16 de nov de 2015

Clinton, Obama e os comunas da CIA

http://www.maurosantayana.com/2015/11/clinton-obama-e-os-comunas-da-cia.html


Conferencista internacional, assim como Fernando Henrique Cardoso e Lula, e um dos mais bem pagos palestrantes do mundo, o ex-presidente Bill Clinton esteve na última semana em Brasília, onde encerrou encontro da CNI – Confederação Nacional da Indústria.

Em seu discurso, ele lembrou as conquistas do Brasil nos últimos anos, afirmou que o nosso futuro é brilhante, e que é preciso unir as forças positivas da Nação para enfrentar os eventuais desafios deste que é “um dos melhores países para se investir em todo o mundo”.

E, por isso, por nadar contra a corrente daqueles que prefeririam ver o país descer, se arrebentando, pedregosas corredeiras em direção a um ralo de esgoto Clinton foi e está sendo execrado e insultado por dezenas de indignados hitlernautas na internet.

Em quem os brasileiros que “detonam” Clinton nas redes sociais porque ele diz que o Brasil não é, ao contrário do que afirmam muitos, um barco que está afundando querem que o ex-presidente norte-americano confie?

Nas manchetes de uma mídia seletiva, associada entre si em veículos, negócios e pautas comuns, que pinta com as cores do diabo, o Brasil de todos os dias, na capa dos diários, das revistas semanais, nos telejornais e nos programas de rádio?

Ou no que diz, por exemplo, o órgão de espionagem e contra-espionagem norte-americano, que tem o dever de informar o governo dos EUA, a Central Intelligence Agency, Agência Central de Inteligência, tão cantada e decantada como bastião na linha de frente da defesa do “ocidente” e da democracia, contra a assustadora “ameaça comunista” pelos mesmos radicais de direita que atacam o ex-presidente norte-americano, por falar bem do Brasil?

Pelo que dizem a mídia, e os fascistas de plantão nos grandes portais e nas redes sociais, o Brasil está quebrado, no fundo do poço, dominado, destruído e inviabilizado economicamente, por um grupo criminoso mais poderoso e tentacular que a K.A.O.S, a organização galhardamente combatida pelo Agente 86, mais conhecido como Maxwell Smart, nas telas de televisão, no auge da Guerra Fria.

Uma suposta e fantasiosa ORCRIM (organização criminosa) comandada por certo Foro de São Paulo, com o objetivo de se assenhorear do poder na América Latina, e construir “paredões” por todos lados que destruiu o país.

Pelo que diz a CIA, em seus relatórios anuais de informação (The Worldfactbook 2002) (The Worldfactbook 2015), o Brasil passou de um PIB de 1.3 trilhões de dólares, em 2002, para 3.2 trilhões de dólares, em 2014, quase triplicando o tamanho de sua economia por Poder Paritário de Compra, e mais que duplicando, de pouco mais de 7.000 dólares, em 2002, para 16.100 dólares, a renda per capita, também por Poder Paritário de Compra, desde que o Senhor Fernando Henrique Cardoso deixou o poder.

É esse o retrato de um país acabado, no fundo do poço, que está quebrado e sem solução?

Vejamos como começa o relatório da CIA sobre o Brasil:

“Characterized by large and well-developed agricultural, mining, manufacturing, and service sectors, and a rapidly expanding middle class, Brazil's economy outweighs that of all other South American countries, and Brazil is expanding its presence in world markets. Since 2003, Brazil has steadily improved its macroeconomic stability, building up foreign reserves, and reducing its debt profile by shifting its debt burden toward real denominated and domestically held instruments. Since 2008, Brazil became a net external creditor and all three of the major ratings agencies awarded investment grade status to its debt.”

“Caracterizada por setores agrícola, de mineração, manufatura e serviços grandes e bem desenvolvidos, e uma classe média em rápida expansão, a economia do Brasil supera a de todos os outros países da América do Sul, e o Brasil está expandindo sua presença nos mercados mundiais. Desde 2003, (será que essa data é mera coincidência?) o Brasil melhorou a sua estabilidade macroeconômica, construiu reservas de divisas, e reduziu o seu perfil de dívida, transferindo sua dívida para instrumentos denominados em reais no mercado interno. Desde 2008, o Brasil tornou-se um credor externo líquido e as principais agências de rating concederam grau de investimento para sua dívida.”

Faltou completar dizendo que a dívida líquida pública brasileira caiu quase pela metade no mesmo período, e que o Brasil é, hoje, o terceiro maior credor individual externo dos EUA, como se pode ver na página do próprio tesouro norte-americano:


Estará a imprensa brasileira sabendo de alguma coisa que a CIA, ou, melhor, que o Fundo Monetário Internacional, ou o Banco Mundial, que apresentam números ainda melhores do que os da Central Intelligence Agency sobre a evolução do Brasil nos últimos 13 anos, não sabem?

Ou que a ONU não sabe, sobre a evolução dos indicadores sociais do Brasil no mesmo período?

Ou terão sido os valorosos agentes secretos dos EUA, sedutoramente enganados pelos malvados e famintos "MAVs" comedores de pão com mortadela do PT?

Ou pior, não terão os petistas, com sua conhecida competência na insidiosa arte do aparelhamento, tão a gosto dos esquerdistas-comunistas-gramscianos-bolivarianos, infiltrado alguns agentes duplos “melancia” (verdes por fora, vermelhos por dentro), nos escritórios da sede da CIA, em Langley, na Virginia?
A resposta é simples.

Clinton é norte-americano teoricamente menos informado sobre o Brasil, embora já tenha estado aqui por 15 vezes nos últimos anos mas não é burro, nem idiota.

Ao contrário de uma pseudo “maioria” ignorante e manipulada que pulula pelos portais e redes sociais brasileiras, torcendo abertamente contra o país e contra nossas maiores empresas (praga de urubu magro não pega em cachorro gordo) ele não tem a mente feita ou melhor, permanentemente desfeita pelo discurso raso e rasteiro da crise absoluta e do apocalipse nacional.

Mister Clinton vive no século XXI, em um momento em que os Estados Unidos acabam de reatar relações diplomáticas com Cuba, e são obrigados a sentar-se e a negociar com russos e iranianos a situação na Síria.

E como uma figura pública, cuja mulher disputa a indicação para candidata a Presidente da República pelo Partido Democrata nos EUA, ele prefere certamente se basear em informações como as compiladas pelos funcionários do serviço secreto do seu país e por organizações econômicas multilaterais internacionais, para analisar o Brasil, diante de brasileiros, muitos deles contaminados, infelizmente, por um ódio cego e um preconceito ideológico que os impede, como viseiras, de avaliar a verdadeira situação do país.

Nisso, Clinton se iguala a Obama, que, apesar, também, de ser norte-americano, sabe muito bem que o Brasil é, enquanto a quinta maior nação do planeta em território e população, e a sétima maior economia do mundo (ocupávamos o décimo-quarto lugar em 2002) uma potência mundial, e não regional, como disse claramente contestando à abjeta perguntaafirmação de uma repórter “brasileira”, em entrevista coletiva na Casa Branca, durante visita da Presidente Dilma aos EUA, em julho deste ano.

Tem razão o Ministro Lewandowski, que está sendo também execrado, como Judas, pela mesma tropa fascista da internet, ao dizer que é preciso esperar “três anos” sem golpe, que haverá eleições daqui a um ano, e que a crise é mais política que econômica.

Como se pode ver pela recuperação do saldo da balança comercial, pelo aumento da produção da Petrobras, pelo avanço da redução da desigualdade, pelos fantásticos lucros dos bancos, está claro que a crise é, principalmente, política.

Uma crise cada vez mais artificial, exagerada, mentirosa, conspiratória e hipócrita.

Que precisa ser desmentida, desmistificada e combatida, politicamente, por todo cidadão responsável e consciente deste país.
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Protestos esvaziados

Em Belo Horizonte

Protesto em BH - 8 pessoas
Rolezinho pra beber com o Patrus - 500 pessoas



http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2015/11/16/protestos-so-juntam-gatos-pingados-e-caem-no-ridiculo/

“Protestos” só juntam gatos pingados e caem no ridículo

Para quem esperava grandes "manifestações de protesto" contra o governo, fartamente comentadas pela imprensa durante as últimas semanas, o domingo foi frustrante. Às 10h49, o portal do Estadão já tinha jogado a toalha: "A manifestação marcada para a manhã deste domingo, 15, na Esplanada dos Ministérios reúne poucas pessoas. Boa parte dos que protestam no momento está ligada a movimentos de apoio à intervenção militar".

Eram tão poucos os gatos pingados espalhados pelo gramado em frente ao Congresso que acabaram caindo no ridículo. Para chamar a atenção, um dos grupos golpistas chegou a levar até um imenso boneco do general Antônio Mourão fardado com roupas de combate. Mourão é aquele general que foi exonerado do Comando Sul após fazer duras críticas aos políticos e ao governo Dilma.

Até o final do dia, a PM de Brasília não contou mais de dois mil manifestantes, que acabaram entrando em conflito com policiais quando tentaram invadir o espelho d´água em frente ao Congresso, e foram afastados com jatos de gás de pimenta. Em São Paulo, a polícia nem se deu ao trabalho de contar quantos apareceram na avenida Paulista, mas nas fotos dava para ver que havia mais jornalistas e ciclistas do que "protestantes". O assunto sumiu do noticiário.

Nenhum "movimento das ruas" assumiu a responsabilidade pelo retumbante fracasso. Nem os lideres dos revoltosos apareceram desta vez. Caiado, Bolsonaro e o cantor Lobão não foram vistos nas manifestações.

Depois que até o PSDB desembarcou das articulações pelo impeachment da presidente, na semana passada, a turma do "Somos todos Cunha" saiu antecipadamente de férias. Ao participar de um evento em Porto Alegre, no sábado, o líder tucano José Serra ofereceu a senha do novo momento do PSDB, dando um chega para lá nos radicais da dupla Aécio & Sampaio: "É possível fazer oposição sem causar danos de maneira permanente ao País só para enfraquecer o governo".

A minoritária ala de descontentes do PMDB contava com estas manifestações para defender que o partido rompa com o governo na reunião do Instituto Ulisses Guimarães marcada para esta terça-feira, mas não há a menor chance disso acontecer. Qualquer decisão ficará para a convenção nacional, que foi adiada pela direção do partido para março do ano que vem.

Tudo vai sendo adiado para 2016, como se o País tivesse apertado a tecla "pause". Estamos agora congelados na tela de espera.



Em Brasília

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Relator dá parecer favorável às investigações sobre Cunha

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Documentário — Estado Islâmico


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Elaine Tavares – Tragédia em Bento Rodrigues MG


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Kim Kataguiri, o traíra mentiroso!


Em longa entrevista ao site DW Brasil, postada nesta terça-feira (11), o fascista mirim Kim Kataguiri traiu descaradamente seu amigo Eduardo Cunha, presidente da Câmara Federal, e ainda revelou outro traço do seu caráter: é mentiroso. Ele afirmou, com todas as letras: "Nunca fomos aliados de Cunha". O site até poderia ter exibido várias fotos em que os dois golpistas — o velhaco e o fedelho — aparecem juntos. Também poderia postar uma galeria com as selfies em que os integrantes do seu grupelho, o Movimento Brasil Livre (MBL), posam carregando faixas com os dizeres "Somos todos Cunha".

Na entrevista, Kimzinho apunhala o ex-herói dos "coxinhas" e tenta justificar a traiçoeira mudança de postura do MBL. "Sempre mantivemos uma relação institucional com ele [Cunha]. O nosso primeiro encontro com ele ocorreu quando protocolamos o pedido de impeachment [de Dilma], em maio. Nossa relação sempre foi de cobrança, para saber se ele ia deferir ou indeferir. Ao contrário do que os veículos de imprensa brasileiros vêm divulgando, nós nunca fomos 'aliados' de Cunha. Nós nunca o defendemos, tanto que hoje estamos pedindo o afastamento dele por causa das contas na Suíça".

O site até apresenta o traíra como o principal líder juvenil do país. "No final de outubro, Kataguiri foi incluído pela revista americana Time numa relação dos 30 jovens mais influentes do mundo", afirma. Mas a biografia exposta é bastante reveladora. "Ele tem 19 anos e dedica o seu tempo integral a tentar derrubar a presidente Dilma Rousseff e forçar a saída do PT do governo. Membro do Movimento Brasil Livre (MBL), Kim Kataguiri foi responsável, junto com outros grupos, pela organização de três protestos antigovernamentais que levaram milhares de brasileiros às ruas ao longo do ano".

"Morador de Santo André (SP), fã do ex-presidente Ronald Reagan e defensor de princípios liberais — incluindo a privatização de setores como saúde e educação —, Kataguiri começou a sua carreira de ativista antipetista após abandonar a faculdade de economia, ainda no primeiro ano. Suas primeiras aparições públicas ocorreram quando postou uma série de vídeos na internet defendendo o liberalismo e criticando o Bolsa Família. Após se aproximar de outros jovens que partilhavam das mesmas ideias, participou da fundação do MBL no final de 2014, grupo que, segundo Kataguiri, é financiado por meio de doações de pessoas físicas que se interessam pelo movimento".

Na entrevista, o fascista mirim explicita sua arrogância e suas posições reacionárias. Para a vergonha dos tucanos, ele garante que hoje seu movimento dá o rumo ao partido da oposição. "O PSDB foi um partido que nós tivemos que empurrar ladeira acima para que ele apoiasse o impeachment. Tivemos que bater muito para que eles levassem os anseios populares para a política. Conseguimos pautar a oposição. Em 15 de março, ninguém queria falar de impeachment. É verdade que a maior parte do PSDB não quer a saída de Dilma e que muitos membros só adotaram o discurso por causa da pressão popular. É um partido que age de acordo com seus interesses eleitorais, e não por princípio".

"Vocês acham que estão pautando o PSDB, como o Tea Party faz com os republicanos nos EUA?", pergunta o repórter. E o fedelho arrogante confirma animado. "Eu acredito que sim. É um paralelo interessante". Sobre sua "ideologia", ele vomita: "Eu e o movimento defendemos a descentralização do poder e valores liberais. Queremos também a privatização de empresas, como a Petrobras e a Eletrobras, e dos sistemas de educação, saúde e saneamento". Quais são seus ídolos: "Eu gosto muito do Milton Friedman (1912-2006), que ganhou o Prêmio Nobel de economia. O também economista Ludwig von Mises (1881-1973), o maior expoente da Escola Austríaca. Além, do ex-presidente americano Ronald Reagan e da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher".

Por fim, uma resposta reveladora sobre o futuro dos fascistas mirins do MBL. Você tem alguma ambição política? "Eu não tenho nenhum objetivo imediato. Não vou me candidatar nas eleições de 2016. Não tenho nada para 2018 também, mas não descarto. O movimento vai ter candidatos, a ideia é ter bancadas liberais nas câmaras municipais e depois no Congresso. Um dos nossos coordenadores, Fernando Holiday, vai sair para vereador em São Paulo. Pretendemos ter candidatos em todos os Estados. A atuação na política é algo que vamos encampar, sim".

Será que nas conversas "protocolares" com o lobista Eduardo Cunha, conhecido por financiar vários candidatos, Kim Kataguiri pediu alguma granhinha para as próximas eleições?

Altamiro Borges
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Imperdível — A palestra que Eduardo Cunha não assistiu

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Os argumentos de extrema pobreza de Míriam Leitão contra o direito de resposta

Defesa fraca dos interesses dos patrões
Os colunistas da mídia têm que melhorar seus argumentos contra o direito de resposta se quiserem ser levados a sério.

Existe um lugar comum que provoca risadas tão logo lido: mordaça. Foi o que Míriam Leitão escreveu dias atrás.

Ora, isso coloca numa situação ridiculamente de vítima uma mídia que não tem limites e vive que mamatas do Estado há décadas.

Para elas, vigora o chamado Nanny State, um Estado Babá. O que o Brasil demanda, urgentemente, é um choque de capitalismo em sua mídia viciada, acomodada e frequentemente desonesta.

Sequer a reserva de mercado foi removida para a imprensa. Parece coisa do Sensacionalista: um dos argumentos que a Globo utilizou para a manutenção da reserva é que os chineses poderiam fazer propaganda comunista numa tevê que controlassem.

Em qualquer sociedade avançada, o direito de resposta é uma prática consagrada para evitar abuso de poder da imprensa.

O principal objetivo é cercear acusações sem prova.

Para ficar no jornal de Míriam, Lauro Jardim jamais teria afirmado que Lulinha fora citado numa delação em sua “estreia triunfal” se houvesse direito de resposta.

Ele faria um trabalho rigoroso de checagem que não existe no jornalismo brasileiro exatamente por causa da impunidade.

A Veja, no caso mais dramático da mídia nacional, não teria se transformado num reduto de gangsterismo editorial com uma legislação que impedisse abusos.

A imprensa não está acima da sociedade, ao contrário do que os colunistas da mídia, e sobretudo seus patrões, parecem pensar.

Direito de resposta é apenas um dos pontos imprescindíveis para forçar a imprensa a ser mais responsável e melhor.

As indenizações também terão que ser discutidas no Brasil. Pateticamente baixas, elas não inibem nenhuma prática jornalista criminosa.

Compare.

Nos Estados Unidos, corre um caso estrepitoso. A revista Rolling Stone publicou uma reportagem sobre um estupro numa universidade. Era um texto pesadamente acusatório em relação à atitude da universidade.

Os fatos mostraram que a revista errou. Houve uma retratação histórica. A revista publicou o relatório de um consagrado professor de jornalismo contratado especialmente para investigar o caso.

Mas a universidade entendeu que não era o bastante. Ela pede na Justiça uma indenização de 25 milhões de dólares pelos prejuízos morais que sofreu.

Outro argumento de extraordinária pobreza utilizado contra o direito de resposta fala em intimidação da imprensa. Em seu artigo, Míriam Leitão falou nisso.

Ora, é como dizer que as leis que vigoram para os cidadãos intimidam Míriam Leitão. Não. Elas servem de referência. Se Míriam não as infringir, viverá em paz.

O real problema seria a ausência de leis para Míriam e para todos nós. Viveríamos no Velho Oeste.

É o que acontece hoje com a imprensa, que pode tudo sem que existam consequências.

Numa resposta que figura nos livros britânicos de história do jornalismo, um primeiro ministro disse a um barão da imprensa no começo da década de 1930 que poderes sem responsabilidade são um atributo exclusivo das meretrizes.

Esta é a situação presente da mídia brasileira.

Paulo Nogueira
No DCM
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O Direito de Resposta e as Nove Leis de Mirian Leitão

A jornalista que quase provocou uma crise política porque um internauta colocou em sua biografia, na Wikipedia, que ela tinha errado algumas projeções econômicas, considera mera quirera o juiz “parar o que está fazendo”, para restabelecer a imagem da vítima do ataque de imprensa.


As duas são colunistas em jornais importantes: Vera Guimarães Martins, na Folha, Mirian Leitão, em O Globo.

Em seminário sobre imprensa, neste final de semana em Tiradentes, Mirian acalmou os jovens estudantes quanto ao receio de não terem liberdade para praticar jornalismo nos grandes jornais:

— Em trinta anos no Globo, jamais tive uma opinião minha censurada.

Os jovens jornalistas arregalaram os olhos; os veteranos, sorriram e trocaram olhares divertidos. Só jamais teve uma matéria censurada quem jamais ousou arrostar os limites impostos pelo jornal.

Em recente almoço com João Roberto Marinho, um integrante do governo ouviu dele a seguinte declaração, a respeito de um tema polêmico:

— Vou falar para a Mirian escrever sobre esse tema.

É evidente que Mirian fala por ela, mas, também, é a voz dos Marinhos, talvez a voz mais qualificada, dentre os jornalistas das Organizações Globo, mas, ainda assim, uma voz da casa.

E não se pense depreciativamente. Ela conseguiu uma imagem forte que faz com que os Marinhos recorram a ela para temas de seu interesse que, na boca da própria Globo, se tornariam suspeitos.

Essa circunstância confere ao jornalista inúmeros benefícios: visibilidade, influência, prestígio, um enorme mercado de palestras.

Mirian é uma legítima beneficiária desse pacto com o grupo. Mas se recusa a admitir a contrapartida: endosso total às teses de interesse do grupo. Tão amplo e irrestrito que tomou o lugar dos editoriais de O Globo, para atacar a Lei que instituiu o direito de resposta com uma gana maior que os próprios editoriais.

Resposta aos abusos

Essa Lei é a primeira reação à falta de limites da mídia, especialmente depois que liquidaram com a Lei da Imprensa através do Ministro Ayres Britto — que, mais tarde, tornou-se lobista da mídia.

Draconiana ou não, a lei responde aos abusos que ocorreram na mídia nos últimos anos, muito devido ao fato dos decanos da imprensa, os colunistas com condições de fazer o contraponto, jamais terem tido a coragem de se insurgir contra abusos que desmoralizavam a própria profissão.

Houve raríssimas exceções, nas intervenções pontuais de um Janio de Freitas, um Boechat, nos contrapontos do Juca Kfoury. Os que, como Mirian, deveriam atuar como figuras referenciais recuaram.

Agora, se tem essa situação.

Jornalista da Folha, Vera Guimarães resgata princípios de direitos individuais ao alcance de quem se propõe a estudar com isenção o tema. Faz a autocrítica e critica os veículos que “vivem de apontar os defeitos e o monopólio da grande imprensa”


 (...) Jornalistas erram como qualquer outro profissional, com a diferença de que seus erros, além de públicos, são magnificados na exata proporção da visibilidade dada à notícia. É essa equação que torna um erro em manchete muito mais grave.

(...)  Os meios de comunicação estão de cheios de erros e figuras menores que não merecem o mesmo cuidado.

O cenário é tanto pior quanto menor, mais distante, partidarizado ou regionalizado for o veículo. Parece não ter caído a ficha de que a correção não é uma liberalidade eventual nem pode variar de forma e tamanho ao sabor da ocasião; ela é contrapartida indissociável da responsabilidade (e do privilégio) de quem é pago para informar.

Sem essa consciência, é difícil defender sem reservas a autorregulação da mídia, ideal acalentado pelas entidades do setor. Seria apostar numa boa vontade que a maior parte de profissionais e meios não tem demonstrado, inclusive (ou principalmente) veículos que vivem de apontar os defeitos e o "monopólio da grande imprensa".

A falta dessa consciência só leva água ao moinho dos que querem enquadrar a liberdade de informação — e a nova lei do direito de resposta traz itens exemplares dessas tentativas.

A coragem da autocrítica confere-lhe legitimidade para a crítica correta contra os que emulam os vícios da mídia que se pretende combater.

A estratégia da Globo com o Direito de Resposta

Já  artigo de Mirian insere-se em uma estratégia óbvia das Organizações Globo.

Para não legislar em causa própria, recolhem as armas e mandam à arena seus colunistas — como se representassem uma opinião pública impessoal, extra-Globo —, servindo de reforço para tentativas de sensibilizar o STF (Supremo Tribunal Federal) a partir do trabalho de Gilmar Mendes e de Ayres Britto.

O resultado foi um artigo onde Mirian vale-se de todo o estoque de sofismas que marcou o a atuação da mídia nesses tempos de caça às bruxas: desde invocar ameaças bolivarianas até inverter a força dos oponentes.

Trata-se de um Manual de Como Sofismar que não está à altura do racionalismo de Mirian.

Vamos extrair algumas lições de como sofismar em defesa de sua causa.

Primeira Lei de Mirian — em qualquer tema envolvendo prerrogativas da imprensa, a probabilidade de surgir um argumento que equipare a regulação à ditadura militar aproxima-se de 1.

É uma variante offline da Lei de Godwin, que que reza o seguinte:

À medida em que cresce uma discussão online, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou o nazismo aproxima-se de 1 (100%).

Poderia ser chamada de a Primeira Lei de Mirian:

 (...) A norma sancionada pela presidente Dilma faz a Lei de Imprensa do governo militar parecer democrática. Ela estabelece ritos sumários, dá prazos fatais aos juízes, estabelece que o “ofendido" pode exigir reparação no mesmo espaço e na edição seguinte do jornal, noticiário de rádio e televisão.

Segunda Lei de Mirian —  chame uma ideia defensável por um nome diferente visando conferir-lhe um significado diverso, de forma a confundir o oponente.

Também é conhecida como “manipulação semântica” e consiste, segundo Schopenhauer, em “chamar as coisas por um nome que já contenha o juízo de valor que queremos que seja aceito”. 

Na prática, a Segunda Lei de Mirian tem esse tipo de utilização:

Existe a notícia errada que deve, claro, ser corrigida. Mas o texto fala que “ao ofendido em matéria divulgada, publicada ou transmitida por veículo de comunicação social é assegurado o direito de resposta ou retificação gratuito e proporcional ao agravo”. O governo e o Congresso chamam isso de regulamentação, mas a lei foi feita para intimidar jornalista e trazer de volta a autocensura.

Na Inglaterra, aqui mesmo, nos idos dos anos 90, os próprios jornais apresentavam a auto-regulação como alternativa a uma regulação externa. Jamais se auto-regularam. Mirian inova e trata a auto-regulação como autocensura.

O que ela banaliza — alguém se sentir ofendido — é a caracterização penal de injúria, crime previsto no Código Penal.

Terceira Lei de Mirian — se uma Lei tem implicações sociais, procure minimizar os resultados e maximizar os custos.

Há um excelente estudo de caso nas análises do Globo sobre políticas sociais.

Mirian aplica os princípios na Lei.

Considera “espantosamente autoritários” o prazo para o juiz decidir e a aplicação da multa diária em caso da publicação não conceder direito de resposta.

A jornalista que quase provocou uma crise política porque um internauta colocou em sua biografia, na Wikipedia, que ela tinha errado algumas projeções econômicas, considera mera quirera o juiz “parar o que está fazendo”, para restabelecer a imagem da vítima do ataque de imprensa.

Reparar a reputação de alguém que foi alvo de uma tentativa de assassinato de reputação é tarefa menor? Que história é essa? A gravidade do crime de imprensa é diretamente proporcional ao tempo que demorou para se corrigir o ataque.

Diz ela:

Há trechos da lei espantosamente autoritários. Estabelece prazo exíguo para o juiz decidir, e autoridade para que ele aplique multa diária ao órgão de imprensa, mesmo que a pessoa atingida pela matéria não tenha pedido. “Recebido o pedido de resposta ou retificação, o juiz, dentro de 24 horas mandará citar o responsável pelo veículo de comunicação para que em igual prazo apresente as razões pelas quais não o divulgou, publicou ou transmitiu e no prazo de três dias ofereça contestação”. Ou seja, o juiz tem que parar o que estiver fazendo para, em 24 horas, mandar citar o órgão de imprensa, que tem apenas 24 horas para se defender e três dias para contestar. Em menos de uma semana, esse rito que a lei chama de “especial” tem que ser cumprido.

Quarta Lei de Mirian — apresente situações hipotéticas falsas para desqualificar as consequências da lei que se pretende combater.

A lei fala em “ofendido" e “agravo” sem estabelecer o que seja isso. Ela torna a opinião um crime, e quem a emite, um réu. Recentemente um deputado me ligou pedindo “reparação”. Eu argumentei que ele teria que pedir reparação também aos seus colegas que fizeram, no plenário, as mesmas críticas que eu fiz no meu artigo. Era sobre a lei da repatriação que abre possibilidade de entrada de dinheiro no exterior proveniente de diversos crimes. Na vigência da lei 13.188 o que teria acontecido? Eu teria que publicar que o projeto não diz o que o projeto diz, porque o “ofendido" poderia considerar o meu texto um “agravo”?

Mirian recorreu a um dos princípios de Schopenhauer: o falso silogismo.

Consiste no seguinte:

·      O deputado ligou para pedir uma correção de erro que Mirian disse não ter cometido.

·      Se basta se sentir “ofendido” para requerer, todo mundo irá requerer o direito de resposta.

·      Se a Lei estivesse em vigor, ela teria que publicar a resposta.

Sabe porque o mediador da Lei se chama juiz? É porque ele arbitra os casos. A seu juízo define o que é ofensa e o que é agravo. Isso ocorre desde que, alguns séculos atrás, definiram o formato do Judiciário nas democracias.

O caso apresentado nada tem a ver com a Lei, porque, para não atrapalhar o argumento, Mirian esqueceu de incluir a figura do juiz para arbitrar se o deputado tem ou não razão.

Quinta Lei de Mirian — o estratagema de alternativa excludente.

Consiste em contrapor a determinada questão, um conjunto de questões legítimas, como se fossem alternativas a ela. Embora nada tenham de excludentes.

Esta legislatura está atormentando o país. Aprova com rapidez leis que ameaçam a estabilidade fiscal e deixa paradas propostas para reorganização das contas públicas. Usa a tramitação de projetos de aumentos de gastos, a tal pauta-bomba, como forma de atacar o governo, e não é o governo que está ameaçando, mas sim o país como um todo. Há uma série de iniciativas polêmicas que avançam como o Código de Mineração, que dá mais poderes aos mineradores contra a lei ambiental; a proposta de dar ao Congresso o poder de definir a demarcação de terras indígenas, a que libera o uso de armas e cerceia o direito das mulheres.

Sexta Lei de Mirian — o estratagema da desqualificação institucional.

Este é mais manjado porque frequentemente utilizado como argumento econômico.

No caso, Mirian se vale do álibi Eduardo Cunha para desqualificar a lei.

Até pouco tempo atrás Eduardo Cunha era blindado pelo grupo para quem Mirian trabalha. Enquanto serviu, foi usado. E o que isso tem a ver com a Lei de Direito de Resposta? Nada.

Seria o mesmo que afirmar: enquanto os Marinho não esclarecerem sua participação na compra de direitos esportivos da CBF, tudo o que a Mirian escrever sobre economia deve ser colocado sob suspeita.

Se fosse apenas uma legislatura conservadora já seria uma infelicidade. Mas ela é pior que isso, porque as duas casas são comandadas por pessoas que estão sob grave suspeição. O pior caso é o do presidente da Câmara que dá explicações bizarras para justificar o dinheiro em contas na Suíça que afirmara não ter.

Sétima Lei de Mirian — utilize algum personagem fraco do setor que você pretende defender, para não parecer que está do lado dos fortes.

É recurso muito utilizado para justificar juros altos — não pode baixar senão vai prejudicar o pobre do pequeno poupador.

No seu artigo, Mirian sofisma para espantar a ideia de que a Lei do Direito de Resposta garante o fraco (o cidadão) contra o forte (a imprensa).

Este Congresso, assim constituído, aprova uma lei que ameaça os jornalistas. O maior risco é dos veículos menores, ou repórteres independentes que não tenham uma estrutura jurídica grande e rápida.

As maiores ações contra veículos menores partem da própria imprensa. Das sete ações que respondo, cinco são de jornalistas bancados pela estrutura jurídico das empresas nas quais trabalham, Abril e Globo. A sexta é de um Ministro, Gilmar Mendes, aliado da Globo. E a última é de Eduardo Cunha.

Quanto à Lei, o máximo que poderá ocorrer com veículos maiores e menores será publicar a reposta do atingido.

Oitava Lei de Mirian — use as crenças do seu oponente contra ele.

É uma livre adaptação de um dos princípios de Schopenhauer.

Use as crenças do seu oponente contra ele. Se o seu oponente se recusa a aceitar as suas premissas, use as próprias premissas dele em seu favor. Por exemplo, se o seu oponente é membro de uma organização ou seita religiosa a que você não pertence, você pode empregar as opiniões declaradas desse grupo contra o oponente.

Como Mirian aplica a Oitava Lei de Mirian:

Dilma diz com frequência que prefere uma imprensa crítica a uma imprensa silenciada, mas acaba de, com atos, desdizer o que diz. Não é a primeira vez que ela fala algo e faz o oposto. Agora, a presidente está sendo coerente com leis de inspiração bolivariana que vicejam em países como Venezuela, Equador e Argentina. O que nos resta é confiar que o Supremo Tribunal Federal, que revogou a Lei de Imprensa do governo militar, derrube mais esse atentado à liberdade de imprensa.

Nona Lei de Mirian — taxe a ideia a ser combatida como bolivariana, mesmo que ela seja inspirada nas democracias europeias.

Luiz Nassif
No GGN
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O que ninguém está falando na demissão de Sidney Rezende

Sem direitos trabalhistas
Não foi só a demissão de Sidney Rezende um dia depois de um artigo crítico sobre a mídia que me chamou a atenção.

Foi também um aspecto lateral.

Rezende não foi demitido. Não renovaram seu contrato.

É igual, mas é diferente.

Significa que ele sai da Globo News e da Globo sem os direitos trabalhistas clássicos.

Significa, também, que a Globo, confiante em sua impunidade, há muito armou um esquema de sonegação no seu RH.

Você pode até tentar aceitar a utilização de PJs em empresas em condição desesperadora.

Mas na Globo?

Basta ver o patrimônio multibilionário de seus donos para verificar que este tipo de sonegação é um escárnio contra a sociedade e contra a decência.

Basta ver também a transfusão copiosa de dinheiro público para a empresa para ver o tamanho do descaro.

Apenas o governo federal, com suas empresas, coloca 500 milhões de reais por ano na Globo. Não estamos falando nos ingressos adicionais derivados de governos estaduais — Aécio foi uma mãe em seus oito anos em Minas — e prefeituras.

Com tudo isso, a Globo se julga no direito de sonegar em seus funcionários mais caros.

É uma vergonha, e também é um passivo considerável.

Nos últimos meses, a história de Cláudia Cruz, mulher de Eduardo Cunha, veio à tona.

Um dos fatos marcantes de sua biografia é que ela processou a Globo quando foi demitida.

Cláudia era apresentadora como Sidney Resende.

Ela ganhou na Justiça da Globo. Recebeu uma indenização na saída que não teria como PJ.

É presumível, hoje, que mais demissões virão entre PJs da Globo. E é provável, igualmente, que mais gente processe a empresa.

Isto porque as circunstâncias são outras.

Antes, romper com  a Globo era uma decisão complicada para qualquer profissional. E um processo representa uma ruptura.

Agora mesmo Ali Kamel, ao falar da saída de Resende, disse que não renovar um contrato não quer dizer que o vínculo não pode ser retomado no futuro.

Não sei se existem casos assim na Globo.

Mas agora a Globo é uma empresa em declínio, e isso não vai mudar. A internet transformou as mídias da Globo em negócios declinantes, incluída aí a televisão aberta.

A Globo é a Abril amanhã.

Os profissionais sabem que seu futuro está na mídia digital, e não na Globo. Eles já não terão nada a perder acionando a Globo. Terão, na verdade, apenas a ganhar.

Isso muda tudo.

Será uma imensa surpresa se Sidney Rezende não for à Justiça contra a Globo.

Mas de novo.

É muita ganância dos donos da Globo a utilização de PJs.

E é inacreditável que o Estado — incluídos aí governos petistas nos últimos 13 anos — nunca tenha feito nada para coibir este crime contra o bolso do povo.

Paulo Nogueira
No DCM
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'A desigualdade é mais grave que a corrupção’

Em novo livro, sociólogo e presidente do Ipea critica cientistas e classe média tradicional

Jesse de Souza
Depois de dizer que os 40 milhões de brasileiros que ingressaram no mercado de consumo nos últimos anos não formavam uma classe média — como então alardeava o governo —, Jessé de Souza, que assumiu a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em abril, promete mais polêmica com o livro "A tolice da inteligência brasileira", que chega às lojas nos próximos dias. Nele, o sociólogo afirma que o Brasil não tem uma classe alta, mas sim uma "classe de endinheirados".

E argumenta que a classe média tradicional, além de conservadora, é tola e assume o papel de guardiã da moralidade para compensar seu medo da ascensão dos mais pobres, seu ressentimento com o sucesso dos mais ricos e ficar com a consciência tranquila diante da exploração que ela mesma pratica diariamente. "A classe média explora os mais pobres — e no Brasil essa exploração é uma espoliação absurda — mas finge que é boazinha, afinal de contas, a empregada doméstica é quase da família", diz o presidente do Ipea, órgão que é subordinado ao Ministério do Planejamento.

O título do seu livro é bastante provocativo. Quem é a inteligência brasileira e onde está sua tolice?

No fundo é uma crítica aos grandes sociólogos do país e à forma como foi montada a Ciência Social no Brasil, mostrando como desde o início houve menos compromisso com cientificidade e mais com a política. É muito problemático quando há uma colonização do interesse da política, como ocorre aqui, um culturalismo conservador que idealiza os Estados Unidos e cria uma imagem negativa do Brasil. É a tolice da inteligência, dos nossos grandes pensadores, dos especialistas, que estão engolindo uma concepção de inferioridade do brasileiro, supondo que existem sociedades perfeitas, onde não há corrupção. Esses autores todos criaram uma ideia, que é assumida por todos nós, do brasileiro definido pela sua desonestidade e corrupção. E uma visão do Estado se opondo ao mercado, sendo ineficiente, enquanto o mercado é o reino de todas as virtudes. A noção de corrupção foi construída paulatinamente no Brasil e sempre pode ser despertada. Ela pode estar adormecida e ser acordada, porque faz parte do patrimônio cultural do Brasil.

Essa leitura está errada? O Estado, no Brasil, não é corrupto?

A questão não é o Estado ser ou não corrupto. Claro que é bom que não seja, é importante que seja transparente e não seja corrupto. Mas essa é a meia verdade, porque nem de longe é a questão principal. Todos os Estados do mundo são aprisionados por interesses privados. Nos EUA, o Estado é extremamente privatizado, segue os interesses das grandes empresas, o Exército americano mata muita gente no mundo para proteger interesses de empresas. O Estado é sempre privatizado. A questão é: por quem? Ou ele é privatizado por uma minoria ou é posto a serviço da maioria. Quase nunca no Brasil o Estado foi posto a serviço da maioria. Eu me lembro de dois momentos históricos, no governo de Getúlio Vargas e no período Lula-Dilma, quando os recursos foram usados também para promover a ascensão das classes populares.

No momento, o senhor acha que o Estado está a serviço da maioria?

Está numa encruzilhada, porque o Estado não tem uma vontade. A sociedade manda no Estado. Se a sociedade brasileira der uma guinada conservadora, o Estado vai ter que acompanhar. E, em grande medida, quem confere argumento para essa guinada conservadora é a leitura dessa pseudociência. Ela monta um jogo de oposição entre mercado e Estado, que não é verdadeiro, porque não se trata de uma luta, os dois vão juntos, um depende do outro. Mas essa oposição é dramatizada, e a questão é: isso serve a quem?

E por que de repente esse "drama" veio à tona com força?

Veio agora porque antes tinha um cenário muito favorável, todos ganhavam. Num contexto, onde começa a ter escassez, é aquela história: "farinha pouca, meu pirão primeiro". Então todos os setores que sabem que não têm como dar benefícios para todos querem voltar ao velho esquema do Estado privatizado pelo interesse de uma minoria. E conseguem isso demonizando o Estado. Foi assim na época de Getúlio Vargas, na época de João Goulart e na época de Lula e Dilma. Isso é fato.

O senhor está traçando o cenário atual como de um pré-golpe?

Tem uma tentativa óbvia de golpe que articula os mesmos elementos de todos os golpes anteriores. Esse nível de corrupção só pode ser mostrado agora, porque antes todas as investigações eram engavetadas e agora as coisas são levadas até o fim. Mas isso está sendo usado, numa dramatização, para o enfraquecimento do Estado, porque, numa sociedade conservadora como a nossa, qualquer ajuda efetiva para as classes populares é vista como um crime pela elite. E nossa classe média tem uma parte que é extremamente conservadora e não gostou da ascensão da classe popular, não gostou de o pessoal estar andando de avião, da meninada da periferia ir ao shopping. Isso não é racional, tem a ver com afeto, com o medo de que as pessoas que estão ascendendo tomem seu lugar, seus cargos, medo que seus privilégios sejam tocados. Quantas pessoas reclamam porque a empregada doméstica tem alguns poucos direitos e não podem mais usá-la como escrava?

A classe média teme a redução da pobreza e da desigualdade?

A classe média tradicional teme a ascensão dos que estão embaixo e tem ressentimento contra quem está em cima. Vai sempre dizer que a pessoa fez alguma coisa errada para chegar lá em cima, quase sempre com a ajuda do Estado. Ela é uma santa a vida toda, até porque nunca esteve em cargo de poder onde sua honestidade vai ser testada. Ela se põe como a guardiã da moralidade. A classe média exporta o mal, o mal está sempre fora. E explora os mais pobres — e no Brasil essa exploração é uma espoliação absurda — mas finge que é boazinha, afinal de contas, a empregada doméstica é quase da família. E, assim, exime-se da responsabilidade, como se o mundo fosse assim mesmo e você não tivesse nada a ver com essa exploração de classe que pratica diariamente. E como essa exploração é escondida, porque a ciência não tematiza, nem a empresa, nem a escola, nem a universidade, você fica cego em relação a sua parte na perversidade, na maldade, na exploração dos mais pobres e no abandono dos mais frágeis. E aí adquire a coisa que todos os seres humanos querem tanto quanto um prato de comida, que é a boa consciência, a capacidade de legitimar a vida que você tem, dizer que está ali por merecimento. Ela tem essa necessidade afetiva que vai ser satisfeita por um discurso que se torna dominante, mas permite que ela seja manipulada quando a época histórica convém.

Como foi a reação da classe alta?

Há um incômodo da elite também porque ela não percebe o mundo de modo diferente da classe média. No Brasil, não temos uma classe alta no sentido europeu do termo, temos a classe dos endinheirados. Pense no Eike Batista botando a Mercedes dele na sala. Jamais alguém de classe alta da França ou na Alemanha faria isso. Essa classe dos endinheirados também ficou incomodada. Apesar de isso ter sido bom para todo mundo, todo mundo ganhou, fortaleceu o mercado interno, a mudança social que aconteceu no Brasil gerou uma série de ressentimentos. A gente tem que ter a coragem de apontar isso. A desigualdade brasileira foi sempre cuidadosamente escondida, a ciência que a gente estava criando nunca pôs a desigualdade no centro das preocupações. Ao contrário, invisibiliza a desigualdade, torna invisíveis as causas e faz parecer que é por burrice ou preguiça que se é pobre.

A desigualdade é mais grave do que a corrupção?

Sem dúvida alguma, a desigualdade é mais grave que a corrupção, é de longe a questão mais importante. Obviamente o combate à corrupção, a transparência nos negócios públicos são virtudes republicanas fundamentais a qualquer democracia. O problema é a corrupção ser manipulada politicamente para legitimar interesses que não podem ser expressos de modo direto. A corrupção tem que ser combatida como um fato cotidiano. Quando isso acontece nos outros países, não leva ao drama político, a esse carnaval todo. É o jogo de estar cuidando do interesse da maioria, de limpar o país, enquanto as pessoas continuam sofrendo.

Como avalia o resultado da Pnad, que foi divulgada sexta-feira?

Os dados recentes frustram os que achavam que o Brasil passaria por um retrocesso social inevitável com a crise econômica. Os números mostram, por exemplo, que a desigualdade continua caindo e a renda real do trabalho continua subindo. Também o analfabetismo continua caindo, e tudo indica que continua a haver uma melhora nas condições estruturais de vida da nova classe trabalhadora que ascendeu nos últimos anos, ou seja, do segmento que já havíamos estudado empiricamente e denominamos de "batalhadores brasileiros". O problema se dá nos aspectos conjunturais, especialmente no mercado de trabalho, onde o desemprego aumentou. Tudo combinado mostra que o modelo de desenvolvimento com ascensão social dos mais pobres não está liquidado. Mostra, inclusive, extraordinária capacidade de resistência

O que o senhor vê para o futuro?

A gente está numa encruzilhada onde há oportunidades e desvios. A gente pode fazer a mesma coisa que fez a História do Brasil no século XX, ceder ao golpismo, à possibilidade de as pessoas poderem mandar sem o voto. Ou a gente repete isso e os endinheirados e poderosos voltam a mandar sem terem sido eleitos, ou faz um processo de aprendizado, de mudar essa história. As duas hipóteses são possíveis.

Nice de Paula
No O Globo
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William Waack, o carrasco da Globo?

O jornalista William Waack, frequentador assíduo do Instituto Millenium — antro dos barões da mídia e dos empresários sonegadores —, é conhecido por suas posições direitistas e pelo seu comportamento intragável. Segundo vários profissionais que já trabalharam na TV Globo, ele é truculento e metido a chefão — sendo detestado por muita gente na redação. Nesta sexta-feira (13), o site "Notícias da TV", editado por Daniel Castro, apimentou ainda mais esta triste fama. Segundo seu relato, William Waack teria sido o pivô da saída da âncora Christiane Pelajo da bancada do Jornal da Globo. Vale conferir:

* * *

Em reunião na Globo, William Waack revela que foi pivô de saída de Pelajo

Em uma reunião com editores do Jornal da Globo, há duas semanas, William Waack revelou que foi o pivô da saída de Christiane Pelajo do telejornal, oficializada em 15 de outubro. Aos jornalistas, Waack afirmou que, para renovar contrato com a emissora, no meio do ano, teria exigido a mudança do formato do Jornal da Globo. E esse novo formato, mais analítico e com debates sobre política e economia, só permitiria um apresentador: ele.

Waack disse ainda no encontro que, caso a Globo não mudasse o formato do telejornal, ele iria "cuidar da vida". Apesar de os dois apresentadores mal se olharem na cara um do outro, a versão de Waack não foi bem digerida pelos presentes na reunião, porque parece pouco provável um apresentador colocar a emissora contra a parede dessa forma.

Mas sua fala de que teria "peitado" a Globo foi confirmada por duas fontes, uma delas presente no encontro. Os jornalistas interpretaram que seria essa a versão da história que Waack gostaria de perpetuar. A Globo nega com veemência que Waack tenha pressionado a direção de jornalismo para permanecer no telejornal e tirar Pelajo. "Esta história é tão fantasiosa quanto absurda", disse a emissora em nota.

O fato, enfim, é que há um mês Waack se tornou o único apresentador do Jornal da Globo. Em 14 de outubro, Christiane Pelajo foi convocada às pressas para uma reunião no Rio de Janeiro, como informou o jornalista Maurício Stycer. A jornalista não apresentou o Jornal da Globo daquela noite e nem chegou a se despedir dos telespectadores que a acompanharam durante dez anos.

No dia seguinte, Ali Kamel, diretor-geral de jornalismo da emissora, distribuiu comunicado informando que Pelajo não apresentaria mais o Jornal da Globo, a pedido da própria, que estaria infeliz com o horário tardio de trabalho (leia a nota aqui). Na nota, Kamel anunciou mudanças no formato do telejornal, mas não antecipou quais.


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A matéria de Daniel Castro, descrevendo os supostos poderes do carrasco, desagradou a direção da TV Globo. Logo após a publicação do texto, ela enviou uma nota ríspida e exigiu sua publicação na íntegra. O império global nem precisou reivindicar o direito de resposta, sancionado na semana passada pela presidenta Dilma — e que tem forte objeção da famiglia Marinho. Vale conferir também:

"A vida profissional de jornalistas como William Waack, na Globo, são discutidas diretamente com o diretor de Jornalismo e Esportes, Ali Kamel. Ali atesta que tudo o que está na nota é falso, atenta contra a dignidade de William, que jamais fez tal exigência, e da Globo, que não a aceitaria, caso fosse feita. 'William Waack é profissional completo e correto. Ele não somente não fez exigências como também nunca mentiria em reunião com colegas. Poucas vezes na vida fiquei tão indignado com uma nota como fiquei com esta: pela falsidade, pela desinformação, por atentar contra a dignidade de profissionais e por acreditar em absurdos e publicá-los', afirma Ali".

Demissão de Sidney Rezende

Não dá para saber ao certo quem tem razão nesta história. O que é evidente é que o clima anda tenso na "Vênus Platinada". Na semana passada, ela anunciou a demissão do jornalista Sidney Rezende, que trabalhava desde 1997 na GloboNews. A emissora jura que o facão foi por motivos operacionais, no bojo de uma "reestruturação da empresa" — que perde audiência e tende a perder anunciantes. Mas, curiosamente, o jornalista demitido havia postado na mesma semana em seu perfil no Facebook uma dura crítica ao papel da imprensa no Brasil. "Reengenharia" ou censura? Só o futuro dirá, mas vale conferir o artigo lúcido de Sidney Rezende:

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Chega de notícias ruins

Em todos os lugares que compareço para realizar minhas palestras, eu sou questionado: "Por que vocês da imprensa só dão 'notícia ruim'?"

O questionamento por si só, tantas vezes repetido, e em lugares tão diferentes no território nacional, já deveria ser motivo de profunda reflexão por nossa categoria. Não serve a resposta padrão de que "é o que temos para hoje". Não é verdade. Há cinismo no jornalismo, também. Embora achemos que isto só exista na profissão dos outros.

Os médicos se acham deuses. Nós temos certeza!

Há uma má vontade dos colegas que se especializaram em política e economia. A obsessão em ver no Governo o demônio, a materialização do mal, ou o porto da incompetência, está sufocando a sociedade e engessando o setor produtivo.

O "ministro" Delfim Netto, um dos mais bem humorados frasistas do Brasil, disse há poucas semanas que todos estamos tão focados em sermos "líquidos" que acabaremos "morrendo afogados". Ele está certo.

Outro dia, Delfim estava com o braço na tipoia e eu perguntei: "o que houve?". Ele respondeu: "está cada vez mais difícil defender o governo".

Uma trupe de jornalistas parece tão certa de que o impedimento da presidente Dilma Rousseff é o único caminho possível para a redenção nacional que se esquece do nosso dever principal, que é noticiar o fato, perseguir a verdade, ser fiel ao ocorrido e refletir sobre o real e não sobre o que pode vir a ser o nosso desejo interior. Essa turma tem suas neuroses loucas e querem nos enlouquecer também.

O Governo acumula trapalhadas e elas precisam ser noticiadas na dimensão precisa. Da mesma forma que os acertos também devem ser publicados. E não são. Eles são escondidos. Para nós, jornalistas, não nos cabe juízo de valor do que seria o certo no cumprimento do dever.

Se pesquisarmos a quantidade de boçalidades escritas por jornalistas e "soluções" que quando adotadas deram errado daria para construir um monumento maior do que as pirâmides do Egito. Nós erramos. E não é pouco. Erramos muito.

Reconheço a importância dos comentaristas. Tudo bem que escrevam e digam o que pensam. Mas nem por isso devem cultivar a "má vontade" e o "ódio" como princípio do seu trabalho. Tem um grupo grande que, para ser aceito, simplesmente se inscreve na "igrejinha", ganha carteirinha da banda de música e passa a rezar na mesma cartilha. Todos iguaizinhos.

Certa vez, um homem público disse sobre a imprensa: "será que não tem uma noticiazinha de nada que seja boa? Será que ninguém neste país fez nada de bom hoje?". Se depender da imprensa brasileira, está muito difícil achar algo positivo. A má vontade reina na pátria.

É hora de mudar. O povo já percebeu que esta "nossa vibe" é só nossa e das forças que ganham dinheiro e querem mais poder no Brasil. Não temos compromisso com o governo anterior, com este e nem com o próximo. Temos responsabilidade diante da nação.

Nós devemos defender princípios permanentes e não transitórios.

Para não perder viagem: por que a gente não dá também notícias boas?

Altamiro Borges
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Sorrisos e gargalhadas

Para enfrentar a Globo, ao menos na TV fechada, surge o projeto que reúne RedeTV!, Record e SBT

A Globo assiste a uma tentativa de união entre Record, SBT e RedeTV!
O último Dia de Finados foi fúnebre para a Rede Globo. O Jornal Nacional e a novela das 9 foram batidos de uma só vez, e de ponta a ponta, nas três principais capitais, São Paulo, Rio e Belo Horizonte. A inédita surra foi aplicada por outra novela.

Graças aos ares de superprodução (custou mais de 100 milhões de reais), ao fastio do público com o telejornal global e ao avanço do conservadorismo igrejeiro no País, Os Dez Mandamentos virou campeã de audiência na telinha de Edir Macedo. Pode ser somente um incômodo passageiro para a Vênus Pla­tinada, como aconteceu durante a exibição de Pantanal em 1990. Mas a maré não anda promissora para os negócios da família Marinho.

A Globo assiste a uma tentativa de Record, SBT e RedeTV! enveredarem por um setor que, por via direta e indireta, é território dela. As três rivais uniram-se para montar uma nova empresa que venderá conjuntamente seu conteúdo às operadoras comercializadoras de pacotes de canais fechados, como Net e Sky.

Hoje o trio não recebe nada para estar nos pacotes, ao contrário da Globo. A empresa, por ora chamada Newco, também negociará a venda de espaço publicitário na tevê fechada em nome dos sócios. E, no futuro, poderá produzir programas ou um novo canal para oferecer às operadoras, ou ao Netflix.

Silvio Santo e Edir Macedo. Futuros parceiros?
Com a joint venture, Edir Macedo, da Record, Silvio Santos, do SBT, e Amilcare Dallevo Júnior, da RedeTV!, sonham em abocanhar nacos de um mercado em expansão que em 2014 faturou 30 bilhões de reais com assinantes e 2 bilhões de reais com propaganda.

Os empresários sentem-se prejudicados na disputa por receitas com suas atividades normais na televisão aberta. Acham que a Globo arrecada mais verba publicitária (uns 75% do total) do que a audiência global justifica (uns 55%). Daí a aposta em outra seara.

O plano detonou uma guerra do trio com as operadoras e suspeitas de mão invisível da Globo por trás das cortinas. O palco da batalha é o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o órgão federal antitruste.

A proposta de criação da Newco foi submetida ao Cade para exame de seus impactos concorrenciais. O projeto foi enviado ao órgão em julho, dias antes de Silvio Santos e Edir Macedo evidenciarem a parceria com um encontro no Templo de Salomão, do dono da Record, em São Paulo.

No início de outubro, o superintendente-geral-adjunto do Conselho, Diogo Thomson de Andrade, deu aval à joint venture, sob protestos das operadoras. Ele acatou o relatório da área técnica do Cade. Entre outras coisas, o texto diz que o fato de ser a Globo a única a cobrar para estar nos pacotes fechados “pode causar uma distorção no mercado de emissoras de tevê”.

A proposta de criação da Newco foi submetida ao Cade
As operadoras espernearam e convenceram o Cade a rever o assunto. Por enquanto, não há prazo para uma decisão final, agora a cargo da conselheira Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt. O governo logo se meterá no assunto, já que a conselheira pediu ao Ministério das Comunicações que se pronuncie. 

O processo causa agitação desde as primeiras horas. Alguns dias após o Conselho receber a proposta de constituição da Newco, a Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (Abta) e a Sky, segunda maior operadora do País, correram ao Cade.

Queriam participar do processo como parte interessada, uma condição que lhes permitiria apresentar informações e argumentos ao Conselho, obviamente contrários à joint venture. A Sky chegou a pedir a suspensão total da análise da proposta, até certas premissas serem esclarecidas. O Cade aceitou incluir a Abta e a Sky no processo e examinar o tema por mais tempo. Mas sem brecar o processo.

As operadoras alegam de modo geral que terão perdas caso vingue a sociedade entre Record, SBT e RedeTV!. Se essas cobrarem algum pagamento para liberar a inserção de seus canais nos pacotes fechados, haveria aumento de custo que teria de ser repassado aos assinantes. Será que o preço da tevê por assinatura é alto porque as operadoras já pagam à Globo? Há quem diga que a família Marinho recebe das operadoras uns 30 reais por assinante.

Gráficos

A Abta aponta ainda efeitos no mercado publicitário decorrentes da Newco que deveriam ser levados em conta pelo Cade. Para a entidade, a união das três emissoras abertas lhes daria força para barganhar uma fatia das verbas de publicidade e para valorizar o trio perante os anunciantes.

A troca de farpas dá o tom na papelada enviada ao Cade pelos envolvidos. A defesa da Abta acusa a Newco de tentar “induzir a Superintendência-Geral a erro” com certas informações. Para os advogados da Newco, seriam as operadoras a “querer ocultar da SG” que a joint venture fará algo já em vigor na tevê paga.

Mais: eles apontaram um “movimento coletivo orquestrado” das operadoras para prejudicar a Record, o SBT e a RedeTV!. Quem seria o regente da orquestra? “Vale mencionar que a Globo, principal concorrente das requerentes (sócias da Newco), exerce influência inquestionável sobre essas empresas (operadoras)”, alegam os advogados. 

Não é somente por esse tipo de menção que a Globo é protagonista no processo. A emissora é parte para lá de interessada, mesmo sem ter entrado diretamente no caso. No Brasil, a venda de pacotes de tevê fechada é dominada por um duopólio. Dos 20 milhões de assinantes, 53% pertencem à Net e 30%, à Sky.

A família Marinho tem um pé nas duas canoas. Possui 7% da Sky e, por meio de uma empresa controlada, a EGP, 2,8% da Net. São participações pequenas, mas um acordo de acionistas garante poderes especiais à emissora. Na Sky, ela precisa ser consultada sobre nomear ou destituir o presidente. Na Net, tem poder de veto em alguns investimentos e contratos.

Jornal-Nacional
Entre estas duas obras, o público prefere a novela
A Vênus Platinada também reina no fornecimento de conteúdo às operadoras de tevê fechada, como se pode ver na documentação no Cade. Com a Globosat Comercialização, batizada oficialmente de G2C, a emissora oferece 39 canais para inclusão nos pacotes, o maior leque de opções da América Latina.

E é líder de audiência, com 46%, graças aos canais negociados pela Globosat. Juntos, Record, SBT e RedeTV! mordem 17% da audiência entre os clientes de tevê por assinatura. 

Hoje, as emissoras de sinal aberto estão obrigatoriamente nos pacotes de canais negociados pelas operadoras de tevê fechada. Não pode haver cobrança de um adicional dos clientes por isso, nem as emissoras abertas precisam pagar pela inserção. São determinações da Lei da TV Paga, a 12.485, de 2011.

Os dispositivos nasceram da pressão dos canais abertos, temerosos de que a nova lei levasse a uma explosão de clientes de tevê fechada e à queda da audiência das emissoras tradicionais. Desde 2010, dobrou a quantidade de assinantes no País, embora o ritmo de crescimento seja declinante.

Para botar a Newco em pé, os advogados de Record, SBT e RedeTV! alegam que a obrigatoriedade de veiculação do conteúdo delas nos pacotes fechados logo acabará, situação que abriria caminho à livre negociação. Será, afirmam, uma decorrência da digitalização do sinal das emissoras de tevê aberta. A obrigatoriedade atual está atrelada ao sinal analógico, fadado a desaparecer em breve. 

Pelo calendário definido pelas autoridades em Brasília, a digitalização começa em abril de 2016 e termina no fim de 2018, com um teste piloto previsto para este mês, na cidade de Rio Verde, em Goiás. O cronograma ainda pode mudar.

Pressões das emissoras de sinal aberto não faltam. Elas não sabem quantos brasileiros estão aptos a captar sinal digital com tevês ou decodificadores e quantos ainda dependem das velhas e boas antenas analógicas. Um pesadelo para quem ganha dinheiro conforme o tamanho da plateia.

O fim da obrigatoriedade de inserção dos canais abertos nos pacotes fechados tende a dar mais poder negociador às operadoras de tevê por assinatura, conforme um parecer da LCA Consultores encomendado pelos sócios da Newco. Como existe o duopólio Net-Sky na venda de pacotes, juntos, Record, SBT e RedeTV! serão capazes de “atenuar o desequilíbrio na negociação”, diz o estudo.

E também que a criação da Newco tende a gerar ganhos de verba publicitária às três emissoras. O valor do anúncio na tevê fechada é mais caro, pois os assinantes costumam ter renda maior superior à média brasileira. Segundo o parecer, é o que talvez explique por que a Globo absorve mais de 70% do bolo publicitário, mesmo tendo audiência inferior.

A possibilidade de união das três emissoras para enfrentar a Globo na luta por dinheiro de publicidade na tevê aberta tem sido um dos maiores fantasmas na disputa no Cade. Em um parecer encomendado pela Abta, o ex-conselheiro do Cade Cleveland Prates aponta “fortes indícios” de que a joint venture aconteça, de sorte a sugerir a análise cuidadosa da hipótese por parte do Cade.

Na opinião de Prates, a Newco não será uma “joint venture clássica”, mas uma empresa destinada a aumentar o poder de barganha dos sócios. Em outras palavras, um ensaio de cartel. Na presença de tantos fantasmas, Record, SBT e RedeTV! toparam rever suas motivações para deixar claro: só atuarão juntas na publicidade em tevê fechada.

André Barrocal
No CartaCapital
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