. Se um escritório de advocacia tem um trabalho voluntário, isso tem que ficar muito claro na apresentação da empresa, no site da empresa. Justamente porque essas empresas trabalham muito com o setor público."

À BBC Brasil, Maurício Guetta, advogado do Instituto Socioambiental (ISA), disse que "as organizações da sociedade civil de defesa do meio ambiente e das comunidades atingidas não foram convidadas a discutir o novo código da mineração".

Guetta representa o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, que reúne 110 organizações, sindicatos e movimentos sociais. "O que vimos foi a exclusão (dos movimentos) do processo legislativo, apesar de mais de dois anos de demanda nesse sentido."

Para o pesquisador Carlos Bittencourt, que estuda conflitos socioambientais na mineração, "está evidente que os interesses por trás da proposta de lei são os das mineradoras".

"A academia tem pesquisadores mais do que gabaritados para redigir propostas como essa, sem vínculo com empresas ou risco de informação privilegiada", diz. "O conflito de interesses neste caso é nítido. O nível de vinculação entre o advogado das mineradoras e o texto da lei é um escândalo."

'Que eu saiba'

O sócio do escritório de advocacia não respondeu diretamente aos questionamentos sobre "conflito de interesses". Sobre as alegações de "informação privilegiada", Vilhena disse que centenas de pessoas participaram do texto.

"Cada um que participou da feitura desse documento, centenas de pessoas, cada um tem, digamos, seus interesses, convicções e experiências. Muitas delas acabaram refletidas no documento. Meu papel foi simplesmente auxiliar na redação, não era dizer se algo deve ser assim ou assado. Eu me propus a auxiliar o relator, o deputado Leonardo, para ajudar a escrever as ideias que ele recebia e aceitava, ou que a comissão aceitava."

Ele prossegue: "Informação privilegiada é aquela que é obtida de maneira que não poderia ter sido e usada em favor de alguém. Esse texto é público, tanto que você teve acesso a ele".

A reportagem questiona: "Mas ele se tornou público só depois de escrito e pronto".

"Ele não está pronto. É uma proposta ainda", respondeu o advogado. "Acho que ninguém teve uso privilegiado enquanto ele estava sendo feito. Tinha 10 pessoas na sala de reuniões, as 10 tinham acesso, ninguém usou em benefício próprio, que eu saiba."

Nota enviada pelo advogado Carlos Vilhena:

Na qualidade de militante na área mineral há mais de 25 anos, e não como membro de Pinheiro Neto Advogados, voluntariamente auxiliei na redação do substitutivo ao PL do Código de Mineração, assim como vários outros profissionais.

Não criei ou alterei o substitutivo. Apenas ajudei na redação de modificações amplamente discutidas, inclusive nas últimas semanas entre o Deputado Leonardo Quintão, o Deputado Sarney Filho, o Deputado Arnaldo Jordi, seus assessores, consultores da Câmara dos Deputados e representantes do Ministério Público Federal, nas pessoas dos Drs. Darlan e Antonio Artur, de forma a contemplar matérias de cunho socioambiental no substitutivo.

Pinheiro Neto Advogados não foi contratado e nada receberá de honorários por este trabalho. Eu tampouco, pois atuei voluntariamente.

Nota enviada pelo deputado Leonardo Quintão:

O advogado Carlos Vilhena, na qualidade de militante na área mineral há mais de 25 anos, e não como membro de Pinheiro Neto Advogados, voluntariamente auxiliou na redação de parte do substitutivo.

O advogado Carlos Vilhena não criou ou alterou o substitutivo, mas ajudou na redação de modificações discutidas entre o Deputado Leonardo Quintão, o Deputado Sarney Filho, O Deputado Arnaldo Jordy, seus assessores, consultores da Câmara dos Deputados e representantes do Ministério Público Federal, nas pessoas dos Drs. Darlan e Antonio Artur, de forma a contemplar matérias de cunho socioambiental no substitutivo.

Pinheiro Neto Advogados não foi contratado e nada receberá de honorários por esse trabalho. Tampouco o advogado Carlos Vilhena. Cabe acrescentar que o texto do novo Código da Mineração é público e sempre foi disponibilizado no site da Câmara dos Deputados para consulta.

Ricardo Senra
No BBC Brasil
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Debate ao vivo: Para onde caminha a América Latina?"

 Transmissão encerrada 

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Temer decide como pretende entrar para a história


Por um desses caprichos do destino, na sessão em que Eduardo Cunha acatou um dos pedidos de impeachment de Dilma, houve o episódio que desequilibrou o jogo em favor da presidente: o destravamento da pauta fiscal.

O maior fator estimulador do impeachment era o travamento da economia, a sensação alimentada por seus defensores de que nada seria pior do que a continuidade do governo Dilma. Para tanto, contribuiu em muito a irresponsabilidade institucional da oposição e da mídia, fazendo o jogo do quanto pior, melhor.

O destravamento da pauta mudou o jogo. Mostrou que o governo conseguiu sensibilizar o bom senso dos parlamentares e reduzir o espaço dos incendiários. Pode começar a governar. O que poderia levar a um novo travamento seria justamente a tese do impeachment.

Ou seja, a perspectiva de caos saiu do colo de Dilma para o colo dos impichadores. Quem se oferece para recolher a bomba e pagar a conta?

É aí que entra o fator Michel Temer.

O papel de Temer

Temer não é um jovem irresponsável. Tem idade, senioridade, envergadura intelectual para disputar um lugar na história. É isso que o move, não a ambição de uma carreira política inviável pela própria idade.

Mesmo tendo papel relevante na Constituição de 1988, sua carreira política não foi marcante. Pelo contrário, enquanto Secretário de governo em São Paulo e deputado, pavimentou-a com o pragmatismo comum ao meio. Como vice-presidente, pouco lhe foi dado fazer.

Nesses momentos de neblina e cerração, cresce a relevância das figuras referenciais.

Temer pretende ser uma delas, aglutinando a nação em torno dele. Seu sonho seria uma nação unida a favor do impeachment recorrendo a ele. Com sua senioridade, pairando acima das paixões, ele receberia o fardo do poder, destravaria a economia, montaria uma nova frente hegemônica e em 2018 entregaria a presidência de um país pacificado ao novo eleito. E correria para o abraço da história.

Lamento informar o douto constitucionalista, mas a cena acima é inviável por vários motivos.

Com o destravamento da pauta fiscal, o jogo inverteu: a aposta na ingovernabilidade pulou para as mãos dos defensores do impeachment. A alternativa agora é entre três anos de um governo medíocre, ou um salto no escuro, com todos os componentes de uma radicalização política.

Em vários setores da opinião pública já se firmou a convicção de que o impeachment é golpe. As manifestações dos últimos dias, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), sindicatos, movimentos sociais e juristas da turma de Temer, mostram que haverá reação pesada se o impeachment se firmar.

Haja Força Nacional

Além disso, o projeto econômico brandido pela frente de apoio a Temer prevê o desmonte da rede social criada pela Constituição que Temer ajudou a construir.

Haja Força Nacional e Polícias Militares para conterem a reação geral. A piora na economia se dará em um quadro de profunda conturbação social.

Temer terá estrutura emocional para atropelar sua biografia e tornar-se um Arthur Bernardes do século 21, com três anos de estado de sítio e sem a legitimidade do voto popular, ainda que da República Velha? Será alvo de ódio de metade do país, sem se tornar ídolo da outra. Os primeiros tiros contra ele, disparados por Ciro Gomes, são um pequeno ensaio do que o espera se prosseguir avalizando o golpismo.

Não apenas isso.

A frente que pretende sustentar Temer é formada por dois partidos — PMDB e PSDB — divididos em várias ilhas de poder, sem um comando unificado e com uma enorme quantidade de candidatos a fichas sujas.

Na fase mais crítica da sua impopularidade, Dilma tem a blindagem de uma vida pessoal impoluta. Temer terá ao seu lado Paulinho da Força, Aécio Neves, os despojos de Eduardo Cunha e os fantasmas da Lava Jato.

Se prosperar a tese do impeachment, o que se terá serão três anos de estado de sítio virtual, seguido da eleição de um anti-Temer.

Luís Nassif
No GGN
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Lançada “rede da legalidade” contra o impeachment

Um dos líderes da iniciativa, o ex-governador cearense Ciro Gomes diz que o vice Michel Temer é o “capitão do golpe”

Carlos Lupi, Ciro Gomes e Flávio Dino em coletiva de imprensa.
Para eles, impeachment é tentativa de golpe
O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), o ex- governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) e o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, lançaram neste domingo (6) uma nova versão da Rede da Legalidade, contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O anúncio foi feito durante uma coletiva de imprensa, na sede do governo do Maranhão. A proposta é similar à iniciativa capitaneada em 1961 por Leonel Brizola, que buscou organizar uma resistência à primeira tentativa de golpe contra João Goulart.

Enquanto na década de 1960 a Rede da Legalidade teve o rádio como principal canal de difusão, a versão moderna da iniciativa vai buscar apoio principalmente na internet. Uma das estratégias é mobilizar o público por meio das redes sociais. Pensando nisso, Flávio Dino anunciou o lançamento da página Golpe nunca mais no Facebook. O nome é uma alusão ao projeto “Brasil nunca mais”, que denunciou os crimes cometidos pela ditadura militar de 1964/1985 contra os seus opositores políticos. Segundo o governador, o objetivo é “mostrar o que acontece quando a Constituição não é respeitada”.

Os responsáveis pelo lançamento da frente em defesa do mandato de Dilma argumentam que o pedido de impeachment não encontra respaldo na Constituição Federal, pois a presidente não está diretamente envolvida em crimes de responsabilidade. “Não há nenhum ato da presidente da República que atente contra a probidade dela. Mesmo os adversários mais firmes da presidente não imputam a ela nenhum ato de corrupção”, disse Flávio Dino. “Não é razoável, ela é uma senhora decente”, completou Ciro Gomes, que enfrentou o PT nas eleições presidenciais de 2002, mas desde o primeiro governo Lula tem sido aliado das administrações petistas.

O governador do Maranhão afirmou que as chamadas “pedaladas fiscais” praticadas pelo governo Dilma em 2014 não justificam a interrupção do atual mandato presidencial. Ele também rebate outro argumento utilizado por aqueles que são favoráveis ao impeachment: a abertura de créditos suplementares pelo governo em 2015 sem observar o superávit da meta fiscal do ano. Para o governador, no momento em que o Congresso Nacional aprovou a proposta de revisão da meta fiscal (PLN 5/2015), as supostas irregularidades foram suprimidas. “Ao aprovar o PLN 5/2015, o Congresso deu uma prova de que não deseja o impeachment”, avaliou Flávio Dino.

“Temer, o capitão do golpe”

Para Flávio Dino, Ciro Gomes e Lupi, o impeachment de Dilma é uma tentativa de golpe. Os três se disseram dispostos a promover mobilizações de massa para reforçar o apoio à manutenção do atual governo. “Nós não podemos nos calar, aceitar passivamente uma virada de mesa antidemocrática. Não podemos aceitar que se rasgue a Constituição, isso está acima de qualquer governo”, afirmou o governador, que aproveitou para deixar um recado “para quem não gosta do governo”: “Quero dizer que as críticas todas são legítimas. O direito à oposição é legítimo, mas ele não está acima do país. No presidencialismo, não existe impeachment por gosto”.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi alvo de duras críticas dos três políticos. “Não vejo legitimidade do presidente daquela Casa em fazer o impeachment de ninguém. Ele é um homem sob suspeição”, disse Carlos Lupi, fazendo referência às acusações que levaram Cunha a responder atualmente a um processo no Conselho de Ética da Câmara por suposta quebra de decoro parlamentar. Além disso, o peemedebista é um dos investigados da Operação Lava Jato, em curso no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF), suspeito de ter recebido propinas milionárias do esquema de corrupção descoberto pela Polícia Federal na Petrobras.“Não pode ser que esse homem seja transformado no guardião da Constituição e da lei. É uma inversão absurda”, completou Lupi.

O presidente do PDT aproveitou a ocasião para anunciar o pré-lançamento da candidatura de Ciro Gomes à Presidência da República em 2018. Recém-filiado ao partido, Ciro Gomes ainda terá que enfrentar o senador Cristovam Buarque (DF) na disputa pela indicação da legenda na próxima corrida presidencial.

Em seu pronunciamento, Ciro Gomes também acusou o vice-presidente Michel Temer de ser o “capitão do golpe”. “O Michel Temer é sócio íntimo do Eduardo Cunha, colega de partido, eu sei o que estou dizendo”, disse o ex-governador do Ceará, para quem o PMDB é principal beneficiário da saída de Dilma, já que os três nomes na linha sucessória da Presidência da República são do partido: Temer, Cunha e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também investigado na Lava Jato. Para Ciro, no entanto, Eduardo Cunha age em favor do impeachment por encontrar respaldo em “setores conservadores e reacionários” do país.



Ciro Gomes também fez críticas à política econômica adotada pela equipe de Dilma e pediu para que a população se organize em duas frentes de luta. “De um lado, proteger a democracia. Não tolerar que um grupo de mafiosos utilizando protocolos formais derrube a democracia no Brasil”, declarou. Por outro lado, prosseguiu, é preciso “exigir, pedir, suplicar para que a presidente Dilma se reconcilie com os valores e os grupos sociais que lhe deram a vitória”. Trata-se de uma alusão ao que alguns qualificam como conversão de Dilma a políticas neoliberais, marcadas pelo arrocho monetário (apoiado principalmente nos elevados juros) e pela redução dos investimentos públicos, entre outras medidas.



Luma Poletti
No Congresso em Foco

Assista aqui a entrevista de Ciro Gomes na íntegra;
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