2 de dez de 2015

O Brasil pós-pedido de impeachment

O chantagista se revelou
A melhor palavra para o que Eduardo fez hoje é a seguinte: palhaçada.

Não vai dar em nada. Não pode dar em nada. Mas Cunha conseguiu sujar ainda mais sua folha corrida ao acatar o pedido de impeachment de Dilma em circunstâncias patéticas.

Ele confirmou o que todos já sabiam: que vinha fazendo chantagem com o PT. Em troca da proteção do PT ele seguraria o pedido de impeachment.

O chantagista agiu tão logo se soube que o PT, com formidável atraso, decidira enfim ajudar no esforço de tirar Cunha do caminho.

E agiu a seu melhor estilo: com uma dose descomunal de cinismo. Cunha conseguiu dizer que a decisão do PT de apoiar sua cassação nada tinha a ver com a aprovação do pedido de impeachment.

Coincidência, portanto. É nisso que Cunha quer que os brasileiros acreditem. Que tudo o que aconteceu num espaço de horas — o PT contra ele e sua agressão a Dilma — foi obra do acaso.

Ainda no mesmo dia o Globo publicou uma reportagem que mostra as profundezas da ligação de Cunha com André Esteves, o banqueiro caído em desgraça do BTG Pactual.

Uma repórter do Globo teve acesso a e-mails nos quais Cunha e o BTG discutiam os termos de uma emenda favorável ao banco.

O mesmo BTG, dias antes, aparecera no noticiário em meio a denúncias de que teria dado a Cunha 45 milhões de reais por aquele tipo de serviço: aprovar legislação amiga.

A essas acusações somaram-se várias outras amplamente conhecidas e documentadas, como as contas na Suíça não declaradas. Cunha, numa das cenas mais absurdas do ano, disse que não era dono do dinheiro, mas “usufrutuário”.

É uma prova do estado putrefato da política nacional que Eduardo Cunha, o símbolo supremo da corrupção e do atraso, tenha poder para deflagrar um pedido de impeachment em que 54 milhões de votos estão em jogo.

Mais de dois meses se passaram desde as revelações dos suíços, e Cunha permaneceu intocado. Era como manter uma metralhadora nas mãos de um lunático.

Fica a suspeita de que, se não lhe subtraíram a arma, era para que ele a usasse contra Dilma. Se alguém tiver explicação melhor, que a apresente, por favor.

Mas as rajadas de Eduardo Cunha só poderão atingir o vento, figurativamente. Mesmo num universo político doentio como o brasileiro, Cunha não pode, no final, destruir a democracia.

Porque é disso que se trata: da destruição da democracia. Do retrocesso do Brasil rumo a 1964.

O rosto, a alma, o coração do golpe é Eduardo Cunha.

Quem se associar à tentativa de golpe de Cunha será comparsa num crime de lesa pátria. E todos os congressistas sabem disso.

A motivação dele é a mais baixa, a mais sórdida possível. Ele está consumando uma chantagem suja, uma vingança abjeta.

O Brasil está diante da seguinte encruzilhada: de um lado, Eduardo Cunha. De outro, a democracia.

A democracia vai triunfar.

Paulo Nogueira
No DCM
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Direito de resposta e o servilismo da ABI

A legendária Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que sempre jogou papel de relevo na luta pela democracia no país, pisou feio na bola nesta semana. Ela se somou às truculentas entidades patronais — como a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (Abert), a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e a Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner) — para atacar a lei do direito de resposta, aprovada no Senado e sancionada pela presidenta Dilma. Num vergonhoso servilismo, a ABI utilizou os mesmos argumentos dos empresários — que atentam diariamente contra a liberdade de expressão — para ingressar no Supremo Tribunal Federal questionando este direito democrático.

Indignado com a atitude servil, o jornalista Mário Augusto Jakobskind, que já foi diretor da entidade, protestou nas redes sociais: "Barbosa Lima Sobrinho, ex-presidente da ABI, deve estar se virando no túmulo envergonhado... A diretoria da ABI faz o jogo dos barões da mídia conservadora". No mesmo rumo, a direção do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro também aprovou uma nota de repúdio:

* * *

O direito de resposta é um direito inerente ao regime democrático. Não há dúvidas a esse respeito. Se uma pessoa se sentir ferida em sua honra e preceitos morais em uma matéria, a Constituição deve lhe assegurar o direito de resposta no mesmo espaço em que foi mencionado.

Portanto, democracia e direito de resposta é uma rotina que se apresenta em diversos países.

No Brasil, entretanto, uma entidade secular, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) decidiu questionar a legislação recém-aprovada pelo Congresso assegurando o direito de resposta.

A diretoria da ABI ingressou no Supremo Tribunal Federal (STF) com uma ação arguindo a inconstitucionalidade do preceito democrático do direito de resposta.

No entender da diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro (SJPERJ) a direção da ABI, presidida pelo jornalista Domingos Meirelles, na prática se posiciona ao lado dos grandes proprietários de veículos de comunicação, que desde o início da aprovação do instituto do direito de resposta pelo Congresso tem manifestado repúdio à vigência da lei que assegura aos cidadãos esse direito.

A diretoria do SJPERJ lamenta tal posicionamento por entender também que a diretoria da ABI entra em choque com todo um passado de luta democrática conduzida por diversas gestões da entidade secular.

A direção da ABI, portanto, desonra seu passado histórico que teve a frente da entidade, entre outros, os jornalistas Barbosa Lima Sobrinho e Maurício Azêdo.

* * *

No extremo oposto — o que comprova o erro da ABI —, a Folha de S.Paulo, que nunca nutriu qualquer simpatia pelas entidades de jornalistas, fez questão de publicar um editorial elogiando a sua postura. Com o título "Resposta necessária", o jornal da famiglia Frias — famoso por suas intrigas, calúnias e difamações — destaca eufórico: "Em boa hora a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) ajuizou ação no Supremo Tribunal Federal na qual pede a declaração de inconstitucionalidade da recém-aprovada Lei do Direito de Resposta... Como bem argumenta a ABI, 'a arquitetura jurídica do texto adota princípios de um regime de exceção, ao se mostrar desproporcionalmente desequilibrada, exigindo mais de uma parte que da outra'". Ou seja: no seu servilismo, a ABI ficou em péssima companhia!

Altamiro Borges
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Já não basta cassar Eduardo Cunha: é preciso prendê-lo

Cunha com o banqueiro Andre Esteves, no início do ano
As coisas chegaram a um tal ponto que não basta cassar Eduardo Cunha.

Ele tem que ser preso.

Nada, chantagem, ameaça de impeachment, nada justifica manter Eduardo Cunha.

Ele é o símbolo máximo de um mundo político putrefato.

Ele representa a vitória da plutocracia sobre a democracia. O dinheiro — dinheiro sujo — o levou a uma posição de enorme poder para que Cunha defendesse, no Congresso, os interesses dos plutocratas.

Está escrito em sua testa ampla: “Eu defendo os ricos e os poderosos. Eu sou um instrumento da iniquidade e da desigualdade. Eu não estou nem aí para os desfavorecidos.”

E ele cumpriu sua agenda torpe na Câmara do seu jeito brutalmente indecente. Cunha encontrou uma maneira de aprovar a permanência do financiamento privado, a janela pela qual os plutocratas tomaram de assalto a democracia.

Lutou pela pilhagem dos direitos trabalhistas ao fazer aprovar um projeto favorável à terceirização.

Pesa agora contra ele a acusação de haver manobrado para fazer passar medidas que trariam ainda mais bilhões aos já muitos de André Esteves, do BTG Pactual.

Por este serviço, segundo as denúncias, ele teria recebido 45 milhões de reais.

Cunha nega, assim como nega as contas na Suíças, das quais não é dono, mas “usufrutuário”, para lembrar a palavra que ele imortalizou e colocou no dicionário das infâmias de 2015.

Um deputado que se mantivesse no cargo depois de tantas delinquências comprovadas seria uma aberração. Tratando-se do presidente do Congresso, é uma vergonha nacional e internacional.

Tão rigoroso com tanta gente, sobretudo petistas, onde está Moro no caso mais dramático de corrupção do país?

Escondido.

Um dos motivos, talvez o maior, é que Cunha tem poder de retaliação, algo que não agrada a Moro.

E a imprensa, a autoproclamada fiscalizadora dos políticos: por que Cunha jamais entrou no seu radar?

Esta é fácil: porque ele defendeu sempre os interesses dos donos das grandes empresas de mídia. Por isso virou um intocável, um inimputável. A agenda econômica de Cunha é a agenda econômica dos Marinhos, dos Frias, dos Civitas. Numa palavra, a perpetuação da desigualdade.

A sociedade deve aos suíços — não a Moro e os policiais da Lava Jato, não à imprensa livre fiscalizadora — o desmascaramento de Eduardo Cunha.

Não fossem os suíços, ele estaria fazendo o serviço de sempre na Câmara. Não fossem os suíços, sua mulher Claudia continuaria a postar no Facebook fotos que demonstravam a vida suntuosa do casal, e incompatível com o ordenado de um deputado.

Muitas vezes você tem que descer ao abismo para mudar alguma coisa que parece impossível de mudar.

O Brasil teve que enfrentar uma inflação de 80% ao mês para que a sociedade gritasse que não dava mais. O próprio Malan, homem forte da economia sob FHC, admitia isso. Veio a estabilidade com FHC, e teria vindo com qualquer outro, dada a exaustão absoluta dos brasileiros com a inflação desmesurada.

Agora, na política, Eduardo Cunha representa o que a hiperinflação foi para a economia.

Há que tirá-lo de cena para que um paciente trabalho de reconstrução política possa ser iniciado.

E já não é suficiente cassá-lo, repito. É imperioso prendê-lo.

Paulo Nogueira
No DCM
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Colunista da RBS recebe, sem licitação, R$ 25 mil da Assembleia Legislativa de SC


A história recente brasileira está repleta de relações pornográfica entre o Poder Público e os órgãos de imprensa, muitas vezes custeados por recursos estatais e a eles editorialmente atrelados. Esta prática, que implode com qualquer conceito de independência e neutralidade por parte da imprensa, está evidenciada também em Santa Catarina, se observarmos mais atentamente os contratos elaborados pelo Poder Público com jornalistas e veículos de comunicação. Um destes exemplos é a contratação do jornalista e colunista da RBS/Diário Catarinense, Moacir Pereira, para um ciclo de palestras pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Os contratos com o jornalista, com a devida dispensa de licitação, podem chegar a até R$ 25 mil.

Promovido pela Escola do Legislativo, órgão ligado à Assembleia Legislativa de Santa Catarina, o SEMAP - Seminários Municipais de Agentes Públicos é um ciclo de debates nas cidades do estado, criado para "propiciar espaços de aprendizado, reflexão e qualificação aos legisladores municipais". De acordo com a programação divulgada na página da Escola na internet, este ano serão cinco debates nas cidades de Itajaí, Lages, Pirituba, Criciúma e Florianópolis, sendo que os três primeiros já aconteceram.

Os extratos dos dois outros eventos já acontecidos devem ser publicados nos próximos dias no
Diário da Assembleia. Quanto ao evento de dezembro, possivelmente só teremos o extrato
em janeiro. Mas, como o release da Escola falava das cinco palestras, e são sempre os
mesmos palestrantes, é possível ter uma média pelos dois extratos já existentes.

Para cada um deles, de acordo com o constante nos relatórios de aquisições de bens e serviços publicados no Diário da Assembleia, o fornecedor Moacir Pereira será contratado por "dispensa de licitação conforme entendimento do Tribunal de Contas" e receberá para cada palestra a bagatela de R$ 5.000,00, totalizandoR$ 25 mil ao final do ciclo. Como tema, o jornalista abordará "O Parlamento e as mídias sociais". Estranhamente, a dispensa de licitação para as palestras se dará uma a uma, palestra por palestra, e não sobre o valor global da contratação, o que evidencia uma manobra comumente utilizada para burlar limites impostos pela Lei Federal 8.666/93, que regulamenta as licitações e contratações públicas.

(Veja aqui na página 25, e aqui na página 31, do Diário da Assembleia, em PDF.)

É mais um triste capítulo da obscura história da imprensa brasileira e suas relações espúrias com o poder e os cofres do Estado.



Palestra de R$ 15 mil teve contrato celebrado cinco dias depois do evento ter acontecido

Além de destinar R$ 25 mil sem licitação para o jornalista Moacir Pereira por cinco palestras, a Escola de Governo da Assembleia Legislativa de Santa Catarina terá agora que explicar outra incongruência na contratação de palestrantes para o SEMAP - Seminários Municipais de Agentes Políticos.

Na edição número 6882 do Diário da Assembleia, de 4 de setmebro de 2015, foi publicado o extrato da contratação de outro palestrante, professor Jamil Albuquerque. A contratação foi para "proferir palestra no Seminário Municipal de Agentes Políticos que acontecerá na cidade de Itajaí no dia 6 de agosto do corrente ano". Detalhe: o evento aconteceu no dia 6 de agosto e o extrato referente à inexigibilidade de licitação e o posterior extrato do Contrato pelo serviço foram celebrados em 11 de agosto, ou seja, cinco dias após o evento ter acontecido.

Ainda de acordo com o contrato, a palestra tratou do tema "Inteligência Política" e custou o valor de R$ 15 mil, somente para a palestra em Itajaí. O contrato foi celebrado entre a Assembleia e o Instituto Albuquerque Cursos e Assessoria.

Veja aqui, na página 8, do Diário da Assembleia, em PDF

Ciclo de Palestras

É a segunda vez que a cidade do litoral catarinense aparece envolvida com palestras escandalosas neste ano. Em 13 de abril, a Câmara de Vereadores de Itajaí bancou, com dinheiro público, uma palestra do ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa. Uma hora de palestra de Barbosa custou R$ 60 mil aos cofres do município. O tema abordado foi "A Ética e a administração".
O ex-ministro do STF Joaquim Barbosa
Foto: Davi Spuldaro/Câmara de Vereadores de Itajaí



A ironia do jornalista Prisco Paraiso

Prisco Paraiso fala sobre a relação entre jornalistas e políticos.
Foto: Jussie Sedrez Chaves
O Seminário Municipal de Agentes Públicos (Semap), edição Vale do Itajaí, encerrou na manhã desta sexta-feira (7) com a palestra de Claudio Prisco Paraiso. O jornalista abordou o tema A Comunicação e o Parlamentar.

O Semap é uma iniciativa da Escola do Legislativo Deputado Lício Mauro da Silveira e tem como objetivo propiciar espaços de aprendizado, reflexão e qualificação aos legisladores municipais. Este foi o primeiro seminário de um ciclo de cinco, que contemplará ainda os municípios-pólo de Lages, Piratuba, Criciúma e Florianópolis, até o mês de dezembro.

A postura adequada na relação jornalista/legislador (político) foi apontada por Prisco Paraíso como um ponto importante a ser observado. De acordo com o jornalista, o comportamento do agente público, do vereador, enquanto fonte de informação é importante para sua visibilidade, mas deve ser feito de forma dosada. "É preciso manter uma postura adequada, ser próximo do profissional de imprensa, mas sem ser íntimo". (sic)

O jornalista afirmou que se deve sempre partir da premissa que o profissional deve ser o mais imparcial (sic) possível e sempre checar as informações antes de publicá-las. (sic).

"Hoje o parlamentar é observado pelo 'conjunto da obra'. É fundamental que haja coerência na conduta, no discurso. É importante abraçar causas, até mesmo impopulares, desde que sejam corretas, necessárias para o debate político", (sic) discorreu.

A critica despersonalizada, não pessoal, que leva em consideração aspectos profissionais foi outro ponto destacado por Prisco Paraíso. (sic) E a compreensão para a imposição imperativa de preservar a fonte deve, segundo ele, ser cumprida pelo profissional de comunicação. "Quanto ao político, deve haver responsabilidade nas teses a serem sustentadas, sem demagogia; o comportamento ético no trato com o dinheiro público é imprescindível. As Câmaras de Vereadores devem ser enxugadas. Não podemos ter um Brasil dentro das instituições e um Brasil fora delas", destacou. (sic).
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A palestra de Mujica na UFSC


O ex-presidente uruguaio José Mujica palestrou na conferência sobre mudanças climáticas (COY11), em Florianópolis. O tema foi "O papel da juventude latino-americana nas questões climáticas".

Imagens: Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina

Auditório Garapuvu 26/11/2015

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Quem é o "japonês bonzinho" da Lava Jato?

Em áudio, advogado e filho de Cerveró dizem que responsável pela carceragem da PF vende informações sigilosas para a imprensa

Newton Ishii com o pecuarista José Carlos Bumlai sob custódia, em Curitiba
O áudio que levou para a prisão o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e o banqueiro André Esteves pode ajudar a elucidar parte dos vazamentos acerca da Operação Lava Jato. Em um trecho da conversa, Edson Ribeiro, advogado de Nestor Cerveró, e Bernardo Cerveró, filho do ex-diretor da Petrobras, afirmam que um agente da Polícia Federal vende informações sigilosas.

O diálogo ocorre após Delcídio relatar aos interlocutores ter visto, com André Esteves, uma cópia da minuta da delação premiada negociada por Cerveró com os procuradores. O senador petista discute o teor do material, lamenta o vazamento e diz não saber quem vazou. Ele, então, ouve de Edson Ribeiro: "É o japonês. Se for alguém é o japonês". Diogo Ribeiro, chefe de gabinete de Delcídio, que também estava na conversa, complementa. "É o japonês bonzinho".

Delcídio pergunta quem seria o "japonês bonzinho" e o advogado de Cerveró diz: "É. Ele vende as informações para as revistas". Na sequência, o senador petista diz que a figura em questão é "o cara da carceragem, ele que controla a carceragem", informação confirmada pelo filho de Cerveró.


Mais tarde, o grupo volta a falar dos vazamentos. Edson Ribeiro levanta suspeitas sobre Sergio Riera, advogado de Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no esquema da Lava Jato, Alberto Yousseff, doleiro que assinou acordo de delação premiada e sobre o "japonês", nas palavras de Bernardo Cerveró. A degravação feita pela PF traz o nome "Milton", mas no áudio é possível ouvir que Edson Ribeiro fala em "Nilton".


Em julho, o blog Expresso, da revista Época, destacou a presença do agente da Polícia Federal Newton Ishii em diversas das prisões de detidos da Lava Jato na superintendência da PF em Curitiba. Ishii é chefe do Núcleo de Operações da PF em Curitiba e tem um passado conturbado.

Funcionário da corporação desde 1976, Ishii foi expulso da PF em 2003, acusado de corrupção e de integrar uma quadrilha de contrabandistas. Desde então, o agente já foi reintegrado, com "confiança da direção da PF", segundo a publicação, mas ainda seguiria respondendo processos criminais, civis e uma sindicância.

No pedido de prisão de André Esteves e Delcídio do Amaral, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, manifesta preocupação com o fato de o banqueiro ter tido acesso à delação de Cerveró. "Essa informação revela a existência de perigoso canal de vazamento, cuja amplitude não se conhece", diz o PGR. "Constitui genuíno mistério que um documento que estava guardado em ambiente prisional em Curitiba/PR, com incidência de sigilo, tenha chegado às mãos de um banqueiro privado em São Paulo/SP".

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, a Polícia Federal vai investigar o vazamento da delação de Cerveró. Segundo a publicação, o ex-diretor da Petrobras informou à cúpula da PF que só ele, seus advogados, familiares e procuradores tiveram acesso. Ainda conforme o jornal, Ishii disse a colegas que seu nome estava sendo usado como "cortina de fumaça" para manchar a Operação Lava Jato.

No CartaCapital
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Debutantes

As três almoçavam juntas todas as terças-feiras. Amigas antigas, mesma idade (o lado ainda ensolarado dos 30), casadas, sem filhos.

Heloísa fora a última a se casar.

– E então? – quis saber a Carol.

– Então o quê?

– O casamento, como vai?

– Vai ótimo!

– É tudo que você imaginava?

– Que pergunta, Carol! Claro que é!

A Carol parecia amarga, por alguma razão. Logo a Carol, a mais divertida das três. A que organizava as reuniões dos casais. A que cantava nas festas.

– Diz a verdade, Helô – insistiu Carol. – O Rui é tudo que você esperava?

– É um homem maravilhoso. Eu estou felicíssima.

– Felicíssima, Helô?

– Está bem. Felicíssima é exagero. Mas estamos muito bem.

A Maria Helena interveio.

– Por que esse interrogatório, Carol?

– Porque eu acho que nós estamos vivendo uma mentira. Três mentiras. Nós três. Nenhum dos nossos maridos é maravilhoso. Nossas vidas não são maravilhosas. No outro dia, eu estava olhando o Edgar roncando na frente da televisão e me dei conta. Então é isso? Minha vida é isso?

– Carol – disse a Maria Helena – o que mais você quer da sua vida? Você é uma mulher saudável, sem problemas de dinheiro, com um marido que pode não ser um galã, mas...

– Não é o Edgar. Você não entende? O Edgar roncando na frente da televisão é só um detalhe. É tudo. É o futuro que me espera. O futuro que nos espera. É a vida que nós nunca vamos ter.

– Que vida você queria, afinal, Carol?

– Quer saber? Eu queria que minha vida fosse uma comédia romântica.

– Ora, Carol...

– Uma comédia romântica americana.

– Mas isso não existe, Carol. Só existe no cinema. Na vida real, ninguém...

– É isso! A vida real. Nós não fomos feitas para a vida real. Nós merecemos mais do que a vida real. Lembra do nosso baile de debutantes? Nós não estávamos lindas? A vida que nos esperava era outra, sorridente, muito diferente da vida real. A vida real não é para debutantes.

Então, Carol levantou-se e disse que iria embora.

– Mas nós ainda não pedimos o almoço! – protestou Maria Helena.

– Eu estou sem fome. E, hoje, sou uma péssima companhia. Até terça que vem.

Quando Carol se foi, Heloísa comentou:

– O Rui não ronca, eu acho.

Luís Fernando Veríssimo
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